sexta-feira, 14 de março de 2014

Crispação

Não deixa de ser preocupante e sintomática a polémica criada em torno do "manifesto" sobre a reestruturação da dívida pública portuguesa, apresentado por mais de 70 figuras da nossa vida pública.

Por um lado, estimulada pelo desagrado da reação oficial, desencadeou-se uma onda de acusações aos subscritores do documento, tidos por irresponsáveis e quase anti-patriotas. Setores da blogosfera e comentadores mediáticos na área do poder lançaram ataques de inusitada violência, onde, no fundo, transparecia este sentimento: o "manifesto" é um texto da esquerda a que, por oportunismo, ressabiamento ou "naiveté", certa direita se juntou, acabando por ser "compagnon de route" de uma iniciativa que, sem o afirmar expressamente, contesta a filosofia do modelo de ajustamento seguido. E isto é quase crime!

No outra banda, na margem esquerda, a atitude não foi menos ridícula. A menor crítica ao "manifesto" foi vista como uma ignorante negação da realidade, uma colagem culposa às posições oficiais, com os polícias ideológicos do costume a instaurarem um "rigoroso inquérito" a quem se afastasse da racionalidade da iniciativa. As menores dúvidas quanto à oportunidade da apresentação do texto, qualquer que fosse a opinião expressa sobre o seu conteúdo, foram tratadas com desprezo, qualificados os seus titulares de "direitistas" e, em alguns dos comentários, de "proto-fascistas". Também por aqui, o "patriotismo" só teve uma cor. Embora outra.

Que diabo de país em que nos transformámos, que já não consegue discutir nada com um mínimo de serenidade! E, pior que tudo, de seriedade.

18 comentários:

Anónimo disse...

Na mouche.

Anónimo disse...

afinal seguidores de Pilatos é que não falta na nossa praça!
E por aqui?! O que se acha sobre o que devemos, porque o devemos, e como o vamos pagar?

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 12.55. Leia os posts anteriores sobre o assunto e logo ficará a saber

Helena Sacadura Cabral disse...

Concordo consigo. Em Portugal vivem-se tempos de extremos: "se não és por mim és contra mim"...

Anónimo disse...

Também acho que foi na mouche. Com uma diferença: o combate político é isso mesmo: explorar as fraquezas e os disparates dos adversários sem piedade, sem armas nem ameaças físicas ou revolucionárias que todos os fracos utilizam a todo o momento por lhes faltar o "argumentozinho"

um comentário a despropósito: neste blogue a argumentação pré histórica ( de há mais de quarenta anos) é recorrente. Mas o tempo avança: qual a idade média dos subscritores do manifesto? Aposto que anda pela minha, que já é avançada.Parece-me necessário uma "reciclagem" : as minhas filhas não sabem quem foi Marcello Caetano. Salazar nada lhes diz e Mário Soares é um nome vaguíssimo. Acham fantástico que no ano em que nasceram ainda faltassem uns dez anos para os computadores invadirem os empregos e destruírem milhares de postos de trabalho. e sobretudo, não percebem a argumentação tipo Maio de 68 ou dos estudantes que se batiam contra a PIDE. O que é a PIDE? Têm mais do que fazer do que resolver os fantasmas da geração do pai delas. Têm que batalhar pela vida delas que está muito complicada porquê? Porque a geração do pai delas continua a sonhar com impossíveis e a pensar que quem vem atrás que resolva o assunto: é triste.
João Vieira

Antonio Cristovao disse...

haja sangue frio e que se derrimam os argumentos com ferocidade. O que não gosto é quando se começam a combater as pessoas e não os temas. Aé ja vamos para a demagogia.
Mas não lembra ao diabo tanta gente responsavel por torrarem 240 mil milhoes virem agora com ar candido reclamar melhores condiçoes - que diga-se têm sido paulatinamente vindo a melhorar . Mas para ser verdadeiro o que alguns do manifesto assinaram foram condições muito piores. So acordaram agora?

Anónimo disse...

O único comentário correcto face á realidade portuguesa é do Sr.Joâo Vieira !

Há sempre algum mofo que resiste!

Alexandre, da geração de 60 !






Defreitas disse...

