sábado, junho 23, 2018

Chamado à Guarda


Na minha infância, nas visitas à casa de aldeia do meu avô materno, em Bornes de Aguiar, ouvia por ali histórias muito divertidas. Ou, talvez, elas fossem apenas sedutoras para a minha ingenuidade de então. Registei algumas na memória, nenhuma no papel. E já não estão comigo as pessoas que me poderiam ajudar a reconstituí-las.

Uma dessas histórias, de cujo protagonista não cuido em lembrar o nome, tinha a ver com uma espécie de gatuno “oficial” da aldeia. De dia, era um fulano como os outros, trabalhador rural, com um rancho de filhos. Mas tinha um lado “Dr. Jeckill and Mr. Hyde”. Era conhecido por golpes noturnos à propriedade alheia, desviando desde fruta a materiais de construção, isso num tempo em que os cuidados de segurança eram mínimos e, quase sempre, desnecessários.

O homem foi várias vezes detido, passou mesmo algum tempo em prolongado confinamento prisional (hoje deu-me para este “understatement”) e, tal como Claude Rains dizia na cena final do “Casablanca”, passou a ser um dos “usual suspects” sempre que alguma coisa desaparecia na aldeia.

Na memória de infância ficou-me para sempre a expressão ouvida, a propósito das aventuras anti-patrimoniais do homem: “Foi chamado à Guarda”. Era ao posto da Guarda Nacional Republicana, nas Pedras Salgadas, ali ao lado, a que ele era convocado, para “averiguações”, como escreveria um estagiário de imprensa.

O fulano já morreu há várias décadas. Agora, perante um incidente daquela natureza, seria pouco eficaz “chamá-lo à Guarda”. É que o posto da GNR nas Pedras Salgadas já só tem um único guarda, imagino que num regime “from-nine-to-five”, o que permite suposições divertidas sobre a sua operacionalidade. Mas, pelo menos, em matéria de “recursos humanos”, passará a ter precisamente uma unidade mais do que a agência local da Caixa Geral de Depósitos, porque essa vai mesmo fechar.

Felizmente que, como se vê, o combate à desertificação do interior vai de vento em pôpa. O que faria se não fosse...

Waldir Pires


Aos 92 anos, morreu agora uma grande figura da política brasileira, Waldir Pires. O brasileiro comum conhece mal este homem político discreto, que teve o seu primeiro cargo no governo em 1950, esteve exilado pela ditadura militar, foi ministro de várias pastas, foi candidato à vice-presidência da República, ocupou vários cargos parlamentares e foi, por duas vezes, governador da Bahia.

Conheci-o em Brasília, quando fazia parte do governo de Lula. Waldir era um homem encantador, com um sorriso bom e uma permanente “boa onda”. Falámos algumas vezes, numa das quais me contou a sua aventurosa fuga para o Uruguai, com pormenores deliciosos. O seu último cargo foi como ministro da Defesa e tenho bem presente uma coisa que me disse - e em que tinha toda a razão: “depois da minha luta contra o regime militar, o facto de hoje ser aceite por eles como ministro, sem o menor problema, é a prova da democraticidade das suas chefias”. Só posso desejar que Waldir Pires se não tenha enganado.

No Brasil, por razões que não interessa agora explicar, toda a estrutura da aeronáutica civil mantém-se sob o controlo dos militares, pelo que o ministro da Defesa superintende no setor. 

Um dia, o caos instalou-se no serviço de transportes aéreos do Brasil. Creio que foi uma greve dos controladores que desencadeou uma crise que praticamente paralisou o país por uns dias. No Brasil, com aquela dimensão, viajar de avião é a regra, dado que as distâncias terrestres são imensas e, além disso, em grande parte do território, as estradas, quando as há, estão longe de ser recomendáveis. Essa crise nos transportes ficou conhecida como o "apagão" aéreo (a palavra "apagão" nasceu numa crise energética que deixou sem eletricidade o país, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, e, a partir daí, o brasileiro passou a utilizar o termo para designar tudo o que "está parado").

