Para o meu pai, que me deixou há uma década, não muito longe do bater da badalada dos seus cem anos, o dia 21 de dezembro era sempre uma alegria: "A partir de hoje, cada dia traz-nos mais dia". Referia-se aos minutos acrescidos de luminosidade que, a partir dessa data, se iam ganhando. Nessa mesma lógica, para ele, o período mais triste do ano era o outono, quando se notava mais que os dias começavam a encurtar. Se eu lhe falava dos meus invernos noruegueses, em que entrava na embaixada ainda na escuridão e, depois de uma jornada contínua, saía já de novo com noite, ele exclamava: "Eu dava em doido!". A luz do dia, para ele, era fundamental. E irritava-se quando eu lhe gabava a beleza dos fins de tarde de outubro, com uma chuvinha leve e os candeeiros já acesos, naquela hora de pré-recolhimento ao conforto da casa: "A noite é uma chatice!", sentenciava, bem sabedor de que as noitadas até de madrugada eram a minha perdição, desde a adolescência, a ouvir rádio e a ler. Nunca se reconciliou com isso, achando (e bem) que eu passei toda a minha vida a desprezar as manhãs: "A luz natural é tudo". Desde miúdo que me lembro de ouvi-lo contar que, à hora da morte, Goethe tinha pedido "mais luz!" E o meu pai acrescentava sempre: "Há, claro, uma explicação filosófica para essas últimas palavras. Eu acho, contudo, que ele apenas queria que abrissem as cortinas da janela..."
segunda-feira, fevereiro 13, 2017
domingo, fevereiro 12, 2017
No inverno
Continuando num registo de roupa, ontem brincava com um amigo a propósito do seu magnífico sobretudo bege, coisa "fina", da "Burberry", que devia ter custado uma nota.
E lembrei-me da história que o meu amigo Chico Trindade Lopes costuma contar, sobre uma figura popular de Viana do Castelo, dos anos 60 e 70.
Era o Vilaça, "chofér de praça" que parava na avenida central da cidade, creio que em frente ao "Viana Mar". O que mais distinguia o Vilaça era a sua voz rouca, cava, em que dizia graçolas num tom inconfundível e único. O pessoal mais novo mandava-lhe umas bocas, a que o Vilaça reagia à sua maneira, às vezes um tanto bruta.
Um dia, no tempo frio, o Vilaça surgiu com um longo sobretudo azul, comprido, de grande estilo. A surpresa geral com aquele novo adorno do Vilaça, que contrastava com a modéstia da roupa do resto do ano, foi imensa. O sobretudo era mote para graças, mas o Vilaça não se deixava abater com elas. E, naquela sua rouquidão funda, o Vilaça respondia, forte e desafiante, ao pessoal: "No inverno é que se vê quem tem roupa!". E arrumou a conversa! Grande Vilaça!
E lembrei-me da história que o meu amigo Chico Trindade Lopes costuma contar, sobre uma figura popular de Viana do Castelo, dos anos 60 e 70.
Era o Vilaça, "chofér de praça" que parava na avenida central da cidade, creio que em frente ao "Viana Mar". O que mais distinguia o Vilaça era a sua voz rouca, cava, em que dizia graçolas num tom inconfundível e único. O pessoal mais novo mandava-lhe umas bocas, a que o Vilaça reagia à sua maneira, às vezes um tanto bruta.
Um dia, no tempo frio, o Vilaça surgiu com um longo sobretudo azul, comprido, de grande estilo. A surpresa geral com aquele novo adorno do Vilaça, que contrastava com a modéstia da roupa do resto do ano, foi imensa. O sobretudo era mote para graças, mas o Vilaça não se deixava abater com elas. E, naquela sua rouquidão funda, o Vilaça respondia, forte e desafiante, ao pessoal: "No inverno é que se vê quem tem roupa!". E arrumou a conversa! Grande Vilaça!
A idade da bombazine
Há dias, dei-me conta de que ando, cada vez mais, de calças de bombazine. No passado, a bombazine era, para mim, sinónimo de fim-de-semana. Recordo-me de brincar dizendo que "calças de bombazine, camisolas de losangos e o Expresso na mão" eram o "traje" oficial de certos cavalheiros frequentadores das Pousadas, nos sábados e domingos "off season". Um amigo costumava gozar com outro, que vivia em Londres, e que era useiro e vezeiro em andar de blazer com calças de bombazine, com ou sem lencinho a pingar do bolso, que "ele se vestia como ele achava que os ingleses se vestiam".
Agora, mais do que uma vez por semana, vejo-me de calças de bombazine, do Outono ao fim da primavera. Como não tenho um "from-nine-to-five" regular, concluí que as calças de bombazine são como que um traje da reforma, por mais ativa que ela seja. Pronto, entrei na idade da bombazine. E, estranhamente, dou-me muito bem com isso.
sábado, fevereiro 11, 2017
Acordo & desacordo
("Por que é que te vais meter, uma vez mais, nesse vespeiro que é a discussão sobre o Acordo Ortográfico?", comentou ontem um amigo a quem disse que ia escrever sobre o assunto. "Porque não quero dar razão a quem acha que tenho vontade de ser consensual", respondi-lhe.)
Concordo com o que Augusto Santos Silva disse sobre o Acordo Ortográfico - um tratado internacional aprovado pelo governo português, aprovado esmagadoramente pela Assembleia da República, ratificado pelo presidente da República e com os instrumentos de ratificação devidamente depositados. Um instrumento jurídico que está, desde há vários anos, em vigor na ordem jurídica portuguesa, adotado no ensino oficial, usado pelos serviços do Estado, por muita comunicação social e por milhões de cidadãos - entre os quais me incluo.
