sexta-feira, 28 de março de 2014

A verdade mutável

Quantas pessoas, ao ouvirem ontem o ministro da Presidência afirmar que "não haverá reduções adicionais do rendimento dos reformados em Portugal", acreditaram, por um segundo, que isso pudesse corresponder à realidade? 

A palavra do Estado está hoje gasta, como nunca esteve, em Portugal. Ninguém, com um mínimo de bom senso, concede o menor crédito a uma garantia dada pelo primeiro-ministro ou por qualquer ministro, porque o justificativo da urgência financeira tem as costas largas para os transformar, dia após dia, em seguidores fiéis de Pimenta Machado, o antigo presidente do Vitória de Guimarães, que consagrou a expressão "o que é verdade hoje pode ser mentira amanhã".

Não sei se este governo se dá conta de quanto isso prejudica a imagem de seriedade do Estado, que lhe cumpre gerir. Podemos imaginar que isso lhe importe pouco, porquanto tem dado mostras de que a integridade da palavra pública não lhe interessa muito. Mas os efeitos deste comportamento, a prazo, são altamente danosos na relação de confiança que é essencial existir entre o Estado e os cidadãos. Hoje, todos nos "defendemos" do Estado, que sentimos ocupado por pessoas que detestam a máquina pública e, por essa razão, não têm o menor pejo em contribuir para o seu desprestígio.

Se pensarmos bem, chegou-se ao cúmulo de uma relação contratual entre dois privados, tutelada pela lei e gerida pela força dos tribunais, ser hoje bem mais sólida do que a relação que o Estado, suposto defensor do interesse comum, mantém com os seus cidadãos. Se há um objetivo que uma qualquer alternativa política deve impor a si mesma será tentar restituir aos cidadãos um mínimo de seriedade, de respeito pela palavra dada, enfim, de ética pública.

20 comentários:

ARD disse...

Claro que o governo se dá conta de que está a destruir (já destruiu...) a imagem de seriedade do Estado. Mas esse "c'est le moindre de sés soucis" uma vez que o objectivo é o de destruir o próprio Estado tal como o entendemos.
"Pilriteiro dá pilritos" e não pode pedir-se a gente moralmente deficiente e mentirosa e politicamente degenerada e servil que transfira para um Estado que detesta e despreza qualidades que lhes faltam lá em casa.

Anónimo disse...

O problema da mentira não afeta tão somente o descrédito do governo mas vai muito para além disso: a este ritmo será o crédito dos homens politicos, todos, e da democracia, que serão postos em causa. Até aquilo que é tão lindo entre os racionais que somos, a língua, vai perder o sentido e voltaremos à lingua macaca. Isto é que é uma porra!
José Barros

Anónimo disse...

Este governo está, desde há muito, desacreditado. E não tem palavra. Mente, manipula, desconsidera os cidadãos e contribuintes e pôs o país na falência. Marques Guedes, na sua vertigem de querer ser ministro, dispôs-se a ser o porta-voz da mentira e do embuste. Vemos entretanto Portas (essa vaidosa figura deste triste e incompetente executivo) a fazer afirmações que só o colocam mal, ele que já está desde há muito a bater no fundo. Este governo, fosse outro o PR, como Sampaio por exemplo, estava demitido há tempos! Resta aos desprotegidos e vítimas da sanha deste governo o Tribunal Constitucional. O único orgão de soberania que ainda vai tentando travar as maldades deste miserável governo, mentiroso, sem palavra. Sem escrúpulos. E, o que com este tipo de comportamentos condenáveis, acaba, por arrasto, por colocar a reputação dos milhares de funcionários em xeque.

patricio branco disse...

assistimos a atitudes dum governo que nunca pensávamos que pudessem dar-se, não sabemos onde está a verdade ou o engano, o boato ou a certeza, a falta de consideração pelo cidadão que começa a ficar desorientado, cheio de incertezas, sem perceber nada a não ser que será cada vez tudo pior para ele.
nunca como agora me senti desrespeitado, gozado, sim, gozado, enganado, etc etc

Guerra disse...

