domingo, 8 de junho de 2014

O autor

Ontem à tarde. Estava sentado a uma pequena mesa, recuado, entre duas barracas, na feira do livro. À frente tinha um pequeno banco. Desocupado. Sobre a mesa havia três livros e uma esferográfica. Era o autor. Estava distante da zona comum onde os seus pares, entre amigos e editores, vão disfarçando, às vezes por horas, a escassez de admiradores. Ele não, estava completamente sozinho. Discretamente, procurei ler o nome e o título do livro. Não me diziam rigorosamente nada. O livro era vendido na barraca em frente, de uma editora menos conhecida. O sucesso de vendas não era coisa evidente. Andei por ali uns minutos, por curiosidade. Ninguém se aproximou da mesa. Subi e desci a feira. Quando por lá voltei a passar, tudo estava igual. O autor, estóico, continuava sentado, com os mesmos três exemplares e a caneta sem préstimo, com um esgar de resignação. Confesso que cheguei a ter a tentação de comprar um livro, mesmo que o tema me não interessasse. Mas não. O homem não precisava de compaixão, precisava de leitores. E eu nunca seria um deles.

11 comentários:

james disse...



Adorei este seu post e partilhei-o mesmo agora no Facebook.

Pedro Lemos disse...

Bem, ao menos é uma bela feira de livros, ao menos vista assim de longe. Não vejo problema em comprar um livro por misericórdia cultural: há sempre um alfarrabista disposto a negociá-lo.

Anónimo disse...

O livro à procura do leitor

patricio branco disse...

pois haverá de tudo, maus autores que chamam gente, bons que não chamam, ou o contrario, e autores desconhecidos como esse da historia da feira do livro, pois já vi um famoso autor, cujo nome se podia apontar para o nobel, sentado a uma mesa como essa da feira do livro, com livros e caneta, mas era dentro duma prestigiosa livraria, e o evento tinha sido notciado, das 3 âs 5 o escritor tal estará nesta livraria onde autografará os seus livros e falará com o leitor, tambem veio nos jornais, e lá estava de facto o autor, pontual, e foram 5 ou 6 pessoas ao todo as que se apresentaram, a pequena fila terminou rapidamente, o senhor simpatico, sorridente, assinou e falou com os 5 ou 6 que tinham ido lá, depois ficou mais algum tempo à espera, sem nada que fazer, trouxeram lhe um café e uma água, ao fim de uns 15 minutos levantou se e disse, bem, vou me, e saiu despedindo se do director ou responsavel da livraria, ao todo esteve uns 40 minutos das 2 horas previstas, pois lá se foi, elegante, digno, optimo aspecto para os seus 80 anos, e eu, que fui um dos 5 ou 6 interessados, fiquei com um livro dele, que não li ainda, dedicado e assinado, o escritor resolveu acrescentar um desenho da sua mão, uma laranjeira com 3 laranjas, sorriu e disse me: isto é uma laranjeira, supõe se, o titulo do romance metia naranjos, e entregou me o exemplar dedicado e desenhado, eu estava em 1ro lugar, tinha ido cedo, seguiram se os leitores atrás, um não parava de falar com o senhor que lhe respondia simpaticamente, depois foi o tal vazio, a espera de alguem mais, o café, a decisão de se ir e dar por terminada a função, o escritor era carlos fuentes, a livraria a casa del libro, a cidade sevilha, sempre esperei que ele ganhasse o nobel, mas mexicano já havia 1 nobel e, derivando, porque nunca foi dado um nobel a um escritor brasileiro?
há anos que não vou à feira do livro, por razões naturais, já devo em tempos passados dado a assinar alguma obra ao seu autor por lá, noutros locais já me aconteceu, a saramago, na abertura duma feira do livro dei um papel rabiscado, o discurso de abertura foi dito por ele, uma folha de bloco onde tinha anotado umas frases ditas por ele na ocasião, não tinha nenhum livro dele por ali, mais alguns outros, e é assim, mas deve ser grato para um autor ter muitos interessados a pedirem lhe que assinem, há assinaturas curiosas, que nada têm a ver com o nome, há um italiano giovanni guareschi, um humorista, o dos d. camilo e peppone, que tem uma fantastica e comiquissima assinatura, uma caricatura sua, e assim é, lá estão eles na feira do livro esperando sentados nas mesas que lhes comprem os livros e que os deem para assinar, etc etc

Portugalredecouvertes disse...