O que escreve o Senhor João Vieira prova bem que o tempo não passa: somos nos que passamos. E passamos por vezes sem compreender o que se passou no tempo que vivemos.
Porque quando escreve que ", não percebem (as suas filhas) a argumentação tipo Maio de 68 ou dos estudantes que se batiam contra a PIDE. O que é a PIDE? Têm mais do que fazer do que resolver os fantasmas da geração do pai delas." , é incompreensível.

Primeiro, a PIDE não era um fantasma, Senhor Vieira. Que o digam aqueles que passaram pelas mãos deles.

Segundo , a PIDE era o algoz da sociedade submetida a uma ditadura feroz , onde a liberdade era condicionada e o pensamento algemado. A iniciativa pertencia àqueles que possuíam o poder económico e político. Os outros não contavam. A PIDE servia para os manter em respeito.

Terceiro, a sociedade portuguesa actual é o resultado daquela em que vivemos, pelo menos, no que me respeita, até uma certa data. O atraso considerável de meio século da sociedade portuguesa actual deve-se, em grande parte, a esses tempos onde o tempo passava e o povo estagnava. O tempo passava sem nos! O tempo não espera por ninguém.

Dizer que a nossa geração sonha com impossíveis é admitir que o tratamento infligido pelos governantes actuais aos povos é merecido ou não têm direito a outro.

Esta tarde, depois duma bela tarde de ski cá na minha terra de França, vivi um momento triste. Um casal português colava uma etiqueta na vitrina dum comerciante, a quem tinha pedido a necessária autorização, na qual uma jovem de 22 anos pedia um emprego, "não importa qual", "mesmo "arrumar casas". Doméstica!

Quando compreendi que era Portuguesa, fiz-lhe algumas perguntas. Tinha chegado há dois meses, os Pais já cá viviam desde há dois anos, ( o Pai trabalha na construção civil e ganha 1900 euros líquidos) e ela tinha acabado os estudos... em Portugal. Licenciada em Letras, falando o Inglês e um pouco Francês, procura um trabalho para não sobrecarregar os Pais. O trabalho de " femme de ménage" será, espero para ela, provisório. Desperdício da vida humana.

Senhor João Vieira: O drama destes jovens é que finalmente, a miséria dos anos 60 reproduz-se hoje. Creio que esta jovem Portuguesa sabe porque é que os estudantes se batiam em Maio 1968. E creio que ela sabe também que foram esses anos perdidos, cinquenta, pela geração dos Pais, em Portugal, não por culpa deles mas do regime que os governou, que deram como resultado que os Pais foram obrigados a deixar a terra Mãe e ela agora também.

Foram estes jovens a quem os dirigentes da nossa geração roubaram o futuro. Porque o tempo de aprender a viver e já é tarde demais.

Esses dirigentes e essa casta política não têm circunstâncias atenuantes. E aqueles que os apoiam também não.

J. de Freitas

Anónimo disse...

