quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Botul e Crabtree

A vida intelectual francesa tem andado divertida com a polémica em torno de Jean-Baptiste Botul. Na mais recente obra do filósofo Bernard-Henry Lévy, "De la Guerre en Philosophie", o autor cita, a certo passo, as conferências proferidas por aquela figura aos neokantianos do Paraguai, a seguir à Segunda Guerra Mundial. Lévy já havia usado excertos de Botul numa conferência na Ecole normale supérieure, em 2009.

O facto é que Botul é uma figura inventada, criada em 1995 por um jornalista do satírico Canard Enchainé. O filósofo caiu na esparrela e agora, mais do que das 1340 páginas do livro, só se fala de Botul. Conviremos que é uma grande ingenuidade acreditar na existência de uma massa crítica de neokantianos no Paraguai! Pensando melhor: talvez houvesse alguns, entre refugiados centro-europeus da época...

Vem esta evocação a propósito - ou a despropósito - de um jantar que hoje terá lugar no University College, em Londres, reunindo os cultores da memória de Joseph Crabtree. Desde 1954, existe na capital britânica a Crabtree Foundation,  que congrega um grupo de cerca de 400 cidadãos que, uma vez por ano, na terceira quarta-feira de Fevereiro, se reúnem, num solene jantar de "smoking", para ouvir um deles falar de um dos diversíssimos aspetos das extensas vida e obra de Crabtree.

Segundo os anais, Crabtree viveu exatamente um século - de 1754 a 1854. O seu percurso é o de um personagem quase renascentista, tendo sido escritor, viajante, político e uma multiplicidade de coisas mais, como os tempos recomendavam. Poemas por si assinados apareceram publicados em antologias de poesia inglesa. A admiração por este destino de eleição levou à gestação de um verdadeiro culto intelectual, a que eu próprio acabei por não ser insensível. Desde 1992, passei a ser um dos "scholars" estrangeiros da Crabtree Foundation, para onde entrei então pela mão do Bartolomeu Cid dos Santos, com quem lancei as bases, com o Helder Macedo e o Luis de Sousa Rebelo, do "Portuguese chapter", que, há uns anos, realizou no Hotel Lawrence, em Sintra, um encontro dedicado a "Crabtree e Byron". De Lisboa, Nova Iorque, Viena e até de Brasília,  tenho procurado deslocar-me, com regularidade, aos jantares anuais em Londres. No ano passado, fui aqui de Paris. Hoje, só o não faço por total impossibilidade de agenda. Crabtree - "the great Man", como é saudado no brinde inicial, que anualmente é feito em frente do seu retrato (na imagem) - e a sua fantástica obra merecem-no bem.

O leitor, menos familiarizado com estas coisas, talvez ainda não conheça Joseph Crabtree. Por isso, se estiver interessado, pode ler as "The Crabtree Orations", vol I (1954-1994) e vol II (1995-2004), ed. Brian Bennett & Negley Harte, The Crabtree Foundation, London, 1997 e 2004. Um pequeno, quiçá despiciendo, pormenor, que talvez me tenha escapado de referir: Joseph Crabtree nunca existiu. A sua vida e obra têm sido criadas pela conferências que sobre ele se produzem.


Em tempo: sobre este assunto, ler a crónica de Ferreira Fernandes no Diário de Notícias sob o título "Da mentira como obra de arte".

9 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Acho verdadeiramente deliciosa a ideia de criar um personagem através das coisas que se escrevem sobre ele...

Alcipe disse...

A influencia do pensamento de Crabtree (ele proprio um anti kantiano radical, por sustentar que nada podia vir de bom de Conisberga) sobre a formação ideológica de Botul tem sido pouco estudada. Richard Burton, o explorador, quando esteve no Paraguai, deixou um exemplar do panfleto "Fuck you, Kant!" de Crabtree esquecido numa palhota. O texto foi traduzido para tupi guarani por uma índia de cabelos negros como a noite que não tem luar e, no século XX, o Botul aprendeu tudo com a escola paraguaia anti kantiana, da qual foi apenas um reles plagiário.

Margarida disse...

"(...)O texto foi traduzido para tupi guarani por uma índia de cabelos negros como a noite que não tem luar (...)"...

