quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Shimon Peres


Morreu Shimon Peres, uma figura histórica de Israel, de que viria a tornar-se um dos rostos mais conhecidos no mundo. Com o radicalismo a tomar conta da política governamental israelita, a moderação e o sentido de equilíbrio de Peres, bem como o seu continuado empenhamento no processo de paz com os palestinos, converteram-no numa das vozes israelitas mais escutadas no exterior. Peres desaparece sem ter visto qualquer paz implantada de forma sustentada entre Israel e a Palestina, num tempo em que a vizinhança do Médio Oriente está a ferro e fogo. Nunca chegou a primeiro ministro do seu país, mas teve sucesso como ministro dos Negócios Estrangeiros e ascendeu no fim da vida à chefia do Estado.

Nunca esqueci uma noite em Nova Iorque, em 2002, num jantar para o qual uma associação judaica de amizade EUA-Israel convidara alguns embaixadores. Recordo bem o pesado e incomodado silêncio - e os olhares reprovadores trocados entre os meus companheiros de mesa - quando Shimon Peres defendeu, com vigor, a necessidade de cedências para obtenção da paz com os palestinos. A embaraçante escassez de palmas no final do seu discurso mostrava que os falcões da diáspora eram "mais papistas do que o papa", talvez por ser cómodo defender a guerra por fronteiras impossíveis quando se vive no conforto de Manhattan.

Peres havia-me recebido no seu gabinete de ministro, em Jerusalém, em novembro de 1995. Eu era o "junior minister" dos Negócios Estrangeiros que acompanhava Mário Soares na sua última visita presidencial ao exterior. A meu pedido, o nosso embaixador, Paulo Barbosa, organizara esse encontro. Foi uma conversa muito interessante, na qual Peres me deu a sua leitura sobre o "estado da arte" dos vários "tracks" do processo negocial. Recordo-me as questões que me colocou para tentar perceber se o novo governo português, que tomara posse uma semana antes, pretendia introduzir mudanças no relacionamento de Portugal com Israel. 

O governo israelita não gostara, e fizera-o saber, que nessa visita eu tivesse decidido visitar a "Orient House", o ponto de contacto com os palestinos, em Jerusalém Oriental. Ainda tentaram dissuadir o nosso embaixador dessa iniciativa, mas eu havia recusado liminarmente cancelar a visita.

Peres foi agradável durante essa conversa comigo. Falou bastante da sua longa amizade com Mário Soares, tendo-lhe eu contado que, por coincidência, 17 anos antes, fora o primeiro diplomata português a deslocar-se em trabalho a Israel, num tempo em que Lisboa ainda cultivava grandes distâncias políticas face a Israel. Riu-se quando lhe referi que passara então duas horas no aeroporto de Ben Gurion, em Tel Aviv, a ter de explicar o carimbos de anteriores visitas à Líbia. "E deixaram-no entrar? Devia ter usado outro passaporte".

Dois dias mais tarde, estive com Peres no almoço que o primeiro-ministro Yitzhak Rabin ofereceu a Mário Soares, na sua residência em Jerusalém. Poucas horas depois, Rabin seria assassinado e seria a Peres, no funeral a que Soares e eu nos deslocáramos do Cairo, que eu iria apresentar as condolências enviadas enviadas por António Guterres.

Há dias, em Kiev, num fórum estratégico em que participei, foi feita uma homenagem a Shimon Peres, prenunciando já a sua próxima morte. Notei a genuinidade com que os participantes lhe tributaram o seu respeito. Pode parecer uma banalidade dizê-lo, mas figuras como Shimon Peres fazem falta ao mundo internacional.

9 comentários:

carlos cardoso disse...

Segundo as biografias que conheço Shimon Peres foi varias vezes primeiro ministro de Israel

Joaquim de Freitas disse...

Um diplomata, dum pequeno país que não pesa nada no contexto do problema da guerra e da paz entre Israel e a Palestina, só pode ter uma linguagem serena e …diplomática. Mas o facto é que Peres faz parte daqueles que desde há 70 anos martirizam o povo palestiniano, e que participou nalguns dos actos que normalmente a comunidade das nações deveria ter sancionado. Mas nem a ONU consegue fazer respeitar as suas resoluções votadas com uma imensa maioria.. Mas Israel faz parte e tem um lugar aparte na estratégia americana no Médio Oriente. Isso basta para que se esqueçam todos os crimes e excessos do ocupante da terra palestiniana. E o facto de pertencer à Internacional Socialista, não o iliba, mesmo se os seus esforços para a paz também não podem ser esquecidos.

A Nossa Travessa disse...