O ministro foi então pessoalmente acusado de inoperância na resolução rápida da crise e, meses depois, na sequência de um desastre aéreo, foi obrigado a demitir-se. Estive na sua despedida e na serena substituição no Ministério da Defesa por Nelson Jobim, outro bom amigo com quem, ainda há dias, almocei por aí.

No Brasil, há uma magnífica revista chamada “Piauí”, que faz um excelente jornalismo. Grande no formato, com papel "pesado", grafismo atraente mas sóbrio, tem artigos longos mas muito substanciais, embora num estilo solto que leva a que a qualifiquem como "uma revista sem gravata". Ora a "Piauí", no número editado imediatamente após o "apagão aéreo" inseriu um histórico e irónico editorial com o título "Obrigado, Waldir!" 

Porquê? O texto ligava a caótica gestão que o ministro teria feito da situação, obrigando as pessoas a esperar, às vezes por dias, nas salas de espera e no chão dos aeroportos, à exponencial subida no número de exemplares da "Piauí" vendidos. E explicava (si non è vero, è ben trovato): a "Piauí" é uma revista com longos artigos, que precisam de muito tempo para serem lidos. Ora, segundo o divertido texto, fora precisamente o facto das pessoas "terem mais tempo", isto é, estarem bloqueadas e sem nada para fazer nos aeroportos a razão do sucesso editorial desse mês. E, por essa razão, agradecia ao ministro do "apagão aéreo" a involuntária contribuição dada para o seu sucesso...

Tendo conhecido o humor de Waldir Pires, tenho a certeza de que se riu desta graça, como se ria de muitas outras coisas divertidas da vida, que foi merecidamente longa e bem cheia. 

Oportunismo

Sou do tempo em que se acusava Tiago Brandão Rodrigues de ser um títere, à frente do Ministério da Educação. Para esses críticos, Mário Nogueira era o verdadeiro ministro. Por essa razão, todas as decisões de Brandão Rodrigues eram más e perniciosas para o país.

Nos dias de hoje, Brandão Rodrigues resiste às pressões sindicais e está em conflito aberto com Mário Nogueira. Este passou agora a ser olhado com outros (oportunistas) olhos. Porquê? Ora essa! Porque o que é preciso e continuar a dizer mal de Tiago Brandão Rodrigues, isto é, do governo.

sexta-feira, junho 22, 2018

Sorrisos a mais


No início de 2000, o líder conservador austríaco, vencedor das eleições no seu país, decidiu fazer uma coligação com um partido de extrema-direita, cujos responsáveis haviam dado mostra pública de simpatias pelo nazismo. A Europa comunitária reagiu, em polvorosa, e Portugal, enquanto presidência da União Europeia, teve de gerir aquele que foi um período muito delicado da vida europeia. A Áustria foi alvo de “sanções” e o assunto acabou por vir a originar a inserção de disposições no novo tratado europeu então em curso de negociação, contemplando a possibilidade de um Estado poder vir a ser suspenso de membro, em determinadas condições. Noto, para se perceber o que mais adiante refiro, que aí se fala de “um” Estado, pressupondo-se que os restantes se mantêm no completo respeito pelo acervo legislativo relevante.

Lembro-me bem de que, à época, alguns se interrogaram: mas então os cidadãos de um país não podem eleger para os governar quem muito bem entendam, independentemente da sua ideologia? Sim e não. Sim, porque cada país é plenamente livre de escolher os seus deputados e, a partir deles, formar governos. Não, porque, ao entrarem para a União Europeia, subscrevendo os seus tratados, os Estados que dela são membros comprometem-se a observar um conjunto de princípios e valores. E, da mesma maneira que isso inclui o respeito pela democracia, pelas liberdades, pelo Estado de direito e pela separação de poderes, o traumatismo da II Guerra mundial faz com que haja uma particular sensibilidade negativa a tudo quanto se aparente ao nazi-fascismo.

Ora, nos últimos anos, alguns Estados europeus têm vindo a atuar de um modo que, claramente, justificaria a invocação e aplicação das tais regras que os tratados contemplam. O procedimento é, como se compreende, complexo. O que se compreende menos é que esses Estados, não obstante os alarmes desencadeados, persistam nas mesmas políticas. E aqui, retomo a referência a “um” Estado, que atrás fiz: é que, para punir um desses Estados infratores é necessária a unanimidade dos restantes e, entre esses, estão já... outros infratores. A Europa atou as suas próprias mãos.

