Em 2002, um "think tank" que apoia as Nações Unidas, a "International Peace Academy", dirigido então por esse magnífico diplomata canadiano que dá pelo nome de David Malone, organizou um "retiro" de dois dias, num hotel a umas horas de Nova Iorque, juntando quinze embaixadores.
O objetivo, se bem me lembro, era discutir a ideia "impossível" de articular melhor a actividade do Conselho de Segurança com a do Conselho Económico e Social (ECOSOC), de que eu era então um dos quatro vice-presidentes. Era uma ideia antiga, que surgia de tempos a tempos, ressuscitada por um qualquer pretexto de conjuntura. O exercício estava, uma vez mais, condenado ao fracasso porque, por razões curiosamente opostas, quer Cuba quer os Estados Unidos discordavam do aprofundamento dessa cooperação.
Por um motivo que não importa agora para aqui, eu havia-me empenhado em organizar uma sessão especial do ECOSOC dedicada à matéria, para a qual consegui "arrastar", não sem algum esforço, o meu colega britânico, Jeremy Greenstock, que nesse mês presidia ao Conselho de Segurança. O resultado foi o que foi, mas excitou o interesse da "International Peace Academy", que sabia que o tema agradava ao SG da ONU, Kofi Annan. Dada a minha actividade nesse contexto, fui "upgraded" para o grupo, onde predominavam os embaixadores dos chamados P-5 (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança) e de outros "key" ou "major players" internacionais.
Por um motivo que não importa agora para aqui, eu havia-me empenhado em organizar uma sessão especial do ECOSOC dedicada à matéria, para a qual consegui "arrastar", não sem algum esforço, o meu colega britânico, Jeremy Greenstock, que nesse mês presidia ao Conselho de Segurança. O resultado foi o que foi, mas excitou o interesse da "International Peace Academy", que sabia que o tema agradava ao SG da ONU, Kofi Annan. Dada a minha actividade nesse contexto, fui "upgraded" para o grupo, onde predominavam os embaixadores dos chamados P-5 (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança) e de outros "key" ou "major players" internacionais.
Mais para equilibrar geograficamente o debate do que por qualquer outro motivo, foi convidado um embaixador de um grande país "do sul", um antigo político, pouco vocacionado para reflexões especiosas sobre matéria técnicas de relações internacionais. Desde o início, verifiquei pelo seu "body language" (ou melhor, pela sua visível sonolência) que estava muito pouco interessado no tema, que não intervinha e que revelava um enfado com as discussões - que, aliás, foram bem interessantes.
Logo ao final do primeiro dia, cruzei-me num corredor com o nosso homem, de malas aviadas de regresso a Nova Iorque. Disse-me, na sua língua, que "estava farto" e que a discussão lhe parecia "estéril" - no que podia ter alguma razão, num plano imediatamente prático, se se esquecessem algumas dimensões políticas mais subliminares. E acrescentou, ao despedir-se: "Só me faltava vir para aqui discutir a Alemanha de Leste!"
Não percebi o que quis dizer e não tive tempo para me esclarecer, porque desapareceu, apressado. Mas fiquei com a frase na cabeça. C'os diabos!, que eu me lembrasse, ninguém tinha falado da Alemanha de Leste, nem tal vinha a propósito, tantos anos depois da queda do muro de Berlim, ainda por cima na presença do embaixador alemão.
Dias depois, encontrando-o na ONU, não resisti e perguntei-lhe: "A que propósito, há dias, no "retreat", referiste a Alemanha de Leste? Esse tema nunca foi discutido...". O homem abespinhou-se: "Em bem vi na agenda da reunião que vocês, no dia seguinte, iam falar disso! Era o único tema para metade dessa manhã. Estava lá bem escrito: DDR! Ora, para o meu país, isso agora já não interessa nada!"
Não sei se ele me perdoou alguma vez a sonora gargalhada que dei no Delegates Lounge. Na linguagem "onusina" e não só, DDR significa "demobilization, disarmement and reintegration"...
