quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Alemanha


Ontem, durante a manhã, intervim num debate na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, organizado pelo respetivo Instituto Europeu. Um parêntesis para fazer notar o notável trabalho que, desde há vários anos, Eduardo Paz Ferreira tem vindo a desenvolver com sua equipa do Instituto. Muito lhe devemos por ter aí criado um espaço ímpar de reflexão sobre a Europa e os nossos desafios - e desencantos - no seu seio.

O tema ontem foi a Alemanha e a Europa que a Alemanha pretende. Tentei "perceber" Berlim, interroguei-me sobre se há uma bem definida estratégia alemã para a Europa ou se a Alemanha vive ainda numa relativa "navegação à vista", fruto da falta de estabilidade do próprio processo europeu, sob pressão da crise. Fui pela última hipótese. Referi que o conceito das "duas Alemanhas" já não é apenas o das que antecederam a queda do muro: para o projeto europeu, houve uma Alemanha ao tempo em que havia muro (solidária, pró-federal) e há hoje uma outra Alemanha no cenário pós-unificação (seria a unificação alemã o verdadeiro objetivo por detrás do "europeísmo" alemão?), em especial pós-alargamento, marcada por algum dirigismo paternal/autoritário e pela indisponibilidade de "pagar" a Europa. Discorri sobre o alargamento e sua génese, bem como o seu efeito sobre o equilíbrio interno europeu. Discuti a atual unipolaridade do poder europeu - o diretório hoje é apenas a Alemanha - e o sentimento de desconfiança/hostilidade que Berlim suscita (embora cada europeu tenha "a sua Alemanha", em função da experiência histórica diferenciada de cada um), por virtude da sua cada vez mais obstinada "rightousness" face aos "pecadores" da periferia. Perguntei-me até onde a Alemanha poderá querer forçar a introdução de um modelo institucional europeu de direção centralizada e em que medida isso não poderia criar a ideia de que as ordens constitucionais ficarão hierarquizadas (o que diz o tribunal de Karlsruhe é já hoje mais respeitado do que o que estatui o nosso tribunal constitucional - até pelo nosso governo). E, naturalmente, questionei se esse caminho não levará a uma perda de legitimidade dos poderes nacionais cuja representação no poder central europeu se sente progressivamente debilitada. Fui de opinião de que a "grande coligação" no poder em Berlim acaba por ter um efeito nefasto na diversidade do debate político interno na Alemanha, sendo a classe política alemã claramente culpada de uma falta de pedagogia sobre a opinião pública doméstica, que pudesse sublinhar as vantagens (únicas na Europa) que o país retira do projeto europeu. Falei dos efeitos da "décrochage" de poder formal com a França e dos malefícios, cada vez mais evidentes, do Tratado de Lisboa. Idem sobre a escassez de visão estratégica da Alemanha na questão ucraniana, onde, a meu ver, se deixou levar pela agenda primária anti-russa da Europa na vizinhança direta de Moscovo, promotora da posição irresponsável que a União Europeia tomou face ao poder em Kiev, que acabou por facilitar a deriva autoritária de Putin. Comecei e terminei com uma mensagem de fé nas virtualidades da democracia alemã, de que estou plenamente convicto.

O video da minha intervenção pode ser visto aqui.

5 comentários:

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Não me parece que a Alemanha viva “numa relativa navegação à vista”. Os Alemães têm sempre uma estratégia. E é sempre a mesma… Há, sim, uma mudança radical nessa estratégia de sempre: os meios passaram a ser pacíficos. E nós, restante Europa, “lá vamos cantando e rindo”…

Não sei, por isso, se a Alemanha está verdadeiramente interessada no crescimento das economias no resto da Europa. Também não está no seu empobrecimento, é certo. A economia Alemã dependente, até certo ponto, do crescimento da economia europeia. E é só até esse ponto (virtuoso) que a Alemanha “fará” crescer a restante Europa – eles são "o motor da economia" e detêm os comandos...

Estou a ser muito pessimista. Estou?

