sábado, 28 de junho de 2014

Ainda o PS

A história do Partido Socialista, como a de outras formações democráticas. fez-se sempre de conflitualidades, umas assumidas outras surdas, de choque de personalidades, que só raramente tem sido um confronto de verdadeiros programas alternativos. O que hoje por lá se passa não é, assim, nada de verdadeiramente novo. E nada que não fosse expectável, devo dizê-lo.

O PS vive ainda na ressaca do período Sócrates, da derrota profunda que sofreu em 2011 e da culpabilização que foi passada para a opinião pública de que parte importante dos sacrifícios por que os portugueses foram obrigados a passar desde então, mesmo se potenciados por um governo que decidiu agravá-los com uma receita ideológica radical, assentam na crise financeira criada ao país, derivada de opções políticas tidas por erradas. 

Desde as eleições de 2011, dentro do PS, firmaram-se claramente duas linhas. 

Uma que, de certo modo, partilha sem o dizer uma leitura crítica sobre a anterior gestão socialista, procurando reconstituir, com propostas e algum pessoal político novo, um regresso ao que entende ser a credibilidade perdida junto do eleitorado. Essa linha nunca se mostrou muito ativa na recuperação do património positivo do período Sócrates e, de forma aparentemente deliberada, marginalizou figuras que achou demasiado marcadas por esse tempo.

A segunda linha considerou, desde o início, que a distanciação pretendida face ao tempo de José Sócrates estava a ser exagerada ou era mesmo injusta, e que, com essa postura, o PS acabava por ajudar "à festa" dos outros. Verdadeiramente, essa linha sujeitou-se mas nunca respeitou a nova liderança, de cuja orientação estratégica quase sempre discordou.

O fim relativamente mais suave do que o previsto do processo de ajustamento, bem como uma vitória do PS nas eleições europeias que ficou muito aquém daquilo que alguns consideravam exigível, depois de três anos de ambiente de forte austeridade, criou um clima propício ao reacender da confrontação entre as duas linhas. Com efeito, para os setores críticos da atual gestão socialista, existe hoje o claro perigo de que o governo, depois de ter sido "dado como morto" várias vezes, venha ainda a "ressuscitar" a tempo das eleições legislativas de 2015. E esses setores não vislumbraram na atual liderança do PS a capacidade de reverter essa potencial tendência.

A reação de António José Seguro a este "challenge" não surpreendeu. Ele considerou a sua liderança suficientemente legitimada por duas vitórias eleitorais consecutivas, independentemente da leitura que outros faziam da respetiva dimensão. Entendeu, por isso, ter todas as condições para prosseguir no lugar que ocupava.

O surgimento de António Costa a contestar a liderança também não foi uma surpresa. De há muito que ele aparecia como a alternativa a Seguro, alimentada pelos vários setores críticos da atual liderança. De certo modo, o discurso triunfalista de Seguro na noite eleitoral, onde vislumbrou uma "grande vitória" naquilo que muitos consideraram uma vitória pouco expressiva, pode ter criado o "caldo" político que ajudou a decidir António Costa a avançar.

O impasse criado pelos estatutos, que formalmente não permitem um Congresso eletivo antes do termo do mandato, poderia ter sido ultrapassado se Seguro tivesse querido relegitimar de imediato a sua liderança interna, indo de novo a votos. Ao sentir-se "ferido" pela contestação, que entendeu injusta e oportunista, ao decidir identificar a sua indiscutível legitimidade formal com plena legitimidade política, Seguro assumiu um forte risco. E logo sentiu que tinha de reagir. Optou então por procurar sair dessa dualidade através da solução alternativa das "eleições primárias", atitude que, a seu ver, demonstrava a disponibilidade para ser julgado politicamente - ironicamente, oferecendo a António Costa um "eleitorado" para além do universo partidário, onde, aparentemente, o sentimento generalizado parece ser favorável ao presidente da municipalidade lisboeta.

