terça-feira, 11 de março de 2014

11 de março

Faço parte de uma tertúlia de antigos militares - profissionais e milicianos - que têm como caraterística (quase) comum terem estado "implicados" no 25 de abril. Como a data vai celebrar 40 anos, já se pode presumir a idade média dos convivas... Reunimo-nos "quando o rei faz anos", em almoçaradas de geometria variável e - vale a pena notar! - sem uma necessária identidade de pontos de vista políticos. No que me toca, estou a recuperar de quase uma década de abstinência forçada a esses encontros.

Ontem, tivémos mais uma "sessão de trabalho", desta vez à volta de uma lampreia, de que alguns, menos dados ao ciclóstomo, se "desenfiaram". Muitas histórias, menos sobre o passado e mais sobre o presente a que temos direito, com boa disposição e camaradagem, sendo anotadas as habituais faltas à chamada na "parada". A vida separou-nos e as agendas nem sempre são fáceis de conjugar. Mas é sempre um gosto encontrar esses amigos.

A meio do almoço, perguntei a um dos organizadores - um general que foi meu superior hierárquico, há quatro décadas - se era propositado o facto do repasto não ter lugar no dia 11 de março, uma data bem significativa (mas também bem divisiva) desse ano "quente" de 1975. Ninguém se tinha lembrado disso! Olhámos em volta e demos conta que, precisamente, um terço dos presentes tinha tomado assento, na noite desse dia marcante, naquela que foi a mais famosa Assembleia da história do Movimento das Forças Armadas. Incluindo o autor destas linhas.

Os acontecimentos de 11 de março foram interpretados, à época, como um salto em frente no processo revolucionário. Na realidade, vistas as coisas em perspetiva, o seu saldo acabou por se revelar uma vitória pírrica para o MFA, que, a partir dessa data, agravou as suas divisões internas, a caminho de um beco com traumática saída.

21 comentários:

Anónimo disse...

Qualquer dia desisto de le pedir um livro de memórias. Pode começar por contar por onde não andou...

Defreitas disse...

Senhor Embaixador : O Senhor teve sorte de estar presente em Portugal nessa época e ter participado à alvorada da liberdade. Ficará para sempre um dos maiores remorsos da minha vida, o de não ter participado nesse dia memorável, por estar já fora de Portugal .
E o meu remorso é ainda mais vivo, porque também fui miliciano mas duma classe bem anterior à de 75.

Esboço, aliás, um certo sorriso, quando escrevo sobre a NATO, como o fiz no seu "post" precedente, porque redigi muitas encomendas de peças soltas para a Fábrica de Braço de Prata e para a NATO, destinadas aos blindados da base militar de Tancos, quando , adido no Quartel da Graça, "trabalhava" numa dependência do Ministério do Exército situada numa pequena rua em frente da Catedral de Lisboa, à Sé.

O Senhor Embaixador pode dizer como os "grognards" de la Grande Armée , a quem bastava dizer "estive em Austerlitz" para merecer de imediato o respeito dos cidadãos.

Anónimo disse...

No passado domingo dia 9 de Março, à noite, estive no posto de comando da noite do 24 para o 25 de Abril.
Vi, em direto, como as coisas se passaram para derrubar o fascismo.
Vi o momento em que Otelo entrega o poder a Spinola.
Salgueiro Maia: Estou perante uma birra de Coelho, (Coelho era o nome de código que designava Marcelo Caetano) não se quer render senão a um General... Que devo fazer Oscar?
Oscar: pronto, mando-te pr'aí um General.
Foi neste preciso momento que o poder foi entregue de bandeja a Spinola...
A partir dali, a generosidade do Movimento dos capitães foi alterada...
José Barros

Anónimo disse...

Terá corrido mal para o MFA mas foi muito pior para a economia portuguesa, não apenas para os capitalistas e os latifundiários, mas também para os operários e os camponeses que para eles trabalhavam. O mal já vinha de antes mas até hoje as coisas não foram ao sítio.