Como sair disto? Pelo mesmo modo político como, em 2000, se fez com a Áustria. Perante um governo italiano que anuncia um recenseamento étnico e, de forma ostensiva, desrespeita regras de direito humanitário básico, torna-se vergonhoso que os Estados europeus cumpridores se sentem à mesma mesa, sem protesto público, mantendo os sorrisos nas “fotos de família”. 

Lipp, Sorman e o sexo da Brasserie



Deve haver largas dezenas de “brasseries” em Paris. Mas sou suspeito: sou fã, há décadas, da “Brasserie Lipp”, no Boulevard Saint-Germain, em frente ao “Café de Flore“ e ao “Les Deux Magots” - e, vá lá, à livraria “L’Écume des Pages”, onde, ao final da tarde de ontem, como sempre acontece quando por aqui passo, o meu cartão de crédito leva um considerável rombo. Com a “La Coupole” e a “Bofinger”, a “Brasserie Lipp” faz parte das mais conhecidas, embora haja outras tanto ou mais antigas, de que um bom exemplo é a “Polidor”, que anuncia não aceitar cartões de crédito desde 1849...

Com muito mais de um século de existência, a “Brasserie Lipp” tem um menu que prima pela teimosa estabilidade. A mim, leva-me a ser conservador: quase sempre peço o mesmo, por ali. E já tenho suficientes “diuturnidades” para conseguir alguma estabilidade “geográfica” no espaço, ainda antes dos tempos do grande “chefe de sala” que foi o Jean-Louis. Guardo mesmo uma fotografia com ele, na sua última noite, à porta do restaurante, creio que em 2012.

Ontem, o seu excelente substituto, o simpático Christian, disse-me que, para me colocar na zona mais simpática da sala, teria de ficar numa mesa um pouco “serrée”. Na realidade, as mesas no restaurante são todas justapostas, todas “serrées”. E as conversas misturam-se quase sempre. Já por ali esqueci a comida, uma noite, com a Kate Moss ao meu lado... (Com quem não troquei uma palavra, porque não me ligou “peva”).

Ontem, de um dos lados, dois cavalheiros falavam de negócios. No fim, um deles, mais velho, entrou em pânico por ter falhado duas vezes o código do cartão. Podia ser o Alzheimer ou o Bordeaux, seguido do Calvados, que vi que tinha emborcado. Mas tudo acabou em bem.

Do outro lado, um casal um pouco mais velho que nós meteu conversa. A senhora, num determinado momento, disse-me: “Conhece, com certeza, o meu marido. É Guy Sorman”.

O marido estava ao meu lado. Olhei para ele, mas a cara não me dizia nada. O nome, sim. Mas estava a demorar algum tempo para a memória emergir. Demasiado para o meu embaraço. Não usei o truque: “O seu nome diz-me algo, mas está a escapar-me”. A frase da senhora não me tinha dado o menor espaço para tal: eu “tinha” de conhecer Guy Sorman. Como a minha origem portuguesa já estava estabelecida na conversa, ele não se fez rogado: “Estou traduzido no seu país”. Mas a minha memória continuava a “plissar”, como as embraiagens antigas.

A certa altura, o alemão da memória desistiu e, triunfante, eu disse: “Li um livro seu, em espanhol, que comprei em Buenos Aires”. A minha mulher olhou para mim com um ar de incredulidade (pergunto mesmo se de receio que eu estivesse a ousar meter uma “galga”). E acrescentei: “Não consigo precisar o título, mas creio que era sobre a Argentina. Mas posso estar enganado...”