...de súbito, poesia.

Julia Macias-Valet disse...

Bernard-Henri Lévy "le faux philosophe" como lhe chamou um jornalista da radio em Junho de 1993 quando BHL se casou com Arielle Dosmbale.

Informaçao complementar (porque em parte repetida) ao que ja foi dito pelo nosso anfitriao :

Frédéric Pagès invente Jean-Baptiste Botul en 1996, profitant d’une homophonie prometteuse avec le «botulisme», maladie mortelle provoquée par la toxine «botulique»: le terme Botox vient de là. L’association des amis de Botul organise lectures et conférences qui perpétuent la fiction. «Il n’a jamais été établi explicitement que Botul n’ait pas existé et il n’est donc pas à exclure qu’un jour, l’histoire rende raison à Bernard-Henri Lévy», commentait Frédéric Pagès.

Penso que BHL vai precisar de uma injecçoezitas de botox para aplainar as rugas que ganhou com este tema. Mas isso nao vai ser um problema porque a Arielle dele, teve ter o reportorio das clinicas em dia ; )

Helena Sacadura Cabral disse...

Alcipe o seu texto poetico-filosófico deixou-me rendida aos antikantianos...
Richard Burton, o actor, não desmereceria o explorador, se também tivesse encontrado "uma índia de cabelos negros como a noite que não tem luar"...Azar dele, encontrou, antes, e por duas vezes, a Taylor com olhos cor de violeta. Ficou arrumado!
Júlia fiquei maravilhada com a adenda feita ao post do "nosso" Embaixador. É que estive, há bem pouco tempo, com a senhora que está no pleno do botox:cara e beiços...Apesar de já não fazer cinema continua a representar!
O pior são as mãos, que essas ninguém cala.
Ele, com as brancas, menos mal...

Helena Oneto disse...

Excelente cronica de Ferreira Fernandes e, para mim, o ultimo paragrafo é verdadeiramente "sublime", como diz um leitor do DN e como ele, saio -quase- sempre deste "Duas ou três coisas" com um grande sorriso de satisfação!

Teresa disse...

Estava estudando em Paris quando BHL foi alçado pela mídia como a mais nova expressão da filosofia francesa.Na sua primeira entrevista, o dito filósofo se deu ao luxo de tripudiar sobre Foucault e Althusser. O primeiro já estava morto e o segundo acabado com a questão do assassinato da mulher. O acaso quis que estivesse de novo em Paris, desta vez fazendo turismo, para ler no Le monde a esparrela, como diz o embaixador, que BHL caiu. Fiquei de alma lavada e enxaguada e corri para comprar os livros de Monsieur Botul e aderir a botulismo. Consegui somente dois: la methaphisyque du moux e o adorável livro sobre Nietzsche. Infelizmente não consegui o seu primeiro livro que contem as preciosidades sobre os seminários aos neo-kantianos do Paraguai. Ao procurar na internet algo sobre o assunto me deparei com este Blog e estou encantada. As historias de Crabtree e mais Botul prometem muitas alegrias pela frente. Estarei acompanhando o Blog daqui pra frente pois a crônica do Embaixador e seus comentadores estão repletas do humor português que tanto gosto.

Helena disse...

Senhor Embaixador
A credulidade está em alta, e não apenas na França. Domingo, andando na orla da Lagoa, havia peixes mortos e alguns urubus. Uma senhora muito bem vestida reclamou dos peixes e dos urubus. Pois acho que deveriam contratar mais uns 2000..., brinquei.
"ESTÃO CONTRATANDO URUBUS???!!!" espantou-se.
Contive o riso e saí correndo. Logo me veio à cabeça a divertida esparrela filosófica.
Os amigos têm se divertido, achei que como herdeiro de Eça, o senhor poderia também se divertir... Senhor Embaixador

Margarida disse...

Uma nota - tardia e actual, a um tempo - sobre este 'tema': V.Exa. esteve - como sempre - encantador há umas horas, no Canal 2.
O humor, ah, o humor...!
Francamente simpática, a intervenção.
Brevíssima, porém...
:(
(Pobre Henri-Lévy!...)