quinta-feira, 6 de março de 2014

Kissinger

 
Em tempos de crise, é importante ouvir vozes experimentadas. Podendo não se concordar, em absoluto, com todas as premissas e, mais ainda, com algumas das receitas sugeridas, Henry Kissinger, num artigo no "Washington Post", ajuda-nos a "ler", de forma serena e avisada, a crise uraniana. Será ouvido na Casa Branca? E no Kremlin?
 
Leiam-no, com proveito, aqui

13 comentários:

Alcipe disse...

Havia de chegar um tempo em que estivéssemos de acordo com o Kissinger: chegou!

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Alcipe: a inteligência é uma coisa que sempre nos fascina. É claro que a "realpolitik" , podendo às vezes ser algo cínica, tem a virtualidade de nos obrigar a pôr os pés na terra. Não é muito agradável ter de concluir que há países que estão condenados a ter uma "soberania limitada", embora ache que Kissinger, quando fala da Finlândia atual, vai um pouco longe demais.

Defreitas disse...

O carrasco de Allende disse tudo na primeira frase:

"Russia must accept that to try to force Ukraine into a satellite status, and thereby move Russia’s borders again, would doom Moscow to repeat its history of self-fulfilling cycles of reciprocal pressures with Europe and the United States".

Kissinger, o homem de mão de Nixon, herói do Watergate, tem todos os pergaminhos para vir dar lições a Putine .

Eu creio mais no que disse outro artista do mesmo gabarito, mestre de obras vis no Iraque :

"Quand l’Union soviétique s’est effondrée fin 1991, Dick ne voulait pas seulement voir le démantèlement de l’Union soviétique et de l’empire russe mais de la Russie même, pour qu’elle ne puisse jamais plus être une menace pour le reste du monde », a écrit, dans ses mémoires publiées dernièrement, l’ancien secrétaire d’Etat américain à la Défense, Robert Gates. Gates faisait référence au secrétaire d’Etat à la Défense de l’époque et ancien vice-président américain, Dick Cheney.
Isto é, em Português :
"Quando a União Soviética derrocou fim 1991, Dick não queria só ver o desmantelamento da União Soviética e do império russo mas da Rússia mesmo, para que esta não volte a ser uma ameaça para o resto do mundo", escreveu nas suas memorias Robert Gates, sobre Dick Cheney. (Claro que eu escreveria antes "para que a Ucrânia não seja o obstáculo no caminho da NATO para Moscovo !)
Esta declaração mostra todas as dimensões geopolíticas do golpe de Estado ucraniano . O que está em jogo não são tanto as questões interiores - e certamente não a luta contra a corrupção e pela democracia - mas antes uma luta internacional para o poder e a influência, velha de mais dum quarto de século.
A Ucrânia encontra-se na zona de linhas de falha da Europa, e o que os EUA querem é recomeçar o que Bush já tinha começado em 2008, quando procurou atrair a Geórgia e a Ucrânia para a NATO. Só que Bush não teve a" fineza" necessária para jogar com Putine e abandonou rapidamente o seu lacaio quando os tanks de Putine vieram até às portas da capital georgiana.
Claro que o "cadeau" da dissolução da U. Soviética era inesperado. A Revolução de Outubro 1917 retirou à esfera da exploração capitalista uma parte considerável da superfície mundial. A burguesia internacional compreendeu a ameaça e fez tudo para a fazer cair; a burocracia e a violência estalinista traíram este revolução e assassinaram uma geração inteira de revolucionários marxistas. Hoje, o objectivo do Ocidente é de recomeçar o trabalho de desgaste da Rússia, e isolà-la antes que esta se transforme numa ameaça para o futuro.
Basta ler isto: "Lilia Shetsova, de la fondation étasunienne Carnegie pour la Paix internationale (sic) à Moscou (Carnegie Endowment for International Peace), explique également que le coup d’Etat en Ukraine doit être étendu aux autres pays et à la Russie même. « L’Ukraine est devenue le maillon le plus faible dans la chaîne post-soviétique, » a-t-elle écrit dans un commentaire rédigé pour le journal allemand Süddeutsche Zeitung.
« Nous devrions garder à l’esprit que des soulèvements identiques sont possibles dans d’autres pays. »
Pois, pois, o elo fraco sendo a Ucrânia, vamos lá estendê-lo aos outros países e o fruto inteiro cairá !
A dissolução da U. Soviética e a viragem capitalista criaram as condições propícias à pilhagem generalizada, por meia dúzia de oligarcas e pela finança internacional.
O Ocidente imagina facilmente tudo o que a Ucrânia pode trazer como benefício para as economias do Oeste. Segundo as estatísticas do Instituto da economia alemã, ( Instituts für deutsche Wirtschaft) os custos da mão de obra ucraniana fazem sonhar : 2,50 $/hora trabalhada, comprada ao custo da China (3,17$), da Polónia (6,46$), da Espanha (21,88$).

Defreitas disse...

Por favor, no último parágrafo, ler "comparada" em vez de comprada.