Não estava. Acertara. A Argentina era uma paixão de Sorman. (Tínhamos acabado se saber que levara uma “abada” de 3-0 da Croácia, para gáudio da maioria dos empregados). O livro era o “Diario de un optimista” (mas eu, no momento, confesso que não me lembrei). Vim a recordar-me de ter lido também, embora sem a ter terminado, uma outra obra de Sorman, que não ppsso precisar. Mas de uma coisa tinha absoluta certeza: não gostava das suas ideias, por razões que não suscitei, claro, e que se prendem com as suas opções doutrinárias. Mas o casal até me pareceu muito simpático! E assim nos despedimos, num mar de sorrisos.

E o “sexo” que deixei no título? É simples. Quando falo da Brasserie Lipp digo sempre “a” Lipp. Um dia, um amigo que, não sendo francês, conhece Paris melhor que os “clochards”, corrigiu-me: “Deves dizer ‘o’ Lipp e não ‘a’ Lipp”. Ora essa! Porquê? “Porque esse era o nome do proprietário e passou a ser regra comum referir assim a casa”. Não aceitei a retificação e sempre feminizo a Lipp. E nunca me arrependi.

quinta-feira, junho 21, 2018

Nacionalismo saloio


Durante a ditadura, João Abel Manta foi levado a tribunal por ter feito um desenho tido como desrespeitoso para com a bandeira nacional. A palermice patrioteira morreu no ridículo da acusação. 

Agora, o surgimento da nossa bandeira com o colorido da diversidade sexual provocou um novo sobressalto conservador, em que me parece evidente um toque de inescapável homofobia.

Em ambos os casos, trata-se de passar mensagens concretas: num caso, denunciar o aproveitamento nacionalista das cantorias, noutro a necessidade do país estar aberto a aceitar a liberdade da opção sexual de cada um.

Ridicularizar a bandeira é uma coisa, não ter cerimónia com ela, sem deixar de a respeitar, é outra. Não perceber a diferença entre as duas coisas é algo que dá pena.


segunda-feira, junho 18, 2018

José Monteiro Baptista


O veludo puído do sofá em que eu estava sentado, naquela sala da Sociedade de Geografia, amorteceu há pouco o choque da minha surpresa: 84 anos! Era a idade do Zé Monteiro Baptista, que ali ia apresentar o seu livro de memórias. Olhando para ele, fora alguma nostalgia que neste fim de tarde lhe atravessava o olhar, ninguém diria.

Conheci o Zé Monteiro Baptista, há meio século, no ISCSPU. Separavam-nos quase década e meia de idade. Na política, quase tudo. À época, isso era decisivo para muita gente. Mas não para nós, que estabelecemos, desde o primeiro momento, uma bela relação de amizade, que sempre ficou muito para além desse inevitável contraste de ideias. Continuando sempre a discutir por elas, até hoje, claro.

Por um acaso, anos mais tarde, o Monteiro Baptista e eu coincidimos no concurso para a carreira diplomática. Entrámos com alguns meses de diferença e lembro-me bem dele, impaciente, a “fazer horas”, durante algumas semanas, de visita a um outro colega, o João Amador, no sala que eu e ele ocupávamos, no Gabinete Coordenador para a Cooperação, uma estrutura da então Comissão Nacional de Descolonização, onde estávamos destacados. Ele e o João, ambos já com mais de quarenta anos, com uma comum experiência no quadro administrativo de África, eram os colegas mais velhos dessa geração diplomática. Essa circunstância não deixaria de vir a ter consequências negativas nas respetivas carreiras e o Zé Monteiro Baptista fixa, neste seu livro de memórias, algumas notas de amargura sobre essas e outras questões que, para além das muitas alegrias ali também bem registadas, marcaram o seu percurso no MNE. 

Hoje, no lançamento do “Memórias d’Aqui e d’Além”, estivemos alguns dos seus colegas e companheiros de vida, testemunhas do percurso do Zé Monteiro Baptista “ao Serviço dos Portugueses”, como ele bem subtitula o seu livro. Um amigo com uma grande dignidade, com uma dedicação insuperável ao interesse público e um homem de bem que todos respeitamos. E que eu continuo a não acreditar que tem 84 anos...

Cercle Voltaire



Há cinco anos, quando regressei definitivamente a Portugal, tive com algumas pessoas a ideia de ressuscitar o desativado Cercle Voltaire, uma associação de “amigos” da língua francesa em Portugal, de que havia sido grande impulsionador o advogado António Maria Pereira, que morreu em 2009. 

