segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Condecorações

A propósito da condecoração hoje atribuída pelo presidente da República a Durão Barroso, veio à baila o facto de Cavaco Silva não ter ainda condecorado José Sócrates, num gesto idêntico àquele que foi tido para com todos os chefes de governo, durante o regime democrático.

A observância dos ritos da liturgia civil é essencial às instituições, à sua preservação e à sua marca na História. As condecorações são uma forma de reconhecimento público a pessoas ou entidades que exerceram certas funções ou se distinguiram em determinada atividade, tida como relevante para a sociedade. Raramente a atribuição de uma condecoração é um gesto neutro, automático, oficioso. Normalmente, há nele uma certa dose de subjetividade, o que, não raramente, o torna pasto de polémica. Mas, por vezes, o arbítrio do gesto é atenuado pelo facto dele se colar a práticas que, de certo modo, se tornaram consuetudinárias.

Condecorar um cidadão português que, durante uma década, exerceu um dos mais altos cargos internacionais parece-me um ato da mais flagrante obviedade. Não está em causa um juízo de valor sobre o trabalho executado por Durão Barroso à frente da Comissão europeia. Esse é outro julgamento - e, no meu caso, já aqui o deixei expresso Trata-se de o país de onde é originário o titular de um cargo dessa importância querer sublinhar, com uma comenda pública, que não é indiferente a essa circunstância. Seria estranho para a Europa, que escolheu uma determinada pessoa para chefiar a sua mais importante instituição, ver o país da nacionalidade desse cidadão alhear-se do facto.

Posso presumir o que diriam os agora críticos da decisão de Cavaco Silva se acaso, no momento oportuno, António Guterres, ao sair de Alto Comissário das NU para os Refugiados, não viesse a merecer uma distinção pelo Estado Português. Ou se Vitor Constâncio, quando abandonar as elevadas funções de vice-presidente do Banco Central Europeu, não tiver um gesto de reconhecimento das autoridades do seu país. Infelizmente, Portugal não dispõe de muitos nomes que hajam merecido uma consagração internacional. Um país tem de ter sempre a grandeza de se afastar das avaliações conjunturais neste tipo de questões. E aos seus dirigentes é exigível sentido de Estado na sua ponderação.

Resta o tema José Sócrates. É um caso claramente diferente do de Durão Barroso. A prática consagrou que a todos os primeiros-ministros da era democrática é concedida a mais alta condecoração que pode ser entregue a alguém por serviços prestados ao país - a grã-cruz da Ordem de Cristo. Não estabelece quando é que esse gesto, que a lei não impõe mas que a tradição consagrou, deve ser assumido. 

Curiosamente, Eanes foi quem condecorou Pinto Balsemão, mesmo depois de anos de tensa convivência. Mas devo dizer que percebi quando Jorge Sampaio, no seu tempo de presidente, decidiu não ser ele a distinguir Santana Lopes, com quem tinha tido um conflito político muito sério. Acabou por ser Cavaco Silva a fazê-lo. Agora, Cavaco Silva não parece inclinado a assumir o gesto de condecorar José Sócrates, com quem a conflitualidade foi ainda mais grave. Posso admitir que o não faça, até porque presumo que seria algo contrangedor para o próprio José Sócrates receber a comenda das mãos de Cavaco Silva. O sucessor deste o fará. A mim, a quem foi atribuída, há mais de uma década, precisamente essa mesma condecoração, não me é confortável a ideia de que um antigo primeiro-ministro do meu país a não possua.

13 comentários:

Eduardo Saraiva disse...

Se o Presidente da República ainda o não fez, provavelmente, pelas mesmas razões que o ex-Presidente da República, Jorge Sampaio, não distinguiu Santana Lopes

Anónimo disse...

José Sócrates perdia o meu respeito se por hipótese, comparece-se a receber tal condecoração das mãos de Cavaco Silva. Tal como diz Santos Silva: era uma nódoa gravada em Sócrates.De Cavaco, nunca.

Anónimo disse...

"A Ordem Militar de Cristo foi instituída pelo Rei D. Dinis em 1318 e confirmada pela Bula Ad ea ex quibus dada pelo Papa João XXII em Avignon, em Março de 1319. A Bula foi emitida a pedido do Rei D. Dinis para que a Ordem criada sucedesse à Ordem do Templo, extinta em 1311 pelo Papa Clemente V.

Os bens dos Templários ficaram assim atribuídos à nova Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, que teve a sua primeira sede na Igreja de Santa Maria do Castelo, em Castro Marim. Em 1356, a sede transferiu-se para o Castelo de Tomar, antiga sede da Ordem do Templo em Portugal."

