Em julho de 1990, assumi funções na embaixada em Londres. Fui sem família, por dois meses. Tinha um Mini e deu-me para passear imenso, nos fins de semana. Ouvia então muita música. Dei-me conta de que estava bastante desatualizado e comprei algumas coisas que estavam então em moda. Uma delas era um disco de George Michael. Não gostei excessivamente, mas também não desgostei. Era uma música "levezinha", sem grande criatividade, que se ouvia bem, mas não deslumbrava. A voz, contudo, era manifestamente boa. Ao fim de algum tempo, deixei de ouvir o disco mas mantive-o no carro. Um dia, dei boleia a um colega - era o Duarte Ramalho Ortigão, cônsul-geral em Londres (não sei se ele ainda se lembra da cena). Quando olhou os meus discos, saiu-lhe: "O George Michael?! Que possidónio? Nem a minha filha gosta!" Fiquei sem saber o que dizer. Eu estava ainda dividido quanto à qualidade daquela música, mas não me apetecia deixar-me "conduzir" por aquela avaliação tão radical e definitiva. (Já me tem sucedido o mesmo face a um vinho, um livro ou um filme). Decidi ouvir o disco todo outra vez. E comprei mesmo outro disco do cantor. Fiquei absolutamente na mesma, sem uma opinião firme. Desde então, quando ouço George Michael, coloco-me na mesma posição "impressionista". E, invariavelmente, "saio" de forma idêntica: nem entusiasmado nem numa atitude mínima de rejeição. A única coisa que julgo ter percebido é a razão do sucesso do cantor, da construção do seu sucesso, o que não é a mesma coisa que partilhar essas razões.
Lembrei-me disto há pouco, ao ouvir que George Michael morreu. Vou escutá-lo outra vez.
