segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

"Talent de rien faire"

Conversando ontem em Lisboa com um amigo, como eu funcionário no MNE desde há bem mais de três décadas, trocámos experiências comuns relativamente àquilo que podemos designar como alguma tentação diplomática para o imobilismo.

Com efeito, parece subsistir ainda, em certos setores, uma escola de pensamento, ancorada em sólida prática, que favorece, como reação imediata perante a pressentida necessidade de se atuar em face de algo que afeta interesses nacionais, um "é melhor não fazer nada" ou "não vale a pena reagir". O argumento sistemático é o de que é contraproducente promover iniciativas, porque elas poderão conduzir a efeitos mais gravosos do que as consequências já produzidas pelos factos e que, por isso, "é preferível estar quieto". Tenho anos de experiência de ouvir isto, com a tibieza travestida de sábia prudência.

Não sou adepto das decisões precipitadas, de se saltar para o terreiro à primeira provocação. Também não excluo, em absoluto, que, num caso ou noutro, esse tipo de atitude - ou não-atitude - possa ter razão de ser. Mas o que tenho observado é que, muitas mais vezes, tal não é senão uma escusa comodista para não ter de arriscar, para "fugir entre as pingas", para tentar que o tempo acabe por anular a necessidade de uma tomada de posição. E o que me preocupa é que, em alguns casos, esse tropismo seja já intergeracional.

Por estas e por outras é que alguns acabam por dar razão ao dito injusto segundo o qual "um diplomata é alguém que pensa sempre duas vezes antes de não fazer nada".

11 comentários:

Gil disse...

É verdade, alguns diplomatas interpretam o conselho de Talleyrand, o célebre "surtout pas trop de zèle" como um convite a não fazer nada, quando, na verdade, ele queria dizer que as coisas não se podem fazer atabalhoadamente.
Mas a diplomacia tem um "tempo", um ritmo próprio.
Chu En Lai dizia que "ainda é muito cedo para avaliarmos as consequências da Revolução Francesa".
É a verdadeira paciência de chinês.

Helena Oneto disse...

O "dito" é genial!
Acredito que em certas ocasiões é melhor não fazer nada...:)

Anónimo disse...

Diz-se por ai que Portugal nao tem diplomacia,Portugal tem funcionarios do MNE espalhados no estrangeiro.E claro que o Dr.Francisco Seixas Costa e uma rara excepcao,ou seja,e uma agulha no palheiro nas Necessidades.Com falta de iniciativa, ausencia de empreendedorismo,uma falta enorme de cultura e de pensamento original,a diplomacia portuguesa parece estar a contribuir apenas para o aquecimento global das ca-deiras.Politicamente,o sonho imediatista da nossa diplomacia, e estar presente no Conselho de Seguranca ( o que nao e mau!),economicamente e inutil, e culturalmente ,o MNE,atraves desta triste instituicao que da pelo nome de Instituto Camoes, politicamente instrumenta-lizada,tornou-se numa das maiores inutilidades publicas.Em algumas Embaixadas, alem de nao se fazer absolutamente nada,tambem nao deixam que se faca.E o verdadei-ro "Talent de rien faire"!E pena que nao haja agencias de notacao para a nossa diplomacia...

José Barros disse...

Às vezes é o conforto que é inimigo da acção e é melhor não mexer em nada para não levantar pó! Também o medo é outro grande inimigo da acção como todos sabem. E haverá muitas outras razões que levam as pessoas ao pronunciamento insuportável do “é melhor não fazer nada”.
Pois eu acho que é melhor fazer, tomar iniciativas, evoluir, revolucionar mesmo, quando algo está estagnado. Claro que é preciso ponderar bem as coisas mas a ponderação só é útil para se tomarem as decisões e passar à acção. Senão, em vocábulo popular, pensar pensa o burro...
Mesmo assim, nestas últimas décadas, Portugal tem evoluído e evoluído no bom sentido. Mesmo se às vezes há falta de método o que faz que se gastem toneladas de energia para improvisar mas para isso temos a palavra “desenrascanço” da qual nos socorremos com frequência... Penso todavia que não seria nenhum luxo, aqui e ali, pôr mais algum método! Quem não se lembra de, ainda há muito pouco tempo, os portugueses de França, aqui a poucos minutos de Lisboa, precisarem de esperar meses, muitas vezes muitos meses, para que a administração se dignasse atribuir-lhes o simples bilhete de identidade que vinha confirmar-lhes a sua cidadania portuguesa?

