quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O sorriso

Era um sorriso sadio e permanente pelos corredores da embaixada portuguesa em Paris, quando por lá cheguei. Bastante jovem, tinha uma imensa disponibilidade, era polivalente nas suas funções, muito competente e dedicada. Um dia, foi-lhe diagonosticado um tumor maligno. Chamei-a a dar-lhe coragem, coisa difícil para mim, sempre canhestro e cobarde a lidar com estas coisas. Embora triste, estava serena, manteve o sorriso. Ela tinha a esperança. Logo que pôde, voltou ao trabalho. Sempre a sorrir. Um dia, tivemos de informá-la que o contrato precário que tinha connosco não podia ser prorrogado. O sorriso esmoreceu, mas não se perdeu. Com o tempo, surgiram novas vagas na embaixada, um novo concurso. Entre muitos candidatos, concorreu e, com total mérito, foi readmitida. O sorriso regressou. Por pouco tempo. A doença retomou o caminho. Ontem, acabo de saber, o sorriso desapareceu, para sempre. Adeus, Liliana.

3 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Les grandes pensées viennent du cœur. Et vous avez un grand, Monsieur l'Ambassadeur.

Hermano Sanches Ruivo disse...

Um sorriso que sabia acender outros. Esses que agora ficam mais tremidos. Menos brilhantes. Salvo se, como penso, aceitarmos que o que a Liliana deu muitas vezes, fica agora sempre a mexer, a luzir dentro destes que ficaram.

Anónimo disse...

O Freitas no seu pior. Mesmo se curto...