segunda-feira, 24 de junho de 2013

O casamento

Ficou a olhar para a folha de papel. Invadiu-o um sentimento de alguma tristeza. A lista dos convidados que o seu futuro genro indicara para a festa de casamento estava recheada de nomes sonantes, figuras gradas da indústria nortenha, dois presidentes de Câmara e até um deputado. Do seu lado, do lado da filha que agora ia casar, os convivas eram, em geral, gente modesta, alguns familiares, amigos chegados e colegas da noiva. Nenhum nome conhecido. O "máximo" que tinha para apresentar era um velho padre, figura de há longa data ligada à família, que se tinha voluntariado para celebrar o ato. 

Notara na expressão facial da filha - ou fora impressão sua, levado pelo seu próprio sentimento? - um certo desapontamento, quando ambos haviam percorrido a lista de convidados da família, para preparar os convites. Mas que podia ele fazer? Velho engenheiro, com uma carreira limpa mas escassos contactos, tivera uma vida simples, dedicada à família, sem grandes rasgos sociais. Nunca cultivara amizades com gente que conhecera na faculdade, alguma hoje até com certa projeção. Entre todos esses colegas, um deles chegara mesmo a ministro, com um lugar cimeiro no governo. Havia-lhe mandado uma carta a felicitá-lo, por ocasião da tomada de posse, e recebera dele, a agradecer, um cartão bem simpático, onde o agora político recordara, com surpreendente memória e detalhe, um episódio do tempo comum passado na escola da rua dos Bragas, lá no Porto. Orgulhava-se de o ter como amigo.

Foi então que, de súbito, a ideia lhe ocorreu: e se o convidasse? Caramba! Se ele aceitasse, era uma "bomba"! O casamento passava a ter outro "sainete" e a filha, estava certo, ficaria orgulhosa das amizades do pai. Mas, por outro lado, acanhava-se de estar a incomodar o amigo, que os anos tinham tornado um tanto distante. Ficou a matutar na ideia durante algumas horas mas, ao final do dia, decidiu-se. Na manhã seguinte tentaria falar com o ministro. Se não desse resultado, paciência! Mas, pelo menos, ficava de bem com a sua consciência e havia feito o possível para proporcionar à filha uma cerimónia de casamento de que se podia orgulhar.

O acesso ao ministro foi, para sua surpresa, bastante mais fácil do que supunha possível. Horas após o contacto com o gabinete, o próprio governante ligou-lhe diretamente, com um tom de grande simpatia. Foi então, perante essa atitude amiga e aberta, que decidiu ser totalmente franco com o antigo colega, ao formular-lhe o convite para o casamento da filha:

- Eu não sei se deveria estar a dizer-te isto, mas julgo que a nossa relação me pemite que o faça. Para além do grande gosto e honra que teria em rever-te e ter-te na cerimónia, a tua presença no casamento representaria muito para a nossa família, porque, da parte da minha filha, a generalidade dos convidados são gente comum e, do lado do futuro marido dela, vêm figuras relativamente destacadas e conhecidas. Não posso esconder-te que a tua vinda seria para nós um fator de grande prestígio.

A reação do ministro ficou acima das expetativas:

- Ó homem! Percebo muito bem! Eu e a minha mulher vamos ao casamento, com imenso gosto. E diz-me uma coisa: se eu for num "carrão" oficial, isso ajudará?

- Claro que sim! Mas nem te pedia tanto! Basta-nos a tua presença...

- Não, não! Vamos fazer as coisas como devem ser feitas. Olha! Lembrei-me agora: até vou levar batedores!

E assim aconteceu. A presença daquele simpático ministro nortenho na boda foi um momento alto da cerimónia. E o pai da noiva sentiu que nunca poderia agradecer suficientemente àquele seu colega de curso, cuja chegada, antecedida por dois espampanantes polícias em motos, ficou para sempre a marcar a memória desse dia feliz.

31 comentários:

Ana Paula Fitas disse...

Obrigada pela partilha... a bondade do entendimento torna toda a realidade mais humana. Um abraço.

Alcipe disse...

Não pagarão a embaixadores aposentados para abrilhantar uma boda? Já era um complementozinho da reforma...

Anónimo disse...