A meu ver, o gesto de Seguro, ao avançar para as "primárias", tem a virtualidade de o ver assumir a coragem de se submeter a um novo voto, num quadro de modernidade democrática, sem entretanto beliscar a legitimidade formal que ciosamente quer preservar. Mas o facto dessas eleições demorarem compreensivelmente a organizar, coloca o PS num incómodo período de "limbo" político, que será detrimental para os seus interesses se acaso esse tempo vier a ser marcado por um debate fratricida, que dê ao país uma imagem menos responsável da alternativa ao governo que por aí anda. E esse risco legitima, de certo modo, a atitude de Jorge Sampaio e de outros socialistas, quando se interrogaram sobre se não seria então mais avisado avançar para uma clarificação imediata, através de eleições "diretas" internas, que poupassem esses meses de confronto.

António José Seguro assim não entendeu e, para o bem e para o mal, assumirá as consequências dessa decisão. A meu ver, é ocioso estar agora a especular muito mais sobre isto, já não interessa fazer "chover no molhado". O PS e os seus simpatizantes terão o ensejo, em 28 de setembro, de escolherem quem entendem melhor preparado para o conduzir até às eleições de 2015. Só podemos desejar um debate com elevação, sem insultos e acusações, que o país julgaria severamente na imagem do PS. E seria interessante se pudéssemos ter, como pano de fundo desta escolha de pessoas, o privilégio de assistir a um confronto de ideias para o país.

Temo, porém, que, uma vez mais, as coisas se coloquem em termos de personalidades e bastante menos na análise de programas e propostas. Um dia do século XIX, Miguel de Unamuno escreveu que a "fulanização da política" era uma das caraterísticas portuguesas. Prova-se que tinha imensa razão.

31 comentários:

Anónimo disse...

Uma pequena clarificacao ao parágrafo 9: Os estatutos permitem sim, desde que o secretário geral assim o queira.
Margarida Marques

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Margarida Marques: creio que da minha frase isso deduz-se. Mas não tenho comigo os estatutos.

Anónimo disse...

Seguro teria de demitir-se. Não conheço nada das crises do passado mas há mesmo duas linhas, e é muito mais fundo do que referido, mas percebo que não interesse deitar gasolina na fogueira. De acordo com o essencial que diz, há um aspeto inadmissível para a forma como António Costa deu à costa. Num palco montado na praça pública, na véspera de falar com o SG e a 3 dias da CN. Como diria o outro não lembraria ao careca. Sabendo como Seguro foi insultado durante os 3 anos, e entendendo eu que os motivos não são só os referidos pelo SR Embaixador foi um tiro calculado ao coração do SG, na convicção que cara a cara não chegava lá, e que Seguro insultado na Praça Pública ia mesmo demitir-se. Seguro foi chamado de mole, sonso, sem coluna vertebral, sem tomates, como lemos por aí, até no seu próprio facebook, quanto a mim que não conheço nenhum Seguro é estruturalmente um Homem de grande qualidade, e estando convencido que tem um projeto melhor(? para o PS e para Portugal foi à luta. Para mim Costa é/foi uma deceção, como dizem por aí quem conhece um bluff. Não podendo voltar a 26/5, esperemos que as emoções acalmem, e deixem-se de ameaças telefónicas que circulam. A bem do PS . A bem de Portugal.
Conceição

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Conceição: acertou! Não acho útil deitar gasolina na fogueira. E acho péssimo que alguns o façam.

zelp! disse...

1- Felicito-o pela clareza e isenção da análise.
2 - A "modernidade democrática" que refere advem, realmente, da abertura da eleição aos simpatizantes. Mas isso não garante mais democracia e pode até prestar-se a comportamentos que desvirtuem o resultado. Gostava de saber a sua opinião.Obrigado
José Leite Pereira

Anónimo disse...

"O PS vive ainda na ressaca do período Sócrates, da derrota profunda que sofreu em 2011".
Já alguém se deu ao trabalho de recolher as contas:
1975 40,7%

1976 36,7%

1979 28,2%

1980 27,8% (FRS)

1983 37,3%

1985 21,4%

1987 22,8%

1991 29,8%

1995 44,7%

1999 44,9%

2002 38,6%

2005 46,4%

2009 37,7%

2011 29,2%

Anónimo disse...