Viva sr. embaixador,
Estou convencido que nada disso está a acontecer por mero acaso. Faz parte de uma estratégia bem estudada e já levada á pratica noutras ocasiões. Vão lançando a ideia, negam sempre, depois lá vem confirmada alegando que poderia ter sido muito pior. Não posso esquecer o que escreveu Rentes de Carvalho: " No teatro da politica e nos grandes negocios, nunca os actores são o que parecem, nem o enredo é como se vê".
Só pararão quando estivermos em "mangas de colete" como diz o povo brasileiro.
Cumprimentos cá da Bila.

Anónimo disse...

Até parece que é só este o governo mentiroso! E os anteriores, em especial o último?
Não se lembram do Soares e Cavaco quando ganhavam eleições dizendo que iriam regionalizar o País? Depois de as ganharem a regionalização tornava-se um erro colossal...
É por estas e por outras que votar é um ato totalmente irracional...

Anónimo disse...

São os "parvenu (es)" da política, criados nesta últimas décadas !


Alexandre

Isabel Seixas disse...

Mais troca tintas que mutável...

opjj disse...

Caro Dr. SEixas não o acompanho. Todos mentem e todos enganam. Ainda assim prefiro estes do que um tiro no escuro e sem volta.
Recordatória: meu Pai tinha 102anos em 2008 Sócrates, pela mão de VIeira da Silva que agora promete tanto,tirou-lhe 51€ duma pensão de 232€. Só porque meu Pai foi forçado a dizer que tinha uma pensão de 280€ de França, obtidas ambas as pensões após os 70 anos.
Outro exemplo;trabalhei numa grande companhia que tinha 1 só director. No consulado de Mário Soares foram entrados e promovidos mais de 50.Eu não assinei o papelinho milagroso, e não fui a despacho.
Vou gerindo a crise como dizia um amigo Socialista e amigo de vários, entre eles Sampaio.
Peço desculpa por estes desabafos.
Cumprimentos

Anónimo disse...

Tudo isso, o sr. PR não sabe de nada, curiosamente, não lê jornais, não fala com os seus conselheiros, enfim, falamos do Pátio das Cantigas.

Este governo, tristemente, está moribundo e o mais triste, sou eu ou somos nós.

Muito complicado saír deste atoleiro

Perdigão

3 Avé Maria e um balde de cal

Anónimo disse...

Bemvindo à oposição, Senhor Embaixador. Até que enfim!

Anónimo disse...

O inefável secretário de estado Lomba continua sempre a dizer um misto de lapalissadas a propósito de demografia, natalidade e imigração com uma placidez sem explicação. Seguem-se algumas notas:

1. É falso que políticas de natalidade desenhadas pelo Estado possam ter um verdadeiro impacto num maior número de nascimentos. Quantos filhos queremos ter está sobretudo nas nossas cabeças.

2. Não é credível dizer que Portugal queira ser competitivo a atrair imigrantes quando continua a ter um Serviço de Estrangeiros fortemente burocratizado e ineficaz.

3. São patéticas as declarações de um PM que apela aos portugueses para emigrar e que vem um ano depois emendar a mão, dizer que já está tudo bem e afinal já podem regressar.

4. Portugal confronta-se com uma sangria dos seus quadros qualificados, fenómeno estrutural e não passageiro e isso é um gravíssimo factor de perda de competitividade.

5. Está por instituir um regime simplificado de vistos dentro do espaço da CPLP, possibiltando um verdadeiro "mercado interno" lusófono, o que deveria ser uma aposta do Governo.

6. O regime dos vistos gold é uma aberração instituindo a concessão de vistos para ricos e para pibres, dois padrões e duas medidas e é conducente a situações perversas e permissivas como as relatadas.

7. É questionável se organicamente, no interior do Governo, as políticas de emigração deverão estar dissociadas das da imigração.

