sexta-feira, março 11, 2011

Gastronomia portuguesa

Foi há já quase quatro décadas que visitei, pela primeira vez, o restaurante viseense "O Cortiço", onde, à época, proponderava a figura jovial e acolhedora de "dom" Zeferino, entretando desaparecido. Depois disso, sem regularidade mas sempre com muito gosto, passo, às vezes, por lá.

Hoje, vim encontrar essa excelente cozinha beirã na inauguração da semana gastronómica que a Rádio Alfa, em Créteil, nos arredores de Paris, organiza desde há sete anos, e à qual traz expoentes da restauração nacional.

Esta iniciativa do comendador Armando Lopes, uma personalidade central da comunidade portuguesa em França, onde chegou fará este ano meio século, constitui uma inestimável colaboração para a divulgação da boa culinária portuguesa neste país.

quinta-feira, março 10, 2011

George Soros

George Soros é uma curiosa personalidade do mundo da finança internacional. Especulador e milionário americano, nascido na Hungria, é, simultaneamente, uma figura que reflete com profundidade sobre o mundo político-económico. Tem sido objeto de muitas críticas, pelo caráter das suas atividades financeiras, que lhe valeram já algumas acusações judiciais. No seu lado de filantropo cívico, desempenhou, nos anos 90, um interessante papel, através da organização "Open Society Institute", no apoio às forças democráticas dos países do centro e leste europeus.

Há muito que o leio e já foram algumas as vezes em que o ouvi - de Nova Iorque a Estrasburgo, de Londres a Genève. Tal como ontem aconteceu, ao final da tarde, numa organização da Fundação Calouste Gulbenkian, aqui em Paris, onde manteve um interessante debate com um destacado empresário francês, Henri de Castries, presidente da seguradora AXA.

As regras de assistência a este tipo de debates impedem que se cite o que neles é dito, embora possa ser adiantado que Soros, pelas ideias que defende, está muito longe de ser um liberal fundamentalista, podendo mesmo classificar-se, sem dificuldade, numa linha neo-keynesiana. Filosoficamente, afirma-se um seguidor de Karl Popper, o que, conhecidas as vantagens que o mercado lhe traz, talvez justifique o "labéu" liberal que carrega.

O único "leak" que é possível fazer do que ontem disse, porque foi a única coisa explicitamente "on the record", foi a rejeição da acusação de ter participado no "infamous" jantar (reportado pelo "Wall Street Journal"), em Nova Iorque, em Fevereiro de 2010, que teria reunido dirigentes de "hedge funds", onde, alegadamente, teria sido discutido um ataque especulativo contra o euro, no início do agravamento da crise grega, em Fevereiro do ano passado. George Soros disse ao auditório que isso não passava de uma "urban legend", que podia garantir que, na ocasião, o tema não ocupou mais de cinco minutos de discussão e que havia um pequeno pormenor, quiçá dispiciendo: não tinha estado presente nesse jantar! Para acrescentar que essa foi mais uma "invenção" típica dos jornais de Rupert Murdoch.

Um dia de otimismo

Há dias em que o nosso otimismo com o futuro do país se acentua. Hoje foi um deles.

Ofereci um almoço ao responsável da Embraer para a Europa, baseado aqui em Paris. Porque estive ligado ao processo de negociação, iniciado em 2006, que trouxe esta empresa brasileira de construção de aviões para Portugal, mantenho um grande interesse no projeto, que prevê uma fábrica em Évora, cuja construção se concluirá no final deste ano, com equipamentos em início de produção de equipamento em Agosto de 2012, envolvendo mais de quatro centenas de postos de trabalho. Sei de outras empresas, inclusivamente francesas, que têm demonstrado o seu interesse em explorarem as possibilidades de crescimento deste "cluster" aeronáutico em Portugal.

A certo passo da conversa, disse ao responsável da Embraer que, se viesse a considerar necessário, estava à disposição para facilitar, na medida das minhas possibilidades, a resolução de qualquer problema com que a empresa se defrontasse no seu trabalho nosso país. A resposta foi muito clara: a Embraer tem vindo a ter, por parte de todas as entidades oficiais portuguesas com quem tem tido contactos, desde o início do projeto, todas as facilidades requeridas e permitidas por lei, tendo podido contar com uma disponibilidade "inexcedível e constante" por parte da AICEP e do município de Évora, numa demonstração de cooperação absolutamente modelar.