Anónimo disse...

os "grandes saltos em frente", resultaram no que vivemos !

è triste existir ainda pessoal que se "orgulha" dessa data.

Alexandre

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Alexandre: leia bem o final do texto

Defreitas disse...

Quando se analisam os resultados da revolução, existem várias razoes para se sentir orgulhoso desta revolução. Quanto mais não seja o da liberdade de escrever neste "blog" em língua portuguesa e publicado em Portugal.
A liberdade não tem preço, mas por vezes, quando já se vive nela, há uma tendência para esquecer os tempos em que não existia. Mas isso não chega.

Se Portugal não progrediu muito em vários sectores, e primeiramente no económico, deve-se ao facto que as mesmas forças que dominavam o pais antes da revolução nunca cessaram de exercer a sua influência e não perderam na realidade o seu poder. As mesmas famílias de antes 1974 voltaram ao poder, a exploração continua, e com o argumento da crise,as exigências aumentaram, e com uma "coragem" exemplar, agora que o povo està mais submetido que nunca, alguns vão mesmo até proclamar que os salários e as reformas não podem ser aumentados enquanto os PORTUGUESES NAO TRABALHAREM TANTO COMO OS ALEMAES, PELO MENOS TRËS OU QUATRO VEZES MAIS !

As forças económicas retomaram o comando da sociedade. Com uma diferença notável : elas comandam agora também o político. Se antes o poder político podia sugerir, propor, demonstrar a necessidade duma política social progressista, hoje ninguém o ouve, e na realidade ele alinha sobre as imposições do exterior, isto é da finança internacional.
Entretanto, no oceano de dinheiro que inunda Portugal, a corrupção atinge limites incríveis, enquanto que as classes desfavorecidas se afundam na miséria.
Os militares de Abril não tinham de certeza pensado que não somente as mesmas forças voltariam ao poder, mas que voltariam com mais poder que antes.
Compreendo que cada vez mais cidadãos se questionem se Portugal não teria mais que nunca necessidade de voltar a distribuir as cartas !

Viu-se bem nas hesitações do MFA , e o 11 de Março é um exemplo, que mesmo no seio das forças armadas não existia uma coesão politica absoluta entre todos os seus membros dirigentes, e por vezes perguntei a mim mesmo se no plano de acção inicial havia uma linha directora para uma refundação profunda da sociedade portuguesa, no sentido que se dava ao termo "revolução", ou se se visava unicamente uma "modernização" da sociedade , impondo a derrubando a ditadura e instalando a democracia. Sem "estragos colaterais" se possível.
Haviam duas linhas politicas distintas que finalmente vierem a opor-se entre elas.Sabemos qual foi aquela que ganhou e conhecemos o resultado. Falta saber qual teria sido o resultado da outra linha.

Tudo isso corresponde finalmente ao profundo carácter português, visível ainda hoje em Portugal e no estrangeiro.

Aquele "cliché" francês do "bom emigrante português", trabalhador dedicado, ordeiro, gentil, corajoso, que não faz vagas e raramente greve, que não protesta, que diz sempre "bonjour" , corresponde bastante bem à imagem do mesmo português em Portugal, "bom cidadão", que mesmo se de vez em quando sai à rua para protestar, continua a ser um povo submetido, respeitoso da ordem e da autoridade, e , finalmente, resignado.
A revolução não fez dele um "revolucionário"! Por isso mesmo suporta estoicamente o ataque frontal da troika e do Governo, ao serviço do capital, claro está.

O que me entristece é que agora Portugal não exporta só "concierges" e " domestiques", mas jovens bem educados, formados e prontos a servir as economias ocidentais. Sangue jovem que um dia tanta falta fará em Portugal. E que faz sangrar o meu coração de Português, embora os compreenda.

Anónimo disse...

Em 1974 tinha 31 anos, cumprido o SM obrigatório como alferes miliciano e estava a trabalhar num grupo privado.