Custa-me a acreditar que isto se tenha passado com DOIS ENGENHEIROS, daquele tempo, da rua dos Bragas…

patricio branco disse...

uma historia com amizade e com o efeito de dar uma boa ajuda a uma auto-estima, o que tambem não está mal

Anónimo disse...

Sinceramente! carro oficial e batedores para utilizados num acto não oficial? na verdade, este post denuncia um crime de peculato. Ou ministro sem carrão e batedores não é ministro? Estas coisas ditas com esta naturalidade indignam-me.

Anónimo disse...

Na ausencia de outros feitos significantes que se possam "apontar" ao Ministro fica pelo menos um: este da imensa simpatia com o seu colega da faculdade... É porque o parecer sempre foi muito importante! E com dois acompanhantes da GNR dava mais pompa e circustância... Aliás: já agora, esta, a meu ver, se criticável por causa da "pompa", não é a pior forma de esbanjar o erário público.
José Barros.

Anónimo disse...

Já tinha ouvido falar neste episódio. E até sei quem foi. O nome do Ministro foi omitido pelo Senhor Embaixador. Não deve ter sido por acaso. Por isso não o revelo.

Anónimo disse...

Até ao último comentário, acreditei numa estória de ficção do Sr. Embaixador, porem, ao que parece, ela é verdadeira. Mas os carros do Estado também servem para isto? Valha-nos Deus! E assim vão os nossos (deles) políticos...

margarida disse...

Hesitei sobre o que redigir.
Por um lado não queria crer que fosse um episódio real, por outro tive sentimentos ambivalentes relativamente à história.
Se é humano desejar-se a felicidade de uma filha em tal dia, por outro, que isso dependa das presenças na cerimónia serem 'famosas' já denota uma certa pobreza de espírito. Sobretudo da rapariguinha, que se devia dar por muito feliz por ter um pai que a levasse ao altar e um noivo em quem confiar.
Os contornos do sucedido tornam-se, assim, nostálgicos, com mais cinzentos do que o branco da praxe e os furta-cores das habituais fracas toilettes das damas.
Sobra o fado das aparências, embrulhado numa solidariedade beliscada pelo despropósito e o peculato.
Domage.

Anónimo disse...

Olha cá está, sem qualquer especie de ironia ou sarcasmo, o dinheiro público a contribuir para o bem comum .. o dos noivos.

N371111

disse...

dommage s'écrit avec double "m".

Anónimo disse...

Uma estória portuga no seu melhor!!

outeiro

Anónimo disse...

Pois que dizer do provincianismo português que tanto nos carateriza e não nos leva a lado nenhum?

margarida disse...

Pimba! Bem-feita para não me armar!
Merci, Zé.
Curioso que já escrevi esse disparate antes e não me corrigiram. Mal. Devemos dar nota destes deslizes para não perpetuar a toleima.

Alain Demoustier disse...

delicioso e tão bem contado !
um abraço
Alain

Anónimo disse...

A história ė engraçada, ė humana e muito portuguesinha. Não faz mal a ninguėm e nem deve ter custado muito ao erário público. E fez pessoas felizes. Por favor, gozem-na e preocupem-se com coisas mais sėrias, que as há.

Anónimo disse...

Espero que os noivos tenham sido felizes até ao fim dos tempos. E que a noiva nunca mais se tenha sentido minimizada por ter uma família comum mas honesta.

Anónimo disse...

Parem com essa porcaria do "estória" !!! É "história" que se diz e escreve!

Helena Sacadura Cabral disse...

O que eu me ri com este post. E não tiveram direito a um Grândola vila morena?
Verdade ou não, temos aqui uma deliciosa short story com todos os ingredientes: amor, política, amizade, dinheiros públicos e escolta da GNR. Só falta mesmo uma corrupçãozinha à mistura.
Um verdadeiro guião nacional!

Francisco Seixas da Costa disse...

Devo confessar que foi para mim uma surpresa constatar que os tempos geraram uma "rightousness" tão apurada como aquela que muitos comentadores demonstraram. Eu sei que os tempos adubam o rigor drástico sobre o exercício de funções do Estado, mas eu convidaria os leitores mais sensíveis a contextualizarem a historieta (aliás, no essencial, verdadeira): trata-se de um episódio que teve lugar entre os anos 80 e 90 do século (bem) passado. Por essas épocas, os costumes eram (eram?) bem diferentes. Não levem tudo tão a sério, está bem? Isto é um blogue, um espaço lúdico e nada mais.