"O PS e os seus simpatizantes terão o ensejo, em 28 de setembro, de escolherem quem entendem melhor preparado para o conduzir até às eleições de 2015."

E por que razão os simpatizantes não se fazem militantes se querem votar no líder de um partido?
Se já votam nos governantes e não pretendem ser partidários, por que razão tem de lhes ser reconhecida a possibilidade de votar no líder do partido quando não tem interesse em pertencer ao grupo?
Por que podem eles, sem sujeição a qualquer dever estatutário, ter o direito estatutário de votar?
Se Seguro há 3 anos - quando ainda não era SG - era contra as primárias, considerando-as "a morte do debate interno", por que razão mudou agora de opinião?
Não me diga que é por acreditar que terá o aparelho do seu lado e que estes podem mobilizar simpatizantes?
Uma coisa é certa: não ter tido a coragem de legitimar o seu poder através de directas e ter arrastado o partido para as primárias, com as consequências imprevisíveis que daí resultarem, ser-lhe-á imputado sempre.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 18.00. O qualificativo "profunda" referia-se mais à dimensão política da derrota e menos à sua expressão quantitativa.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro José Leite Pereira. Se consultar um post de há dois dias, poderá que penso sobre as "primárias". E, com a designação de Jorge Coelho para a organização, creio que o PS nada tem a temer quanto à transparência e regularidade do exercício

Anónimo disse...

Sendo o Sr. Embaixador uma pessoa culta e bem esclarecida, pergunto:
A aprovação de primárias pela CPN é formalmente legal?
Já leu os regulamentos interno, eleitoral, de militância e participação, processual e disciplinar?
Acha verdadeiramente que o que AJS e a sua CPN deliberou é legal?
Basta ler os regulamentos que vigoram para se concluir com relativa facilidade que o regulamento aprovado enferma de violações orgânicas, formais e de substância.
Bem sei que na volatilidade do presente ainda ninguém parou para pensar, mas o tempo encarregar-se-á de demonstrar na história do partido que o expediente criado pelo AJS é ilegal e ilegítimo. Tudo ao arrepio da legalidade e legitimidade que ele tanto apregoa.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 18.20. Já escrevi o que pensava sobre as "primárias". E não sou jurista. Mas gostava de fazer-lhe notar que o resultado das "primárias" em nada condiciona a capacidade de decisão dos órgãos estatutários do PS. Se for Seguro a ganhar, não haverá qualquer impacto sobre o que hoje vigora no PS. Se Costa ganhar - e porque Seguro indiciou que se demitiria nesse caso - a sua vitória, para ter efeitos dentro da estruturas dirigentes do PS, terá que passar por "diretas" e por um Congresso. As "primárias" serão assim como uma "grande sondagem" que indicará ao PS, pelo alargamento a setores que lhe são próprios, quem o potencial eleitorado considera mais preparado para ganhar as eleições em 2015. Mas não acha que a questão sobre as "primárias" já é uma questão do passado? Olhe em frente e participe no debate em torno das propostas dos dois candidatos. Isso é que é importante!

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 18.11: essa questão já está ultrapassada. Vai haver "primárias", pronto! Essa é a realidade. Estar agora a discuti-las é uma perda de tempo. Discuta as propostas dos candidatos. Isso é que interessa

Anónimo disse...