Cada um com a sua "verdade", o movimento foi "engolido" pelos comunistas e esquerdistas milicianos, e consubstanciou-se na desegregação da economia do país. O que se seguiu, é o que sabemos, compadres & e aprendizes de feiticeiro de várias matizes !

Alexandre

Defreitas disse...

Por favor eliminar as palavras "impondo a" antes da palavra "derrubando". Com as minhas desculpas. Obrigado.

Anónimo disse...

Quem diria que, passados 40 anos, iriamos a assistir ao streap de um GNR com as pistolas do Estado e tudo?… Eu não tinha imaginação para tanto… Não paro de me rir quando me lembro da “cena”…
antonio pa

António Pedro Pereira disse...

Caro Senhor Embaixador. O habitual comentador Alexandre não pára de não nos surpreender.
O homem é de uma previsibilidade angustiante.
Aposto que nunca viveu nos «glorioso» tempo do Estado Novo.
Aquilo é que era viver bem.
É evidente que o homem se envergonha de qualquer data abrilista: o seu «Alfa & Ómega» é o 28 de Maio.
(Entenda-se o Alfa & Ómega como metáfora, portanto, sem qualquer conotação religiosa).

patricio branco disse...

é sempre bom o convívio com pessoas e grupos a que nos une um significativo passado comum
bom nome de rua, se existe...

A.Teixeira disse...

Oh meu caro embaixador, eu vou-me tentando habituar, mas há episódios do PREC que, contados por si (as suas descrições dos seus tempos de MES são disso um excelente exemplo), assumem uma coloração rósea tal que me atrevo a classificá-las de – literariamente excelentes – pedaços de ficção.

Eu sempre conhecera o episódio a que aqui se refere como assembleia «selvagem» do MFA. O epíteto justificava-se porque nela compareceu – e votou – quem quis e não apenas os eleitos pelos ramos e armas que estariam credenciados para o efeito. E também porque nela se pediram fuzilamentos, vários, todos por causas «revolucionariamente fundamentadas».

Mas descrito – ou melhor, omitido – por si, apesar de nos ter brindado noutras ocasiões e a propósito de outros assuntos com um outro rigor histórico, até parece quase que o episódio não terá sido muito mais do que uma reunião do «Clube dos Sete» da Enid Blyton… em revolucionário.

Anónimo disse...

Acho interessante o Sr.António Pereira , argumentar a "preto-e-branco" !

Quem não foi de esquerda tinha que ser do Estado Novo, dá vontade de rir!!!!!,"quem não é por nós é contra nós" na giria política, belo exemplo de democracia !

Quer uma data mais previsível/consensual:

25 de Novembro de 1975.

Alexandre





Portugalredecouvertes disse...

não vale a pena ter tristezas, a história é o que é

mas ninguém comenta que nos querem tirar o 25 de Abril
então não é que há montes de noticias a dizer que foi a CIA que organizou a revolução
por causa das colónias, que foi financiado, e planeado bla, bla, bla...
alguém estará dentro do assunto?

zpf disse...

Ainda hoje expliquei a alguém que não é português, mas que vive em Lisboa há bastantes anos, a angústia que um miúdo de 13 ou 14 anos (com uma razoável cultura política, é óbvio…) sentia em 1974 ao pensar que daí a 4 anos podia estar na iminência de bater com os costados numa guerra que tinha tanto de estúpida quanto de inútil. É por isso e também porque me lembro de um Portugal que, apesar de se proclamar grande, era ainda mais "pequenino", cinzento até mais não e irritantemente mesquinho que o 25 de Abril foi o dia mais feliz da minha vida! Apesar de tudo o que se possa ter passado, de todos os erros que naturalmente se cometeram e de muito que ainda estará para vir...
Zé Paulo Fafe

Mônica disse...