Anónimo disse...

margarida,
fui mauzinho consigo sem razão nenhuma. peço desculpa. apesar de viver em frança, o meu nível de francês não me permite dar lições a ninguém. a margarida é que me deu aqui uma grande lição de humildade e simpatia.
um excelente dia para si :)

Anónimo disse...

No Brasil, estória tem uma conotação de narrativa criada, inventada, sugerida, uma obra de ficção. Já a história é uma narrativa que faz parte dos fatos ocorridos na vida dos povos, uma obra não ficcional.Para o anônimo das 21H54, de ontem: Já agora, envie a conta da explicação...

Anónimo disse...

O que faz impressão é o deslumbramento provinciano do ministro associado ao abuso de dinheiros públicos, pese a opinião desculpativa do embaixador. Podem deslumbrados abusadores ter bom critério governativo?
História e estória tem, que eu me lembre e pode ser que me não lembre bem, significados diferentes como diz a comentadora brasileira.
João Vieira

Anónimo disse...

Ao anónimo das 11:31: no Brasi, em Portugal ou no Burkina Faso, "estória" não existe em português; ou melhor, é um neologismo que pretende copiar a distinção anglo-saxónica entre "history" e "story", que nunca existiu em português .

Anónimo disse...

Os comentários lembram-me o que ocorre atualmente no Brasil, caça as bruxas!
Do Brasil.

Anónimo disse...

Dir-se-ia que a velha senhora se irritou com o anónimo anti-'estória'… :

é da língua o ditador?
fanático e facistoide?
filha a língua é do amor
nasce livre em esplendor
de óvulo e espermatozoide*
dela o povo é só senhor

pare amigo essas manias!
proibir-nos as 'estórias'?
não são nada porcarias
fernão lopes escrevia-as
'estoriando' as vitórias
do portugal desses dias

pífia 'estória' então, agora,
de ministro que vai lá
ao casório senão chora
pai de noiva que o adora
não merece i nem agá
ui! que até a história cora


*
mas que rima! estou gagá?
porra vou-me é já embora

Anónimo disse...

Delicioso. Delicioso. Tudo me soube a uns bons petiscos, a cheiro de flores e a uma música alegre. Isto é melhor que muitas partes "gagas" dos teatros e das novelas comuns. Quem esteve à altura foi o ministro. O Senhor Embaixador já me deixou mais convencida, de que afinal, até temos ministros para qualquer situação difícil. Se gostei desta! O Senhor Embaixador também é um privilegiado nestas coisas, que dão uma boa crónica... Obrigada ao pai da noiva. Já me senti convidada ao "enterro do osso" e tudo!

Anónimo disse...

É curiosa a subtileza da localização do episódio num intervalo com a amplitude necessária para continuarem as incertezas…Certo é que se trata de engenheiros da Faculdade de Engenharia e, numa retrospetiva mais serena, já me custa menos a acreditar no dito…
Certo é também que, no intervalo, está lá todo o “arco governativo”, a que já há muito chamo o “balancé do poder”: ora agora “como” eu, ora agora “comes” tu…

Anónimo disse...

Errata:
Leia-se "fascistoide" na 2ª linha da rimalhice da 'velha senhora'.

João de Deus disse...

Querem ver que tenho de repetir o meu casamento (ao qual nem um assessor de um adjunto de um chefe de gabinete assistiu...)? Um abraço Senhor Embaixador...

Manuel Leonardo disse...

Amigo e Senhor.
De vez em quando embora atrasado ponho a minha leitura em dia e sem querer acho- me hoje entre os convidados de gente ilustre deste casamento e fez-me lembrar o Diacono talvez o primeiro que existiu na minha Peniche ,tambem com convidados com gente ilustre.Como os comentarios sao lidos antes de serem publicados pedia que se dignasse ir ao meu fielamigodepeniche.blogspot.com que talvez gostasse de saber historia de gente humilde que talvez sejam dignas de ser contadas com o seu especial talento
Ate possivelmente um dia com as melhores e respeitosas saudacoes assino
Manuel Joaquim Leonardo
Peniche Vancouver Canada