Fizeram-se contactos, definiu-se mesmo um programa provisório de trabalho, mas a ideia esmoreceu, com a intensidade da vida de alguns dos promotores (incluindo eu próprio) a impor-se à boa vontade inicial.

Hoje, meia década passada, com as ruas de Lisboa a “parlar” francês pelas esquinas, com bairros comprados por habitantes do hexágono fugidos aos impostos anti-ricos do camarada Hollande, eu próprio com o Cantona a viver ali no cimo da rua, para que iria servir o Cercle Voltaire? E daí! Talvez agora para evitar que, um destes dias, não ouçamos gente pela rua a trautear o “Lisboa, não sejas francesa...”

Amanhã tenho que ir a Paris. Talvez esteja na hora de ser criado por lá o Círculo Camões, onde os lusófilos locais se pudessem reunir a celebrar “este país que tão generosamente os acolhe no seu seio”, para citar o Kotter dos “Bilhetes de Colares”. O qual, por acaso, seria ou gostaria de ter sido inglês.

domingo, junho 17, 2018

Pontualidade ou a falta dela


Almocei com ele hoje. E lembrámos a história. Que já tem muitos anos. Tinha conhecido aquela miúda através de um primo. O namoro estava nos “preliminares”. Mas prometia. Um dia, combinou ir buscá-la a casa. Chegou cedo, ela ainda não estava “produzida” para a noite. Ficou pela sala. Ela tinha várias irmãs. Uma delas surgiu por ali. Comunicativa, divertida. A conversa fez-se fácil. Por fim, lá chegou a outra. Saíram os dois. A noite foi agradável mas... não deu! Passaram alguns dias. E surgiu o contacto com a tal irmã que aparecera na sala. Saíram, namoraram, depois casaram. Tiveram filhos, hoje têm netos. Verdade seja que, entretanto, se separaram. Mas são amigos e, para sempre, ficou esta história. É no que pode dar a falta de pontualidade!

“Diplomacia económica”

A chamada “diplomacia económica” praticada por Portugal costumava assentar em três objetivos essenciais: captar investimento estrangeiro, captar turistas e promover exportações. Com maior ou menor empenhamento, o país fez isso pelo mundo durante décadas.

Fica agora a ideia que que essa vertente da nossa diplomacia acabou por ser ”demasiado” bem sucedida.

É que passamos os dias a assistir a queixas pelo facto dos estrangeiros comprarem empresas nacionais, importantes setores do parque imobiliário lisboeta ou terrenos junto ao Alqueva. Ora as regras na base das quais esses investimentos são feitos são essencialmente europeias e, tal como as nacionais, foram aprovadas por sucessivos e diferentes governos portugueses, que recordo terem sido eleitos pelas mesmas pessoas que agora protestam (não vejo os mais jovens muito queixosos).

Do mesmo modo, e a toda a hora, ouvimos lamentos pelo excesso de presença de turistas, como se pudesse haver limites à circulação de pessoas nas sociedades livre contemporâneas. Os protestos iludem o impulso dado pelo turismo às indústrias da hotelaria e da restauração, com significativa quebra das taxas de desemprego. Há impactos no sossego de alguns? É verdade, como acontece em Paris, em Roma ou em Atenas. Mas então andámos a ”vender” o nosso sol e praia, as pousadas e o turismo de habitação, o Douro e a beleza dos Açores para quê? Queremos sol na eira e chuva no nabal?

Parece que já só falta ver gente a protestar pela delapidação do património gastro-cultural que pode representar a venda ao exterior do nosso queijo da serra ou dos nossos salpicões.