Não esquecer !!!!!!

Joaquim de Freitas disse...

A linguagem diplomática tem isso de extraordinário : Tornar "finalmente aceitável" que um político que abandonou o seu posto num momento importante para o futuro dos seus compatriotas, possa ser condecorado, apesar de tudo, porque a tradição assim o exige.

Mas condecorado pela sua acção na presidência da "omissão" Europeia, mandato completamente desperdiçado durante o qual a Europa não só não progrediu como retrocedeu no espírito duma maioria de europeus. No momento da partida, a Europa nunca esteve tão mal ..

Sobretudo, para mim, que um Português tivesse servido de doméstico ao serviço de Aznar, Blair e Bush para lançar a invasão do Iraque, e de participar assim na credibilização dum crime contra a Humanidade, resta a nódoa indelével do antigo maoista , aderindo totalmente às politicas dos neo-conservadores americanos dos quais ele apoia todas as derivas sobre a cena internacional. Sem esquecer a disponibilidade dos aeroportos europeus para fazer transitar 700 prisioneiros para Guantanamo.

Quando penso que o seu primeiro partido era o que se propunha "Reorganizar o Proletariado" , um camaleão que se confunde com a cor do tapete, que vai aplicar uma política em Bruxelas correspondendo exactamente às visões do grupo de elite económica Bilderberg,

Que ousou criticar a vontade da França de excluir o sector audiovisual do mandato de negociações comerciais com os EUA, como se a cultura dum pais se pudesse misturar com os "hot dogs" .

E que ainda por cima, tratou de "reaccionários" aqueles que se opunham à "mundialização" da cultura .

Prestigiante, Senhor Embaixador?

Anónimo disse...

Um texto de grande dignidade em especial por se saber que o Senhor Embaixador não morre de amores pelo mono da Praça Afonso de Albuquerque e pelo condecorado de hoje que o prejudicou pessoalmente. Uma bofetada com uma imensa luva branca por um Grande Senhor

CSC

São disse...

Durão e Cavaco são criaturas a quem só consigo votar um enorme desprezo.

Espero , verdadeiramente, que Sócrates se recuse a receber seja o que for das mãos do reformado de Boliqueime.

Os meus respeitos.

opjj disse...

Sejamos objectivos, faz algum sentido Cavaco Silva condecorar Sócrates depois deste o atacar sempre que vai ás Tvs. Depois de lhe chamar INAPTO, como pode um INAPTO condecorá-lo?
Não esqueçamos que há pessoas e não uma pessoa conforme o juízo parcial de quem assim pensa.
Cumps

Anónimo disse...

Ora bem,
Já que falamos de medalhas, agora é que me estou a lembrar. O governo que distribuia muitas medalhas era o Russo. Aquilo é que era lindo! Havia alguns oficiais carregadinhos de medalhas. Aquilo é que devia pesar!
A propósito: eu só tenho uma (não da Rússia) mas não a utilizo e posso emprestá-la. Dar, não, mas emprestar, posso emprestar.
José Barros.

Anónimo disse...

Tudo muito bem.
Mas o fator Cavaco pode deitar tudo por terra.
Quem ouviu ontem Cavaco, secundado por Barroso deve ter pensado no que fez de mal para ter que viver com tais criaturas à frente dos seus destinos.
David Caldeira

Anónimo disse...

Obviamente que Portugal deve recompensar que o serve e quem o prestigia, tanto a nível interno como a nível internacional, seguindo os bons exemplos de outros países europeus.

A condecoração de ontem a Durão Barroso deve ler-se nessa lógica.

Quando o Eng. Guterres deixar o seu cargo actual,através do qual muito prestigiou Portugal, certamente que deverá ser devidamente condecorado.

Joaquim de Freitas disse...

Ao anonimo das 14:52:


O problema está no "quem o serve e quem o prestigia" !

Armindo Ferreira disse...

Senhor Embaixador, faço minhas as palavras do Senhor Joaquim de Freitas em relação à condecoração de Durão Barroso. E agora só uma questão: não se enganou quando abordou uma possível condecoração de Vitor Constâncio? Pela eficiência demonstrada à frente do Banco de Portugal?

Anónimo disse...

Parece-me ser tempo de alguem explicar à maioria das pessoas desta comunidade portucalense, quais as responsabilidades do Banco de Portugal.
Vítor Constâncio, Carlos Costa. BPN, BES...
Guardar o ouro?.

Guilherme.