quarta-feira, junho 17, 2009

Siza

É grande o prestígio de que Álvaro Siza Vieira desfruta em França. Ontem, ao ser-lhe atribuída a medalha de ouro da Académie d'Architecture francesa, foi impressionante ver um grande auditório, recheado das maiores figuras da arquitectura francesa, dispensar-lhe uma imensa ovação, depois de ter assistido a um filme sobre a sua obra. Siza falou, com modéstia e numa voz de portuense tímido, da sua carreira e do seu amor à profissão.

Um belo momento português em Paris.

terça-feira, junho 16, 2009

Cinema português

A propósito do "Aquele Querido Mês de Agosto", o Le Monde aborda os problemas e os sucessos da nova cinematografia portuguesa. Leia aqui.

Vinho

Contrariamente ao que se possa pensar, trazer vinhos portugueses para França não é a mesma coisa que "levar bananas para a Madeira". A qualidade da produção vinícola nacional - e não só do vinho do Porto - tem já hoje um lugar assegurado no exigente mercado francês e o seu reforço continua a constituir uma grande aposta nossa.

Ontem, com a Câmara de Comércio portuguesa em França, teve lugar uma prova de vinhos verdes portugueses, que concitou a atenção de muitos especialistas. E onde, para minha surpresa de não especialista, verifiquei a presença de vinhos verdes rosés, a corresponder a um novo gosto que o mercado parece alimentar.

Para a semana, em Bordéus, Portugal vai estar em grande força na maior feira vinícola do mundo. A França é a terra do vinho, mas Portugal tem hoje produções de grande qualidade, cuja afirmação temos de impulsionar neste mercado.

G8

"O G8 morreu, não representa mais nada. Não sei como vai ser o enterro, às vezes o enterro ocorre lentamente", disse Celso Amorim, ministro brasileiro das Relações Exteriores.

O chefe da diplomacia brasileira é um experiente político, com um conhecimento profundo da realidade internacional. As suas opiniões merecem sempre ser consideradas com bastante atenção. Mas, por uma vez, fico com a sensação de que toma os seus desejos por realidade, embalado no que foi o efeito político conjuntural da última reunião, a alto nível, do G20.

Durante muitos anos, o Brasil procurou aproximar-se do G8, não conseguindo melhor do que ser convidado para reuniões complementares do grupo dos países mais ricos. Isso foi provocando uma crescente irritação em Brasília, bem consciente de que as economias dos países emergentes cada vez mais representavam uma realidade que o modelo de "directório" do G8 não acolhia na medida merecida. A crise e a necessidade de encontrar um compromisso político susceptível de forçar medidas colectivas para lhe fazer face, a uma escala mais alargada que o G8, conduziram à reunião cimeira do G20, em Londres. Mas o sucesso dessa mesma reunião não pode iludir o facto de que, não obstante as suas virtualidades e representatividade, o G20 esteve sempre muito longe de ter uma coerência política sólida. Veremos o que sairá da sua próxima cimeira, mas,tudo indica que vamos ver criada, a prazo, uma entidade - que poderá ser um G13 ou um G14 - que pode funcionar como um G8 alargado - mas já não um G20, cujo destino funcional poderá revestir apenas a forma de modelos de coordenação ministerial. Mas, antes, haverá que ver se há consenso quanto a isto.

A menos que haja uma "revolução" no sistema de gestão político-económica global, que ainda nada indica que esteja aí ao virar da esquina, parece-me que, sobre o G8, se poderia utilizar a fórmula célebre de Mark Twain: as notícias sobre a sua morte são, por ora, muito exageradas.

segunda-feira, junho 15, 2009

Variações

Foi há 25 anos. Pouco se falava então da Sida, mas um excêntrico barbeiro de Lisboa morria já então dessa doença.

Deixou uma obra musical interessantíssima, como compositor e como intérprete, com uma voz estranhamente singular. Hoje, cantam-no alguns consagrados. Recordemo-lo no É p'ra amanhã.

domingo, junho 14, 2009

Irão

O resultado das eleições iranianas prova que a a balança pende ainda, naquele país, para um sector muito ligado à revolução islâmica dos anos 80, bastante ancorado nas zonas rurais.

