terça-feira, 4 de novembro de 2014

O não de Timor-Leste

Não conheço com exatidão o que passou com os técnicos portugueses que foram intimados a sair de Timor-Leste. Não quero incorrer em juízos de valor precipitados sobre uma questão que afeta seriamente a normalidade das relações de Portugal com aquele país. Não quero crer que as autoridades timorenses tivessem escondido, até ao último instante, o seu desagrado com a prestação da cooperação portuguesa naquele setor. Não acredito que esse desagrado não tenha chegado, atempadamente, ao conhecimento das autoridades portuguesas. Não me passa pela cabeça que, se acaso fosse conhecido esse mal-estar, não tivessem sido feitas diligências, pelos canais e meios adequados, com vista a encontrar uma solução que não colocasse em causa o relacionamento bilateral. Não quero sequer imaginar que tenha havido uma má leitura de sinais que eventualmente possam ter sido do conhecimento do lado português. Não agrada a ninguém que se tenha chegado ao ponto das autoridades portuguesas terem de vir a terreiro com uma tomada de posição como a que foi há poucas horas foi assumida. Não é aceitável que, a haver quaisquer culpas do nosso lado, elas possam morrer sem par conhecido. Não consigo compreender, mas espero que rapidamente isto seja bem esclarecido, como é que uma relação de cooperação tão forte como a que existia entre Lisboa e Dili se pode ter degradado, subitamente, sem qualquer aviso prévio e sem que uma discreta diplomacia preventiva de bastidores tenha sido atempadamente posta no terreno. Não sei, mas acho que o país tem de saber. 

17 comentários:

m bairos disse...

Quem viu como o Presidente de Portugal foi desconsiderado na sessão de abertura da Cimeira da CPLP em Dili, não se surpreenderá com o que agora se passou...

Francisco Seixas da Costa disse...

Timor é um Estado independente sobre cuja organização política e judicial interna os Estados estrangeiros - a começar por Portugal, que foi o antigo poder colonial - devem abster-se de tecer comentários. Boa ou má, a democracia timorense é dos timorenses. Porém, como Estado que, no quadro bilateral, mantém uma cooperação solidária com Timor, Portugal tem o direito a ser respeitado pelas autoridades timorenses e deve exigir que os seus cidadãos, se respeitadores da lei e do comportamento que deve ser o de qualquer estrangeiro num país estranho (e, em Timor, não há portugueses e estrangeiros, há só estrangeiros), sejam tratados com equidade e com plena atenção aos seus direitos. É neste quadro que Portugal se deve relacionar com Timor.

Anónimo disse...

Espero que o comentário sobre a desconsideração do PR não venha da mesma pessoa que esteve na missão avançada da missão preparatória da CPLP. É que se for o caso confirmam-se as minhas intuições no início de carreira diplomática que a discrição andou muitas vezes misturada com a busca de protagonismo e de estrelato. Macau e Xangai que o digam.

Anónimo disse...

Caro anónimo...
Não se enganou com toda a certeza... Porque a busca de protagonismo e de estrelato tb aconteceu por Timor leste... E continua na sua página de FB "Timor 180 dias"...

Anónimo disse...

Esta situação é no mínimo surpreendente. Deve ser esclarecida adequadamente. Temo que os magistrados portugueses tenham sido peões nalguma luta política interna em Timor. Creio lembrar-me que foi no ano passado que a então Ministra da Justiça foi afastada do seu cargo, por situações dúbias em que o seu marido estava envolvido. Será isto uma retaliação?

Joaquim de Freitas disse...

Reacção curiosa vinda dum pais que Portugal tanto defendeu no passado ao mais alto nível. Se Portugal for posto de fora, Timor ficará sozinho para defender o seu tesouro do Mar de Timor.

Talvez exista por trás desta crise entre os dois países uma acção da Austrália, que continua a pretender 50% dos 40 000 milhões de dólares de gás do jazigo que se encontra a 100 km da costa de Timor mas a 400 km da costa da Austrália, ao qual a Austrália , por conseguinte, não tem nenhum direito.

Li algures que descobriram uma operação de espionagem nos escritórios do governo de Timor, segundo a qual, quatro agentes australianos disfarçados em trabalhadores humanitários encarregados de renovar estes escritórios, colocaram microfones , o que lhes permitiu conhecer o teor das discussões sobre a delimitação definitiva dos fundos marítimos , no quadro do tratado " CMATS ( Certain Maritime Arrangements in Timor Sea) . Foi este tratado, proposto pela Austrália ,que lhe garantiu os tais 50% do jazigo. Timor pôs o caso na Corte Internacional de Arbitragem da Haia para anular este tratado.

Foi o antigo MNE da AUSTRALIA, ALEX DOWNER , QUE INSPIROU ESTE TRATADO. CLARO, ENTRETANTO , ESTE ESPERTALHAO DIRIGE HOJE UMA FIRMA DE RELAÇOES PUBLICAS REPRESENTANDO WOOSIDE PETROLEUM QUE ERA O GRANDE BENEFICIÀRIO DESTE TRATADO.

ARD disse...

O comentário do anónimo da.01:59 é demasiado sibilino.
Sem pedir que identifique ninguém, pode explicar-nos "Macau e Xangai"?

Anónimo disse...

A telegrafia sobre esta questão, expedida e recebida, no MNE dá para se perceber como as coisas se terão passado. E quer-me parecer que alguém vai sair mal da fotografia. Que talvez se venha a traduzir no movimento diplomático ao nível de CM.

Anónimo disse...

