quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Das embaixadas

No seu IV volume de memórias, "Acta est fabula", há dias publicado, Eugénio Lisboa, que foi conselheiro cultural em Londres entre 1978 e 1995, e com quem coincidi naquela embaixada de 1990 a 1994, traça um singular retrato de uma certa estirpe. Respigo o extrato aqui, com a devida vénia:

"À volta das Embaixadas, gravita toda uma fauna peculiar, que vive dependente de ser vista nas recepções das Embaixadas, cujo estatuto social precisa da bênção e da aura das Embaixadas e para quem é vital "ser muito das Embaixadas" e saber o que lá se passa e "quem vai ser o novo embaixador". Intrigam, telefonam, pressionam, namoram, iriam para a cama, sendo necessário, para assegurarem que receberão o "convite". Recebido este, nada lhes dá mais prazer do que alardeá-lo por todo o lado, sobretudo junto daqueles que, quase de certeza, o não receberam. Não há nada como marcar a diferença: ir ou não ir à Embaixada, eis a questão. Depois, no dia miraculado da recepção, saltitam de pessoa em pessoa, repletos, garantindo o máximo de visibilidade às suas egrégias e assaz convidadas pessoas. Quando, por uma razão qualquer ou por nenhuma razão em particular, houve uma recepção para que não foram convidados ou convidadas, ficam num desespero de ave ferida na asa, não largam o telefone, a quererem saber porquê, numa voz um bocadinho histérica, de amante abandonada. Sim, porque, no passado, tinham estado sempre "na lista". Terão sido "riscados" ou "riscadas" da "lista"? Quem foi o intriguista responsável pela erradicação? Sim, porque houve de certeza alguém mal intencionado, invejoso, que esteve por detrás daquela "intriga"! Para estas pessoas, a "Embaixada" é um lugar mágico, "a charmed place". É um mundo de mil e uma noites, de maravilhas insuspeitadas... Quando um embaixador deixa o posto, entram logo numa grande ansiedade: "Quem será o novo?" Babam-se, literalmente, de uma expectativa quase lasciva. Quando lhes dizia que ainda se não sabia, olhavam para mim, com ar de dúvida: "Sabe, mas não pode dizer..." E este "segredo", não desvelado, tornava-se, para elas, um grande motivo de emoção, de quase acarinhada ternura... Quando, por fim, era conhecido o nome do novo ocupante do posto, derramavam-se, sôfregos, compreensivelmente impacientes: "Quando chega? Como é ele? De onde vem?" Desfaleciam, literalmente, de curiosidade mal saciada. Antecipavam, mentalmente, a "recepção" em que seriam, finalmente, apresentados a Sua Excelência! A alguns, mais atrevidos, parecia-lhes que talvez fosse a ocasião de sugerir ao "novo" a oportunidade, a conveniência, a justiça de uma apetecida condecoraçãozinha..."

Não ouso dizer-lhes se, na minha opinião, as coisas são mesmo assim. Tendo servido em quatro das maiores embaixadas portuguesas - Luanda, Londres, Brasília e Paris -, onde essas situações podem ser mais frequentes, sou forçado a repetir a expressão clássica de Urquhart, na versão inglesa (não conheço a americana) da série "House of Cards": "You might think that. I couldn't possibly comment"...

7 comentários:

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
Ainda não sei se vou escrever (e se terei tempo) as minhas memórias durante o período que servi 8 embaixadores, um que conheci e não servi, pois tenho imensas memórias, algumas hilariantes e outras tristes.
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Aparte dos embaixadores há os números dois aos quais (os que não eram imbecis e mediocres) eu era o pára-raios de suas queixas ao chefe de missão.
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Ora eu tive embaixadores prepotentes, outros que dava gosto em servi-los. Uma missão diplomática portuguesa (muita gente não sabe) é um espaço de conspiradores de polidores em que certos embaixadores, em missão de serviço, contribuem para que isso exista e cria um monte de problemas internos.
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O pessoal, permanente, lamenta a saída de um bom embaixador e satisfeito quando o despota parte.
Ora dentro de uma missão, o pessoal permanente sabe, com antecedência, qual é o novo chefe de missão e ou há alegria ou mágua quando se conhece o novo embaixador que vai chegar.
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Eu (pecador me confesso) fui para com dois embaixador um conspirador.... Isto aconteceu eu ter lido a carta que um embaixador, que eu servi por 7 anos, deixou para o seu sucessor e no conteúdo designava cobras e lagartos a meu respeito a qual copiei e tenho nos meus arquivos pessoais.Fico por aqui.
Seu admirador

patricio branco disse...

