domingo, 30 de abril de 2017

Viver com Trump


Por muitos anos, Donald Trump foi, na imagem exportada pela América, a caricatura arrogante do dinheiro, mulheres espampanantes à ilharga e abundância de notas pitorescas em páginas sociais. As suas incursões discursivas no mundo da política eram vistas com alguma sobranceria pelos ocupantes institucionais do espaço. É que, por lá, os milionários que revelam ambições políticas tentam, em regra, concretizá-las a nível local. Talvez por essa razão, a sua vocação presidencial foi inicialmente acolhida com o desdém concedido aos "newcomers", num sistema que parecia blindado à intromissão de intrusos. 

Trump foi mais hábil do que se supunha. Com o tempo, conseguiu explorar um "nicho de mercado" que a arrogância dos aparelhos políticos tradicionais não tinha visto chegar: uma certa América agora triste – branca, insegura, indignada com a sua sorte e em crise de identidade – de há muito sem voz própria com expressão eficaz. Mas não deixa de ser muito irónico que os "losers" se tivessem deixado seduzir eleitoralmente por um dos ganhadores da economia "de casino", neste caso no seu sentido mais literal. Ou talvez não: Trump era a imagem do sucesso de que tinham sido excluídos e falava para eles, com palavras e soluções simples, com que ostensivamente contestava o sistema que esses setores sentiam como culpado pelo seus azares de vida. E Trump, contra os aparelhos, foi eleito.

A administração Trump comemora agora os clássicos 100 dias, que costumam convocar balanços. A maioria dos americanos não parece partilhar, de forma entusiástica, de qualquer euforia. E, de facto, poucas razões teria para tal. Este seu atípico presidente, que para o comum da comunicação social bem-pensante é um embaraço para a imagem dos EUA, pouco provou naquilo que dele se esperaria como líder da maior potência mundial. Pelo contrário, mostrou um chocante nível de impreparação que causa angústias em muitos setores.

Na política interna, a forte ascendência republicana no Congresso não tem conseguido produzir, necessariamente, uma coerência na resultante decisória correspondente ao seu expressivo poder quantitativo. Esperar-se-ia que a autoridade do presidente fornecesse uma linha orientadora e unificadora, mas Trump e a sua equipa já mostraram não serem os "brokers" ideais desses diferenciados interesses. Isso leva a um espetáculo de medidas erráticas, na obsessão de concretizar o desmantelamento do período Obama. E o saldo de realizações, ao final destes 100 dias é mais magro do que nunca.

A agenda externa proposta foi aquela que, compreensivelmente, mais agitou o mundo. Mas, curiosamente, foi aquela em que algumas reversões de percurso foram mais evidentes. A expressão do poder externo parece, por ora, entregue a militares, o que sossega os setores patrióticos e dá a Trump a possibilidade de exibir fogachos de poder bélico. A grande questão que o mundo se coloca é saber se a política de “espetáculo” seguida pelo presidente americano terá, ou não, expressões de desregulação, em quadros geopolíticos de forte tensão, que esse próprio mundo tenha de vir a pagar.

(Artigo publicado no dia 28 de abril no "Jornal de Notícias", a propósito dos "100 dias" de Trump)

7 comentários:

Anónimo disse...

É curioso como do Trump se pode dizer que se conhece quase tudo. De outros políticos de regimes mais autoritários ainda a vida privada ainda não se expõe.
Claro que o homem não é de fiar mas penso que toda a população americana que votou nele sabia ao que ía. É a diferença entre "un homme honnête" e um "honnête homme". Mas isso de honestidade deve ser uma coisa desactualizada e antiga.
Por isto deixemo-nos de exercer a raiva sobre a solidez americana seguida pelos franceses e pensemos em resolver os nossos problemas que já são muitos e com poucas soluções à vista. O hábito de comentar a vida do vizinho quando a própria está pouco resolvida é muito interessante.

Anónimo disse...

"...desdém concedido aos "newcomers", num sistema que parecia blindado à intromissão de intrusos"

Totalmente de acordo. Os eua nao sao a grande democracia que vendem para o mundo. Serão mais ... uma Plutocracia.

Em relação a volta de 180 graus nas opções de Trump, bem sabemos que o estado profundo é quem manda na politica dos eua w o presidente que tente fazer algo diferente tem o destino de JFK.

Ja agora uma curiosidade

Dados em
https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/rankorder/2079rank.html

Divida
United States $17,910,000,000,000 31 March 2016 est.

Algo não faz sentido. O pais mais rico do mundo, com a economia mais pujante do mundo tem a maior divida

Joaquim de Freitas disse...



O anónimo das 15:05 escreve :
“O hábito de comentar a vida do vizinho quando a própria está pouco resolvida é muito interessante.”

Quando o vizinho resolve partir as telhas do nosso teto, com os estilhaços provocados pelo seu jogo favorito – lançar mísseis em todas as direcções, sem avisar ninguém – e que ameaça de incendiar todo o bairro ou mesmo a cidade inteira, só porque é o mais rico e o mais poderoso da terra;

Quando o vizinho instala à volta da nossa casa ou da nossa cidade, armas sem conta, que serão fatalmente visadas um dia pelos seus inimigos que dispõem do mesmo tipo de armas;
Creio que é razoável de se preocupar do que faz o vizinho, tanto em sua casa que fora dela, tanto mais que se a “nossa própria casa está pouco resolvida”, como escreve, será talvez porque a nossa vida depende demasiado desse vizinho e é afectada todos os dias pelo seu comportamento.
Devemos temer os chamados “estragos colaterais, duma tal vizinhança.


Anónimo disse...

@ Anónimo das 18.53.

Há quase 50 anos o meu Pai costumava dizer: "Os bancos só emprestam dinheiro a quem puder pagar".

Hoje já não será assim. Emprestaram a torto e a direito e eis a crise em que nos meteram com os incobráveis em grande número a fazerem rebentar os bancos se não fosse o Estado, ou seja o contribuinte, a pagar.
Se os USA são de facto a economia mais pujante do mundo qual será o banco que não emprestará dinheiro. Já para Portugal, o asssunto terá de passar pela caridade do BCE .

Anónimo disse...

Nao sei se Emmanuel Todd estara de acordo consigo.

Anónimo disse...

"Por isto deixemo-nos de exercer a raiva sobre a solidez americana seguida pelos franceses"?

ou o amigo nao conhece a França, ou la esta, esta a falar sobre os vizinhos...

Anónimo disse...

@ Anónimo 30 de abril de 2017 às 21:48

Para um país tão rico não acha que é divida demais? (e não para de aumentar). Seria suposto terem uma divida bem mais baixa, ou será que andam a viver acima das possibilidades.