domingo, 14 de fevereiro de 2010

Grécia

A resposta europeia à crise grega, assumida no último Conselho Europeu, deve ser lida como uma primeira tentativa no sentido de acalmar os mercados e procurar testar até que ponto estes são, ou não, sensíveis a uma manifestação de solidariedade política dos parceiros, a qual, por ora, tem muito de retórica. É por esta razão que só os próximos dias poderão dizer se o PM grego Georgios Papandreou estava certo quando a qualificou como uma reação "tímida".

A Europa do euro cedo percebeu que a crise grega, tendo em si dimensões nacionais muito específicas, se pode transformar numa grave "infeção" da zona da moeda comum. E esse é um cenário que não interessa a ninguém - a começar na Alemanha e a acabar em Portugal.

A Alemanha não prescindiu do marco para ter de viver com uma moeda instável. Os fantasmas dos tempos de Weimar nunca desapareceram em Berlim. Quando o ministro dos Finanças alemão, Theo Weigel, impôs, nos idos de 1997, o seu discutível pacote de "critérios de convergência", o objetivo era, precisamente, "blindar" a nova moeda do potencial laxismo de países como a Grécia ou Portugal. A suprema ironia foi que, anos depois, a Alemanha e a França iriam estar entre os primeiros países a ultrapassar essas mesmas metas quantitativas...

Para um país como Portugal, a crise grega, bem como o modo como a ela a Europa reagir, não é de todo indiferente. É que sendo a Grécia, neste conjuntura, o elo mais fraco do tecido monetário europeu, com indicadores bem mais gravosos que os nossos, a verdade é que, num cenário piorado de crise, Portugal surgirá inevitavelmente na linha de fogo, como um dos alvos seguintes. Por isso, e mesmo que não houvesse outras razões - e elas existem, no plano político e estratégico -, a resolução favorável do problema grego é-nos muito importante.

Comecei por dizer que à eventualmente "tímida" atitude europeia do último Conselho Europeu vão seguir-se, se necessário for, outras medidas. Por isso, e por ora, estamos perante um mero "deitar o barro à parede", para ver se as coisas podem ficar por aqui. É que a fragilidade do caso grego não interessa a ninguém e os ministros das Finanças do Eurogrupo sabem que têm ao seu dispor algumas outras armas para reagir, se acaso, como muitos receiam, os mercados se não contentarem com o discurso político que há dias saiu de Bruxelas.

É no quadro destas novas medidas, que podem vir a tornar-se necessárias, que tem condições de germinar uma nova doutrina para a gestão económica da Europa, para a criação de um "governo económico europeu" que alguns líderes reclamam, por ora ainda sob forte ceticismo da Alemanha.

Um país como Portugal tem todo o interesse em ver esse projeto florescer. De certo modo, ele acabaria por ser um movimento compensatório daquilo que parece desenhar-se como o enfraquecimento da Europa comunitária, isto é, de um projeto que tínhamos por muito favorável, com a Comissão Europeia no seu centro propulsor. Se a "outra" Europa que o Tratado de Lisboa parece consagrar, marcada por um forte pendor intergovernamental, conseguir gerar um tecido comum mais sólido, em matéria de políticas económico-financeiras, talvez alguns tenham de rever algumas leituras recentes, e menos favoráveis, sobre os caminhos por onde a União Europeia atualmente anda. No que me toca, gostaria muito de encontrar razões para o fazer.

3 comentários:

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

A linguagem da solidariedade retórica da ajuda à Grécia irá ser, claramente, insuficiente a meu ver. Porquanto, o rumo da desvalorização do Euro, ou da sua bipartição, em função de países cumpridores ou não cumpridores dos requisitos técnicos é um cenário temível!

Importa recordar que graças, em parte, ao trabalho de António Sousa Franco Portugal conseguiu carrear a adesão ao Euro.

Contudo, como digo no meu curto comentário intitulado "Breves considerações ao colapso das Finanças da Grécia" ( in: www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt ) há algo de pernicioso no facto dos mercados, sem senso ético e, muitas vezes movidos, pelo factor especulativo, determinarem o futuro desta situação da Grécia em função do ânimo psicológico dos investidores.

Deste modo, urge repensar a práxis política, assente nas estruturas tecnocráticas, fazendo ancorar as estratégias governativas em éticas públicas libertando-as dos poderes financeiros. Só, assim, se poderá fazer ressurgir uma política humanista de escala global capaz de garantir uma eficaz defesa dos Direitos Humanos na comunidade internacional.

A estratégia intergovernamental saída do Tratado de Lisboa, se bem entendi nas palavras do Senhor Embaixador Francisco Seixas da Costa, poderá eventualmente resolver o problema técnico do colapso financeiro da Grécia, ou de Portugal se a nossa evolução for negativa, mas presumivelmente não resolverá o problema do crescente afastamento dos cidadãos em relação à política, nem da libertação da política, por questões éticas, em relação à nefasta influência dos poderes financeiros, como o Dr. Mário Soares nos tem alertado constantemente.

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Não me fazendo "arauto da desgraça" tenho menos optimismo que o Senhor. Ainda hoje não percebo porque é que temos 2013 como horizonte de descida do defice quando poderíamos ter 2014.
E depois, no actual cenário político nacional, duvido que internacionalmente se acredite muito nas nossas virtualidades.
O Senhor Embaixador sabe tão bem como eu que se impunha neste Orçamento ter tomado medidas mais duras. Infelizmente!
Por isso, e a menos que as necessidades dos "grandes" venham a impôr alguma folga, vejo como muitíssimo difícil a situação de Portugal.
Aguardemos o PEC e aquilo a que ele vai dar origem...

Helena Oneto disse...

O cronista do “Le Monde.fr”, Hervé Le Tellier, escreve no seu genial “Papier de verre” de hoje :
« 2001 : la banque Goldman Sachs aide la Grèce à masquer son déficit. L'Odyssée de l'esbroufe. 2010 : Goldman Sachs spécule contre l'euro affaibli par la Grèce. L'Odyssée des espèces. »