João Vieira,
Cada um tem os filhos que tem e educa-os como bem, ou mal, entende. Meus filhos, ainda nos vintes e muito pouco (tinham 3 e 4 anos e coisa quando Mário Soares deixou a Presidência), sabem que foi Salazar, sabem quem foi Marcello Caetano, figuras políticas que não nos deixaram saudades (políticas) nenhumas, a não ser a quem os pretende fazer esquecer junto dos filhos, como se ou nunca tivessem existido, ou não tivessem sido responsáveis por uma Ditadura miserável, que o 25 de Abril, felizmente, acabou e nos permite hoje ter gente informada sobre a tal Ditadura e outra ignorante da mesma, o que é de lamentar, mas é assim a Democracia. E sabem quem foi Mário Soares, a quem devemos, também, esta nossa Democracia. Estas coisas explicam-se, conversam-se, falam-se. Ou não, se os ascendentes assim o preferirem, como forma de apagar o passado. E também, meus filhos, estão informados sobre o que foi a PIDE. Falámos-lhes disso cá em casa. E sabe? Outro dia, aqui há uns tempos, um deles perguntou-me se lhes explicava o dito Maio 68, visto ter lido algo repescado de J.P. Sartre, de uma amiga. Você, oh João Vieira, retira umas conclusões apressadas e faz umas deduções ainda mais tolas, desculpe que lhe diga. O seu problema é se calhar nunca ter achado mal na Ditadura e hoje não perceber o que se está a passar, com um governo, que é tal como o ácido nítrico. E quem assim pensa, assim transmite aos descendentes. Quanto a essa dos computadores é no mínimo patético. Os jovens com cabeça, tronco e membros, sabem, ou deviam saber, sem desdenhar, pois desdenhar é uma característica de ignorantes, que os tempos que os antecederam eram diferentes. Também na Antiguidade Clássica não existiam calças e se andava de toga, ou outro tipo de vestimenta. O garfo terá sido inventado, ao que dizem, por volta do século XV. E se por aí prosseguimos, para os jovens que se espantam com o que não devem, ainda lhes poderiamos recordar quando foi inventado telefone, o 1º automóvel, a luz eléctrica, etc, já para não falarmos do tijolo e cimento e por aí fora! E se calhar a roda. Assim, só tenho é que lamentar e achar completamente deslocado o seu comentário – corroboado por Alexandre, sempre atento à desinformação (quanto menos os jovens souberem, melhor, mais facilmente se lhes faz a cabeça!). Aqui o que é dito pelo autor do Blogue deveria servir para alguma reflexão, sobretudo tendo em conta o que ele pensa – embora discorde, mas respeitando – da oportunidade do tal Manifesto/70. Ambos, João Vieira e Alexandre, acabam por ter uma atitude muito pouco tolerante para com quem tem ideias diferentes, e até desrespeitosas, como muitos dos que criticam o Manifesto. Aprendam pelo menos com o autor deste Blogue, que aqui criticam, que, embora tendo a opinião que tem sobre o mesmo, ou o seu timing, nem por isso deixa de manifestar tolerância sobre quem pensa o contrário. Mas, lá está: a tolerância tem também a ver com quem não esquece o passado (Salazar e Marcello) e se recorda do presente (Soares).
Lourenço

Anónimo disse...

Concordo com o texto, com exceção da referência ao "oportunismo" ou à "naiveté" da direita em ter assinado o dito manifesto. Não esquecer que o referido documento foi também elaborado por gente ligada à direita. Ou o PS também quer fazer do mesmo sua bandeira?
José Amador

Anónimo disse...

O Senhor Embaixador, homem tão vivido e informado, ainda não entendeu que hoje em dia não faz qualquer sentido dividir-se a esfera política entre esquerda e direita? Isso já não existe, é um tempo passado e que já não volta. Existem posições e soluções que não se encaixam simplesmente como sendo de direita ou como sendo de esquerda. Pode observar que as novas gerações preocupam-se mais em defender posições e não tanto em rotular se a posição é de esquerda ou de direita.

Anónimo disse...

O meu comentário visava precisamente as ideias resultantes de uma vivência única, limitada no tempo, como se o tempo não passasse e só aqueles dados tivessem que ser equacionados. Atingiu em cheio Dfreitas e Lourenço. Era para eles: passaram mais de quarenta anos desde o factos de que fálam , certamente distorcidos em alguma coisa dada a paixão militante com que escrevem. Houve muitos mais factos e de entre os factos técnicos a revolução tecnológica que a minha geração presenciou terá muito mais importância do que o facto particular da PIDE que já não me atingiu em cheio, visto que para tal teria de ser de uma outra geração ainda mais velha do que já sou.
Quanto à educação dos filhos: claro cada um faz como entende. E eu não eduquei diferente do que fui educado e tenho tido sorte porque vou andando em paz, como Deus manda.
João Vieira

Anónimo disse...

Acho que o melhor é ir fazermos sky!

Alexandre

Anónimo disse...

Caro João Vieira,

E os seus filhos educarão os deles da mesma maneira...boa

Há pessoas que nunca se perdem, porque nunca se poem a caminho!

Defreitas disse...

Senhor Joao Vieira;


Os "factos equacionados", para utilizar o seu termo, desse tempo que afinal não conheceu, mas do qual fala ao referir-se à PIDE, que não o "atingiu" segundo diz, mas sobre a qual tem uma opinião, tiveram uma repercussão nos tempos de hoje e por conseguinte na vida dos jovens de hoje. Este era o fundo do meu comentário.

Se esses factos não me marcaram a mim , porque fui viver para outras terras mais democráticas, e não me impediram de fazer uma carreira profissional à medida das minhas ambições, não deixo de considerar que muitos Portugueses ainda sofrem hoje as consequências dum regime que os abandonou e desprezou.