Às vezes, acontecem-nos dias assim!

Mais "duas ou três coisas"

A jornalista francesa Anne Sinclair, que foi uma figura importante do jornalismo televisivo francês, é casada com o diretor-geral do FMI, Dominique Strauss-Kahn. O seu marido, conhecido na imprensa francesa pela sigla DSK, é um dos nomes mais falados como podendo vir a ser o candidato socialista às eleições presidenciais francesas, em 2012.

Sinclair alimenta, dos Estados Unidos, onde vive, um blogue, hoje cada vez mais popular. Deu-lhe o nome de "Deux ou trois choses vues de l'Amérique". Em 1997, havia escito um livro intitulado "Deux ou trois choses que je sais d'eux".

Boas escolhas "godardianas" para títulos...

quarta-feira, março 09, 2011

Padura e Trotsky

Um romance do escritor cubano Leonardo Padura, "O homem que gostava de cães", está a ter apreciável êxito em França.

Perdi a ocasião do seu lançamento em Paris e, com isso, a oportunidade de reencontrar Padura, com quem tive uma longa e interessante conversa em Havana, há quase quatro anos, num jantar proporcionado pelo meu amigo e embaixador Mário Godinho de Matos.

Padura é uma personalidade suave, com um sorriso amigável e um modo muito sereno de olhar para a realidade do seu país. Nessa conversa em 2007, demos conta que havíamos vivido em Luanda ao mesmo tempo, na primeira metade dos anos 80. O escritor fizera parte dos "cooperantes" que Cuba enviava para apoio ao regime angolano. A certo passo da noite, perguntei-lhe se, como então se especulava, esses cubanos expatriados tinham fortes incentivos económicos, bem como de apoio às famílias que deixavam para trás, como compensação pela execução da sua missão. Confirmou-me que essas atividades lhes proporcionavam, de facto, algumas vantagens mas, enfatizou, nesse tempo havia em Cuba um alargado espírito de "missão internacionalista", que mobilizava muitos dos seus compatriotas. Para acrescentar, muito realisticamente, que, nos dias que correm, esse sentimento havia desaparecido quase por completo, pelo que era praticamente impossível recrutar técnicos cubanos para ações no exterior numa base predominantemente ideológica.

Nessa bela noite de Havana, recordo bem que Padura nos falou num trabalho em que andava envolvido, em torno de documentação de Ramón Mercader, o homem que, no México, em 1940, assassinou Trotsky, às ordens de Stalin. Mercader viveu a parte final da sua vida em Havana, onde morreu, em 1978, tendo mais tarde sido sepultado, com honras soviéticas, em Moscovo.

O livro que Padura acaba de produzir centra-se na figura de Mercader. Um amigo francês, que esteve presente no lançamento da obra em Paris, que teve lugar na Casa da América Latina, dizia-me, há dias, que ele e outros acompanhantes haviam ficado siderados quando um jornalista francês ("na casa dos 40 anos", esclareceu) lhes perguntou se sabiam como se soletrava o nome de "um tal Trotsky", que Padura referira na sua intervenção. Foi pena que ninguém lhe tivesse feito notar que, na realidade, ele ouvira mal, que Padura pronunciara "Bronstein"...

De facto, o mundo já não é o que era...

Economia

A Câmara de Comércio e Indústria Franco-Portuguesa, uma estrutura jovem mas que tem desempenhado um trabalho muito positivo de apoio e agregação dos empreendedores que ligam economicamente Portugal e a França, realizou hoje, na Embaixada, a sua assembleia geral anual. Desde que cheguei a Paris, entendi que abrir-lhe as nossas portas era o contributo mínimo que poderia prestar, para além do encorajamento que, ao longo do ano, procuramos manifestar ao conjunto das suas atividades.