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Embaixador : Porque se recusa a ver que há duas Alemanha (s), a Alemanha progressista herdeira de Kant, Heine, Marx, Brecht... e a Alemanha imperialista que até já não esconde a sua vontade política de atingir por outros meios - para o momento, os da dominação económica, da chantagem financeira e do euro institucional - os sinistros objectivos continentais de dominação que foram os dos três primeiros "Reichs"?

Quem não vê que a zona euro-mark é antes de mais uma zona proteccionista germano - yankee. Esta zona monetária permite aos EUA de continuar a colocar o seu dólar - moeda mundial de referência ( essencialmente garantida pela potência da US Army) jogando com um dólar fraco para dinamizar as suas exportações, e, paralelamente, o euro-mark forte que permite impor aos países europeus do sul - proibidos de "desvalorização competitiva" pois que tendo abandonado a sua arma nacional - as exportações industriais alemãs facturadas em euro forte, esse clone encoberto do mark RFA que, à chegada , enfarta a Europa do sul dos produtos alemães e americanos, ao mesmo tempo que proíbe aos "PIGS" de exportar mais largamente para a Alemanha e os EUA.

Na realidade, a Europa do sul está condenada à terço mundialização e à sob industrialização à perpetuidade : Portugal, a Grécia, a Espanha, a Itália, a Costa Brava deverão contentar-se de vender turismo e imobiliário barato, mesmo a ceder algumas ilhas mediterrâneas ao Minotauro de Berlim.

Quem não vê que, com a NATO (e os USA em pano de fundo), assistimos à reconstituição do Santo Império Germano Romano, graças a uma reconfiguração a marchas forçadas dos territórios exteriores. Quem não se recorda da maneira como os governos "en place" na Grécia, PS, em Portugal PS, e outro Berlusconi foram grosseiramente "despedidos" pela "Troika". Os governos actuais serão eles hoje realmente grego, português e italiano? As manobras que vimos foram exclusivamente para salvar o euro!

Quanto aos países de Leste, depois do hold-up de A. Merckel sobre a Eslovénia e a consequente derrocada da Jugoslávia, a euro balcanização sob influência imperial dos Estados historicamente constituídos da Europa recebe actualmente uma aceleração sem precedente.

Nunca vimos um secretário de Estado americano (John Kerry) fazer tantas visitas na Europa de Leste como actualmente. Em perfeita sintonia com a Alemanha.

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Ó homem (Joaquim Freitas)! Pare! Essas teorias já não colhem, desculpar-me-á, mas cheiram já um pouco a bolor. Não quero acreditar que o meu comentário lhe deu o mote.
A minha tese de que a Alemanha tem uma estratégia de hegemonia para a Europa (sempre teve) assenta na constatação de dois princípios: a) toda e qualquer potência económica tem, naturalmente, uma ambição de hegemonia sobre os seus vizinhos (o mesmo, por exemplo, se passa com Angola em África); b) O poder tem horror ao vazio.
E o vazio de poder deixado pelo declínio económico e político da França pós Miterrand foi ocupado pela Alemanha. Alguém tinha de ocupar e… só podia ser a economia mais forte e robusta (o Reino Unido só tem um pé na Europa e… quer retirá-lo). É da natureza das coisas.
Esta hegemonia não tem de ser necessariamente totalitária. Sê-lo-á, quero crer, fundada na democracia e exercido através das instituições da União Europeia.

Joaquim de Freitas disse...

Caro Senhor Manuel do Edmundo : Não costumo seguir o mote de ninguém para comentar, tanto mais que não o tinha lido. Tenho a minha opinião.

A Alemanha sempre visou dominar a Europa. Sabemos bem disso. Minha Esposa, francesa, que vivia na Lorraine, a dez km da fronteira alemã, expulsa com a família em 1940 porque tinha um nome "francês", sem nunca ter recuperado a sua casa, costuma dizer : Os alemães são de novo "10 milhões demais".

