sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Dominique Strauss-Kahn

Tenho à minha frente, num painel de debate sobre o futuro do euro, Dominique Strauss-Kahn. É muito interessante observar o seu esforçado regresso à normalidade pública, agora como consultor económico internacional. Depois do imenso escândalo que o envolveu, que arruinou as suas ambições presidenciais em França e mudou dramaticamente a sua vida, deve ter clara consciência de que é olhado de um modo especial. E isso sente-se.

Há duas notas que gostaria de deixar sobre Strauss-Kahn.

A primeira sobre o seu trabalho à frente do FMI. Relembro o que li num editorial do "The Economist", no auge do escândalo: "Whatever the man did, do not forsake his ideas: they are more important". Quero com isto relevar o espírito novo que Dominique Strauss-Kahn soube transmitir ao FMI, o modo como conseguiu modular a rigidez e a cegueira dos números, a insensibilidade social que marcou muitos dos "ajustamentos estruturais" liderados e impostos, no passado, por esta instituição de Bretton Woods. Os "developing countries" devem ter criado muitas reticências sobre a personalidade de Strauss-Kahn, mas é uma evidência que também não esqueceram o modo como ele soube adaptar positivamente a filosofia de atuação da organização. Além disso, vale a pena também ter presente a forma como Strauss-Kahn soube impor o FMI no quadro do G20, como conseguiu reforçar substancialmente os meios financeiros ao seu dispor, contribuindo também para um mais justo posicionamento relativo dos países emergentes no processo decisório dentro do Fundo. O mandato de Strauss-Kahn dentro do FMI foi um imenso sucesso, exceto o seu fim.

Apenas uma vez, e por breves minutos, me recordo de ter falado com Strauss-Kahn, nos momentos que antecederam um almoço oferecido por Lionel Jospin a António Guterres, em Matignon, creio que em 1999. Nem faço ideia do que falámos. Durante esse almoço, teve lugar uma cena algo caricata. 

A certo momento do repasto (aliás, recordo, com excelentes vinhos), achei que deveria transmitir ao primeiro-ministro português uma informação, que me parecia poder ser-lhe útil na sequência da conversa. Eu estava à esquerda de Jospin, que tinha em frente António Guterres, o qual, por sua vez,  dava a direita a Dominique Strauss-Kahn. Gatafunhei umas notas nas costas de um menu, em que devo ter escrito qualquer coisa do estilo: "Seria importante lembrar a Jospin que..." ou "A França não pode esquecer que..." ou outros comentários do género. Era uma nota para ser lida apenas por António Guterres, porque, lembro-me, tinha elementos algo sensíveis na forma como estavam apresentados. Dobrei o menu e, a um empregado de mesa que passava, pedi que o entregasse ao primeiro-ministro português, do outro lado da mesa. O homem terá entendido menos bem o que eu disse, deu a volta à mesa e passou a minha nota a... Dominique Strauss-Kahn, que estava precisamente à minha frente. 

A conversa entre Jospin e Guterres ia animada e eu não tinha a menor possibilidade de a interromper, para dizer ao ministro da Economia e Finanças francês que a nota não lhe era dirigida, mas sim ao seu parceiro do lado. Embaraçado, gesticulei discretamente para chamar a atenção de Strauss-Kahn, o qual, no entanto, se dedicava a ler, com toda a atenção, aquilo que eu tinha escrito, em letras maiúsculas, desejavelmente "for the eyes only" do meu primeiro-ministro. O governante francês deve ter percebido o essencial do texto. Quando acabou a leitura, Strauss-Kahn olhou para mim, esboçou um sorriso e passou o papel a António Guterres. Enfim, imprudências que se cometem... Não me sinto tentado a lembrar-lhe isso hoje.

6 comentários:

Luís Lavoura disse...

conseguiu modular a insensibilidade social que marcou muitos dos "ajustamentos estruturais"

Strauss-Kahn é judeu e os judeus têm uma longa tradição de modular a insensibilidade social.

Gonçalo Pereira disse...

Excelente história – mais uma vez.
Continuo a achar que deveria perpetuar estas memórias dispersas num formato mais permanente e livresco.

Sérgio Serrano disse...

E por Strauss-Kahn querer implementar medidas mais humanas no FMI é que foi tramado.Alguém duvida disso?

Anónimo disse...

Continuam as histórias da carochinha para entreter o povoléu!
Lá fora, entretanto, é uma confusão em três atos:
- Alegada corrupção por todo o lado. Nenhum corrupto!
- A direita afirma a pé juntos que o governo é anti capitalista. A esquerda defende que nunca o capital foi tão bem defendido.
- A direita quer reformas estruturais (leia-se: dar cabo do Estado, como se ele ainda existisse). A esquerda quer a descentralização que, de tão atrasada, já só vai servir para uns "ajustes de assentos".
...
O DSK apenas não percebeu nada do que estava escrito e, como viu que vinha de si, só tinha um destinatário!

Joaquim de Freitas disse...

O Senhor Lavoura acha que a sensibilidade deles na Palestina é exemplar? O que os banqueiros da Goldman Sachs, fizeram aos Gregos é duma grande sensibilidade? Ou o que fez Madof à Fundação Elie Wiesel, depenando-a pela burla? A sensibilidade judia é grande quando se trata deles mas não quando se trata dos outros.

Portugalredecouvertes disse...


Se o Sr. Embaixador fosse uma senhora é que seria pior, lá ia a história do bilhetinho para os tabloides da manhã seguinte!