Gosto do que escreve e sou sua leitora atenta. Já aprendi muito consigo. Daí as minhas perguntas. E, como esperava, respondeu com nível e sabedoria.
Mas repare que acaba por "reconhecer" que estamos a esfrangalhar o partido (sim, sou militante) para fazer uma sondagem. Não seria menos custoso (e doloroso) pagar uma sondagem a quem as faz? E repare que reconhece outra coisa curiosa: «o resultado das "primárias" em nada condiciona a capacidade de decisão dos órgãos estatutários do PS.» «Se Costa ganhar (...)a sua vitória, para ter efeitos dentro da estruturas dirigentes do PS, terá que passar por "diretas" e por um Congresso.»
O que reforça ainda mais a minha indignação: então, para quê todo este mútuo lavar de roupa suja se ficamos na mesma? Se Seguro ganhar não se livra das acusações de que não ganhou o partido, mas apenas ganhou com "estranhos". Se ganhar Costa, e caso Seguro se demita, teremos de voltar ao princípio. Entende a minha indignação? É deste modo que nos queremos afirmar como alternativa governativa?
Quanto à questão das "primárias" ser passado, não tenho assim tantas certezas. Isto só ainda agora começou e não augura nada de bom. Mas concordo que é preciso aguardar pelas propostas dos dois candidatos. Só espero que sejam em número inferior a 85 ou ninguém lhes ligará nenhuma.

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Anónima das 19.02. O risco de que falou é real. Esperemos bom senso e cabeça fria. O meu texto era destinado a potenciar isso.

Anónimo disse...

Eu sei. Eu sei o que pretendia potenciar, mas senti necessidade de o "espicaçar" um pouco para melhor entender o que pensa sobre toda esta confusão.
(e desculpe a falta de identificação, mas considero que ela só é importante quando se insulta. Como nunca insulto sob anonimato...)

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Anónima das 19.21. Não se preocupe com o anonimato. São os anónimos quem faz ganhar ou perder eleições.

Anónimo disse...

eheheheh
Esteve bem agora, muito bem.
Esperemos, pois, que sejam anónimos legítimos e não fraudulentos. :-))

Anónimo disse...

Sabe? Acima de tudo não resisto à boa educação. E, por isso, aqui vai: LN
Passarei a assinar sempre com as iniciais do meu nome. tenha um bom resto de Domingo.
LN

Francisco Seixas da Costa disse...

Obrigado LN. Estou a ver o Brasil-Chile. E agora vão a "diretas", isto é, a penaltis...

ignatz disse...

"... com a designação de Jorge Coelho para a organização, creio que o PS nada tem a temer quanto à transparência e regularidade do exercício."

deve ter sido por isso que chumbaram a fiscalização do vitorino. o costa propôs um simpatizante de cada facção, um organiza e o outro fiscaliza, o seguro aproveita a 1/2 da boa fé que lhe é favorável e despacha o vitorino mais a fiscalização que não dão jeito algum às isauras de serviço. pode censurar à vontade que já me habituei aos métodos da casa.

Francisco Seixas da Costa disse...

Ó ignatz! Tivesse AJS aceite apenas AVitorino e lá estaria você órfão de JCoelho. As crises de vesícula só se curam com operação... e ainda restam os maus fígados!

Anónimo disse...

O Seguro é bom rapaz e parece sério. Mas acho que tem muita ambição em ser primeiro ministro. Quando o ouvi dizer "um beirão em primeiro ministro", não gostei,e também sou beirão. Pareceu querer dizer que tinha o selo de garantia da honestidade para a função. Esperarei ansioso pelas primárias de 28 de Setembro, pois sou somente um simpatizante do partido socialista, mas veremos os debates, tenho a convicção que o Costa tem mais perfil e é mais abrangente, para além de muitas outras características. E também me parece ser pessoa séria, embora tenha nascido na "capital do império".

ignatz disse...

"Tivesse AJS aceite apenas AVitorino e lá estaria você órfão de JCoelho."

não percebo, só tinha que aceitar os dois ou propor outros. segundo a lógica oficial de rejeição do vitorino, o jorge coelho tamém não faria qualquer falta para organizar as primárias, o aparelho tratava disso. já todos percebemos que o secretário-geral está bindado, tudo que o possa por em causa é ilegal, desonesto, traição e patinho feio. se chegar a haver primárias e o seguro perder, o resultado nunca será apurado e a comissão de jurisdição anula as eleições com uma manhosice qualquer. sem comissão de fiscalização não há controlo nem transparência.