Embaixador Francisco
Eu acho bonito voces cultivarem o patriotismo.
Nós tentamos nas escolas mas nosso 19 de abril, 21 de abril, sete de setembro sao datas que se comemoram, mas por acaso.
Nestesano que passou houve revoltas nesta datas e em outras, mas depois passa como tudo passa despercebido.
Vamos aguardar este ano.!
com carinho Monica
Depois te conto como foi nosso 21 de abril

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro A. Teixeira. Sobre o "11 de março", sobre o patético apelo a fuzilamentos, aconselhava-o a ler isto (http://duas-ou-tres.blogspot.pt/2012/03/11-de-marco-de-1975.html) e isto (http://duas-ou-tres.blogspot.pt/2009/03/o-11-de-marco.html). E, já agora!, na Assembleia do MFA dessa noite, que me lembre, nada foi votado.

António Pedro Pereira disse...

Senhor Alexandre:
Diz o roto ao nu: «Porque não te vestes tu?».
Se há exemplo acabado de intolerância nos comentários (dentro de parâmetros cordatos, assinale-se, nada do género do que fazem os seus correligionários do Blasfémias, por exemplo) é o senhor.
Se há exemplo acabado de de quem olha o mundo a preto e branco ´+e o senhor.
Se o senhor tinha 31 anos no 25A, já tinha idade suficiente para testemunhar o que era a miséria das contas públicas certinhas.
Não defendo o regabofe, mas o contrário do regabofe não pode ser as barras de ouro no BdP.
E quanto às causas do estado do país atribuí-las todas ao PREC não lembra ao Diabo.
Ou é ignorância ou pura ou sectarismo ideológico.
Tanto mais que os que o fazem exultaram com o oásis cavaquista.
Só se atinge o oásis depois de se ter resolvido os problemas pendentes.

Anónimo disse...

Sr António Pereira:

"Se há exemplo acabado de intolerância nos comentários (dentro de parâmetros cordatos, assinale-se,...."

Não me parece serem os meus comentários intolerantes e muito mais não cordatos.

Pode afirmar que não concorda comigo, não insulto, e não faço juizos de valor sobre a sua pessoa e/ou as suas opções.

A liberdade descrita actual, não é
comparável á IIª Republica e o dono do blog tem todo o direito de publicar ou não os comentários.

Leia mais um bocadinho e não coloque "etiquetas" em modo automático.

Alexandre














A.Teixeira disse...

Caro Francisco Seixas da Costa: Fui ver os endereços que me sugeriu de outras referências suas a esse mesmo evento – a assembleia selvagem – de 11 de Março de 75. Constatei quanto elas parecem oscilar de severidade conforme o ano: traduzindo um anglicismo creio que as há mais duras (hard) e mais macias (soft); ou melhor, para ser mais rigoroso na minha opinião, “soft” e “softer”. Confesso-lhe que nunca estive – limitações da minha experiência pessoal… – em nenhuma reunião onde alguns dos seus participantes tivessem pedido o fuzilamento de terceiros (ausentes). Mas creio que, tivesse estado e considerando os oradores na plena posse das suas faculdades mentais quando o fizeram, por motivos que me dispenso de lhe explicar, nunca mais me teria esquecido do episódio e de o realçar vincadamente todas as vezes que a ele me referisse. Invejo-lhe a habilidade como maneja o “understatement” (que me perdoe mais este anglicismo), embora os exemplos que o vejo produzir não superem o que de mais excessivo já li nesse estilo, a propósito da libertação dos campos de Bergen-Belsen em 1945 na Alemanha, descritos como “campos de trabalho onde os internados eram sujeitos a um tratamento severo”… E o “understatement” continuava, precisando que aquele não era um campo de extermínio, que não havia câmaras de gás, os prisioneiros empilhados que se viam por todo o lado tinham morrido acidentalmente… Lembrei-me deste inultrapassável “understatement” quando li o seu último comentário na sua resposta, precisando que na noite da assembleia selvagem não teria havido votações. A "transição da sociedade para o socialismo" foi, pelos vistos e como me explicou, aprovada por "unanimidade e aclamação", muita aclamação!