No início da assembleia, falei aos associados do cenário económico em Portugal. Não escondi as dificuldades existentes, mas procurei sublinhar que estamos a fazer o nosso trabalho "de casa", com rigor, com transparência, com os números sobre a mesa, porque é à luz deles, e só deles, que queremos ser julgados. Não temos a tentação de esconder a crise que atravessamos atrás da crise internacional, mas recusamos que esta seja iludida no cômputo geral da situação, como às vezes pretendem alguns avaliadores de "rating". Falei das empresas, do otimismo que tenho visto da grande parte das que por aqui contacto, da contribuição que têm dado para os números excecionais que a nossa exportação tem revelado em tempos recentes. Abordei a questão da nossa banca, da leitura que sobre ela se faz internacionalmente e do modo como a sua situação se liga com as perspetivas de evolução da nossa dívida soberana. E falei também da Europa, das suas novas fragilidades, das suas hesitações e da esperança que continuamos a colocar nesse magnífico projeto em que nos continuamos a rever. No fundo, deixei claro que, para que as dificuldades se atenuem, todos temos de trabalhar em conjunto, remando para o mesmo lado.

"Ler"

A revista "Ler", por ocasião da publicação do seu nº 100, pediu a 100 pessoas que formulassem, em poucas palavras, uma ideia para o futuro.

Aqui vai a minha contribuição: 

"A internet tem-se revelado um decisivo instrumento para a comunicação aberta entre os cidadãos, um motor de difusão cultural e um insubstituível suporte para as redes de livre informação. A comunidade internacional deveria passar a qualificar o livre acesso informático como um dos novos Direitos Humanos."

"Cavalos de Tróia"

A imprensa tem-se feito amplo eco da notícia de que os ministérios das Finanças e dos Negócios Estrangeiros franceses foram atacados por "piratas" informáticos, que terão colocado nos respetivos sistemas "cavalos de Tróia", que permitem o acesso ao conteúdo das informações acumuladas, podendo mesmo gerir parcialmente esses equipamentos. O debate prossegue agora em torno de quem poderia estar interessado nessa intrusão.

Tenho uma experiência pessoal muito concreta de uma operação idêntica, de que foi objeto o meu computador, em Maio de 2003, ao tempo em que vivia em Viena. Uma voz amiga deu-me então discreto conhecimento de que informações oriundas do meu sistema informático estavam a ser "analisadas" por terceiros. Através de uma peritagem técnica, vim a apurar que um "cavalo de tróia" tinha sido introduzido num dos computadores, à distância, através de um processo de "bombing" informático, que tinha conseguido ultrapassar o "firewall". Denunciada e exposta a marosca - nomeadamente por um artigo de imprensa -, os responsáveis pela operação recolheram, precipitadamente, a sua "pidesca" operação. Como os deuses não dormem, tempos posteriores vieram a provar que "os cavalos (de Tróia) também se abatem". Sem ou com cunhas. 

terça-feira, março 08, 2011

"Tradução" automática

Alguns leitores têm-se mostrado divertidos com certas "soluções" que resultam da utilização do mecanismo de tradução automática que passou a estar colocado no blogue (clique, à direita, em "traduire" ou "translate" para ver a versão francesa ou inglesa do blogue).

O objetivo deste sistema (gerido por uma máquina, sem intervenção humana) é proporcionar a leitores que não tenham o português como sua língua a possibilidade de perceberem, em termos muito gerais, o assunto que é abordado em cada post. Como é óbvio, não se trata de uma verdadeira tradução, mas sim de uma mera aproximação, quase palavra-a-palavra. Devo, porém, dizer que considero o saldo global muito positivo, se aceitarmos o limitado objetivo do exercício.

Reconheço que, de facto, alguns resultados obtidos pelo mecanismo acabam por ser verdadeiramente hilariantes. Por exemplo, e como notou um atento comentador, a frase "fui beber uma bica, ali ao lado" surge, em inglês, como "I was drinking a fountain, next door"...

Diplomacia europeia

Ainda neste dia internacional da Mulher, é uma excelente notícia saber que a diplomata portuguesa Ana Paula Zacarias, que já chefiou a nossa missão na Estónia e representava Portugal no Comité Político e de Segurança, em Bruxelas, acaba de ser escolhida, por concurso público aberto aos diplomatas dos 27 países da União Europeia e aos funcionários das suas instituições, para chefiar a missão da UE em Brasília. Ana Paula Zacarias conhece bem o Brasil, onde já serviu, como Cônsul em Curitiba.