Mas o que se passou durante o período eleitoral e na sua sequência, qualquer que seja o desfecho imediato que venha a ter, até em termos de repressão política, revelou que há muito mais na sociedade iraniana do que aquela caricatura de monolitismo religioso que Teerão havia feito passar para o mundo. E isso não vai ser indiferente para o próprio posicionamento futuro do Governo iraniano no quadro internacional. O Irão não é a Coreia do Norte.

Portugueses

As festas populares no seio da comunidade de origem portuguesa em França têm um carácter de grande autenticidade e de uma extrema fidelidade às raízes nacionais. Andei por várias nestes dias e pude falar com imensa da nossa gente que já tornou francês o seu sonho de vida.

Achei muito curioso nelas ver os símbolos do futebol português, com expressão nacional ou clubística, surgirem como "bandeiras" de orgulho português. Embora eu me pergunte se parte desse mesmo orgulho, expresso em alguns outros símbolos mais radicais de teor nacionalista, patente em peças de vestuário, não poderá vir a contribuir para um isolamento, no seio da sociedade francesa, de quem recorre à sua afirmação quase agressiva. A ver vamos.

A festa da Rádio Alfa, realizado no domingo, foi um desses momentos onde pressenti que os portugueses revelam hoje uma saudável serenidade face à livre e alegre expressão da sua identidade numa sociedade que, podendo pontualmente ser tentada a menorizá-los, no fundo os respeitam e até os admiram. Por razões que são cada vez mais óbvias, a França encontra, dia-a-dia, razões de sobra para reforçar essa atitude face aos "seus" portugueses.

Igualmente emocionante, mesmo para quem as coisas da fé nada dizem, foi o encontro dos portugueses que encheu a Notre-Dame de Paris, ao final da tarde de sábado, com os coros da comunidade de origem portuguesa a ressoarem, na nossa língua, naquele magnífico espaço, durante a cerimónia religiosa que lhes foi dedicada, celebrada a elevado nível eclesiástico. No final, alguns dos nossos compatriotas pediram-me para, no próximo ano, podermos ter por lá a nossa bandeira nacional. Confesso que estou hesitante: os portugueses que ali estiveram presentes são, por estas terras, a nossa verdadeira bandeira. Não é preciso nenhuma outra.

sábado, junho 13, 2009

O mal europeu

"A abstenção e a inércia cívicas continuam a ser o mal europeu por excelência. O do cepticismo, do fatalismo, desta espécie de degenerescência democrática que arruina a participação activa e pessoal do cidadão no destino da 'cidade'. Será uma desafeição deliberada pela Europa? Não! É mais a indiferença face a um destino comunitário que, desde as suas origens, esteve confiado às elites. E talvez, aqui e ali, com um gosto preverso e vagamente inconsciente dos povos: poder fazer da Europa que abandonam o bode expiatório da sua própria abdicação..."

Claude Imbert, no "Le Point" desta semana

Vila

Os habitantes de cinco novas cidades e de 22 novas vilas portuguesas comemoram hoje a "promoção" que a Assembleia da República ontem decidiu fazer ao seu estatuto. Consequências? Nenhumas, salvo o usufruto do orgulho por subirem na escala urbana do país.

Porém, há uma vila que persiste em manter-se como tal, desde há muito: Ponte de Lima. Vale a pena registar aqui esta saudável "teimosia", de quem há muito entende não precisar de mudar de estatuto para se impor como uma das mais belas localidades do país.

E, já agora, se puderem, um conselho: não percam as fantásticas Feiras Novas de Ponte de Lima, de 18 a 20 de Setembro. Procurem apenas resguardar-se dos políticos, que por lá andarão seguramente, por essa altura, à caça de uns votitos...

sexta-feira, junho 12, 2009

Lucky?

O duelo anuncia-se terrível, entre o cigarro da versão original de Morris e a palhinha "politicamente correcta" do filme de Lucky Luke que sairá aqui em França, em Outubro.

Onde é que isto nos levará?