texto de mau gosto e que esquece os 17 anos que passou em londres como diplomata, como se ele andasse separado do resto durante esse tempo.
é ridiculo o que diz, porque o diz agora e como o diz. o suficiente para eu não comprar essas memórias, divididas arbitrariamente em 4 vols e com acrescentos de outros textos para aumentar o nro de pgs.
tambem há por aí outras coisas, ceder à tentação fácil da demagogia anti-diplomata, ele que passou 17 anos na capital do ru, coisa que nenhum diplomata de carreira nunca terá pois existem regras para estes.
como quem diz: eu eugenio lisboa fui diplomata mas sou diferente, nunca aderi à casta.
ora os diplomatas não são como ele os caricatura e se há gente que quer ir a recepções de embaixadas (e não são os diplomatas que querem ir, vão por dever profissional) pois existe gente igual que se pela por convites para uma estreia dum filme, pela abertura duma exposição de arte com comes e bebes, por uma recepção ou almoço oferecida por um banco ou ministro, etc
já tinha folheado esse iv volume na livraria, assim como os 1ro e 3ro, um homem com o percurso dele pode escrever umas memórias interessantes, mas achei desde logo que havia neles algo de que não gostava ou aderia - a desigualdade dos volumes, a parte de memórias propriamente junto a textos colados para fazer páginas. não comprei, não compro, não comprarei, e óptimo que fsc nos tenha dado esse texto respigado, texto demagógico, incorrecto, com o pouco valor que têm caricaturas movidas por posições e sentimentos pessoais.
1978-1995, é isso, 17 anos como diplomata num dos mais cobiçados postos do mundo, e para ridicularizar o ambiente diplomático...

Anónimo disse...

Não tenho a experiência destas coisas do lado de dentro; poderia ter a experiência do lado de fora (cinquenta anos ininterruptos em Paris) mas também não. Mesmo assim, contando pelos dedos da mão esquerda, fui a duas ou três receções e fiquei com a impressão descrita por Eugénio Lisboa e não me admira que assim seja.
Mas sendo assim, quelas receções, para um Embaixador, devem ser uma rotina com muito pouco interesse.
Uma espécie de "vira o disco e toca o mesmo".
José Barros

Jose Martins disse...

Recepções
Sobre as recepções o falecido embaixador Melo Gouveia, quando ia para uma recepção, algumas vezes me dizia: “lá vou eu dar o figado ao manifesto...”
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Um número dois, meu amigo, dizia, confrangido: “já não posso ver esta gente! Então por obrigação lá seguia, entrava, comprimentava, bebia um copo e raspava-se.”
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Embaixador Melo Gouveia, os dois primeiros anos em Banguecoque levou a cabo inúmeros eventos culturais/comerciais na chancelaria da embaixada. Uma das armas para cativar pessoas era o oferecer vinho, Grão Vasco tinto e branco, oferecido pela Sogrape e petiscos portugueses.
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Isto foi a partir dos anos de 1984. Na chancelaria, sentadas e em pé, normalmente umas 140 pessoas, só que algums estavam-se nas tintas para os conferencistas e entravam no Grão Vasco que acabavam, por adormecer, fora da vista dos convidados e de trás de uns paineis arrumados, para dar espaço às cadeiras.
José Martins

Joaquim de Freitas disse...

Linguagem pouco diplomática, a dos comentários precedentes. Mas sempre pensei que, visto a origem heterogénea dos embaixadores, o nível deve ser também ...heterogéneo.

Frequentei varias embaixadas no mundo, mas não passava do conselheiro comercial, que me ajudava frequentemente, na minha função comercial itinerante, e fui testemunha por vezes do temor suscitado por alguns embaixadores sobre o pessoal. Confidências recolhidas junto de alguns conselheiros, alguns são verdadeiros ditadores. Parece que o poder dum Embaixador é exorbitante , uma espécie de poder de vida e de morte . Não deve ser agradável ser condenado a regressar ao pais, em caso de desagrado ao Embaixador.

Mas penso que para o Embaixador, o problema é o mesmo, porque depende directamente do Presidente da Republica, que ele representa. Uma viagem mal organizada pode custar-lhe caro, também, creio eu.

O que parece ser um combate permanente é o facto que alguns saiem da ENA e dos concursos e outros são simplesmente nomeados pelo Presidente , porque é preciso por vezes "encaixar" algures os vencidos de eleições, ministros caídos na tormenta duma mudança de governo, , bons amigos, etc.

Ouvi por vezes falar da "guerra" entre os do quadro, ou da "carreira" , puro sumo", e estes "pára-quedistas" que nem sempre têm o nível necessário.

Curioso como sou, interessei-me a comparar os salários indiciais, fora das despesas de residência, dos embaixadores e notei que em fim de carreira chegam aos 10 000 euros. Finalmente não é nada mal! O alojamento é frequentemente luxuoso, os salões dourados, etc.

Ainda não compreendi, porque é que, num tempo de vacas magras, ainda existem Embaixadores nos 28 países da UE. Pois que a UE tem um MNE, e que MNE !

Anónimo disse...

Caro de Freitas

Os Embaixadores são, na sua esmagadora maioria, diplomatas de carreira.
Não há lugares para encaixes de ex-ministros e outros.

Na carreira diplomática portuguesa foram excepcionalmente nomeados alguns políticos, Manuel Maria Carrilho e Ferro Rodrigues, para a OCDE foram os últimos.
Essa não é, e bem, uma tradição do MNE.

Quando à existência de embaixadores nas capitais da UE, não se deve esquecer que as decisões quanto às posições dos países são tomadas nas capitais e não em Bruxelas, por isso é conveniente ter lá um embaixador, para tentar saber a posição do respectivo Governo e tentar influenciar a sua posição de acordo com os interesses de Portugal.

Defreitas disse...

Muito obrigado, mas fico com as minhas duvidas quanto aos centros ou capitais onde se tomam as decisões ao nível europeu.
Creio antes que nada se faz sem o sinal vindo de Berlim.