Reconheço que há quem não goste do Acordo. Estão no seu pleno direito e ninguém, aliás, os obriga a orientarem-se pelas suas regras. Mas não admito argumentos de autoridade - por exemplo, atirarem-nos à cara com os escritores que se recusam a adotá-lo. Em democracia não há "assinaturas" qualificadas, vozes que têm mais peso do que as de outros. Era só o que faltava!
É sabido que a história dos anteriores acordos ortográficos passou também pelo seus contestatários, pessoas a quem as mudanças provocaram seguramente dores de cabeça (seguramente curadas com algo comprado nas "pharmácias"....) Os acordos, como sempre se provou, são feitos para as gerações seguintes. Ninguém gosta, naturalmente, de mudar a maneira como aprendeu a escrever.
Custa-me dizer isto, mas acho que o militantes anti-Acordo se estão progressivamente a assemelhar aos nossos monárquicos, promotores obstinados de uma causa que, embora já perdida, entendem dever continuar a alimentar. Desejo-lhes idêntica sorte.
(Vá! E agora, quem quiser pode desancar-me com paletes de consoantes mudas e de telhas circunflexas de que sentem tantas saudades...)
sexta-feira, fevereiro 10, 2017
Obra aberta
Chama-se "Obra Aberta" e é um programa da "Rádio Renascença", gravado com público no Centro Cultural de Belém, transmitido cada segunda-feira, às 23 horas.
Ontem coube-me emparceirar com o professor e escritor Helder Macedo, que coincide ser um bom amigo poessoal.
A conversa, de cerca de uma hora, moderada por Maria João Costa, versou sobre livros. No meu caso, deixei algumas notas da minha ligação umbilical a essas folhas ligadas em forma de volume, de que vivo rodeado. E falei de alguns dos muitos livros (porque são mesmo muitos!) que ando a ler.
Quer o Helder Macedo quer eu coincidimos na recente e excelente biografia de Manuel Teixeira Gomes, de José Alberto Quaresma. Aproveitei para chamar a atenção para um interessante estudo que o Helder faz sobre Teixeira Gomes no seu recente "Camões e outros contemporâneos". E dei a minha impressão sobre as razões que podem ter motivado o relativo apagamento da figura muito interessante de escritor, diplomata e político que Teixeira Gomes foi - mas, sobre isso, direi algo daqui a dias.
Depois, falei do magnífico "O impostor", de Javier Cercas, já publicado há algum tempo, um retrato de uma figura bizarra da pequena história contemporânea espanhola, num recorte trágico-irónico sobre esse tema de difícil tratamento que continua a ser a sua sangrenta Guerra Civil. De Cercas, notei também a recente reedição do "Soldados de Salamina" e lembrei a importância da leitura do "Anatomia de um instante", um livro já com alguns anos, imprescindível para entender o significado profundo da "tejerada" de 23 de fevereiro de 1981.
Finalmente, dei conta do surgimento do "Tenho cinco minutos para contar uma história", de Fernando Assis Pacheco, uma coletânea de histórias lidas pelo próprio na rádio, em 1977/78, que acaba de sair, agarrando temas do quotidiano, numa linguagem ágil, rica, com o humor e a ironia que eram a imagem de marca dessa figura fascinante que nos deixou com menos de 60 anos.
Fiquei com a sensação de que aquela hora foi demasiado curta para o muito que os livros nos trouxeram à ideia. Mas o ótimo é inimigo do bom e foi muito bom ter estado à conversa com o meu querido amigo Helder Macedo.
Ontem coube-me emparceirar com o professor e escritor Helder Macedo, que coincide ser um bom amigo poessoal.
A conversa, de cerca de uma hora, moderada por Maria João Costa, versou sobre livros. No meu caso, deixei algumas notas da minha ligação umbilical a essas folhas ligadas em forma de volume, de que vivo rodeado. E falei de alguns dos muitos livros (porque são mesmo muitos!) que ando a ler.
Quer o Helder Macedo quer eu coincidimos na recente e excelente biografia de Manuel Teixeira Gomes, de José Alberto Quaresma. Aproveitei para chamar a atenção para um interessante estudo que o Helder faz sobre Teixeira Gomes no seu recente "Camões e outros contemporâneos". E dei a minha impressão sobre as razões que podem ter motivado o relativo apagamento da figura muito interessante de escritor, diplomata e político que Teixeira Gomes foi - mas, sobre isso, direi algo daqui a dias.
Depois, falei do magnífico "O impostor", de Javier Cercas, já publicado há algum tempo, um retrato de uma figura bizarra da pequena história contemporânea espanhola, num recorte trágico-irónico sobre esse tema de difícil tratamento que continua a ser a sua sangrenta Guerra Civil. De Cercas, notei também a recente reedição do "Soldados de Salamina" e lembrei a importância da leitura do "Anatomia de um instante", um livro já com alguns anos, imprescindível para entender o significado profundo da "tejerada" de 23 de fevereiro de 1981.
Finalmente, dei conta do surgimento do "Tenho cinco minutos para contar uma história", de Fernando Assis Pacheco, uma coletânea de histórias lidas pelo próprio na rádio, em 1977/78, que acaba de sair, agarrando temas do quotidiano, numa linguagem ágil, rica, com o humor e a ironia que eram a imagem de marca dessa figura fascinante que nos deixou com menos de 60 anos.