Só um grande egoísmo pode levar alguém a pensar que perante a miséria actual que lavra no nosso pais, e as nuvens negras que pairam sobre o futuro dos jovens de hoje, a "revolução tecnológica terá muito mais importância do que o facto particular da PIDE", como escreve. Não vejo o que a policia politica tem a ver com a revolução tecnológica. Mas que tem a ver com o Portugal retrógrado que conhecemos, como consequência do passado, isso sim.

A revolução tecnológica por si só, não substitui a dignidade do homem, Senhor João Vieira e o Senhor confunde alegremente um passado indigno, e a marcha do mundo.

O progresso que não tem como objectivo de melhorar a vida dos homens é um retrocesso.


(PS) " Escreve : os factos de que fálam , certamente distorcidos em alguma coisa dada a paixão militante com que escrevem" . Senhor Vieira: quando se utilizam estes termos deve-se provar o que se escreve. Quanto ao militantismo o que é que o leva a responder ?

Mônica disse...

Senhor embaixador são muitas as datas que os portugueses precisam guardar. Eu só digo uma coisa. Espero que a democracia no meu país faca algo de bom para meus netos descobrirem um pais bonito na natureza e pra se viver. Por enquanto está perigoso ate nas cidades pequenas com carinho sua sempre Amiga Mônica

Anónimo disse...

Não sendo politizado tudo isto, felizmente para mim, parece apenas uma conversa entre adeptos de vários clubes de football. Querem apenas defender o seu clube sem pensarem sériamente sobre o assunto que me parece estar-se a agravar. Enfim este país nem com a entrada na UE conseguiu andar para a frente. Somos muito conservadores.

Defreitas disse...

Das mensagens da Senhora Mónica, que leio sempre com muita atenção, emana sempre
um sentimento de bondade e humanismo, fruto certamente duma boa educação cristã, que, entretanto, deixa transparecer uma profunda inquietude sobre o futuro do Brasil.
Como a compreendo. Conheço um pouco o Brasil , onde fui várias vezes em missão profissional. Devo ter mesmo cruzado o sindicalista Lula da Silva na sua fábrica automóvel de S.Paulo, no triângulo.

O Brasil teve desde há um século e tem ainda progressos económicos extraordinários, graças a uma explosão incessante de actividades, de energia, e de espírito de iniciativa. Mas paralelamente, este gigante de quase 9 000 000 de km2, apresenta também as mais fortes desigualdades sociais no mundo.

Uma sucessão de ciclos económicos caracteriza a historia do Brasil : Açúcar, café, algodão, minas, agricultura etc., e agora o petróleo ... Valores especulativos, quase sempre, enriqueceu muita gente vinda dos quatro cantos do mundo.

Pais emergente, é uma potência económica com a qual é preciso contar, no quadro da globalização.

Mas resta um pais de paradoxos, de contrastes, onde a riqueza e a pobreza extrema são vizinhas , sem , entretanto, apresentar até agora tensões insuportáveis podendo levar à insurreição popular. Mas , mesmo se estas diferenças parecem para alguns um pouco folclóricas, mesmo aceites pela maioria, creio que seria bom não esquecer que estas diferenças tornam também frágil este edifício e se transformam cada vez mais num factor de bloqueio.
Compreender o Brasil consiste a oscilar em permanência entre disparidades e dinamismos, estes dois termos estando frequentemente ligados na realidade social. O gradiente Norte/Sul revela ainda profundas desigualdades perante à morte.

E portanto, a maior riqueza do Brasil é ainda a sua população: 180 milhões! Um trunfo, Senhora Mónica, para o futuro.
Uma classe média que fez o "milagre" económico, bem formada e qualificada.

E, Senhora Mónica, só falta ao Brasil uma classe politica menos corrompida, mais atenta às necessidades do povo trabalhador, mais justa, que aceite a distribuição equitativa da riqueza produzida, o que quer dizer que exclua menos e associe mais, e então, o Brasil não tem rival no mundo.
E quando sabemos que os Brasileiros têm aquela qualidade única de recuperar os atrasos, um talento único de improvisação do ultimo minuto, aquele "jeitinho" que corresponde ao "desenrascar" bem Português, Senhora Mónica, os seus netos têm que trabalhar mas o futuro pertence-lhes num tal pais.
Esta é uma mensagem especial para Si, que aprecio muito, porque tem uma mentalidade fora do tempo duro e selvagem no qual vivemos.