1936 - O ano da morte de Ricardo Reis


Acabo de sair de um excelente espetáculo na “Barraca”. Posso dar um conselho? (E convirão que é muito raro fazê-lo.) Não percam o “1936 - O ano da morte de Ricardo Reis”.

sábado, junho 16, 2018

Arte

Dois quadros ou dois filmes ou dois livros precisam de ser comparados? Por que diabo não olhamos a fabulosa arte de Cristiano Ronaldo em si mesma, na sua genialidade, no trabalho e dedicação profissional que tem por detrás, no brio e superação constante colocado no apuramento da forma física, na beleza do pontapé de bicicleta de há semanas, na geometria quase divinal daquele livre de ontem, na serenidade segura na hora da marcação do penalti? Por que é que temos de estar sempre a compará-lo com Lionel Messi, outro artista de grande nível, cujo rendilhado de jogo dá imenso prazer observar? A arte compara-se? Para quê?

O títular

Vivia fora de Lisboa, em quinta de casa apalaçada. Andava de anel de brasão, sempre a alardear uma suposta linhagem, a importância de um título qualquer que dizia que herdara. Quando se dignava vir à capital, chegava sempre atrasado a tudo para que era convidado. 

Um dia, alguns seus conhecidos interrogaram-se sobre aquele vício de falta de educação, muito desrespeitoso para com os outros. Foi então que alguém revelou: é que ele nunca usa auto-estradas, anda sempre por vias secundárias e, por isso, gasta mais tempo. Mas porquê? Para não pagar portagens? Nada disso, explicou a pessoa. Porque, um dia, viu numa portagem ”Retire o título” e, claro, recusou!

Dia de S. Ronaldo

Ontem, vi o Portugal-Espanha em diferido. Frequentemente, opto por não assistir, em direto, a jogos de futebol que sei que me vão provocar stress. Há muito pouco tempo, fiz uma exceção a esta regra e acabei a ter de tomar um Lexotan. Cada um é como é.

Ontem, ia eu a conduzir por uma estrada na periferia de Lisboa, a caminho de um jantar, quando fui ultrapassado por um carro, buzinando furiosamente. À passagem, vi o punho erguido do condutor, numa gesticulação que li como ameaçadora. Estranhei muito: eu nada tinha feito de errado. Os meus companheiros de viagem, estrangeiros, ilibaram-me de quaisquer culpas de condução. E lá continuámos. Verifiquei mais tarde que a ultrapassagem coincidira com o primeiro golo de Portugal.

Foi um belo dia de S. Ronaldo, a quem os espanhóis teimam em chamar Cristiano.

Dito


“... e foi assim que ele conseguiu dar a mão à palmatória sem dar o braço a torcer”. E, sem dizer como, virou a esquina

sexta-feira, junho 15, 2018

“Smile me!”


Passei por lá há minutos. Foi uma residência universitária, na lisboeta rua das Praças, entre a Lapa e a Madragoa. Hoje, a olhar pelos operários no descanso, de lancheira à ilharga, na soleira da porta, o edifício deve estar prestes a ser transformado em apartamentos de luxo, com uma bela vista para o Tejo.

Nesses anos 60 do século passado, ali se recolhiam dezenas de estudantes vindos da província, cujos pais tinham posses para os manter na capital. Com maior ou menor sucesso académico, claro.

O Alexandre era um deles. Transmontano, “bon vivant” e um coração de ouro, era (e é) um amigo “de primeira”. À época, estava sempre disponível para todo o tipo de aventuras noturnas. Recordo farras homéricas no Bairro Alto, um incontável São João em Évora, jantaradas bem regadas no “Calhau”, um restaurante que existiu na esquina traseira do Politeama, no “Rancho Grande”, esse por detrás do Paladium, ou no “Café Colonial”, na Almirante Reis, onde havia um bacalhau à Braz que o Zé Cardoso Pires, numa noite da “dois” no Procópio, crismou de “imbatível em Portugal & Colónias”. Como aluno, não deixou saudades aos professores, nem marcas de grande mérito pelas pautas. Entre o 10 e o 13, oscilavam as suas classificações. Estudava o mínimo, gozava o máximo e divertia-se quanto podia. E teve sucesso na vida, diga-se.