Fiquei com a sensação de que aquela hora foi demasiado curta para o muito que os livros nos trouxeram à ideia. Mas o ótimo é inimigo do bom e foi muito bom ter estado à conversa com o meu querido amigo Helder Macedo.
E se a Europa...
Há dias, alguém notava que, em escassas
dezenas de anos, foi possível incutir no sentimento nacional a noção de que não
há um futuro para Portugal fora da Europa. O projeto integrador passou a fazer
parte do “politicamente correto” português, constituindo uma bizarria insana
querer desenhar, for a dele, alternativas para o nosso destino coletivo. De
certo modo, a Europa, como alguns já tinham defendido, foi a substituição do
projeto imperial, colonial ou ultramarinista – dependendo do arrebatamento histórico
de cada um.
Durante muito tempo, o PCP era a única
força política que, começando por não acreditar na possibilidade de Portugal entrar
nas então Comunidades Europeias, defendeu, a partir da adesão, uma integração relutante, marcada por um
soberanismo que pedia meças à direita mais cética. Não deixa de ser irónico que
uma força política tributária de uma cultura histórica internacionalista se
tenha acabado por transformar no partido paladino das fronteiras, defensor da
preferência nacional, feroz crítico da globalização, oposto à NATO. Ninguém
espere, contudo, que eu especule, a partir daqui, com a nova agenda americana que
há dias nos saiu em rifa…
Hoje, o país está “colonizado” pela ideia
europeia, tida como referente da democracia de que usufruimos, fonte de ajudas
das quais Portugal parece não poder prescindir, terreno de partilha de valores
que marcam a nossa opção civilizacional. Dos vários patamares de integração – e
nós estamos em todos – aquele que oferece mais dúvidas é o da moeda única, sendo que
Schengen também tem os seus detratores. Mas a opção europeia faz parte da nossa
paisagem indiscutida como país.
Portugal tem 900 anos, a nossa integração
na Europa tem quarto décadas. Portugal existiu, como Estado soberano e independente,
muito antes de quaisquer ideias de unir as nações do continente. Vale agora a
pena fazer uma pergunta incómoda: e se a União Europeia, tal como a conhecemos
vier a diluir-se ou mesmo a acabar como projeto politico? Que Portugal há para
além da Europa?
Esta provocação tremendista, que há alguns
anos pareceria ridícula, não pode deixar de ser feita. A capacidade de
manutenção de Portugal no euro é vista, por muitos, como duvidosa. Os sinais de
que uma Europa com regresso das fronteiras pode vir a nascer são muito fortes.
Marine Le Pen anuncia, em caso de vitória, um referendo sobre a permanência da
França na União Europeia – o que, por si só, significaria um inevitável cisma
com a Alemanha. Noutros países acumulam-se dúvidas sobre o projeto comum. Do
outro lado do Atlântico, os sinais de uma desafetação face ao nosso projeto integrador
são mais do que evidentes – e nós sabemos que a América é um poder europeu.
Como cereja no topo do bolo, há que pensar que, em Portugal, o sentimento
eurocético só tem condições para prosperar.
Falaremos mais sobre isto.
quinta-feira, fevereiro 09, 2017
Da vida
Às vezes, somos tentados a pensar que, por uma análise racional ou racionalizada, somos capazes de superar traumas fortes que ocorreram na nossa vida. Cada vez me convenço mais de que isso é uma ilusão: podemos pôr entre parêntesis esses episódios, mas as cicatrizes lá ficaram e, quando olhamos para elas, a memória surge tão ferida como estava nesse instante.
Vem isto a propósito do 25 de abril.
As memórias dessa data são muito díspares. Para alguns, como é o meu caso, olho para a data com um sorriso histórico e, pela alegria que ela me proporcionou, chego a absolver com alguma ligeireza alguns erros imperdoáveis que então se (e o "se" aqui também é reflexo) cometeram.
Mas quando me confronto com gente que, por vezes sem culpa própria, sofreu na pele as consequências da Revolução, seja por ter visto interrompida a sua vida nas colónias, seja por eventos traumáticos, disruptores da normalidade do seu quotidiano de então em Portugal, fico com a sensação de que nunca será possível, por maior esforço que essas pessoas façam, conseguir que elas passem uma esponja sobre a memória negativa que transportam consigo.
Na maioria das vezes, nem sequer estamos perante "fascistas" encapotados, remoendo vinganças e ansiando por um impossível retorno aos dias da ditadura. Estamos face a pessoas conservadoras, que vivem bem o país democrático de hoje, que apenas nunca se reconciliaram com o que um dia lhes aconteceu, afetando o que tinham por normal nesse seu quotidiano. Não vale a pena, com essas pessoas, tentar argumentar, procurar discutir o passado que, entretanto, e em definitivo, mudou. É um exercício desgastante e inútil para os dois lados, conducente mesmo a potenciais momentos desagradáveis, que a nada conduzem.
Para voltar ao princípio deste texto, o sentimento que vive dentro dessas pessoas não muda, não mudará nunca através de uma discussão, morrerá com elas.
Lembrei-me disto numa conversa que hoje tive.
quarta-feira, fevereiro 08, 2017
Labirinto
Ainda a propósito das "secretas", que já hoje aqui referi, lembrei-me de um amigo com quem falo muito raramente. Quase sempre, é ele quem me liga.