Aristides Sousa Mendes

É hoje à noite, pelas 20h35, que o canal televisivo France 2 projecta o filme "Désobéir. Aristides Sousa Mendes". Leia o texto da apresentação feita:

Juin 1940. La France vient de capituler. Les Allemands arrivent, poussant devant eux des cortèges de réfugiés jetés sur les routes par la peur et le danger. A Bordeaux, le consul du Portugal, Aristides de Sousa Mendes (Bernard Le Coq, tel qu'en lui-même), voit affluer à ses grilles des centaines de malheureux, suppliant son pays, neutre, de leur accorder un visa. Après trois jours de réflexion, l'aristocrate catholique, le fonctionnaire sans histoire va prendre une décision qui plongera sa vie dans le chaos et en sauvera 30 000 autres : en un mois, aidé de son fidèle secrétaire (trop rare Roger Souza), Sousa Mendes délivrera autant de visas, dont un tiers à des juifs, malgré une circulaire de Salazar l'interdisant formellement. Racontée avec sobriété et sensibilité par Joël Santoni sur un scénario de José-Alain Fralon et Jean-Carol Larrivé, cette histoire belle et vraie rend justice à l'homme de bien. Enterré vivant par la dictature de Lisbonne, qui ne pardonnera jamais à ce juste d'avoir désobéi, Sousa Mendes accomplit la plus grande action de sauvetage menée par une seule personne durant la Shoah.

E leia mais aqui. Tempos futuros trarão outras homenagens a Aristides Sousa Mendes, a que a Embaixada de Portugal vai associar-se ou promover.

quinta-feira, junho 11, 2009

Cohn-Bendit e nós

Há mais de 40 anos, ele era o estudante contestatário que desafiava a polícia, como um dos líderes do Maio de 1968, de que a foto junta é um belo testemunho. Hoje, em especial depois do magnífico resultado que a formação política que chefia, a Europe-Ecologie, obteve nas eleições europeias, Daniel Cohn-Bendit é olhado com um dos actores incontornáveis do futuro próximo da esquerda em França.

Ao lembrar-me dele e do Parlamento Europeu, recordei também uma história passada com Cohn-Bendit, em Estrasburgo, no início de 2000. A presidência portuguesa da União Europeia, que acabara de iniciar-se, tinha de fazer a sua apresentação naquele Parlamento e, para além da presença do primeiro-ministro em plenário e dos vários ministros em comissões, competia-me a mim calcorrear, entre outras, todas as comissões e subcomissões que tivessem a seu cargo questões de relações externas da União, nas suas diversas dimensões. Ao todo, o meu percurso pelas diversas salas incluía sete ou oito reuniões, tudo concentrado em menos de três dias.

Cada exercício tinha um formato idêntico. De acordo com um calendário negociado, eu entrava num determinado momento dos trabalhos e, acabado que fosse o expediente em curso, o presidente da comissão dizia umas palavras de apresentação e, de seguida, eu fazia uma explanação sobre as prioridades da nossa presidência na respectiva temática. Depois, seguia-se uma sessão com perguntas dos deputados e respostas minhas. Coisa para 45 minutos a uma hora, em cada uma das sessões, dependendo do curso do debate.

Ora acontece que um almoço com um grupo regional, sobre temas mediterrânicos, havia demorado mais tempo do que o previsto e, quando cheguei à comissão em que deveria falar, eu estava já bastante atrasado. Tinha sido uma correria pelos intermináveis corredores de Estrasburgo (quem os conhece sabe do que falo) e, ao entrar na nova sala... dei-me conta de que havia deixado para trás a minha assessora, a qual era portadora de toda a papelada e, em especial, do dossiê com os tópicos preparados para a minha intervenção e para as respostas às perguntas dos deputados.

A questão agravou-se quando o presidente da sessão, depois de explicar simpaticamente as razões do meu atraso, informou que ia dar-me de imediato a palavra, sem fazer qualquer introdução, porque sabia do calendário apertado em que eu me movimentava, em especial pelo facto de eu ter de partir rapidamente para o plenário, onde iria passar a responder à tradicional bateria de perguntas, em cerca de hora e meia de debate geral.

A minha angústia aumentou e eu olhava desesperadamente para a porta, mas a minha assessora, por uma vez, teimava em não aparecer. Mas será que não podia improvisar? Claro que sim. Tinha sido o responsável pelo texto final do programa da presidência portuguesa e, mais ou menos, conhecia de cor todos os temas, nos seus aspectos gerais. No entanto, havia uma problema dramático: eu não sabia em que comissão ou subcomissão estava! Não fazia a mais leve ideia do tema que ela abordava! O que é que eu poderia dizer?

