domingo, 30 de março de 2014

Os encontros da política

Ontem, passei grande parte do dia em "trabalhos" de uma estimável Confraria de enófilos e gastrónomos. Como sempre acontece nestas ocasiões, na mesa onde abanquei fiz conhecimento com pessoas que nunca antes tinha cruzado. A conversa foi solta, como não podia deixar de ser, mas teve a saudável caraterística de fugirmos, com naturalidade, às temáticas potencialmente mais conflituais: não se falou de política. 

Evitar abordar temas de política e de religião - noutros meios acrescentar-se-ia à lista a saúde, questões de dinheiro e opinar sobre pessoas ausentes - é um ato de bom senso a qualquer mesa, quando na presença de gente que não conhecemos ou conhecemos menos bem. Há pessoas mais sensíveis face às suas convicções e uma ocasião pode ficar estragada se não soubermos preservar o respeito estrito pelo que os outros pensam. Já assisti a cenas bem desagradáveis neste domínio e, em duas ou três ocasiões, eu próprio cometi erros de que me arrependo.

Outras ocasiões, contudo, convocam precisamente a identificação social da opinião politica. Imediatamente após o 25 de abril, cruzei, numa rua de Vila Real, um colega de liceu que já não via há muitos anos. Demos fortes abraços, lembrámos algumas histórias antigas e perguntámos por conhecidos comuns. Foi uma daquelas conversas típicas destes reencontros, que têm substância para os primeiros 10 a 15 minutos, mas que se esgotam depois rapidamente, por falta de temas, devido ao facto dos mundos de cada um terem quase sempre limitados pontos de contacto.

Convém lembrar que se viviam, por esses dias, tempos ideológicos muito intensos. Muitos portugueses tinham despertado subitamente para a coisa política, assumindo-se face ao vasto leque de opções partidárias que a Revolução abrira. Esse meu amigo não escondeu a sua curiosidade sobre o lugar ideológico onde eu "estaria" e perguntou:

- Olha lá! E nas políticas, por onde andas? Mais às esquerdas ou mais às direitas?

Achei divertida a "fórmula" utilizada, tendo respondido com a verdade. De facto, logo concluímos que não andávamos pelas mesmas lateralizações ideológicas. Mas continuámos bons amigos.

3 comentários:

Anónimo disse...

A ler: A pobreza observada, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

Alexandre

Defreitas disse...

Há amigos de trinta anos célebres ! " À toi Matignon tout de suite, à moi l'Elysée dans deux ans. C'est le pacte de 1993, scellé entre les amis de trente ans Edouard Balladur et Jacques Chirac."
On connaît la suite !

Isabel Seixas disse...

De facto às vezes , aconselhado até como caminho na embriagues, é mais consensual seguir pelo centro...Fica equidistante das lateralidades.