Francisco Seixas da Costa disse...

"Só tinha que aceitar os dois ou propor outros". Mas é vicê, ignatz, quem diz como as coisas se devem fazer? Qual é a sua autoridade? Quem é você? A cátedra do anonimato?

ignatz disse...

eu sou militante e votante socialista há bués e não estou habituado a argumentação tão diplomática. desisto, a minha inteligência não dá para tanto.

Anónimo disse...

28 de Setembro dia de São Venceslau.

Mas, alguém acredita que esta situação deprimente, dura até lá?

"Saber o que é correcto e não o fazer, é falta de coragem!"

Joaquim Moura disse...

Apesar de estar genericamente acordo com este post, não deixo de notar nele uma preocupação em não tomar partido. Esta é uma posição muito comum entre os chamados "compagnons de route" do PS, onde julgo que o autor se insere. É o que no Brasil se chama de "murismo". ou seja ficar em "cima do muro". Nunca tomar uma posição clara sobre as linhas de fractura numa disputa. Nunca se comprometer. Assim qualquer que seja o desfecho da contenda fica-se sempre bem.
Repete o autor a tese, repetidamente exaustivamente pelos apoiantes de A.J.Seguro, que não existem grandes diferenças programáticas entre os candidatos e que parece que tudo se resume à costumeira fulanização da política.
António Costa, que há três anos, fala semanalmente sobre a actualidade política, manifestou ao logo desse tempo várias discordâncias importantes com a actual direcção do PS: 1) criticou o sentido da votação do orçamento de 2012; 2) criticou o sistemático apagamento do passado do governo do PS; 3) contestou o acordo para fazer baixar o IRC para as empresas; 4) Criticou o acordo ao tratado orçamental; 5) criticou a imposição de alguns candidatos nas eleições autárquicas; 6)Criticou a apresentação de um programa de governo durante as eleições europeias; etc. etc.
Só quem anda muito distraído pode afirmar que não existem diferenças programáticas. Mas mesmo que assim fosse, pergunto a diferença de personalidades, de competência e de estilo não fazem a diferença? Fazem e muito. Qualquer tratado sobre o papel da liderança nas organizações explica isso muito bem e a História mostra-nos que o papel da liderança é tão ao mais importante que o programa para p sucesso de um projecto político.
Joaquim Moura
Matosinhos

P.S.: A exemplo de outros, presumo que o destino deste comentário vai ser o caixote do lixo. Aparentemente, o autor, tem-se em tão grande conta que só gosta de quem comenta para prestar veneração à sua erudição. Coisas das elites.

Anónimo disse...

Ao ler o volume de comentários suscitados por este por este post não posso deixar de pensar que é muito difícil mobilizar as pessoas num País em que toda a gente tem opinião, boa ou má. A intensidade das emoções e das opiniões lembra-me um pouco os Balcãs onde vivi. As árvores escondem a floresta como se a liberdade de expressão fosse ainda uma saída ao ralenti de 40 anos de ditadura. Seremos capazes de superar as diferenças e de nos mobilizar por causas comuns? Eu nunca quis sair de Portugal, país que acho que tem uma qualidade de vida única. Os media locais sempre dispensei pois cansam-me com a sua atitude ensimesmada. Creio que estou a chegar à fase da viúva de Jorge de Sena de uma relação conflitual com o País que se ama mas não nos ama. Mas considero mais sábia a atitude de outros estrangeirados como Hélder Macedo que desenvolvem o seu trabalho esforçada e honestamente em Londres e mantêm uma relação mais sábia e mais "neutra" com o seu país de origem. Mas como diz Eduardo Lourenço "Portugal é um milagre intermitente"...

patricio branco disse...