Trata-se do primeiro membro da carreira diplomática portuguesa a ascender ao lugar de chefe de uma missão da União Europeia, sendo que a representação no Brasil é considerada uma das mais importantes do novo Serviço Europeu de Ação Externa. Dois outros funcionários de nacionalidade portuguesa, João Vale de Almeida e Cristina Martins Barreira, neste caso oriundos das instituições europeias, dirigem já, desde há meses, as missões junto dos EUA e do Gabão.

Um abraço amigo e votos de boa sorte, Ana Paula!

8 de março

Faz hoje precisamente 10 anos. Lembro-me bem que desci a pé a rampa do palácio de Belém, depois do ato de transição, e fui beber uma bica, ali ao lado. Já sem horas, nem audiências. Acabara uma experiência política de mais de cinco anos. Sentia ter cumprido "com lealdade, as funções que me (haviam sido) confiadas", nesses quase 2000 dias!  E voltava a poder fazer o que, decididamente, mais gosto e sei fazer.

Nesse dia, acabavam as infernais horas perdidas em aeroportos e aviões ("ao menos, aqui não há telemóveis"), as refeições à pressa, os insípidos quartos de hotel, a leitura ansiosa dos jornais ("olha! Há aqui uma crítica à nossa política europeia"), as maratonas bruxelenses, a análise, pela madrugada dentro, dos diplomas para aprovar "em Conselho", a agenda diária cada vez mais esgotante. Mas, também, as coisas conseguidas, os magníficos e dedicados colaboradores (em especial colaboradoras, já que a esmagadora maioria foram mulheres, e hoje é o dia delas!), os muitos amigos descobertos e conquistados, a certeza de que as posições portuguesas foram sempre defendidas tão bem quanto sabia e me foi possível, o privilégio de poder ter tido um "outro" olhar sobre o país.

Mas não se confunda nada disto com poder. Na maioria dos casos, neste tipo de posições, em termos de exercício efetivo de poder, o que se pode fazer é relativamente pouco: ou não há dinheiro, ou não há gente adequada e disponível, ou o peso do "sistema" nos impede, ou é a lei que não deixa. E, quase sempre, não se pode aplicar a máxima de Correia de Oliveira: "o que é legal faz-se por despacho, o que é ilegal faz-se por decreto". Não é assim, em democracia.

Olhando hoje para trás, sem a mais leve nostalgia, reconheço que foi um período muito interessante, embora, com toda a certeza, bem mais longo do que teria sido desejável. No geral, não me arrependo minimamente do que fiz, mas, em perspetiva, soubesse eu, à partida, o que sabia à saída, faria algumas coisas de uma forma bem diferente. Mas, em política, tal como no futebol, "prognósticos só no fim do jogo".   

segunda-feira, março 07, 2011

Transferências televisivas

As nossas televisões entraram numa maré de transferências, na sua área informativa. Os "craques" são "roubados" de umas às outras, a salários que a moral pública acha conveniente esconder, não vá alguém lembrar-se da crise.

Não está em causa a competência dessas pessoas, caso contrário não seriam recrutadas por tais vultuosos valores. São profissionais experimentados, com provas dadas. Só podemos desejar que façam um bom trabalho, que mostrem equilíbrio e isenção de julgamento, que consigam colocar-se acima quer das pulsões populistas quer de outras mais domésticas.

Neste tempo de transição - e valendo-me do meu estatuto de estrangeirado -, gostaria de lembrar às nossas figuras da informação televisiva duas realidades que por aqui se vêem e que por aí se não praticam:
  • os telejornais, em sociedades modernas, não duram mais de 30 minutos, com os diretos a raramente excederem um minuto. E não conheço país do mundo onde os treinos dos "grandes" do futebol sejam objeto de cobertura diária nos noticiários generalistas à hora de almoço.
  • nenhum regime democrático que eu conheça coloca os temas políticos do alinhamento noticioso a serem comentados, obrigatoriamente, por porta-vozes de todos os partidos representados no seu parlamento. É que, salvo em Portugal, há uma diferença entre informação e tempo de antena.
Infelizmente, estou certo que nenhum dos responsáveis pela nossa informação televisiva vai ter coragem para acabar com estas duas tristes realidades, entre outras típicas do "nacional-televisionismo" luso. Melhor: adivinho mesmo que terão sido escolhidos porque, implicitamente, se sabe que não ousarão tocar neste estado de coisas.