Desde os anos 80, altura em que o conheci, as suas conversas telefónicas são sempre tidas sob o implícito pressuposto de que estamos a ser escutados. O que até pode ser verdade, mas é totalmente irrelevante, porque os temas de que falamos são de lana crapina e, não tendo nós qualquer informação privilegiada no domínio político (o que dá imenso sossego), os nossos diálogos acabam por ter a profundidade de meros comentários de jornal - sobre o governo, figuras políticas, diplomatas que ele conheceu, etc.
Mas ele insiste sempre: "Então o seu amigo de lá de cima sempre aceitou o cargo?". Confuso, arrisco um nome e, do outro lado, quase que pressinto o desagrado com o escusado "outing". Por vezes, o tom envolve gente assim "desenhada" de forma críptica que aquilo se torna para mim num labirinto, uma espécie de batalha naval oral.
E a conversa prolonga-se, sempre, sem exceção, no mesmo registo: "Disseram-me que, há dias, esteve a almoçar junto ao rio com o homem do banco?".
Se a interlocução estivesse, de facto, a ser gravada, e com os bancos pelas ruas da amargura como andam, podia deduzir-se grossa marosca. Com que então "com o homem do banco"?! Negócios? "Inside trading"? Crédito suspeito? Mas não, tratava-se simplesmente de um amigo meu que trabalha num banco (atividade, até ver, ainda não punível por lei), que já não via há muito tempo e com quem fui comer um peixe a um restaurante, junto ao Tejo, com imensa gente conhecida à volta. Chato, confirmei: "Sim, é verdade, estive com Fulano a a almoçar há dias". O silêncio reprovador do outro lado da linha deu a entender que eu tinha feito mais um escusado "leak". E tudo continua nesse registo, tornando a conversa num labirinto complicado.
É assim este meu amigo. Há dois ou três anos, organizámos - eu e um grupo de pessoas de quem ele gosta - um almoço num restaurante. Aí, a coreografia foi diferente. Quando pronunciava o nome de alguém mais importante, via-o a olhar para os lados, porque, sabe-se lá, "as paredes têm ouvidos"...
Aquele meu amigo é que deveria ter ido para as "secretas".
Memória pessoal dos tratados europeus
Fez ontem 25 anos que foi assinado o Tratado de Maastrich. Dei por mim a pensar onde estava ao tempo dos grandes documentos estruturantes da integração europeia.
Imagino que, em 1957, quando foi assinado o Tratado de Roma, eu me dedicasse laboriosamente a completar a minha "terceira classe", em Vila Real, na "escola do trem", sob a orientação do professor Pena. A única Europa que me interessava estava toda no "Cavaleiro Andante", cuja coleção completa (ora pois!) está agora ali à minha frente, bem encadernada.
Nos tempos do Tratado de Maastricht, em 1992, eu andava por terras já então bem relutantes ao exercício, isto é, vivia em Londres. Lembro-me bem do primeiro-ministro John Major, qual Chamberlain a agitar o papel da paz, a chegar, exultante, ao reino, proclamando "game, set and match!". Está-se agora a ver melhor o resultado real da partida.
Três anos depois, ao tempo em que eu era subdiretor-geral dos Assuntos Europeus, André Gonçalves Pereira convidou-me para ser o seu "deputy" no "Reflexion Group" que a União Europeia tinha entretanto criado para preparar a revisão do Tratado de Maastricht. A meio desse processo, tornei-me secretário de Estado dos Assuntos Europeus. No ano seguinte, seria o "chief negotiator", por Portugal, do novo tratado que resultou da Conferência Intergovernamental que, entre 1996 e 1997, fixou o Tratado de Amesterdão.
Passaram três anos. A União Europeia, decidiu lançar uma nova revisão dos tratados. Portugal, na sua presidência em 2000, dirigiu o lançamento e o primeiro semestre de trabalhos da nova Conferência Intergovernamental (CIG). Presidi à CIG nos primeiros seis meses e voltei a ser o "chief negotiator" daquele que viria a chamar-se o Tratado de Nice, concluído em dezembro desse ano.
Mais três anos passaram. Eu era embaixador na OSCE, em Viena. Aceitei o convite que o governo de então me formulou para integrar uma "task force" para o "aconselhar" nas negociações do malogrado Tratado Constitucional. Já estava embaixador em Brasília quando os referendos negativos na Holanda e em França fizeram naufragar esse projeto.
E no Brasil continuava quando, sob presidência portuguesa, em 2007, foi adotado o Tratado de Lisboa, uma visão reciclada e disfarçada do Tratado Constitucional. Tenho o gosto de constatar que não fiz parte dos "tratantes" desse que é o mais funesto documento da história da integração europeia, que não tenho o menor orgulho que leve o nome da nossa capital.
Esta é a minha memória pessoal dos tratados europeus. Ela aqui ficou.
terça-feira, fevereiro 07, 2017
Secretas
O Conselho de Fiscalização dos Serviços de Informação pronunciou-se a favor da fusão entre o SIS e o SIED.
Tenho a maior das dúvidas sobre a autoridade dos pareceres desta entidade que, ao longo dos tempos, mostrou uma eficácia mais do que duvidosa, sendo "toureada" sistematicamente por aqueles a quem competia vigiar.
Se o Conselho de Fiscalização fizesse melhor aquilo que realmente lhe compete, talvez pudesse ter evitado escândalos que mancharam a imagem interna e externa desses serviços. E de Portugal, por tabela - e sei do que falo, porque senti isso lá por fora.
