Naquelas revisões de fotografias antigas que os encontros de família estimulam, no dia de Natal deste ano dei com uma imagem de mim a falar, em frente à Gomes, com um antigo colega de escola primária, o Tião.
O Tião, Sebastião de seu nome, um pouco mais velho do que eu. Foi jogador do Sport Clube de Vila Real, atuando na ala esquerda. Um dia, o Sporting veio jogar à cidade, não sei se no quadro do negócio da ida do Amaral para Alvalade, numa tarde em que me recordo que o campo do Calvário rebentava pelas costuras. O Tião fez um jogo fantástico, deixando de rastos o Pedro Gomes, lateral-direito leonino. Várias vezes falei com ele sobre essa prestação, que era uma marca de merecida glória pessoal.
Nesse tempo em que o futebol, na província, não dava para viver sem outro emprego, o Tião era funcionário dos Serviços Municipalizados - um pouso profissional muito comum para os jogadores do Sport Clube, uma ajuda indireta da Câmara Municipal ao clube. O Tião já morreu, como constatei, há dois ou três anos, ao abrir a secção de necrologia de "A Voz de Trás-os-Montes", que semanalmente me reporta a cidade de Vila Real que vou perdendo.
Pouco tempo decorrido depois de ter lido a notícia da morte do Tião, na Feira do Livro de Lisboa, numa barraca para editores independentes, vi Pedro Gomes a assinar a sua biografia. Ao seu lado, de pé, um fulano explicava os méritos desportivos do antigo jogador. Fingia que falava para outro amigo que estava perto, mas, na realidade, expressava-se em voz excessivamente alta para ser ouvido pela plateia. E, a certo passo, saiu-lhe: "Nunca vi um extremo esquerdo ultrapassar o Pedro Gomes, que desarmava sempre quem lhe aparecesse pela frente". Não era verdade, claro, e pareceu-me que o próprio Pedro Gomes estava algo constrangido com o exagero gongórico do espontâneo.
Tive então uma tentação não concretizada, que era lançar-lhe à cara: "Ai não?! E o Tião, lá em Vila Real?" Mas pensei: o homem não deve saber nada de futebol, às tantas nem sequer ouviu falar do Tião...