Muitos ficam por ler! mas haverá talvez outra oportunidade,
não se deve perder a esperança

Helena Sacadura Cabral disse...

Ó Francisco que maldade...
Na Guerra e Paz, a Dra Helena, a que vê o futuro - não, não sou eu, que só vejo o presente - havia fila para comprar os seus livros.
E esta Helena - euzinha - que já esteve 5 dias de Feira e ainda vai ter mais 5 - e só é escrevinhadora - tem sido muito bem tratada. Até churros lhe vêm oferecer.
Há mulheres com sorte...e muitas horas de trabalho!

Anónimo disse...

Quem é o autor deste texto:

"«Nenhum critério densificador do significado gradativo de tal diminuição quantitativa de dotação e da sua relação causal com o início de procedimento de requalificação no concreto e específico órgão ou serviço resulta da previsão legal, o que abre campo evidente à imotivação e esta à arbitrariedade, com projeção inexorável na cadeia decisória que se segue, predeterminados os seus atos (e fundamentos) pela decisão genética.»"

a)Gil Vicente
b)Luis de Camões
c)Padre António Vieira
d)Camilo Castelo Branco
e)Vasco Gonçalves
f)Almirante Pinheiro de Azevedo

Alexandre



Guilherme Sanches disse...

Há tempos descobri que existem empresas que imprimem "um livro". Sim, um exemplar graficamente igualzinho aos que se vendem nas livrarias.
Apenas um, fica um pouco caro, mas dez ou 20 exemplares são a um preço muito razoável. Escolhe-se a dimensão das páginas, ilustra-se a capa, escolhe-se a rigidez e a plastificação ou não, o interior, página a página com ou sem imagens, o papel e a impressão a preto ou a cores, converte-se em PDF e uma semana depois, mais coisa menos coisa, eles aí estão os exemplares entregues em nossa casa.
Estou a trabalhar nisso. Já tenho em preparação vários temas, de cariz histórico-familiar, à espera que algum descendente um dia diga - foi o meu avô que escreveu. E publicou em Inglaterra, imaginem... Naquele tempo...
Um forte abraço

Carlos Fonseca disse...

Alexandre,

Desculpe lá, mas o que tem a ver o seu comentário com o conteúdo do post?

Ou encontrou por acaso o Presidente do Tribunal Constitucional na Feira do Livro, à espera que o primeiro-ministro (ou mesmo o dr. Cavaco) lhe fosse pedir um autógrafo?

A comichão que o referido Tribunal, (que, já agora, tem, pelo menos, a mesma legitimidade que o primeiro-ministro, porque quer este, quer 10 doa 13 juízes, são escolhidos pela Assembleia da República. No caso dos juízes, por uma maioria de dois terços dos deputados) parece fazer a tanta gente.

Cocem-se!

Fatima MP disse...

Alexandre,
e também não, não foi Assunção Esteves ...

Pedro Lemos disse...

Considerando as palavras do nobre Patrício, tenho comigo que o Brasil não foi agraciado com Nobel algum, em nenhuma área, porque não entregou uma obra sequer, artística ou científica, de consistência universal. Carlos Chagas e Jorge Amado foram os mais próximos, e seria injustiça desclassificar seus concorrentes.

Quanto à literatura, especificamente, o brasileiro lê muito pouco e o mercado não se dá ao luxo de investir numa literatura ousada e profunda, dessas que agradam a academia. E é até um perigo: aquele que tentar fazer os tupiniquins pensarem corre o sério risco de virar réu na justiça.