Guilherme disse...

Faz muito tempo, a empresa em que então trabalhava proporcionou um curso de gestão, específica para os chefes das filiais espalhadas pelo país. Era uma formação de três semanas em Lisboa, destinada a um pequeno universo de onze quadros superiores, maioritariamente na casa dos trinta anos, que além de colegas de ofício nutríamos uma saudável amizade global.
No primeiro dia, já ao fim da tarde, o formador de serviço comunicou-nos uma situação grave de uma empresa virtual, para cuja solução era necessário tomar uma decisão estratégica, que deveríamos ponderar em três equipas, comunicá-la, justificá-la e defendê-la no no dia seguinte.
Trinta anos... Lisboa... amigos... jantar... e conversa sobre tudo menos sobre o trabalho de casa.
No dia seguinte, vamos às decisões:
- Equipa 1?
- Bem, não houve tempo...Sabe, tivemos umas coisas para fazer...Um problema na Filial... etc.
As equipas 2 e 3 não foram diferentes. Ninguém propôs solução nenhuma, ninguém tinha decidido nada.
O formador (careca de imaginar o resultado), virou-se de costas, ligou o retroprojetor, e em letras garrafais, a toda a largura da parede, pudemos ler:
"...MAS A PIOR DECISÃO É MESMO NÃO DECIDIR"
Foi há quase trinta anos, e têm-me sido tão útil este ensinamento...
Um abraço

Julia Macias-Valet disse...

Senhor Embaixador, nao é so na diplomacia que existe o "talent de rien faire". En França existe uma faixa da sociedade cuja ocupaçao é, estatisticamente falando, "sans profession". Em Portugal chama-se Dona-de-Casa (ou Dondoca ; )) denominando alguém que trabalha em casa (por vezes por opçao), ocupando-se da organizaçao da sua casa e da educaçao dos filhos. Esta ocupaçao nao sendo remunerada, nao implica "quand même" que nao se trabalhe. Eu prefiro a expressao "mére au foyer".

Para mim a expressao "Sans profession" da-me a sensaçao de incapacidade de produçao...e de participaçao activa na sociedade.

Helena Sacadura Cabral disse...

Júlia tem toda a razão. Eu pertenço a uma geração de economistas que pretenderam fazer esse cálculo e adicioná-lo ao nosso PIB ( Produto Interno Bruto) que é como quem diz, a riqueza produzida.
Foi há quarenta anos e tudo continua na mesma, como se apenas as empregadas domésticas contassem, porque salariadas!
E assim provavelmente continuaremos, por mais quatro décadas...

Anónimo disse...