Olhei a sala, à procura de deputados portugueses, cuja presença me pudesse ajudar a situar a reunião. Nem um! Tentei deitar um olhar de viés para o papel que o presidente da sessão, à minha esquerda na mesa, tinha à sua frente, com vista a tentar descortinar uma qualquer palavra ou frase que me pudesse dar uma ideia do tema que unia, naquela sala, as cerca de cem pessoas que estavam à minha frente. Mas nada: a papelada não tinha mais do que horários e listas de presenças. Nem uma palavra sobre o título da reunião. E havia quatro temas ainda possíveis. Seria a defesa e segurança? Ou os direitos humanos? Seriam as questões de desenvolvimento? Ou o comércio internacional?

É aqui que Cohn-Bendit entra na história. Ele estava sentado numa das primeiras filas do auditório, como deputado europeu que era. Conhecia-o apenas de fotografia, como figura pública regulamente presente na comunicação social. O que faria ele ali? Não me parecia que o seu centro de preocupações fossem os temas comerciais, nunca lhe lera uma palavra sobre o assunto. Defesa e segurança? Também não me recordava que isso o motivasse, muito embora a sua ligação franco-alemã remotamente o pudesse levar a interessar-se a ir por esse caminho.

De repente, lembrei-me de ter lido, semanas antes, um artigo seu, creio que no "Libération", sobre uma qualquer questão ligada ao ambiente e às questões de desenvolvimento. Tinha de ser rápido no raciocínio. Se excluídos os restantes, ficavam apenas o desenvolvimento e os direitos humanos, numa lógica de 50/50, típica do "quem quer ser milionário?". Optei pelo desenvolvimento, coisa mais pragmática e substantiva. Mas deixei aberta a porta para os direitos humanos...

Tomada a palavra, comecei por falar da filosofia geral da presidência portuguesa, em matéria de relações externas. Disse o óbvio sobre a abertura da Europa ao mundo e sobre o modo como Portugal lia esse tecido de relações. E falei de África, do desenvolvimento e - não fosse o diabo tecê-las... - referi a importância que dávamos a que as políticas de ajuda tivessem sempre em atenção a dimensão direitos do homem, boa governação, preservação dos princípios do Estado de direito, etc. Comecei a ver acenos positivos com a cabeça por parte de alguns deputados, o que me alentou a continuar.

Aproveitando uma pausa, ocorreu-me perguntar, em voz baixa, ao presidente da comissão: "Há algum ponto específico que ache que eu deva desenvolver?". A resposta sossegou-me, em definitivo: "Diga algo sobre a política de ajuda aos 'países menos avançados'". Pronto, era a sub-comissão de Desenvolvimento! Uf! E lá me relancei na doutrina que, sobre o tema, tínhamos estabelecido. No final da minha apresentação, alguns deputados, entre os quais o próprio Cohn-Bendit, colocaram questões, a que respondi como soube e pude, então já com a documentação à minha frente, que a minha "desaparecida" assessora entretanto me trouxera. Aproveitei para recordar que o então secretário de Estado português para o sector, Luís Amado, ali viria, semanas mais tarde, para aprofundar em detalhe a nossa posição. E tudo acabou bem, comigo a sair disparado para o plenário.

E foi assim, com a involuntária ajuda de Cohn-Bendit, por estes dias uma figura das primeiras páginas da imprensa francesa, que a presidência portuguesa da União escapou a uns instantes menos fáceis.

Bola

O orçamento do Ministério dos Negócios Estrangeiros, para 2009, dava para comprar 3,5 Cristianos Ronaldos.

Teríamos, no entanto, que fechar as Necessidades, todas as embaixadas e consulados e deixar de pagar aos nossos milhares de funcionários.

quarta-feira, junho 10, 2009

"A Europa não nos divide"

Quem estiver interessado em ler o artigo que ontem publiquei no jornal diário português "i", sob o título "A Europa não nos divide", pode encontrá-lo aqui ou aqui.

terça-feira, junho 09, 2009

10 de Junho

Há 429 anos, dia por dia, morreu o poeta que nos habituamos a ligar à própria identidade do país - Luís de Camões. Foi um ano duplamente triste, esse de 1580, em que a soberania portuguesa passou a ser tutelada por Madrid, uma humilhação histórica que duraria ainda seis décadas.