Caro anónimo 08:20,
Desconhecia a página de FB "Timor 180 dias" que é um verdadeiro guia ao bom estilo Michelin. É, por estes exemplos, que o país não avança com tanta sede de protagonismo.

Anónimo disse...

Pedi, para o PR esclareça Portugal o que efectivamente se passou - é pessoa idónea para o efeito - o governo nem pensar.

Zé da Adega

RFC disse...

Umas notas, depois de ler uma réplica do embaixador Seixas da Costa. Pode ler-se que Xanana continuou hoje a sua estratégia de silenciamento dos alegados casos de corrupção sob inquérito, em Timor, através do saneamento e caça de outros juízes portugueses. O percurso político da personagem (e de parte das elites timorenses?) e, consequentemente, a decepção exibida há uns largos anos por alguns dos jornalistas portugueses que, desde a primeira hora, acompanharam a ascensão das Falintil e de Xanana em Dili, são conhecidos e não é coisa nova. Exemplo, que não pode ser desvalorizado: a opinião pública portuguesa que vive com os olhos abertos viu-a aliás, há poucos meses, numa das maiores humilhações feitas à diplomacia portuguesa pós-25 de Abril aquando da última cimeira da CPLP sobre o corrupto regime de sangre de Obiang, em Dili, com o PR algarvio e o PM a fazerem uma figura indigna, ou a permitirem que tenham sido tratados indignamente.* Impressiona mais, no entanto, que a imprensa portuguesa não tenha a agenda telefónica actualizada, ou que pura e simplesmente não exista nada de novo na sociedade civil timorense pós-independência, porque quem surgiu ontem a contestar a estratégia de Xanana Gusmão foi a Fretilin pela voz de Mário Alkatiri. E essa ausência é o + preocupante sobre o que revela sobre as relações biletrais Timor/Portugal em 2014, ou deveria ser.

* Ou seja, tratar-se-á de um padrão que, não sendo referido no post do embaixador Seixas da Costa, opõe Xanana vs. MNE de Rui Machete (e que depois contagia o topo do estado com o PM e o PR portugueses, daí a crítica ao Palácio das Necessidades).

Há mais dois juízes portugueses despedidos por Timor. Iam dar formação e tinham acabado de chegar

Alexandre Baptista Coelho e Fernando Estrela chegaram a Dili em setembro e foram contratados para dar formação. Os contratos foram suspensos mas estes juízes não receberam ordem de expulsão.

Para além de despedir e dar ordem de expulsão a seis magistrados e a um oficial da PSP, o governo timorense suspendeu os contratos a mais dois juízes portugueses: Alexandre Baptista Coelho e Fernando Estrela, dois desembargadores com vasta experiência, que tinham sido contratados em setembro para dar formação aos quadros timorenses.

Porém, a ordem de expulsão em 48 horas imposta na segunda-feira pelo Governo de Timor-Leste não abrange estes dois magistrados, que pelo menos para já vão manter-se no território.

Os outros cinco juízes despedidos e expulsos por Timor já têm viagem de regresso marcada. Eduardo Neves, que tinha chegado em setembro foi o primeiro a conseguir um voo de regresso. Os outros quatro voltam na quarta-feira, tal como o oficial da PSP que estava há cinco anos em Timor. A procuradora Glória Alves regressa a Lisboa na quinta-feira.

No Expresso online.

Anónimo disse...

"Naturalmente, o ministro Rui Machete merece igualmente ser sinceramente saudado por esse novo sucesso do ministério que dirige."
- Francisco Seixas da Costa.


Que incoerência!

Anónimo disse...

Se é verdade que os juízes destacados por Portugal andavam a fazer julgamentos e não a dar formação então é porque o Conselho Superior de Magistratura não sabe o que anda a fazer e o órgão sucessor do IPAD também não.
O Cônsul-Geral de Portugal em Macau, militante do PSD e ex-chefe de gabinete de Relvas, promovido por Amado a chefe de gabinete do secretário de estado socialista António Braga tem um muito dilatado e faz uma gestão metódica das suas relações com o poder enviando no seu facebook a todas as pessoas em posições ligadas ao poder " um abraço amigo" ou um "beijo amigo". No MNE a memória não é curta sobre os colegas que perseguiu.
O Cônsul-Geral em Xangai é na acepção da palavra uma verdadeira prima dona.

Portugalredecouvertes disse...


Sr. Embaixador, lembro-me que o pessoal até se dava bem! há alguns anos disseram-nos para nos vestirmos de branco por Timor, não me recordo quem dava essas instruções, nem qual era o motivo!
espero que o povo timorense continue em paz.
cumprimentos
Angela

Anónimo disse...

DN de hoje: "Juízes e procuradores estavam ligados a uma verdadeira operação "mãos limpas" que decorria há três anos. Um deles era juiz titular do processo contra a ministra das Finanças de Timor-Leste."

Anónimo disse...

Nem o IPAD, nem o seu sucessor, têm a ver com o que se passa.

Relembro que há uns anos aconteceu algo semelhante com um juiz português. Apenas um nessa altura.

Portugal e Timor têm muito a perder com esta situação. Talvez mais Timor do que Portugal.

Mas estou certo que, passada a tempestade e para amenizar as coisas, a cooperação entre ambos os países será reforçada: Cinismo político entre antigos doador-beneficiário e agora Parceiros?

A política é isso mesmo.

Ainda assim, tenho muita confiança no que o atual Embaixador em Díli possa fazer.

Nuvorila disse...

Porque não se calam,se não podem falar claro? E têm medo de quem?