quarta-feira, 26 de março de 2014

Um debate europeu?

Em tese, percebe-se a ideia há dias adiantada pelo presidente da República no sentido da campanha para o Parlamento europeu dever ser aproveitada para um debate sereno sobre os caminhos futuros da Europa. Num mundo ideal, assim seria. Mas o chefe do Estado não desconhecerá que a temática europeia, em muitos aspetos, faz já hoje parte da política "interna" e que há uma imbricação quase inevitável entre aquilo que é do debate europeu e aquilo que releva da nossa política nacional. Eu diria mesmo mais: nunca como hoje as duas coisas estiveram tão ligadas e, entre nós, o processo de ajustamento ajudou a "meter tudo no mesmo saco". Se acaso os partidos da oposição à atual maioria se resignassem a seguir o conselho do presidente, estariam a desperdiçar um ensejo para contestar, precisamente, o que tem sido a atitude (e reparem que eu não digo "a política") dessa mesma maioria no terreno europeu, com consequências de grande monta no plano das políticas públicas internas. Ora isto é impensável, pelo que a campanha para as eleições europeias não pode senão ser um capítulo mais da luta política interna, tentando dar ao eleitorado uma primeira perspetiva daquilo que terá de ser decidido em 2015. Ou mesmo antes desse ano, se o chefe de Estado quiser entender dever tirar ilações, também elas extensivas mas porventura clarificadoras, daquilo que se vai passar no dia 25 de maio. O país do pós-troika ficaria bem melhor servido se os nossos credores externos pudessem beneficiar, desde já, de uma clarificação, que se torna urgente, do nosso quadro político. Para ser mais claro: deveria haver eleições legislativas tão cedo quanto possível. Recorde-se que o argumento da importância do cumprimento da legislatura foi quebrado pelo próprio presidente em julho do ano passado, quando estimulou a patética "semana do consenso", com a ideia de eleições antecipadas em meados deste ano. Se os resultados de 25 de maio mostrarem que há uma inversão clara na vontade dos portugueses, a atitude mais saudável seria a convocação de eleições legislativas. Digo eu, não sei!, como se diz na minha terra.

7 comentários:

Anónimo disse...

Falta ao PR isenção como mostrou ao tirar o tapete a Sócrates e ao ter prolongado indefinidamente Relvas no poder. O apelo a um debate sereno sobre as europeias é em si mesmo uma lapalissada e não traz valor acrescentado quando o PR mostrou não ser um factor capaz de aglutinar os portugueses. Em compensação é uma boa notícia a lista socialista para o PE, altamente qualificada e feminina, comme il faut.

opjj disse...

Não concordo com V.Exª. a ser assim, trata-se de um desejo e não de uma necessidade.
E se os resultados não forem os que deseja?
Há um ditado feio que diz, cadela apressada, tem os cachorros...
Demos tempo ao tempo.
Peço desculpa por esta contrariedade.
Cumprimentos

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Senhor Embaixador

Em democracia um mandato é para se cumprir até ao fim, Ainda por cima havendo no Parlamento uma maioria que sustenta o governo.

Não há necessidade de eleições antecipadas, mesmo que o resultado das eleições Europeias seja diferente

Anónimo disse...

Acabei de ouvir na TV um comentador dizer: ESTE PAÍS ESTÁ DE CÓCORAS! Um grande titulo para debater… de cócoras... digo eu…

Anónimo disse...

O que impressiona na fala do PR é ele ter-se permitido dizer aos partidos o que devem fazer na campanha eleitoral. Não o que ele esperava ou gostava que fizessem, mas o que devem fazer! Não me lembra de ver tão flagrante ingerência nas instituições democráticas, o que, aliás, nãoparece ter impressionado os cometadores.

Defreitas disse...

Aliás, "não é muito inteligente
imaginar que numa casa tão apinhada como a Europa, uma comunidade de povos
seja capaz de manter diferentes sistemas legais e diferentes conceitos legais
durante muito tempo." Quem disse isto foi Adolf Hitler. A pax germânica
seria o destino de "um continente em paz, livre das suas barreiras e
obstáculos, onde a história e a geografia se encontram, finalmente,
reconciliadas" - palavras de Giscard d'Estaing, redactor do projecto de
Constituição europeia.

É um facto que a Europa aparenta estar em paz. Mas a guerra pode ter já
recomeçado.

EGR disse...

Senhor Embaixador: confesso que já não tenho paciencia para ouvir os apelos do PR.
Aquilo acaba sempre por me parecer um certo desejo de "união nacional"
E vindo de quem, no exercecio do poder, sempre desprezou o debate, quer não indo ao Parlamento, quer até no seu próprio partido, então já me parece haver alguma hipocrisia ou tentativa de não ficar colado a desgraçada
governação que tanto ajudou a nascer e a manter.