O sentimento nostálgico que nos atribuem está bem expresso na escolha da data da morte de um poeta como o nosso dia nacional. E a arte do compromisso está, de forma bem visível, flagrada no complexo nome que o 10 de Junho hoje tem - Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Infelizmente, para muitas pessoas, esta data não passa de mais um feriado, que a habilidade ajuda frequentemente a transformar numa longa ponte. Este, porém, é o verdadeiro Dia dos Portugueses, uma festa que sublinha a forma diferente que temos de estar no mundo e pelo mundo. E é assim que o vêm, saudavelmente, muitas associações portuguesas aqui em França, celebrando-o com alegria e sem pompa, em imensas iniciativas populares realizadas ao longo das últimas semanas.

Agosto Português

É um filme estranho mas interessante, dirigido pelo português Miguel Gomes, este "Ce Cher Mois d'Août" (Aquele Querido Mês de Agosto), que acabo de ver em ante-estreia num cinema da "Rive Gauche". É uma obra onde se cruzam uma ficção leve com o realismo da simplicidade rural portuguesa, sob o pano de fundo da música popular que enche as festas do nosso Agosto. São duas horas e meia de um filme que, por um momento, se teme cruel, mas cuja linguagem se solta em registos de um humor, involuntário ou procurado, que chega a projectar-se sobre o próprio trabalho, ironizando com os respectivos autores. A cena final é, a este respeito, uma das melhores.

O filme teve já vários prémios e, em Portugal, terá tido uma audiência muito superior à média para filmes de autor. Veremos como a França o acolhe, tanto mais que, a espaços, há ressonâncias de outras filmografias que por aqui são apreciadas, como Oliveira ou César Monteiro. Teste muito curioso seria o confronto do filme com os cidadãos de origem portuguesa que vivem em França.

segunda-feira, junho 08, 2009

África

A morte de Omar Bongo, hoje confirmada, põe termo a uma liderança de mais de quatro décadas no Gabão. Para a França, trata-se do desaparecimento de uma personalidade que esteve quase sempre bem próxima de Paris - de De Gaulle a Giscard, de Mitterrand a Sarkozy, passando por Pompidou e Chirac - e que muito ajudou à gestão de tempos complexos na chamada "françafrique". Agora, resta esperar que a sucessão se faça de uma forma que não provoque situações de ruptura na ordem interna, como as que tiveram lugar, de modo desastroso, em outros países a antiga África francesa.

Nesse mesmo contexto trágico, não podemos deixar de lamentar a profunda crise que hoje afecta a Guiné-Bissau, onde violentas conflitualidades, ao que tudo indica exacerbadas por interesses criminosos que potenciam clivagens tradicionais, estão a destruir o já pouco que restava do sonho de Amílcar Cabral. Neste caso, Portugal deu já nota de estar disponível, se necessário for, para contribuir para uma solução de pacificação, de natureza regional, que possa abrir caminho à retoma da normalidade do processo constitucional.

Uma vez mais, Portugal mostra ser solidário com os países amigos, no prosseguimento de uma política externa que, sem tentações paternalistas, defende soluções de estabilidade e paz, assentes no respeito pelo Estado de direito. Alguns dirão que, em certos países, isso não passa de uma miragem longínqua. Pode ser que, por muito tempo, assim seja, mas importa perseverar e não perder a esperança. Uma política de indiferença seria o contrário da imagem que Portugal hoje tem pelo mundo e que lhe granjeia um grande respeito.

domingo, junho 07, 2009

O ciclo trabalhista

A vida política do Reino Unido tem, para o equilíbrio global da Europa, uma importância muito maior do que às vezes se supõe. A crise que atravessa a liderança britânica, no que pode vir a representar de mudança no paradigma de comportamento de Londres face ao projecto europeu e do seu potencial impacto na "special relationship" com os Estados Unidos, acaba por ser um tema que diz respeito a todos nós.