Por isso mesmo muitos franceses preferiam as duas Alemanha(s)! Isto diz tudo. Cada vez que os alemães se sentiram mais fortes que os franceses, a guerra estalou. Disso sabiam bem Adenauer e De Gaulle que procuraram "fixar" os dois povos num projecto que deveria assegurar a paz na Europa para o futuro

O poder industrial e financeiro alemão é a chave que permite compreender as manobras internacionais complexas que acompanham a renascença da politica estrangeira da Alemanha.

A Alemanha é o único país a sair da crise com uma economia sã, pouco desemprego, estabilidade social e uma balança comercial positiva. A estabilidade da moeda europeia é essencial à continuação desta situação económica favorável mesmo se isso implica de conceder mais crédito às economias falidas com a Grécia, a Itália, Portugal, a Espanha e outros . E é somente no quadro sólido duma UE forte que a Alemanha, principal credora da Europa, pode esperar receber os juros dos seus empréstimos e investimentos europeus.

Para a Alemanha, ( e o seu aliado americano) a Zona Euro é "demasiado grande para falir". E como a UE não possui um mecanismo como a FED americana, só a Alemanha pode garantir os importantes empréstimos indispensáveis. Isto é uma aposta financeira de envergadura histórica e tem um preço político : a hegemonia alemã sobre a Europa.

Quando a URSS caiu e que as duas Alemanhas foram reunificadas em 1990, os capitalistas da Alemanha do Oeste, que viam longe, investiram enormes somas de dinheiro na reunificação e modernização do Leste empobrecido. E ganharam o prémio!

Angela Merkel , que reúne todos os barões do capitalismo germânico, pôde assim concretizar o seu plano: Ajudar a Zona Euro e ser em seguida o seu proprietário.

Para o momento, os EUA cuja situação financeira depende também da estabilidade do Euro, é obrigada a apoiar a Alemanha mesmo se isso equivale a reforçar uma economia europeia rival dominada pela Alemanha que é mais produtiva e mais potente que a economia americana em declínio.

A França não tinha nem tem uma economia competitiva e tem de arcar com despesas de defesa que os alemães não têm, abrigados à sombra da NATO e dos EUA.

E quando escreve que: " Esta hegemonia não tem de ser necessariamente totalitária", o passado desmente esta teoria. . Quer saber: tenho mais confiança na força nuclear de dissuasão francesa que nas promessas de solidariedade dos alemães.

Escreve ainda: " Sê-lo-á, quero crer, fundada na democracia e exercido através das instituições da União Europeia" ,

alors- là, desculpe , não existe instituição menos democrática que a UE., onde Madame Merkel faz a lei, nomeia quem quer , prolonga a austeridade até à destruição das economias dos povos mais desfavorecidos da UE.

Joaquim de Freitas disse...

Não sei se o Senhor Embaixador leu o meu comentário no documento do U-Tube, à sua excelente intervenção.
Transcrevo o meu comentário aqui.

"
O Senhor Embaixador hesitou entre "é" e "era" , quando falou da importância da França na construção europeia. Creio que sem a França a Europa , isto é, o embrião de Europa, não existe. Se em Nice , Chirac abandonou uma parte do poder francês , e preferiu o desequilíbrio, para salvar o tratado de Nice, o facto é que a Europa não pode existir sem uma França respeitada pela Alemanha.

A rivalidades só podem engendrar a agressividade. Mas é primordial para a potência que visa a supremacia de se colocar apreciavelmente em posição de força, afim de limitar as possibilidades dos seus rivais a reagir à agressividade empreendida.
Os seus meios políticos, económicos ou militares devem reduzir as margens de manobra do adversário ( assim hoje os EUA proclamam "assegurar a paz a través da força" fazendo chantagem pela ameaça).

A Alemanha, faz chantagem sobre a França e o resto da Europa através do seu poder económico. Podemos " ir andando" assim ( on going ) , para o momento, como disse, porque a ameaça militar não existe graças à força de dissuasão nuclear francesa.

Mas o perigo subsiste porque a ambição de supremacia alemã sobre a Europa é visceral. Milhões de franceses assim pensam.