Leio na imprensa de hoje que os partidos mais à esquerda não deixarão passar esta fusão. "Deus os guarde" nesta atitude que, como se sabe, desagrada a alguns seguidores do "grande arquiteto universal". E mais não digo, porque isto de secretas tem muito que se lhe diga.
Cavaco
Aníbal Cavaco Silva anuncia um livro de memórias. A editora arranjou-lhe um título modernaço, que sugere as conversas semanais com os primeiros-ministros, tidas às quintas-feiras. Vou ler, claro, não porque espere grande coisa deste volume - a julgar pelo anterior - mas porque sou um incorrigível leitor das coisas políticas. Quero com isto dizer que, à parte os não-livros (coletâneas de discursos), leio dessa área quase tudo o que sai. Confesso mesmo que li as memórias de Américo Tomás...
Este tipo de livros destina-se sempre a controlar o débito da História a respeito de quem ela trata. A menos que Cavaco Silva nos reserve alguma surpresa, não creio que este volume tenha condições de o salvar daquela que foi uma saída muito triste da política. E, curiosamente, tivesse tido ele outro comportamento como presidente (mas, nesse caso, talvez não se chamasse Aníbal Cavaco Silva) e o saldo poderia ter sido outro. Mas isso é uma longa conversa.
segunda-feira, fevereiro 06, 2017
"One point up..."
Lembrei-me dele hoje, ao ler, na imprensa americana, um perfil de Trump. Nele se diz que, com convicção ou por mera posição tática, o novo presidente americano, naquela sua arrogância sem limites, quer estar sempre numa posição de força, nunca revelar a menor fraqueza.
Foi aí que me lembrei dele, desse amigo bizarro que tive (e que já morreu há muito). Um dia, vi-o chegar muito pálido e perguntei-lhe se se sentia bem. Não obstante ser por demais evidente que estava com problemas de saúde, disse-me: "Estou lindamente, sinto-me mesmo muito bem", caindo depois, numa evidente exaustão, sobre um sofá. Calei-me. A diferença de idades e a falta de confiança não me permitiam desmontar aquele teatro.
Passaram uns tempos e os papéis inverteram-se. Eu estava com uma imensa dor de cabeça, talvez mesmo febril, e referi, em frente a ele, que me me sentia pessimamente. Com um sorriso, num argumentário que casava bem com a sua atitude anterior, ele então sentenciou: "Nunca diga isso! Nunca deixe transparecer perante outra pessoa que tem uma fragilidade, em especial de saúde. É que essa pessoa, muito provavelmente, sente-se normal, está sem padecimentos, o que imediatamente o inferioriza a si. Porque, ao pressentir que você tem um problema, ele sente-se logo superior. E nós, nas nossas relações humanas, temos de fazer um esforço para estar sempre acima dos outros". E concluiu com uma máxima em inglês que, embora profundamente pateta, nunca mais esqueci: "If you are not one point up, you are one point down". Este meu amigo, cujas "teorias" (e tinha outras) o não levaram muito longe na vida, nem sequer era má pessoa.
Foi preciso viver a experiência de Trump para me lembrar desta máxima. É que há mesmo gente assim...
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domingo, fevereiro 05, 2017
Artur Barrio
Leio que a Artur Barrio foi atribuído o Grande Prémio Arte da Fundação EDP.
Logo nos primeiros dias da minha chegada a Brasília, em 2005, dei-me conta de que a embaixada, na chancelaria e na residência, dispunha de um acervo muito interessante de pintura e gravura, de autores contemporâneos portugueses, muito maior do que em qualquer outra nossa missão diplomática no mundo. E julgo que assim continua a ser.
Ao visitar, por esses tempos, algumas casas de portugueses residentes em Brasília, ou de brasileiros com ligações ao nosso país, constatei que por lá havia também muitas outras obras bem interessantes.
Surgiu-me então uma ideia: e se organizássemos, na área de exposições da embaixada, uma mostra selecionada dessas obras? Lembrava-me de que, há muitos anos, em Maputo, o embaixador Paulouro das Neves tinha tido uma iniciativa similar, baseada nas obras na posse dos diplomatas da nossa embaixada. Ora, ali em Brasília, havia condições para fazer algo parecido, mas com muito maior dimensão e representatividade.
De há muitos anos que sou um adepto da "sopa-da-pedra", isto é, procurar organizar coisas sem ou com muito pouco dinheiro. O orçamento do Instituto Camões em Brasília era ínfimo e o que havia estava maioritariamente consignado. Havia, assim, que trabalhar "no osso". As obras seriam cedidas sem custos - e isso era já um bom ponto de partida. O nosso conselheiro cultural, Adriano Jordão, meteu mãos à obra. A diretora de uma importante galeria de arte de Brasília, Karla Osório, encarregou-se da curadoria e obtivemos, para as inevitáveis despesas de estrutura e para o excelente catálogo, da ajuda da Vivo, a operadora telefónica controlada pela então pujante PT (onde isso vai...).
Quando a Karla me trouxe a lista das obras selecionadas, deparei com o nome de Artur Barrio. Confessei-lhe - faço sempre gala de ser muito franco sobre aquilo que não sei - que nunca tinha visto nenhuma obra de Barrio, embora soubesse que ele tinha feito uma exposição em Serralves. Barrio, aprendi então, era um português que tinha ido viver para o Brasil com 10 anos. Esteve depois algum tempo em França, mas manteve sempre a nacionalidade portuguesa.