ácho bom para o ps estas crises, estas lutas internas entre facções ou tendencias, a imobilidade e a rigidez pertencem a outro tipo de partidos, embora a rigidez tambem possa ter as suas vantagens para os partidos que a seguem.
isto que se passa no ps serve tambem para avaliarmos as qualidades ou os pontos fracos de um ou de outro e dos seus apoiantes ou seguidores.
costa parece ter maior cultura politica que seguro, mas o ter saltado quando o leãozinho estava ferido lembra a fábula que conta essa história.
seguro e seus seguidores puseram a imaginação a trabalhar e criaram formulas curiosas, 1 chefe do partido e 1 candidato a pm, primarias, que afinal introduzem novidades e algo sairá.
costa quer à força passar por cima dos estatutos para investir, se impor e tomar o lugar. e isto é como passar p+or cima da constituição a nivel nacional.
a. costa é um homem de maior cultura politica que seguro (vistos de fora assim parece), é um homem com preocupações sociais e humanas, um opositor mais temivel para o psd-cds, curioso que anda sempre acompanhado de carlos cesar. a. j. seguro é mais pobre no seu humilde discurso mas está a revelar força e imaginação para aguentar a situação criada e ganhar tempo.
mas tudo isto é bom, clarificador, algo mudará no ps, fique um ou outro, e ficamos a conhecer melhor as pessoas que por lá andam e e contam ou contarão.

ps. irritou me a rtp não ter dado o brasil-chile, só deu o colombia-uruguai. tanta conversa sobre a amizade portugal/brasil que tiveram antes e agora nada. razões contratuais' mas isso ultrapassa se e muita gente não tem alternativas de canais extra pagos.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caro Francisco

Como sabe sou militante do PS onde tinha o n.º 1011. Agora, com os camaradas que faleceram devo ser um número bastante menor. Venho da JASP e da ASP, pois já sou um velhote a caminho dos 73.

Fui chefe de Redacção e director adjunto do "Portugal Socialista" onde trabalhei com muita gente boa, da qual destaco o Manuel Tito de Morais, infelizmente já falecido.

Estou assim identificado, para que não haja dúvidas de quem sou. Anónimo nunca fui, não sou e não serei, porque esconder-me num pretenso anonimato para botar faladura e atacar quem quer que seja não é a minha vocação, longe disso.

Venho seguindo esta polémica (eu pelo-me por polémicas, debates, trocas de opiniões, discussões - desde que sejam civilizados e bem educados) e pensava não me meter nela. Mas...

Maquiavel escreveu no su Príncipe que a política é "a arte de conquistar, manter e exercer o poder, o governo". Não gosto de Nicolau Maquiavel, mas por muitos é chamado "O pai da política" e com as suas razões.

Ora, no meu PS a citação que fiz aplica-se bem, penso. Seguro, ainda que fraco, quer segurar-se no poder depois de o ter conquistado pelas vias competentes; e quer ser poder ou seja chefe de um Governo. Penso que toda a gente com dois dedos de testa compreende isto.

Costa, encabeçando os que acham AJS fraco, tíbio, inseguro e amante do poder e que ao que se sabe são muitos, quer "conquistar, manter e exercer o poder, o governo". O que quer dizer que também segue os ditames de Maquiavel.

A questão é saber como resolver este imbróglio. Seguro tenta agora falar com voz grossa para demonstrar que não é... inseguro. Costa usa a sua voz grossa para se afirmar como adversário do (des)Governo deste País. Quid juris?

Eu não tenho dúvidas. (não repito o sôr Silva...) Ainda que o voto seja secreto - e deve ser - vou votar no António Costa.

Abç

Anónimo disse...

Porque não quero que lhe falte nada, deixo-lhe uma excerto do texto de Daniel Adrião, publicado no Público em 1/7/2014: «É sabido que António José Seguro depois de ascender ao lugar de secretário-geral do PS alterou os estatutos do partido de forma a “blindar” qualquer tentativa de “ameaça” à sua liderança até às legislativas de 2015.»
Começa a gerar-se uma unanimidade à volta do que foram (e são) as intenções de Seguro quando foi eleito e, lamentavelmente, nada o demove delas. Nem mesmo o aviso amigo de muitos de que a relegitimação da liderança interna se faz com directas.
LN