Como bem diz aqui FSC, esse tropismo é mesmo já intergeracional (aqui no MNE). “From the top to the bottom and from the bottom to the top”. Há cada vez mais uma “cultura” de excessiva prudência, a todos os níveis, nesta “Casa” que é o MNE. Mas, igualmente, uma inibição em tomar iniciativas. Talvez, sobretudo, nos Postos. Ao longo da minha carreira, recordo-me de duas situações opostas, que me marcaram.
Numa, ao chegar ao meu primeiro Posto, já lá vão também umas décadas, disse-me o então meu Embaixador, quando me tentava explicar no que iria consistir o meu trabalho, dali em diante: “vocês, quando vêm da Secretaria de Estado (vulgo MNE) só sabem fazer uns papéizinhos políticos, umas pastas, uns apontamentos, informações de serviço, etc. Ninguém vos ensina a tomar iniciativas e ter ideias. E, sobretudo, no que significa a palavra colaborador. Ora, aquilo que eu quero é poder crítico (em relação à minha pessoa e ao trabalho que se fará), nada de “yes-man”, projectos sobre o que se pode fazer para divulgar o nosso país, quer no campo cultural, quer comercial, etc. Isto porque, politicamente, o nosso peso é relativamente diminuto. Há pois que fazer mais e de outra forma. E mostrar aquelas gentes em Lisboa que estamos a fazer coisas por aqui e não apenas a ser iguais aos restantes nos outros Postos, que na sua maioria, se limitam ao envio de informação política que poucos lêem e que só serve para meter nas Pastas que depois nem o Ministro provavelmente lerá!” E, de facto, acabou-se por levar a cabo, ao longo do tempo em que servi nesse meu primeiro Posto, várias iniciativas de carácter cultural e comercial, na maioria das vezes sem encargos para o Estado! Foi um excelente processo de aprendizagem para mim. Que nunca mais esqueci.
Uns anos depois, deparou-se uma situação inversa. Acabado de chegar a esse outro Posto, submeti ao Embaixador, uns dias depois, um projecto de iniciativas, à sua consideração. Olhou perplexo para aquilo e depois disse-me: “oiça lá, oh fulano, você está louco? Então estamos aqui no sossego absoluto, sem ninguém a incomodar-nos, se calhar lá por Lisboa nem se lembram que existimos e você planta-me aqui um papel com um sem número de sugestões para nos tirar, a curto prazo, desta paz-de-alma? Isto, meu caro, é lenha para nos queimarmos! Lisboa acordava, impingia-nos ainda ministros, secretários de estado, malta do Camões, do Icep, empresários e sem lá que mais e lá ia o sossego que tanto me custou a construir. Você nem imagina o quanto custa sermos discretos e fazer com que não se lembrem de nós! Olhe, fique-se com uns telegraminhas políticos, muito redondos, para não incomodar, ou acordar alguém por lá, trate da Secção Consular e assim continuaremos felizes e dar-nos bem um com o outro!” E assim foi. Passou-se a viver na descrição quase total, só perturbada com uma visita oficial. À partida do Ministro nessa ocasião, já ele no avião, exclamou: “bom, esta lebre está corrida. Oxalá não apareçam mais!”
Adido de Embaixada

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador,
Há também uma versão muito portuguesa desse "talent de rien faire", que é o "finge que faz mas não faz". Neste, então, somos exímios!
Fazem-se discursos prometedores, inauguram-se obras longe de estarem cocluídas, estreiam-se obras que outros fizeram, abrem-se concursos para o que se sabe antecipadamente não se fazer, enfim, tudo no horário nobre, para aproveitar os holofotes da tv...

Julia Macias-Valet disse...

Obrigada Helena SC é reconfortante saber que os economistas tentam fazer qualquer coisa pelos que nao fazem nada.
Sim porque tirando isso so interessamos aos publicitarios e aos politicos em periodo de campanha eleitoral. Ah ! La ménagère 35/55... Incapaz de tomar decisoes...
Peço desculpa Senhor Embaixador de estar longe do debate da diplomacia e do MNE mas ja é tao dificil de decidir entre comprar OMO ou comprar SKIP ; ))

É que para além de "sans profession", et "sans rémuneration" também somos "sans retraite" alors on va pas tout de même nos demander de trop réflechir... n'est ce pas ?

Anónimo disse...

"E o que me preocupa é que, em alguns casos, esse tropismo seja já intergeracional".

Pois eu enquanto o Senhor e a Dra. Helena derem sinais da vida do empreendedorismo das ideias ...
Não me preocupo.

Ainda não desisti da ideia sensata diga-se de passagem das candidaturas a Presidentes da república...

Porque o País merece...
Porque o País precisa.

Isabel Seixas