A escultura de Barrio que a Karla havia desencantado era, de facto, uma bela peça. E integrou as cerca de 70 obras com que, no dia 10 de junho de 2005, inaugurámos a exposição "Arte Portuguesa em Brasília".
sábado, fevereiro 04, 2017
Lula e FHC
Ao ver, ontem, o abraço sentido que Fernando Henrique foi dar a Lula da Silva, por ocasião da morte da mulher deste, Marisa Letícia, não pude deixar de recordar uma ocasião similar, a que assisti, quando Ruth Cardoso faleceu. Impressionou-me então a emoção transmitida no encontro entre os dois, nessa noite de junho de 2008, na Sala S. Paulo.
Ruth Cardoso era uma figura excecional que eu havia tido o privilégio de conhecer e encontrar, por mais de uma vez, em Nova Iorque, por ocasião de reuniões do "executive board" do United Nations Fund for International Partnerships, de que ela fazia parte e cujo "advisory board" integrei durante dois anos, a convite de Kofi Annan. Era uma mulher respeitadíssima e a sua súbita desaparição foi um forte abalo para o marido.
Fernando Henrique Cardoso contou-me um dia que Ruth e ele haviam convidado Marisa e Lula a passarem com eles, creio que um fim de semana, na sua "chácara" perto de S. Paulo, semanas antes de Lula da Silva lhe suceder. "Eu gosto do Lula", disse-me Fernando Henrique, que estava convencido de que um sentimento idêntico existia por parte do novo presidente. Ao que me contou, Lula havia-lhe dito que, por todo o tempo em que permanecesse na presidência, ele teria "um amigo no Alvorada". E teria dito mais: que nunca se referiria negativamente sobre o passado. Nessa conversa, num almoço a dois para que o convidei, no "Carlota", em S. Paulo, creio que em 2006, Fernando Henrique Cardoso disse-me da desilusão que tinha tido com as constantes críticas que Lula passara a fazer ao seu período presidencial. Era verdade. Lula, para exaltar os feitos da sua presidência, passava o tempo a usar uma expressão que ficou nos anais políticos: "Nunca, antes, na História deste país..." "E o Lula sabe que o presidente tem essa queixa dele?", perguntei-lhe. "Claro que sim, mas não se emenda..." E riu-se. E foram muitas as vezes em que Fernando Henrique se viu obrigado a pôr os pontos nos "ii", em declarações ou artigos de imprensa, para refutar argumentos do seu sucessor. Sempre, diga-se, com firmeza nas também imensa elegância, que é o seu excecional timbre.
E Lula sabia. Um dia, numa conversa, referi-lhe isso. Lula "chutou" para o lado: "O Fernando, na realidade, sofre é com o facto dos seus amigos políticos não virem à praça defender a sua herança política". Mas não contestou as razōes de queixa do antigo presidente, de quem, no entanto, se dizia amigo: "Tenho grande estima por ele", ouvi-o dizer por mais de uma vez. Mas nem por isso deixava de criticá-lo, porque, nisto da política, vale quase tudo...
Quero com isto dizer que acho que no recente abraço entre Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso há uma sinceridade que passa muito para além das divergências políticas que, imagino, se devem ter agravado muito nos últimos anos. São dois homens que lutaram muito por um lugar na História do Brasil contemporâneo. A História, porém, ao que tudo indica, não os deve vir a tratar da mesma forma.
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sexta-feira, fevereiro 03, 2017
Notícias do anti-americanismo
O anti-americanismo, essa velha doença infantil da esquerda europeia, que curiosamente também afeta algum pós-salazarismo, renasceu por cá de uma forma curiosa, tendo Trump como argumento. E permitiu "flic flacs" que dão vontade de rir.
Senão vejamos.
Assistimos a gente que detesta o liberalismo, e o tem por jurado inimigo, a clamar contra o "ataque à ordem liberal" que Trump empreendeu.
As críticas do presidente americano à NATO provocaram uma curiosa onda de comoção em muitos que sempre acharam que a organização era uma estrutura intrusiva e agressiva. Agora não: parece que está toda a gente num imenso "clube de amigos" da NATO.
Emocionante foi ver pessoas que passaram anos a sublinhar os malefícios da globalização verdadeiramente indignados contra a rejeição dos tratados comerciais multilaterais. Afinal, o livre-cambismo tinha por cá muitos fiéis que se mantinham "na clandestinidade".
Há também os neo-europeístas convertidos à pressa. Gente que vinha a achar que o euro era um projeto condenado, que a Europa comunitária era a fonte de todos os males, escandaliza-se com o apoio de Trump ao Brexit e as suas profecias negativas sobre a moeda única.
Há muitas e boas razões para se não gostar do novo presidente americano, mas convem ser-se sério, não vale tudo...
Do mal o menos?
Tenho saudades do tempo em que desejava que ganhassem os meus.
Tenho saudades do tempo em que, nas eleições americanas, era a favor de George McGovern, porque era a América que me entusiasmava, face às trampolinices de Richard Nixon. Agora, nas últimas eleições, fui a favor de Hillary Clinton, uma mulher a quem nunca perdoei o apoio dado a George W. Bush na invasão do Iraque, uma candidata a quem cabiam as maiores responsabilidades na tragédia da Líbia, uma das culpadas pelo estado de conflitualidade criado na Ucrânia.
Tenho saudades do tempo em que fazia figas para que o SPD alemão arrasasse a CDU aliada ao radicalismo conservador bávaro da CSU. Agora, sinto-me tentado a cantar loas a Angela Merkel, a elevá-la a expoente da consciência da moral europeia, pelo seu gesto humano perante os refugiados, depositando esperanças em que ela possa dar um mínimo de liderança a esta pobre Europa.