Caro Chicamigo

O Senhor Carlos Cardoso (que não conheço) tem toda a razão: Shimon Peres foi primeiro ministro por duas vezes: 1984-1986 e 1995-1996. Nos princípios de Dezembro de 1993 conheci-o em Paris pois levava-lhe uma carta de Mário Soares creio que a propósito do seu livro que acabara de lançar O Novo Médio Oriente. Foi então que também conheci a sua esposa Sonya.

Convidou-me para almoçar pois "se eu era amigo do Mário também passava a ser amigo dele" Foi uma refeição da qual não me posso esquecer, naturalmente. Falámos de muitas coisas sobretudo da Paz; falámos é uma maneira de dizer: foi ele quem falou principalmente. E entre os muitos temas abordados fez-me uma confidência: "você sabe que ainda sou vagamente primo da Lauren Bacall..."

Faleceu como Presidente a República. Se é que há uma alma, que ela descanse em paz, a paz com que ele tanto sonhou e não conseguiu alcançar.

Abç do Henrique, o Leãozão

Anónimo disse...

Ai está o Freitas a defender os seus "queridos árabes". ó Freitas ainda há mais casas para árabes por ai? tenho aqui alguns para te enviar.

Anónimo disse...

Descanse em paz.

Só duas pequenas observações sobre os comentários anteriores. 1) Se Peres foi ou não primeiro-ministro do seu país: sim, ele teve este cargo duas vezes; no entanto, foi primeiro-ministro interino (não diretamente eleito). 2) Peres não faleceu como presidente do estado de Israel, pois esse é atualmente Reuven Rivlin.

Anónimo disse...

Deixa de mentir seu filo-semita:

http://www.independent.co.uk/voices/shimon-peres-dies-israel-qana-massacre-never-forget-no-peacemaker-robert-fisk-a7334656.html

Joaquim de Freitas disse...

Os filo semitas do mundo inteiro têm olheiras que não deixam ver o que se passa naquele país martirizado desde há 70 anos, que se chama Palestina. E já esqueceram Sabra e Chatila, Cana, Deir Yacine e tudo o mais!
E os "fazedores" de paz, como Peres e Kissinger, dois prémios Nobel, pesam muito mais que os milhares de mortos vítimas da opressão

David Lencastre disse...

Nada como recordar factos históricos. E, nesse sentido, Shimon Peres só difere de outros líderes israelitas que o antecederam e sobretudo depois lhe sucederam, pela foram como organizou os crimes que mandou praticar. A violência israelita hoje é mais visível e mais despudorada. O então PM Shimon Peres, uma semana antes do sequestro do navio “Achille Lauro” tinha ordenado uma série de bombardeamentos na Tunisia. Entre outras atrocidades, as sua Força Aérea matou 75 tunisinos com bombas inteligentes que os desfizeram em farrapos, como vividamente foi relatado a partir a partir do local pelo jornalista israelita Amnon Kapeliouk. Washington, na altura com Reagan com Presidente, cooperou com Israel e Peres, ao não avisar a Tunísia, sua aliada, que os bombardeiros estavam a caminho. O Sec de Est. George Shultz informou o MNE israelita, outro “santo”, Yizhak Shamir, de que Washington “compreendia bem a acção israelita. Pouco tempo depois, o CSNU condenou unanimemente aquele bombardeamento, considerando-o um “acto de agressão armada” (com os EUa a absterem-se). Uns dias mais tarde, Peres desloca-se a Washington para trocar impressões com o principal terrorista internacional da altura, Ronald Reagan, o qual viria a denunciar o flagelo do terrorismo (dos outros, que não o praticado por ele, naturalmente). Ainda em 1985, esse “santo” que foi Peres, lançou as operações “Punho de Ferro”, nos territórios de um país independente, o Líbano, posteriormente ocupados por Israel num grosseiro acto de violação do Direito Internacional e das regras das NU, estipuladas pelo seu Conselho de Segurança. Naquele caso, os crimes de que Peres foi responsável atingiram um novo patamar de “brutalidade premeditada e assassínio arbitrário”, nas palavras de um diplomata ocidental familiarizado com a região – uma visão que veio a ser amplamente sustentada pela cobertura feito em directo.
O seu Leitor Joaquim de Freitas fez bem em mencionar o lado negro de Shimon Peres, o “santo” recentemente falecido. Bem como nos relembrar os massacres de Sabra e Chatila, que Israel comeu, vergonhosamente, com o apoio e conhecimento, antecipado, de Washington, quando Reagan, já era Presidente.
Nesse sentido, Portugal poderia ter-se feito representar apenas pelo Embaixador em Telavive, por ocasião do seu funeral.


Anónimo disse...

filo semita ou anti semita sao ambas expressoes erradas

os arabes tb sao semitcas como sao os etiopes e os siriacos e o foram os babilonios e os acadios


boa sorte com as cartilhas