Não deve ser fácil a reflexão que o PCP leva a cabo, no quadro deste seu XX Congresso. (Caramba! Quem se lembra de um outro histórico XX Congresso?).
Depois de se ter aliado à direita para derrubar o detestado governo PS, em 2011, abrindo caminho ao que aí veio, o PCP terá aprendido uma imensa lição: nem sempre a lógica do "quanto pior melhor" compensa. Com o país à beira de um sufoco, com a "troika" a mandar cá dentro, com a exceção a ser regra, com os direitos adquiridos a irem por água abaixo, o eleitorado comunista estava desejoso de se ver livre da funesta coligação que, de uma penada, aproveitara o alibi externo para desmantelar alguma coisa do que restava das "conquistas de abril".
Sem expressão política para impor uma alternativa, contando quase só (o que, contudo, não é pouco) com a força negativa da rua sindical, o PCP viu-se tentado a apanhar a oportuna "boleia" que o PS lhe sugeriu - muito embora tivesse de ir na incómoda companhia do Bloco, que sempre lhe rói algum eleitorado à esquerda e na juventude.
Na construção da "gerinçonça", o PS pagou o caro preço das reversões das privatizações dos transportes públicos de Lisboa e Porto, que assim puderam continuar a alimentar os cofres sindicais. Outras cedências, na Educação, aquietaram esse grande "dirigente operário" que se chama Mário Nogueira. E outras houve. No resto, nas pensões e em certas reversões, o PS fez apenas o que muito lhe apetecia fazer. E, para os socialistas, o negócio não era mau de todo: muitas bases do partido, e parte importante do eleitorado, reveem-se abertamente numa agenda de esquerda e isso acabou por fidelizar votos que a deriva segurista parecia estar a fazer fugir. A acreditar nas sondagens, isso é hoje uma realidade.
Mas essa é também uma realidade muito preocupante para o PCP. É que ver grande parte da esquerda a tender a votar PS numa próximas eleições é algo que inquieta bastante os comunistas, um partido muito feito de lições da História, entre as quais se inclui a da nulificação do PCF que François Mitterrand conseguiu, associando-o ao poder.
Assim, neste XX Congresso, um fantasma, na forma de um dilema, deve andar a pairar por lá. Continuar a apoiar o PS, deixando-lhe os louros das medidas populares da governação, podendo com isso erodir a sua base eleitoral de apoio? Ou começar a pensar a hipótese de romper com estrondo, com a Europa ou um incidente qualquer como pretexto, obrigando o país a ir a votos, com o PCP a reivindicar os louros de esquerda da "geringonça"?
Como sempre acontece nas decisões burguesas - e não há nada de mais burguês na vida política nacional do que o PCP -, no meio é que está a virtude: Jerónimo de Sousa deve vir a conseguir um mandato para uma navegação à vista, com um crescendo de tensão, adubado por via sindical, que, se oportuno, pode levar à rutura no orçamento de 2018. É o esticar da corda, que pode vir a ser atenuado com mais algumas concessões futuras, que o PCP dirá ter arrancado a ferros.
O PCP, honra lhe seja, cumpre sempre o que promete, em termos de negociação política. Mas não pode prometer ser contra a sua natureza e essa é a de uma cultura de taticismo obsessivo, de "ir andando", lutando pela preservação do "statu quo", enfim, lá no fundo, por esse seu grande e permanente objetivo, na respeitável leitura que faz da bondade do seu papel político: sobreviver.