Quando o Senhor Embaixador escreve "que alguns países estão condenados a ter uma soberania limitada" pensa em Portugal, por exemplo? Como no tempo de Carlucci em Lisboa?
Para um antigo oficial miliciano da Revolução e antigo Embaixador, esta frase é incompreensível.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Defreitas: o conceito de "soberania limitada" está consagrado nos estudos de relações internacionais, pelo que não necessita de ser explicitado, de cada vez que é utilizado. Para seu melhor esclarecimento, aqui deixo um link possível:

http://www.foreignaffairs.com/articles/45648/peter-grose/the-soviet-concept-of-limited-sovereignty-from-lenin-to-gorbache

Defreitas disse...

Senhor Embaixador: Muito obrigado, mas conheço essa "doutrina" Brejnev" desde o discurso de 1968 em Praga.
O que motivou a minha reacção é que não sei se o Senhor aceita esta doutrina hoje . A maneira como a frase está redigida soa como uma fatalidade.
Ora , desde há algum tempo para cá, a "doutrina" Brejnev, que Gorbatchev abandonou vinte anos mais tarde no discurso na ONU, parece ter conquistado muitos partidários... na UE.
Aplicada não aos partidos, mas aos povos, justificando-a. Quando se obrigam os governos a privatizar massivamente sectores vitais da economia nacional, ou mesmo estructuras do território nacional, na Grécia, na Espanha, em Portugal, o que é senão o abandono da soberania nacional.
Esta doutrina é justificada pela troika como essencial para manter a solidez da UE, em nome da solidariedade europeia, como ontem "Brejnev para manter a solidariedade dos partidos comunistas" , mas que na realidade visava a protecção da URSS.

Impedir de sair do Euro, mesmo se a economia não aguenta esta moeda, injectando "si besoin" milhares de milhões que o povo tem de reembolsar arrastando-se numa miséria sem fim.
O caso de Portugal é claro. Pouco antes das últimas eleições, que conduziram à derrota dos socialistas, quem não viu o titulo da A.F.P " Os Portugueses votam com o plano da UE-FMI como programa".
Maneira, pelo menos brutal, de dizer aos Portugueses que podiam votar por quem quisessem; mas que o resultado seria o mesmo no fim : O novo governo, qualquer que ele seja, era obrigado a tomar o remédio de cavalo preparado... no exterior! "Soberania limitada"!
Recordo que o título do "Le Monde" era exactamente: " Portugal prepara-se a escolher aqueles que lhe farão ingurgitar a poção amarga" !
Escolher entre a peste e o cólera! Claro que o pêndulo virou à direita, o programa aplica-se e as eleições não serviram para nada: Os Portugueses continuam a não saber como sair do fosso onde se afundam todos os dias um pouco mais, o governo expedia os assuntos correntes, mas o essencial trata-se algures mas não em Lisboa. "Soberania limitada"!

Espero, Senhor Embaixador, que não aplicarão a Portugal a punição que a ONU aplicou ao Kosovo nomeando um Bernard Kouchner qualquer como governador.

Anónimo disse...

Não vejo qualquer utilidade no que aqui é dito pelo velho reaccionário, o homem que negociava com os vietnamitas em Paris enquanto o napalm se abatia sobre o povo vietnamita. E que, mesmo assim, veio a receber um Nobel da Paz!
Quanto a Putin, deveria fazer como Estaline, que durante a II Guerra Mundial (e antes dela eclodir) nunca saiu da URSS e foram Churchill (este em várias ocasiões) e depois Roosevelt quem lá se deslocou para com ele negociar (entre outras coisas as fronteiras da Polónia, uma vergonha) diversos dossiers, politico-militares.
Putin, deste modo, poderia convocar os representantes dos EUA e da UE para lá irem conversar com os seus próprios representantes, como o experimentado Lavrov , eventualmente, com ele.
Quanto ás sanções de ordem económica, como já foi referido por mais do que um comentador internacional, poderão vir a ter um efeito boomerang. As de carácter político não deverão merecer um sério beliscar de olhos a Putin. E do ponto de vista militar ninguém se atreverá a disparar um tiro contra a Russia, mesmo de pólvora seca.
Obama, um Presidente sem chama e sem carisma, que foi incapaz de impôr o seu programa de saúde para os contribuintes norte-americanos, como se propunha, não terá capacidade para influenciar os acontecimentos. E muito menos a UE, essa extensão dos interesses norte-americanos no continente europeu. Ficarão ambos por palavras redondas, numa retórica sem grande efeito prático. E nunca conseguirão que uma decisão do C.S das N.U aprove o que quer que seja, logicamente (e ainda por cima com a China a apoiar discretamente Putin), enquanto Moscovo manterá o colete de forças na Ucrânia, esse país algo artificial.
E vem agora o Kissinger ajuizar sobre a matéria! Só nos faltava a opinião desse pobre demónio, já sem válidade e completamente fora de prazo. Deixemo-lo estar onde está, junto das teias de aranha e das traças, a decompôr-se.
Lourenço


Anónimo disse...