Tenho saudades do tempo em que vivia as presidenciais francesas como se fossem no meu país, em que me entusiasmava com Mitterrand e, mais tarde, com a possibilidade de Jospin poder colocar um ponto final às ambições do gaullismo tosco de Chirac. Depois, foi o que se viu: "votei" por Chirac para derrotar o pai Le Pen e agora, perante a inexistência de um candidato de esquerda com um mínimo de hipóteses de vitória, já me satisfaria uma figura de direita menos radical, fosse François Fillon (mas não deve ser) ou um modelo político plástico como Emmanuel Macron. O importante será conseguir derrotar a filha Le Pen na 2ª volta.
Por este andar, para evitar que os (meus) adversários da Segunda Circular vençam a Liga, ainda me verei a resignar-me a que a rapaziada das Antas tenha êxito.
Estou farto deste "do mal o menos" a que pareço condenado...
O poder da exceção
Há dois dias, ouvimos o novo responsável pela Defesa dos Estados Unidos exigir ao Irão o estrito cumprimento de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, relativa ao seu equipamento militar. Ninguém lhe ouvirá, contudo, uma palavra de exigência a Israel para que cumpra as múltiplas resoluções, aprovadas no mesmo âmbito, que o governo judaico se recusa a respeitar desde há décadas.
Os americanos foram os inspiradores da ordem multilateral em que vivemos, após a Segunda Guerra mundial. As Nações Unidas e as instituições de Bretton Woods (o Banco Mundial e o FMI) devem-se ao seu impulso. Mas é uma evidência que os Estados Unidos tiveram sempre uma leitura muito própria do seu papel no mundo: usam as instituições multilarerais tanto quando podem, delas retirando legitimidade para aquilo que corresponde aos seus interesses, mas recusam-se, por sistema, a aceitar ficar em minoria nessas instâncias, isto é, a acatar uma vontade que não seja a sua. Perante esses casos, decidem ações unilaterais (como fizeram no Iraque, em 2003) ou jogam com a asfixia financeira das organizações (como fizeram na Unesco, em 2011), não pagando as contribuições a que livremente se obrigaram. Este multilateralismo “à la carte” representa a arrogância de uma potência que tem consciência de que a sua força é um fator que pode sobredeterminar muitas coisas. E, mais do que isso, que intimida e, frequentemente, faz vergar os outros.
Note-se que este comportamento americano não é exclusivo das administrações republicanas. Com maior ou menor frontalidade, em todos os ciclos politicos de Washington houve sempre uma reserva dessa espécie de direito à “excecionalidade”. Se o “outro lado” geopolítico do mundo nunca aceitou este autoproclamado estatuto, os aliados ocidentais, temerosos e dependentes, foram-se quase sempre acomodando a este “poder de facto”.
Apesar desta sua prática, Washington nunca abandonou, sobre o seu compromisso perante o mundo multilateral, uma retórica discursiva de adesão teórica aos seus princípios. E a retórica, mesmo hipócrita, é sempre reveladora da existência de alguma saudável vergonha.
Isso, agora, parece ter acabado. A primeira declaração da nova embaixadora americana nas Nações Unidas é um atestado de rejeição frontal dos fundamentos por que se rege a comunidade internacional. A nóvel diplomata deixou claro que está ali para fazer prevalecer a vontade dos EUA na a ONU, e que “tomará nota dos nomes” dos países aliados que a tal se oponham. E outros sinais já surgiram, entretanto, denunciando que a cartada financeira será usada para condicionar o funcionamento futuro das várias estruturas da organização.
Podemos imaginar a magnitude da tarefa que aguarda António Guterres num contexto como este. Só lhe podemos desejar sorte, porque coragem sabemos que nunca lhe faltará.
quinta-feira, fevereiro 02, 2017
Irresponsabilidade
Espero que o Estado português encontre meios para poder ressarcir-se das despesas em que incorre quando lança operações de salvamento para o bando de irresponsáveis que vai para desportos no mar, em tempo de tempestade, ou arriscam passear ou fotografar em zonas proibidas, pondo também em risco as vidas das forças públicas encarregadas do seu resgate.
Sucedâneos
Hoje, em mais um grande texto no Diário de Notícias, Ferreira Fernandes lembra o filme de Elia Kazan, "America, América", a célebre expressão do imigrante ao chegar à vista de Manhattan.
Uma noite, em Nova Iorque, fui convidado para um jantar com a mulher de Elia Kazan, inglesa, a qual, creio, estava acompanhada por uma filha. Kazan ainda era vivo, mas já não saía de casa. O jantar - espero que a minha memória me não traia - era em casa dos embaixadores turcos. Kazan nasceu em Istambul.
Eu teria tido grande curiosidade em conhecer Kazan, não apenas porque ele era um génio do cinema, mas porque teria assim o ensejo de me cruzar com alguém que havia tido um comportamento miserável, aquando do sinistro Comité das Atividades Anti-Americanas, denunciando colegas ao macartismo.
Mas Kazan não estava lá. Os convidados estavam reunidos à volta da sua mulher. Que estava ali, claramente, apenas por ser mulher de Kazan, nome que veio à baila uma única vez, numa breve referência. A ocasião era assim, manifestamente, sem objeto. Foi uma noite que recordo como algo pífia.
