O que se passou ontem com a entrevista do primeiro-ministro à RTP obriga a uma reflexão.
A entrevista, em si mesma, pareceu-me basicamente correta. A barragem de "avisos" que as redes sociais de direita (deixemos de falar em "centro-direita", que é um termo próprio da direita envergonhada) haviam feito nos últimos dias contribuiu para a postura fortemente inquisitiva dos entrevistadores.
Não me pareceu mal que assim fosse. António Costa não esteve à vontade, irritou-se e teve alguma dificuldade em "navegar", de forma satisfatória, pelas trapalhadas da Caixa. Pelo meio, disse algumas coisas interessantes sobre o tratamento europeu da questão da dívida e sobre as perspetivas legislativas em matéria laboral. O "ticket" de entrevistadores pareceu-me bem escolhido.
O escândalo - porque é um verdadeiro escândalo - foi a escolha dos jornalistas que, na RTP 3, analisaram a entrevista, na sua imediata sequência. Nem uma só dessas pessoas é conhecida por ter uma atitude isenta face ao atual governo.
Para ser mais claro, trata-se de comentadores que, sem uma única exceção, defendem opções económicas e políticas opostas às de António Costa. Só por ali faltaram Camilo Lourenço ou José Gomes Ferreira ou Pedro Arroja ou Paulo Ferreira ou António Costa ou João Vieira Pereira ou a maré liberal da blogosfera - tudo gente que, dia após dia, exercita um jornalismo de oposição que, sendo legítimo, um juízo de meridiano equilíbrio editorial obrigaria a ser posto lado a lado, não com académicos defensores da "geringonça" (como depois fizeram com Paes Mamede ou Pedro Lains), mas com jornalistas que não façam parte do grupo dos invocadores do Diabo outonal que teima em atrasar-se.
Esteve muito mal neste caso a direção de informação dirigida por Paulo Dentinho, de uma RTP chefiada por Gonçalo Reis. Mostrar independência não é sinónimo de entregar poder informativo à oposição. Até porque me não recordo de que, nos tempos da antiga maioria, a opinião económica veiculada pela mesma RTP, que lembro que já era dirigida por Gonçalo Reis, fosse alguma vez tão esmagadoramente de esquerda como esta é de direita.