quinta-feira, 8 de maio de 2014

O botão

As cerimónias de entrega de credenciais dos embaixadores estrangeiros passam-se no palácio de Belém, numa grande sala adjacente ao gabinete oficial do presidente da República (digo "oficial" porque, na realidade, o presidente não trabalha nesse gabinete). Durante o ato protocolar, o chefe do Estado tem a seu lado, mas um pouco mais recuado, o ministro dos Negócios Estrangeiros (ou, na frequente impossibilidade deste, um qualquer secretário de Estado, ou mesmo o secretário-geral, do MNE). Quem, em qualquer governo, passou por essa função na cerimónia sabe que deve colocar-se "sobre uma rosa" que existe no desenho da carpete.

A cerimónia é simples. O presidente recebe da mão do embaixador as chamadas "cartas credenciais" (um envelope com uma carta do chefe de Estado estrangeiro ao seu homólogo português, a "recomendar" o seu embaixador), passa-as de imediato ao membro do governo, que as "despacha", logo de seguida, para alguém do serviço do Protocolo, situado ainda mais atrás. Seguem depois para o gabinete oficial, onde os três, acompanhados pelo assessor diplomático de presidente, se sentam para uma conversa de alguns minutos.

Fiz essa "coreografia" várias vezes, ao longo de alguns anos, ao tempo em Jorge Sampaio era presidente. O traje para a cerimónia é o fraque. Com o tempo e com o corpo a ter tendência a avolumar-se, o meu fraque foi ficando cada vez mais apertado. Enquanto de pé, o único botão do fraque ainda fechava. Por isso, e de certo modo, constituía para mim um alívio o momento em que nos íamos sentar, já com esse botão desapertado. A partir daí, a sustentação do abdómen ficava a cargo do colete, este já com vários botões, que se usa sob o fraque. Mas, com o tempo, também o próprio colete foi ficando, progressivamente, mais justo e apertado. E como não podia ser desabotoado, estar sentado era também um tormento. Hoje posso dizer que aquela não era uma cerimónia que eu apreciasse excessivamente.

Numa dessas ocasiões, na receção a um embaixador de um país asiático, mal tínhamos acabado de nos sentar, enquanto o presidente dizia aquelas "niceties" iniciais ("Mr. Ambassador, it's a great pleasure to receive you in Portugal..."), antes de abordar algumas temáticas bilaterais, apoiado nas notas que os Negócios estrangeiros lhe tinham preparado, um dos botões do meu colete soltou-se, projetando-se em frente, mais de um metro. A conversa estacou por instantes. O embaixador, impávido, olhos em bico arregalados, cuidou de preservar um ar neutro, como se o caricato da cena não o tivesse tocado. Eu olhei, algo embaraçado, para um divertido Jorge Sampaio, que, se bem o conheço, deve ter dito qualquer coisa como "Mr. Secretary of State, these things happen!". O assessor presidencial, simpático e risonho, apanhou o botão e devolveu-mo, quiçá temeroso de que, se fosse eu a tentar apanhá-lo, acabasse por desencadear, fruto de uma pressão abdominal acrescida, uma temível "rajada" do resto dos botões a saltarem. Até ao fim da conversa, "fiz peito", sentado entre um presidente que me continuava a olhar bem disposto e um embaixador, muito asiático e compenetrado, que, nem por um momento, através de um simples sorriso, quis dar sinal de que comungava de uma qualquer leitura do ridículo que a situação a que assistira encerrava. Não seria por falha dele que as relações bilaterais seriam comprometidas...

15 comentários:

Rui Estêvão Alexandre disse...

Nem imagina o que me ri, imaginando o caricato da situação.

Isabel Seixas disse...

Uau, finalmente faz-se luz no meu espírito sobre a utilidade daquela regra de protocolo...

Os sinais que os gestos transmitem

"Nunca aperte o último botão do blazer, a não ser que o seu casaco tenha apenas um e, nessas circunstâncias, terá mesmo de o apertar. Se o blazer tiver três botões, aperte apenas o do meio.

Quando se vai sentar, lembre-se de os desapertar.