Vinte anos antes, em Oslo, eu havia sido convidado para jantar com um chileno, refugiado há poucos meses na Noruega. Ele era a estrela do jantar, muito por se saber que era primo da famosa secretária de Allende, a Payita.
A certo passo, dei-me conta do ridículo da situação: todos olhávamos, com alguma reverência política, para aquela figura, apenas e só pelo parentesco que tinha. (Acabaríamos por nos tornar bons amigos). O nome da Payita acabou por nunca vir à conversa.
À saída, o amigo que me levara ao jantar notou que eu não fizera quaisquer perguntas sobre a Payita. Respondi-lhe: "O que é que tu querias que eu perguntasse? Talvez: 'olha lá! E que tal era a tua prima?' " Acabámos às gargalhadas.
Isto de gente um bocado "ao lado" é como o queijo "tipo Serra"...
Uma noite, em Nova Iorque, fui convidado para um jantar com a mulher de Elia Kazan, inglesa, a qual, creio, estava acompanhada por uma filha. Kazan ainda era vivo, mas já não saía de casa. O jantar - espero que a minha memória me não traia - era em casa dos embaixadores turcos. Kazan nasceu em Istambul.
Eu teria tido grande curiosidade em conhecer Kazan, não apenas porque ele era um génio do cinema, mas porque teria assim o ensejo de me cruzar com alguém que havia tido um comportamento miserável, aquando do sinistro Comité das Atividades Anti-Americanas, denunciando colegas ao macartismo.
Mas Kazan não estava lá. Os convidados estavam reunidos à volta da sua mulher. Que estava ali, claramente, apenas por ser mulher de Kazan, nome que veio à baila uma única vez, numa breve referência. A ocasião era assim, manifestamente, sem objeto. Foi uma noite que recordo como algo pífia.
Vinte anos antes, em Oslo, eu havia sido convidado para jantar com um chileno, refugiado há poucos meses na Noruega. Ele era a estrela do jantar, muito por se saber que era primo da famosa secretária de Allende, a Payita.
A certo passo, dei-me conta do ridículo da situação: todos olhávamos, com alguma reverência política, para aquela figura, apenas e só pelo parentesco que tinha. (Acabaríamos por nos tornar bons amigos). O nome da Payita acabou por nunca vir à conversa.
À saída, o amigo que me levara ao jantar notou que eu não fizera quaisquer perguntas sobre a Payita. Respondi-lhe: "O que é que tu querias que eu perguntasse? Talvez: 'olha lá! E que tal era a tua prima?' " Acabámos às gargalhadas.
Isto de gente um bocado "ao lado" é como o queijo "tipo Serra"...
Dona Marisa
Marisa Letícia foi uma mulher muito bonita. Lula conheceu-a quando era dirigente sindical. Um dia, ela surgiu no seu escritório, como viúva, para tratar de uma questão relativa ao seu falecido marido. Lula confessou mais tarde que "complicou" o processo para forçá-la a ir por lá mais vezes... E casaram.
Era uma mulher simples. Mostrava-se sempre pouco à vontade no cargo de "primeira dama", cujos rituais cumpria a custo. Evitava, tanto quanto podia, ocasiões sociais e nelas, como é sempre típico de quem assim se sente, colava-se a amigos ou a quem lhe desse alguma atenção.
Era muito protetora de Lula e, em especial, uma feroz fiscalizadora dos seus abusos: "Se dona Marisa autorizasse, eu pedia uma aguardente portuguesa aqui ao nosso embaixador", recordo-me de ouvir, um dia, de Lula, num jantar oferecido na nossa residência em Brasília. E ela anuiu, sorrindo.
Marisa era ferozmente "petista" e teve a ousadia, algo irresponsável, de pedir ao jardineiro do palácio de Alvorada desenhasse no jardim, num canteiro, uma estrela de flores vermelhas, o símbolo do PT, episódio que deu algum escândalo.
Quero crer que Lula, sem dona Marisa a seu lado, sentir-se-á ainda mais fragilizado, neste tempo, político e pessoal, altamente complexo que atravessa. Para o meu amigo Luiz Inácio Lula da Silva, deixo um abraço sentido de pesar pela morte de dona Marisa.
Era uma mulher simples. Mostrava-se sempre pouco à vontade no cargo de "primeira dama", cujos rituais cumpria a custo. Evitava, tanto quanto podia, ocasiões sociais e nelas, como é sempre típico de quem assim se sente, colava-se a amigos ou a quem lhe desse alguma atenção.
Era muito protetora de Lula e, em especial, uma feroz fiscalizadora dos seus abusos: "Se dona Marisa autorizasse, eu pedia uma aguardente portuguesa aqui ao nosso embaixador", recordo-me de ouvir, um dia, de Lula, num jantar oferecido na nossa residência em Brasília. E ela anuiu, sorrindo.
Marisa era ferozmente "petista" e teve a ousadia, algo irresponsável, de pedir ao jardineiro do palácio de Alvorada desenhasse no jardim, num canteiro, uma estrela de flores vermelhas, o símbolo do PT, episódio que deu algum escândalo.
Quero crer que Lula, sem dona Marisa a seu lado, sentir-se-á ainda mais fragilizado, neste tempo, político e pessoal, altamente complexo que atravessa. Para o meu amigo Luiz Inácio Lula da Silva, deixo um abraço sentido de pesar pela morte de dona Marisa.
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Hidrocrise
Por vezes, não nos damos conta das consequências trágicas que a falta de água pode acarretar.