Um dia, levou-me a uma festa da Casa de Trás-os-Montes, na Feira Popular. A certo passo, depois de muitos copos, saídos de pipos vindos do Norte, vi-o de braço dado com um senhor que à época me pareceu idoso, rotundo, em troca galhofeira de graças. Reconhecendo o seu parceiro de conversa, adverti-o, em voz baixa “Tu sabes quem é esse tipo? É o almirante Quintanilha de Mendonça Dias, ministro da Marinha!”. O Alexandre não se assustou: “Ai é? Olha que é um bom copo!”. E lá continuou na conversa animada com o marinheiro, ambos já um pouco toldados. Tinham concluído que eram conterrâneos, imaginem!

O Alexandre ficou famoso quando, um dia, foi expulso no meio de um exame. O professor era o José Maria Gaspar, à época alto dirigente do Benfica. A cadeira era “Política Social”. Discutiam-se os incentivos ao trabalho no “Ultramar”, em especial os métodos para evitar a instabilidade na fixação dos trabalhadores, que andavam de emprego em emprego, à busca das melhores condições. Na sua “sebenta”, José Maria Gaspar elencava uma dezena de medidas possíveis. Com a matéria “colada com cuspo”, como então se dizia, o Alexandre recordava-se apenas de duas ou três. O Gaspar insistia, mas da memória do Alexandre, embotada pela borga da véspera, não saía nada. Salvo, a certo ponto, esta “pérola”: “Bom, se o patrão lhes arranjar umas pretinhas para animar as noites, eles são capazes de não se irem embora!”. Recordo, visto da plateia, o momento de “suspense”, o braço estendido do Gaspar, a acompanhar o sonoro e irado “Ponha-se já lá fora, seu ignorante!”, connosco a sair da sala num roldão, atrás do Alexandre, em gargalhadas contidas até ao corredor, onde os mármores da ala nova da Junqueira fizeram ecoar em uníssono a nossa solidariedade com aquela magnífica (hoje politicamente incorreta, eu sei!) “trouvaille”.

Mas voltemos à casa da rua das Praças, por cuja porta, como disse, há pouco passei. Num desses dias da despedida da década de 60, num fim de tarde, o pessoal mais apto do lar de estudantes tinha conseguido “engatar”, na rua, um bando de inglesas que andavam de passeio por Lisboa. Escudadas umas nas outras, elas havia tido a ousadia de aceitar o convite para “visitar” o lar e “ver a vista do Tejo”, entrando naquele antro exclusivamente masculino. Eram muitas e a notícia correu célere. Foi chamado “em reforço” pessoal do Quelhas, da rua da Paz e de Alcântara, e logo montado um baile “à maneira”. As “bifas” alinhavam, de bom grado, já com uns copos à mistura. A noite prometia.

O Alexandre ferrou logo uma, uma ruiva saltitante. As coisas “foram andando” no adequado ambiente de “slows”, até que, num determinado momento de uma dança, ouviu-se-lhe, alto: “Esta gaja parece parva!”. A inglesa era simpática, muito sorridente e parecia bastante satisfeita, nos braços do Alexandre. Por isso, toda a gente estranhou o seu comentário, ele que era normalmente educado para com as damas. Mas ambos continuaram a dançar, embora o Alexandre estivesse com “cara de caso”. Minutos depois, voltou a queixar-se: “Não percebe nada, esta tipa!”.

Alguém procurou então esclarecer o mal-estar do Alexandre. E ele explicou: tinha pedido um beijo à inglesa e ela só se ria. E contava, desgostoso: “Eu digo-lhe ‘smile me’ e ela ri-se!” 

Não sei se, depois de alguém ter explicado ao Alexandre que devia ter dito “kiss me”, a tarde romântica luso-britânica se compôs. Só sei que a historieta ficou para sempre na (nossa) antologia de histórias de amigos. Como terá entretanto evoluído o Inglês do Alexandre?


(Dedico esta prosa ao meu amigo Manuel Amorim Carvalho, que conhece estes episódios melhor do que ninguém)

Liberdades



Quem quiser pode não gostar da fotografia que acabo de tirar do meu jardim. Não se livram, contudo, de que eu diga que têm mau gosto.

Escribas

Nas redes sociais, surgem uns fulanos a afirmar que o destino da sua vida é escrever e que a escrita lhes ocupa tanto tempo que praticamente...