Defreitas disse...

Podemos continuar a crer que no sistema económico e politico vigentes nos países democráticos , a organização do Estado, parlqamentar ou não, com o seu PR, o seu governo, etc, sao os actores reais .
Devemos esquecer isso. Os actores reais são transparentes e planetários.

Aqueles que parecem governar são os fios duma teia de aranha universal no centro da qual se encontra o poder supremo.

Este poder supremo reclama a liberdade de investir onde quer, pelo prazo que quer, de produzir o que quer, de procurar as matérias primas onde quer e de vender os seus produtos onde quer, importunando-se o menos possivel dos direitos dos trabalhadores e dos acordos sociais. A isto chama-se a globalização.

No coração do mercado globalizado, o predador. Banqueiro, alto responsável de sociedade transnacional,operador do comércio mundial
Ele acumula o dinheiro, destrói o Estado, devasta a natureza e os seres humanos, e apodrece pela corrupçao os agentes dos quais ele assegura os serviços no seio dos povos que ele domina. Não escrevo os nomes, mas podemos encontrá-los à cabeça da administração e ao mais alto nível do Estado.

Para os fortes, mas também para os mais fracos que sonham de se juntar a eles, a felicidade reside agora no prazer duma riqueza ganha pelo esmagamento de outrem, pela manipulação da bolsa, pela fusão de empresas cada vez mais gigantescas e a acumulação acelerada de mais valias de origens diversas.
A racionalidade mercantil devasta as consciências, aliena o homem e desvia a multidão dum destino livremente debatido , democraticamente escolhido. A lógica da mercadoria abafa a liberdade irredutivel, imprevisível, para sempre enigmática do individuo. O ser humano é reduzido à sua pura funcionalidade.

Aqueles fios da teia de aranha que ainda dão nas vistas porque os elegemos para altas funções, só têm um objectivo uma vez eleitos: Durar , durar o mais tempo possivel, para que eles, também, possam ...acumular!

Nous aurions souvent honte de nos plus belles actions si le monde voyait tous les motifs qui les produisent.
La Rochefoucauld






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Anónimo disse...

Oh OPJJ,
meus pais recebem cada um 210 e 195 euros. A EDP aumentou os preços, a Água está mais cara, o Gaz igualmente, os Transportes públicos também, os combóios também, os bens alimentares também, mesmo, em lugares como o Mini-Preço, onde se compra baratinho, para quem tem pouquinho, o combustível está mais caro, o mesmo com os telefones, e o governo, através desse malvado e hipócrita do Portas e do Mota Soares dá-lhes uns 2 euro a 3 euros de aumento!
Acha bem?
Nunca estivemos tão mal!

Anónimo disse...


O que escreve Defreitas é mesmo assustador
mas é de notar que vemos pilares da nossa cultura atacados de várias vertentes:
a democracia, a família, a proteção social, a solidariedade, o estado, as poupanças, poesia, a a igreja, a língua...

Anónimo disse...

Quem os colocou lá que os tire.
Lamentavelmente, ainda se veem almas penadas que os apoiam e se calhar, quando chegar o dia, lá irão "botar". Temos um povo desgraçado, que gosta de sofrer!. Viva S. Bento e Belém!.

EGR disse...

Senhor Embaixador: o problema é exactamente o que, em certo trecho, escreve : "eles detestam a máquina do estado"
A partir dessa ideia nuclear e se lhe adicionarmos impreparação para o desempenhp dos cargos que ocupam o panorama fica completo.

Anónimo disse...

A questão já é antiga - puseram os políticos a comandar a economia e deu o que deu...

Anónimo disse...

Com um Presidente autocrata e preguiçoso e um Governo medíocre, que procura os caminhos mais fáceis, a solução é a que foi seguida pelos jovens e estimulada pelo PM - emigrar.

Anónimo disse...

Nunca se vai tão longe
como quando não se sabe
para onde se vai.