País em défice

É necessária uma experiência intergeracional para se entender bem o papel desempenhado, entre nós, pelo festival musical da Eurovisão. Há menos de um ano, falei aqui de tempos idos e do modo como o país se colava emocionalmente aos seus intépretes, eleitos como valentes guerreiros, enviados para alheios e hostis terrenos de luta.

Esse período passou, hoje o festival da Eurovisão vale apenas o que vale e há anos em que nem noto que passa na televisão. Mas talvez poucas coisas simbolizem melhor o "país em défice" em que hoje vivemos do que a qualidade dos intérpretes que, este ano, "representarão" as cores portuguesas. 

Ao observar o vídeo do grupo, sinto-me tentado a reconhecer que ele é, de facto, a melhor tradução lusa dos "Village People", que pretendem caricaturar. E ao ler a "letra" da canção, que nos traz os tempos de abril numa versão "Zé Chunga", sinto saudades do "Serafim Saudade". 

Se não fosse obsceno misturar coisas sérias com estas patetices, apetecia-me lembrar o "18 Brumário de Luis Bonaparte", onde Karl Marx escrevia que a história acontece como tragédia e repete-se como farsa. Este, pelos vistos, é o tempo dos farsantes.

... e a Líbia aqui tão perto

A embaixada portuguesa em Paris ocupa, quase por completo, um pequeno quarteirão triangular (poderá dizer-se isto?). E escrevo "quase" porque um dos cantos não nos pertence, é um edifício propriedade do governo líbio. Até há meses, funcionou ali a sua embaixada em França, que entretanto se mudou para outras instalações. Como curiosidade, note-se que a Líbia é o único país do mundo que não designa por embaixadas as suas representações diplomáticas. Aqui em Paris, por exemplo, é o "Bureau Populaire de la Grande Jamahirya Arabe Libyenne Populaire Socialiste".

Há dias, no edifício, aparentemente não ocupado, surgiu pendurada uma estranha bandeira, que causou perplexidade no nosso pessoal. Acabo de passar por lá e verifiquei que se trata da velha bandeira líbia, usada após a independência e anterior à revolução de 1969, que levou ao poder o coronel Mouammar Kadhafi. Essa é a bandeira que tem sido utilizada pelos revoltosos no país e dela deixo aqui registada a imagem.

domingo, março 06, 2011

Medeiros Ferreira

José Medeiros Ferreira é uma personalidade marcante da democracia portuguesa. Dirigente do associativismo universitário, na crise académica do início dos anos 60, e opositor à ditadura, viria a fazer um tempo de exílio, de onde, promonitoriamente, teorizou o modelo de revolta que o 25 de abril viria a seguir. Foi ministro dos Negócios Estrangeiros e deputado, dedicando-se, em paralelo, a uma carreira académica de mérito na área da historiografia contemporânea, com as questões militares e as relações internacionais no centro prioritário dos seus interesses. 

O seu pendor heterodoxo e a insistência, quase obsessiva, na livre independência crítica poderão ter contribuído para que tivesse passado ao lado de posições que merecia ter ocupado na nossa vida pública, no que o país muito teria beneficiado. Esse mesmo tropismo, associado a uma gestão peculiar de algumas das suas opções cívicas, colocou-o, frequentemente, em conflito com certas personalidades ou linhas políticas, obrigando-o a percursos bastante solitários. Mas, paradoxalmente, esse seu "defeito" é a face mais sedutora da sua forte identidade pessoal, servida por uma inteligência fina e aguda, mas quase sempre pouco complacente, como as suas aventuras pela blogosfera e pela imprensa espelham.