Um cavalheiro sabe que a primeira instrução quando se levanta antes de cumprimentar alguém é apertar o botão do blazer".

Afinal ... Dá jeito

A história é bem engraçada.

jonas river disse...

Caro Embaixador;
O seu post como sempre é excelente,e trouxe-me há lembrança uma situação também divertida a que assisti,passada num quartel dos Açores no final dos anos oitenta.
Na formatura geral da cerimónia do dia da unidade,o sargento chefe da secretaria do comando,homem culto educado etc,mas de medidas muito avantajadas,não fardava o cinto da farda nº1.
O comandante,(coronel)de proporções físicas bastante inferiores,e um bocado militarista resolve chamar-lhe a atenção:
-Então chefe,ainda não tem o cinto?
-Veja lá meu comandante,as oficinas gerais já não fazem fardamento para homens.
Imagine a contenção que foi necessária.
De facto o cinto não tinha tamanho suficiente.

Cumprimentos.

Rui C.Marques disse...

Meu Caro Francisco,
Por esta e por tantas outras,continuo à espera de um livro de memórias.
O abraço de sempre.

patricio branco disse...

normalmente, esses botões saem com força e velocidade, são disparados, e fazem um ruido caracteristico...
camoisas, calças, casacos, todos podem sair disparados se não aguentarem.
há cenas bem cómixas no cinema como a descrita em que foi actor.
o espectador asiatico preferiu ficar neutro, claro, era o que menos podia ou devia fazer.
houve solidariedade e ajuda na situação
os melhores smokings são os que têm varios botões na cintura para adaptar o diametro das calças ao usador, mas no casaco dificil..
simpatico presidente o jorge sampaio, sempre achei, tenho a confirmação...

Defreitas disse...

Constato que um embaixador pode ser um bom cenarista! E quando o script é bom, o resultado é hilariante! E logo de manhã até faz bem ! Merci Monsieur!

Guilherme Sanches disse...

Bela história, sim senhor.
Muda-se o corpo, muda-se o vestuário... e que tal comprar um fraque novo?
É por esses e por outros que as excelentes confecções portuguesas passaram um mau bocado...
Um abraço

Anónimo disse...

O que eu me rí.:-).
Pior só mesmo quando o fecho de um vestido se estraga e só temos um pequeno adereço para tapar. Acredite é muito pior.
Bjhs
CL

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

A rir sem parar imaginando a cena

Anónimo disse...


Gostei!!!

Isabel Botelho

A.Teixeira disse...

É por esta sua capacidade de projectar tanto botões como bom humor que, ainda a respeito de uma sua nomeação bem recente, eu não espero menos de si do que assistir, graças aos seus predicados, a um próximo programa do «Master Chef» Austrália dedicado à confecção de uma chanfana ou de uns charrinhos alimados.

ignatz disse...

um botão de fraque hilariante para a maioria e inodoro para a asia.

Anónimo disse...

Óh! homem. Junte estes relatos e publique. Se não fizer você faço-o eu

CSC

Anónimo disse...

Então o embaixador asiático também era assim tão gordo que não pudesse baixar-se para apanhar o botão ?
Afinal razão tinha o Jacques Lang, no primeiro governo a seguir à vitória da esquerda de 1981 em que aparecia quase sempre como um ministro descontraído, de colarinho à Mao e tudo... Só que o Mitterrand não era tanto de brincadeiras e, a pouco e pouco, meteu aquelas descontracções de esquerda às direitas.
Porque é que o embaixador asiático não se podia baixar para apanhar o botão? Porque o protocolo não o previa? E se fosse o candelabro que, por qualquer estremecer, caísse em cima da cabeça do Presidente? Deixavam sua Excelência a aguentar com o lampião enquanto a cerimónia durava?
Ai o protocolo...
José Barros

Anónimo disse...

Mais uma interessante história dos seus tempos passados, que agora recorda. Trouxe-me à memória também uma história que se passou comigo. Um amigo meu, oficial da marinha, casou já com os seus 40 anos. Nas cerimónias, ele foi fardado a rigor, só que as medidas eram de tempos passados... e, em frente ao padre, aconteceu-lhe a mesma coisa: um botão caiu ali mesmo.