E esta:

"Ao fim de quatro acções perdidas em tribunal e de dois anos e meio de recusas, Câmara de Lisboa vai ter de cumprir a lei e entregar documentos onde se avaliava as práticas seguidas nas adjudicações de obras municipais." in Público"

Alexandre

patricio branco disse...

fala o historiador e fala o bom senso actual do historiador e comentador kissinger, o homem que no passado pensava mais como um putin, anexar, ocupar, derrubar governos, timor, chile, do que como o kissinger de agora.
é tudo bonito, mas infelizmente a politica nem sempre se faz com serenidade, equidade e boas intenções, dialogos, consensos. os nacionalismos têm muito peso.
sem duvida que a crimeia deve ser dotada de ainda maior autonomia, de preferencia continuando integrada na ucrania e mantendo a russia as suas bases afinal necessarias a todos nós.
a ue porta se como uma ingenua, agora vai entregar milhões de ajuda a um governo que não se sabe bem o que é e quanto durará, um país em enorme agitação.
esses milhões deveriam ser dados pela russia, depois de negociações com kiev e apaziguamento.
enfim, bonito artigo o de kissinger, bem pensado, o homem tornou se um pacifista e deixou de ser um falcão, mas obama e putin estão conversando, bem como os respectivos mne's e é isso o que interessa

Anónimo disse...

Notas soltas ou não

Pena Churchill (sobretudo) e De Gaulle já não andarem por aqui.

Haveria "words,words,words" mas com mais alguma coisinha que iria ajudar a resolver o problema.

Enquanto isto, voltam a perorar os Chamberlains e os Daladiers do nosso tempo.

Se só contasse o desinteresse de Kissinger, Portugal teria sido um país do bloco soviético depois de Abril.

Nada disto está ou vai estar fácil, infelizmente. Vai ser preciso calma, sem dúvida, mas uma boa dose de coragem é essencial,

Trata-se sem dúvida da maior crise na Europa e dos valores ocidentais desde a guerra fria. Hã que estar à altura.

ARD disse...

Visto de uma perspectiva de "realpolitik", é bom reconhecer que a Rússia, ultrapassada a fase do desastre económico post-comunista que permitiu e encorajou a intervenção de outras potências no "estrangeiro próximo", voltou, agora, a ser economicamente forte e, portanto, deixou de estar na defensiva.
A partir de 2003, com taxas de crescimento médias de 7-8% ao ano, a Rússia de Putin dotou-se dos meios necessários para voltar a impor "as constantes e linhas de força" da política russa de sempre. "Isto" é realpolitik.
A intervenção na Ossétia (já era para protecção dos nacionais...), a Geórgia, a atitude perante o caso sírio, só provocaram uma reacção pífia dos EUA e, claro, alguns latidos impotentes dos anões europeus.
O que se passa é que estamos a assistir à reassunção pela Rússia do seu "status" de potência que faz parte da sua cultura e para o qual já voltou a possuir os meios..
A atitude russa na Crimeia não é uma aventura, é uma atitude estabilizadora, por muito que a Malta de Bruxelas, o José Rodrigues dos Santos e a Teresa de Sousa não concordem.
Habituem-se.

Anónimo disse...

Um dos grandes problemas da Ucrânia é a sua classe dirigente, claramente herdeira das tradições de corrupção e nepotismo em vigor na União Soviética. A oligarquia dominante locupletou-se com os bens do Estado e a partir daí geriu o país apenas na perspectiva do enriquecimento pessoal por todos os meios. Esse é um dos problemas da oposição do Partido das Regiões ao Acordo de Associação com a UE. Os dirigentes sabem que um acordo com a UE implica reformas que eles não querem fazer. Estão habituados a fazer negócios na escuridão lesando o seu país e o povo.
Politicamente a Ucrânia não tem grande coerência, a parte ocidental, incorporada na URSS na segunda guerra na sequência do pacto entre hitler e Stalin, que é Uniata não tem muito em comum com Donetsk e Kharkov.
A ocupação russa da Crimeia é inaceitável, mas houve muitos erros por parte das autoridades de Kiev, nomeadamente o erro crasso da abolição do estatuto da língua russa, que Turchinov ainda não vetou. Tudo isto caíu magnificamente nas mãos de Putin, à frente de uma Rússia que vive um clima de falso crescimento económico, sustentado nos preços das matérias primas, sobretudo gás e petróleo.
A UE tem muitas culpas pois a sua política externa é incoerente e limitada, não tendo sequer qualquer tipo de capacidade de pressão militar autónoma, continuando a desinvestir na defesa e deixando o essencial para os EUA, que se viram cada vez mais para a sua principal zona de influência o Pacífico.
Com atitudes desta ainda podemos vir a ter novos Muniques.


LBA

Mônica disse...

Senhor Francisco,
Que saudadade das minhas aulas de Geografia, da irmã Zelia pra me explicar tudo isto.
Nao entendi nada na íntegra. Mas a metade ja deu pra perceber que vai render...
com carinho Monica