No passado, nem sempre estivémos de acordo, mas julgo que nos encontraremos sempre numa certa forma de ver o país e os seus interesses, no preito à amizade e na alegria de saber que ambos pensamos pela nossa própria cabeça, sem receio de dizer alto as ideias, mesmo que elas pontualmente não coincidam ou possam incomodar terceiros. E quem partilha o mesmo barbeiro pode também dar-se ao luxo de sair por vias opostas na 2ª circular.

Neste momento em que um livro celebra o seu importante percurso académico, tendo servido de pretexto para ter sido homenageado por um grupo de colegas e admiradores, aqui deixo um forte e solidário abraço ao José Medeiros Ferreira.

A tia Zé e a Líbia

Ao ver as notícias sobre os combates na cidade líbia de Brega, não pude deixar de lembrar-me da minha velha tia Zé.

Estávamos em torno da televisão, nesse agosto de 1968, em Viana do Castelo. As imagens eram da entrada das tropas soviéticas em Praga, com a subida dos tanques pela praça Venceslau, sob protestos populares.

A tia Zé vivia, desde sempre, num mundo diferente, um pouco alheado, distante daquele que nos mobilizava, frente ao televisor. Não era dada a seguir eventos noticiosos, nem  sentia estímulo para participar em quaisquer conversas que excedessem o quadro familiar ou das amizades. Por uma vez, porém, os nossos comentários e exclamações, bem como a notória brutalidade do que observava, tê-la-ão feito compreender que alguma coisa não ia bem, lá pelo mundo exterior. A certo ponto, numa pausa do noticiário, ao entrar na sala com o tradicional café de saco, de cuja feitura não prescindia, a velha senhora deixou escapar: "As coisas estão mal lá por Braga, não estão?"

Se a boa da tia Zé, com o seu mau ouvido, não tivesse deixado, há décadas, de cuidar dos dias dos outros,  imagino que hoje, ao escutar notícias sobre as movimentações militares em torno de Brega, voltaria a inquietar-se.

sábado, março 05, 2011

Juventude


Leio que os três promotores iniciais da manifestação de jovens prevista para dia 12 de Março, destinada a consagrar o protesto da chamada “geração à rasca”, são licenciados em relações internacionais. Sou levado a supor que algum deles possa ter pensado que, um dia, chegaria a ser diplomata. Também por esta razão, não posso deixar de ter uma certa simpatia pelas suas preocupações. Mas, sem querer ser paternalista, a sua iniciativa suscita-me algumas interrogações.

Reconheço, sem dificuldade, que a vida não está fácil para as novas gerações – e não só em Portugal. A democratização do ensino leva hoje às universidades uma cada vez maior percentagem de população jovem, sem que isso se traduza na sua automática empregabilidade. A retração no crescimento limita o emprego e as exigências de competitividade conduzem à opção por formas de recrutamento marcadas por elevada precariedade e instabilidade contratual.

Num tempo em que, internacionalmente, se tende a dizer que Portugal deve aceitar um receituário laboral marcado por uma maior flexibilização do mercado de trabalho, a auto-qualificada “geração à rasca” afirma o seu desejo de “direito ao emprego, o fim da precariedade e o reconhecimento das qualificações espelhado em salários e contratos justos”. Temo que estejamos perante um perigoso “wishful thinking”, induzido por algum irrealismo programático. Os tempos da densificação do modelo social em que se apoiava esse tipo de cenário idílico de segurança laboral já lá vão. Com o Estado a limitar o seu próprio crescimento e a caminhar para modelos de contratação menos constrangentes, com as empresas a tentarem garantir ganhos de competitividade para fazerem face à globalização, pergunto-me se será viável - embora fosse, sem dúvida, mais do que desejável - promover garantias ao primeiro emprego como as que são reclamadas.

Há dias, na UTAD, universidade a cujo Conselho Geral presido, pediram-me para fazer uma palestra sobre uma temática ligada a questões estratégicas internacionais. No final, dentre as cerca de duas centenas de auditores, muitas perguntas surgiram, algumas bem longe do tema da minha intervenção, centradas na própria condição laboral futura dos nossos estudantes, no termo dos seus cursos. Devo dizer que fiquei algo angustiado por não conseguir produzir respostas concretas para esses problemas, que reconheço como muito prementes e quase existenciais para esta geração.

