sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O governador civil (2)

Esta é uma história que faz parte da mitologia de Vila Real e, ainda há semanas, a ela se referiu no Facebook o meu amigo Carlos Leite, um vilarealense "exilado" no refastelo do sol da Grécia.

Nos anos 50 do século passado, o Governo civil de Vila Real era chefiado pelo coronel Augusto Sequeira, um grande homem de bem a que me ligaram laços de amizade e grande simpatia, e a cuja comemoração do centenário de vida tive mesmo o privilégio de assistir. Era um "craveirista", um próximo de Craveiro Lopes, o presidente pouco cómodo de quem Salazar acabaria por se desfazer em 1958, optando por essa figura de antologia anedótica que se chamou Américo Tomaz.

Augusto Sequeira recebia nesse dia, em Vila Real, o então ministro do Interior, Trigo de Negreiros, um homem originário de Mirandela que também viria a cair politicamente em 1958. Passeavam-se os dois pelas ruas da cidade, numa tarde seca de inverno, aproximando-se a certa altura da Pastelaria Gomes, então (e ainda um pouco agora) o eixo social do burgo. À chegada à esquina no edifício, preparando-se para entrar no café, o valpacense Sequeira comentou alto, para Trigo de Negreiros, com a cumplicidade regional que os unia:

- Está um frio tipicamente transmontano!

Antes que Negreiros pudesse retorquir, a um gandulo de samarra que se encostava à esquina, fumando uma perisca, e quase sem os olhar, saiu esta frase que ficou nos anais locais:

- Transmontano o c...o ! Está mas é um frio f...o !

A doutrina divide-se sobre a sequência do episódio. As versões mais reviralhistas dão conta do rapaz ter sido encaminhado por um cívico para a esquadra da PSP, ali perto, por baixo do Governo civil. Leituras benévolas dão incidente por findo com uma repreensão risonha feita ao atrevido pelas figuras políticas. 

Uma coisa não mudou: passei há pouco pela esquina da Gomes e, embora não ousando a mesma ênfase lexical, sou levado a concluir que o famoso anónimo dos anos 50 do século passado continua a ter a sua razão...

3 comentários:

Anónimo disse...

O Tomaz, figura de antologia anedótica???
Oh quanto ele está a ser superado por quem ocupa o seu lugar na actualidade!...

Rui Bessa disse...

Sou Flaviense e tive que fazer o 6º e 7 anos do Liceu em Vila Real, no tempo do António Barreto e do irmão Nuno. Ao ler estes seus comentários sorri-me e lembrei-me na realidade do frio do c ... que por Trás-os-Montes se passa ... a típica e calista linguagem fazem-me sorrir quando vou a Chaves e percorro, com saudade, as tipicas ruas !
Cumprimentos e grato pelos seus belos e eruditos textos.

Rui Bessa disse...

Sou Flaviense e tive que fazer o 6º e 7 anos do Liceu em Vila Real, no tempo do António Barreto e do irmão Nuno. Ao ler estes seus comentários sorri-me e lembrei-me na realidade do frio do c ... que por Trás-os-Montes se passa ... a típica e calista linguagem fazem-me sorrir quando vou a Chaves e percorro, com saudade, as tipicas ruas !
Cumprimentos e grato pelos seus belos e eruditos textos.