domingo, 30 de abril de 2017

Foi-se o Nuno


Morreu Nuno Brederode Santos. Se, na vida, me cruzei com alguma gente brilhante, o Nuno estava, sem favor, nos melhores. Mas era mais, era um amigo certo, um amigo único. Numa noite da vida em que tudo parecia desfazer-se, foi o Nuno que chamei para junto de mim, para relativizar essa dor.

Nuno Brederode Santos teria a graça dos iluminados, se acaso eles existissem. Tinha uma fascinante rapidez de raciocínio, uma memória arrasante para o interlocutor, aliada a uma cultura multifacetada e maturada, nos livros, nos filmes, nas tertúlias. Era dono de uma palavra ágil, oportuna, capaz de golpes de génio verbal como raramente testemunhei em alguém. Num grupo, animava todos, era atento a quem sentisse isolado, cuidadoso ao extremo com os problemas dos outros. Era um pessoa solidária, sempre ao lado das coisas da vida que valem a pena, das causas pelas quais era importante travar as batalhas, por mais perdidas que elas se anunciassem. Escrevia como poucos o sabem fazer, num português de lei, com uma riqueza vocabular que só muito episodicamente atravessou o jornalismo português. Da "Seara Nova" ao "Expresso", passando por outras colunas onde nunca cuidou em ser excessivamente assíduo, deixou páginas únicas. O seu "Rumor Civil", o livro que recolhe algumas dessas peças, fica-nos como um retrato raro de um certo período político, que ele dissecou com o certeiro bisturi da ironia. 

Nuno Brederode Santos, diz-me quem sabe, era uma mente jurídica brilhante, inventiva, desconcertante, de uma qualidade rara. Neste domínio, não foi, com toda a certeza, tão longe como, com facilidade, poderia ter ambicionado. Mas o Nuno fez escolhas, escolheu a vida. E a vida, essa vida, acabou agora. Cedo demais, mas cheia, rica, única, recheada de amigos. Deixo um beijo sentido para a Maria do Céu, mulher-coragem, que lhe alegrou a existência, numa cumplicidade brilhante que o completou, de uma forma dificilmente substituível. E outro beijo aqui fica para a Maria Emília, o fraterno e eterno sorriso bom que sofre, em pouco tempo, outra perda sem remissão.

Foi-se o Nuno. Nasceu no dia da batalha das Ardenas, deixa-nos num dia glorioso da solidariedade e da esperança. Quem o conheceu sabe que, com a sua partida, é uma certa geração que, definitivamente, sai agora de cena.

(Artigo hoje no "Público")

3 comentários:

Anónimo disse...

Belo texto, amigo. Beijos
São Jordão

Rui C. Marques disse...

Falávamos um dia,Francisco,sobre as questões da interpretação nas reuniões comunitárias.Referiu-me então e a propósito que numa reunião em que não havia interpretação em língua portuguesa,o Nuno Brederode Santos se "interpretou" a si mesmo num extraordinário exercício de humor.Recordado?

Alexandre brederode santos disse...

Já lhe enviei mensagem pelo facebook.
Sou o filho mais novo do nuno.

Muito obrigado pela lindíssima homenagem ao meu pai.

Alexandre.