O grupo Deolinda fez um tema musical que parece estar a converter-se no hino conjuntural deste movimento. Ele aqui fica registado. 

sexta-feira, março 04, 2011

Os livros e as vidas

Há dias, Pacheco Pereira, num artigo no “Público”, falava de um tema em que partilhamos um interesse em comum: livros. E perguntava-se, já não sei bem porquê, sobre o número de livros que cada um de nós pode vir a ler na vida – número que contrasta com a imensidão de algumas bibliotecas pessoais, impossíveis de serem "consumidas" pelo proprietário (como será, com certeza, o caso da famosa e gigantesca biblioteca do próprio Pacheco Pereira, na Marmeleira).

Esta é uma questão que já coloquei muitas vezes a mim mesmo, tendo chegado a conclusões similares às de Pacheco Pereira.

Há um raciocínio simples: se alguém, entre os 15 e os 75 anos (as idades são flexíveis, mas trata-se de uma média de 60 anos de leitura), tiver lido, com regularidade, dois livros por semana, sabem quantos livros leria no final? 6.240 livros! Pacheco Pereira chegava a uma cifra similar, concluindo, com equilíbrio, que o número máximo real não pode mesmo passar dos cinco mil livros lidos, em toda uma  vida. E, para isso, teria de ser um excelente e regular leitor. Não deixava, porém, de notar que, quando falamos de um “livro”, tanto podemos estar a referir-nos a um pequeno volume de dezenas de páginas como a um calhamaço hermético que se aproxima dos milhares de folhas.

Então, por que diabo, eu, que, em regra, não chego a ler dois livros por semana (quem me dera!) e que ainda tenho mais de uma década antes de atingir a tal idade, possuo já cerca de uma dezena de milhar de livros, na minha biblioteca?

Por razões muito simples e que, sem dificuldade, assumo: porque tenho imensos livros que comprei, na expectativa de vir a ler e que não li (e, dentre eles, muitos que nunca lerei); porque há outros que deixei a meio (por cansaço ou porque outros se tornaram mais urgentes); porque me ofereceram livros que não faziam parte das minhas prioridades de leitura (e que, por isso, não li); porque não consigo arranjar coragem para “desfazer-me” dos livros que tenho; porque, apesar de isso ir contra o mínimo de bom-senso, guardo aquilo a que Jaime Gama chama os “não-livros” (catálogos das coisas mais bizarras, obras de propaganda sobre países, livros turísticos, coletâneas oficiosas de discursos, etc). Também porque tenho muitas obras de referência - enciclopédias, dicionários, prontuários, guias e outras obras para mera consulta, que não justificam leitura completa. E porque sou um masoquista que se dedica compulsivamente à “etnologia” política, desde já previno que também tenho, lá por casa(s), coisas como todos os quatro volumes de “Últimas décadas de Portugal”, de Américo Tomás, o “Livro Verde”, do coronel Muhamar Khadafhi e outras pérolas de qualidade similar, que a injustiça fez escapar ao Nobel.

Os livros e as bibliotecas são, assim, uma perdição que merece toda a minha indulgência.

Deixo-os com uma historieta a propósito de livros. Um dia, um grande amigo meu, leitor compulsivo mas com certa moderação no que adquire e guarda, visitou a imensa biblioteca de uma conhecida figura portuguesa, que, orgulhosamente, lhe mostrava as dezenas de milhares de volumes de que era possuidor. A certo passo desse “tour du propriétaire”, o dono da biblioteca perguntou ao meu amigo: “E você? Tem muitos livros?”. Ele respondeu-lhe, com uma ponta de ironia: “Aí uns seis mil. Não mais. Mas li-os todos…”  

A lingua e as comunidades portuguesas

Em outubro de 2010, participei num seminário em Lisboa sob o tema "Língua Portuguesa e Culturas Losófonas num Universo Globalizado", promovido pela União Latina e pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Na altura, deixei neste blogue apenas o "esqueleto" da minha intervenção, feita de improviso. Alguns comentadores pediram-me o texto, que eu não tinha em forma escrita. Surgiu agora publicado um volume com as contribuições apresentadas nesse encontro, que inclui a que então fiz e que pode agora ser lida também aqui.

quinta-feira, março 03, 2011

Zero

Esta é uma história clássica do MNE.