Nas últimas semanas, entretive-me, em algumas escassas horas vagas, a fazer a leitura cruzada de quatro livros que ajudam a explicar as tensões que afectam o "Labour" britânico, em especial a evolução da complexa relação entre as suas duas mais importantes personalidades, em tempos mais recentes: Tony Blair e Gordon Brown.

(Este é um velho "vício" de que não me liberto: juntar alguns livros de memórias sobre um determinado período e lê-los em paralelo, avaliando as diferentes visões dos mesmos factos. Fiz isto em temas tão diversos como o fim dos anos De Gaulle, o caso Watergate, as transições democráticas espanhola e brasileira, a queda de Margareth Thatcher, os últimos anos Clinton, etc. A quem tiver tempo e paciência, recomendo o método, porque vale francamente a pena.)

"The Point of Departure", do falecido ex-MNE Robin Cook, "The Blair Years", um diário de Alastair Campbell, assessor de imprensa de Blair, "Tony's Ten Years: Memoires of the Blair Administration", do jornalista televisivo Adam Boulton, e, finalmente, o curioso "Speaking for Myself", de Cherie Blair, a advogada e mulher de Tony Blair, são importantes testemunhos que hoje nos ajudam a perceber, não apenas o que se passou, mas igualmente o que se está a passar no actual ciclo do trabalhismo britânico. Um ciclo que, em 1997, trouxe de volta o "Labour" ao poder, 18 anos depois da experiência de Callaghan, pondo fim a uma travessia do deserto com as lideranças sem êxito de Michael Foot, Niel Kinnock e John Smith.

Para melhor fixar o retrato deste período, aí virão em breve as memórias de Tony Blair. Depois, seguramente, será a vez de Gordon Brown. E, para melhor se entender o duo deste ciclo trabalhista, teremos de ficar à espera das de Peter Mandelson, cujo livro de 2002 já está inapelavelmente datado.

Este tipo de revisitação memorialista do passado recente, em que os britânicos são mestres, é também uma forma de transparência democrática, que qualifica positivamente o sistema político do Reino Unido.

sábado, junho 06, 2009

A planta


Era um aeroporto de um país tropical. A sala VIP era desconfortável, arejada por ruidosos aparelhos à espera eterna de revisão, que quase abafavam as conversas. A delegação portuguesa espojava-se por horrorosos sofás de napa, no final de cinco dias de uma viagem oficial quase tão intensa quanto inútil.

O dignitário português que chefiava a comitiva, enfarpelado como a ocasião ainda recomendava, encaixara-se num canto, acompanhado por um qualquer ministro local, trocando banalidades.

Sem uma contraparte natural para a ocasião da despedida, já ansiosa pela "executiva" do avião que tardava, a esposa do chefe da delegação portuguesa errava pela sala, comentando as peças de artesanato que algumas senhoras da comitiva tinham ido adquirir, à última da hora, ao comércio do aeroporto, como forma de se verem livres do resto da moeda local.

Porém, a certa altura, nota-se que a senhora avança em direcção a um arbusto que fazia paisagem no fundo da sala. A embaixatriz de Portugal, mais por tropismo protocolar do que por uma qualquer evidente necessidade de apoio, segue-a, um tanto intrigada com aquele súbito interesse. E quando a vê, bem decidida, agarrar um dos ramos do arbusto, puxando-o com força, ousa perguntar-lhe, um tanto assarapantada: "O que está a fazer?". A resposta elucidou-a: "Estou a tirar um raminho para plantar lá no jardim. Não acha gira esta planta?". A embaixatriz, de facto, achava, mas duvidava muito que o plástico viesse a frutificar no jardim da esposa do nosso político.

Dia D

Hoje, na Normandia, comemoraram-se os 65 anos de um dia decisivo para a libertação da Europa. De toda a Europa? Não. Para além da Europa que Ialta deixou sob a tutela de Moscovo, os aliados "esqueceram-se", por razões que a Guerra Fria explicará, de fazer um gesto favorável ao desmantelamento das duas ditaduras ibéricas. E assim o povo português foi condenado a mais três décadas de autoritarismo e o nosso Dia D foi adiado até 25 de Abril de 1974.

Lembrar

Seria importante que os parceiros do G7 aproveitassem para lembrar publicamente a Trump que os palestinos de Gaza e da Cisjordânia não podem...