O novo embaixador chegava a esse posto periférico, vindo do outro lado do mundo, de outra capital de idêntica dimensão. Tratava-se de uma figura que a maioria dos colegas conhecia apenas pelo nome, lido nas burocráticas páginas do "Anuário". Vivendo há muito no estrangeiro, era tido por um solitário, por não ser um homem de lóbis ou de grupos de amigos. Profissionalmente, parecia já acomodado à "slow lane" de um percurso diplomático que até começara bem, mas cuja visibilidade se fora atenuando, com o passar dos anos. Nos tempos que então corriam, parecia apostado em manter-se o mais discreto possível, "desaparecendo" perante Lisboa. Nele se tinha esfumado qualquer vestígio de ambição.

O secretário de embaixada - o único outro diplomata em serviço no posto, como sucede na esmagadora maioria das nossas representações -, que o acolhia, muito poucos dados de personalidade pudera obter sobre o seu novo chefe, apenas lhe tendo chegado que se tratava de uma figura algo peculiar no respetivo comportamento. Assim, a sua curiosidade era imensa. Cabendo-lhe servir, nos anos seguintes, sob a orientação desse embaixador, teria de estar muito atento às suas "manias", cujo controlo era essencial para um bom entendimento futuro.

No caminho do aeroporto para a residência oficial, a conversa foi vaga, sobre o clima e coisas assim. Mas, a certo ponto, as questões de serviço surgiram, perguntando ao secretário:

- E como vai a embaixada em matéria de ofícios e telegramas expedidos ? Tem alguns números do "tráfego"?

(Os "ofícios" são as comunicações escritas, enviadas pela mala diplomática semanal, e, por regra, não têm um caráter urgente. Os "telegramas" são comunicações com um grau de prioridade bastante maior. Têm esse nome porque, no passado, eram expedidas por essa via. Mais tarde, passaram à forma de textos por telex. Atualmente, seguem por e-mail. Em geral, os "telegramas" são expedidos de forma cifrada, por forma a evitar que sejam lidos por quem, eventualmente, intercepte as comunicações).

O secretário hesitou. Havia-se preparado para muitos temas, mas não estava à espera de uma questão quantitativa tão detalhada. Puxou pela memória e lá disse uns números aproximados, na casa de algumas dezenas, em cada caso. Dar-se-ia o caso do embaixador ser um furioso produtor de telegramas? Há colegas que vivem nessa angústia permanente, que inflacionam a produção informativa para terem números superiores aos de outros postos, e que, em especial no final do ano, procuram ridiculamente bater records. Seria ele desses?

Não era. Porque, de imediato, ao embaixador saiu-lhe esta "pérola", que ficou para sempre nos anais da "casa":

- Saiba o meu amigo que o  número ideal, para uma embaixada, seriam "zero" ofícios e "zero" telegramas. Isso significaria que não haveria necessidade de comunicações entre o posto e a "secretaria de Estado" (nome que damos ao MNE em Lisboa), que as relações se passariam sem a nossa intervenção, que nada haveria que reportar e que Lisboa nada precisaria de nós. Esta hipótese, contudo, só existe em tese, porque há sempre fatores a justificarem contactos, através de ofícios e telegramas.  Mas devemos reduzir as comunicações ao mínimo possível.

O embaixador não se terá dado conta que esse seu modelo de funcionamento minimalista, se levado ao extremo, justificaria o próprio encerramento das embaixadas que o praticassem.

Contudo, não conseguir essas "performances" não é sinónimo de o não tentar. Dois anos depois, em meados do ano, o telegrama em que o embaixador anunciava a partida do secretário, colocado noutro posto, iria ter o nº ... 25!

Lembrar

Seria importante que os parceiros do G7 aproveitassem para lembrar publicamente a Trump que os palestinos de Gaza e da Cisjordânia não podem...