sábado, 10 de agosto de 2013

Criminalidade autárquica

Às tantas, devo ser eu que sou esquisito, mas faz-me impressão ver um candidato autárquico reivindicar-se do legado de um delinquente (já na cadeia, com sentença transitada em julgado), colocando o respetivo nome ou foto nos cartazes, como se de uma medalha se tratasse. É como houvesse alguma glória no bando do "roubo mas faço!", expressão crismada por um sinistro político brasileiro que dava pelo nome de Ademar de Barros.

E não me venham com o argumento de que o delinquente foi um ótimo autarca ou de que outros, que terão roubado tanto ou mais, andam aí de costas direitas! A impunidade de uns não absolve a culpabilidade de outros, agora confirmada em pleno pela justiça, depois de anos de expedientes dilatórios garantidos por uma advocacia espertalhota e por uma lei permissiva que protege quem tem dinheiro para comprar recursos - mesmo que esse dinheiro seja dos outros. Configura uma perigosa degenerescência da democracia portuguesa a persistência, em muitos meios, deste tipo de relativismo, que é uma triste contemporização com a criminalidade autárquica, muito injusta para as imensas pessoas honestas que dão o seu melhor nesta atividade cívica.

14 comentários:

Joaquim De Freitas disse...

Continuemos assim! Se este clima político podre continua, em 2014 os populistas vão gritar vitoria !
Os nossos chefes de estado e os ministros habituaram-se, nas suas capitais respectivas e em Bruxelas a viver como se estivessem acima das leis comuns e concebem os seus interesses carreiristas muito superiores aos seus deveres para com os cidadãos.
Eles desviam uma Democracia que põem num estado lamentável com o liberalismo sem freio e agem com uma liberdade individualista que colocam acima do interesse geral. Não são responsáveis políticos mas uma aristocracia politiquista sem complexos. Este liberalismo que nos obrigam a engolir é menos pior que o comunismo, que, ao menos, tinha a honestidade de confessar que se importava pouco ou nada da Democracia.
Com a maravilhosa gestão da UE , que faz da zona mais rica do mundo, aquela que se afunda na recessão e no desemprego. Bravo !
Quantos não sonharam, como eu, quando votei por ela, que esta Europa seria, um dia, um verdadeiro Estado Federal ao serviço de todos os cidadãos europeus, em vez de ser esta máquina infernal a fabricar irresponsabilidades a grande escala.
Quando se faz dum continente inteiro uma zona de não direito por amor do liberalismo e das suas perversões, destruem-se milhões de vidas humanas mas também o contrato social entre o povo e o poder.
Sim, as civilizações são mortais, e a nossa suicida-se. Um tema caro, ao Caro Urbano Tavares Rodrigues.

Anónimo disse...

ora ai esta um outro bom tema para trabalhar, senhor embaixador criminalidade e politiquices...
vamos, comece a falar do pasqua, do affaire karachi, dos traficos de armas, e de todas essas e outras pequenas ilegalidades que governam o mundo.
sou todo ouvidos...!

bem haja


(claro que se o nosso "isaltin" fosse apanhado nas francas com um caso semlhante nunca mais se punha de pe...)

Anónimo disse...

Comentários:
- “Expedientes dilatórios garantidos por uma advocacia espertalhota”, esses expedientes estão previstos na lei. Lei (aliás Legislação vária nesse sentido) que foi aprovada em Conselho de Ministros e depois em sede da A.R. onde se encontram muitos advogados que acumulam essa sua profissão...com a de Deputados. Já o Prof. Paulo Morais alertou e bem para essa situação;
- “uma lei permissiva que protege quem tem dinheiro para comprar recursos, mesmo que esse dinheiro seja dos outros”, essa Lei (permissiva), voltamos ao parágrafo anterior, é permissiva porque o legislador assim a redigiu, em função das intruções que tinha, provenientes do governo (Conselho de Ministros) que assim lhe solicitou. E que depois a fez aprovar e posteriormente passar em sede da A.R. Os recursos, assim sendo, são o resultado da legislação existente (no caso, do Código de Processo Penal, entre outras legislações convenientes);
- “Configura uma perigosa degenerescência da democracia portuguesa...criminalidade autárquica..”. Uma Democracia em que os Deputados exercem essas funções a par de outras e mais lucrativas actividades privadas, como sucede com um largo número deles, entre Escritórios de Advogados, Empresas de Consultadoria, etc, etc (com ligações políticas ao PSD, PS e CDS), onde interesses privados interferem e condicionam os interesses públicos e acabam por determinar as leis do Estado (e outras decisões económico-politicas), como sucede no nosso país – não se vendo um fim a esta situação, dado a A.R nunca ter tido a coragem para acabar com a esta promiscuidade de interesses e actividades publico-privadas – não é, longe disso, uma Democracia adulta e sólida, mas uma do tipo “faz-de conta”;
- Por fim e repescando a definição de “democracia de faz-de-conta”, o facto de muitos eleitores se estarem “a marimbar” se um Autarca se encontrar na cadeia (e por detrás de uma candidatura), ou a braços com a Justiça (ainda por cima uma Justiça algo desacreditada, por razões várias) é também, por si só, revelador do conceito que se tem, ao nível do eleitor (autárquico ou não), da Democracia.
- E como o exemplo deveria vir de cima, ou seja, no que atrás menciono relativamente ás ligações, nefastas e eticamente condenáveis (assim deveria ser, mas parece que não é), entre o público (Deputados) e o privado (grandes interesses privados), que esperar do povo eleitor?
- Um país cujo eleitorado não sente repulsa moral por um arguido e condenado é um país cuja Democracia tem ainda muito a aprender.
- Por fim, quando vemos candidatos autarquicos a querer voltar a sê-lo, depois de terem exercido vários anos dessas mesmas funções noutros Concelhos, numa demonstração lamentável de sofriguidão pelo Poder (mas, lá está, escudados numa legislação ambígua, aprovada em sede de A.R, depois de o ter sido em Conselho de Ministros, convém nunca esquecer), que esperar da imagem desta nossa Democracia?
P.

Helena Oneto disse...

Não, o Senhor Embaixador não é esquisito e tem toda a razão!
Joaquim De Freitas, uma vez mais, "tirou-me", no(s) seu(s) excelente(s) comentario(s) "as palavras da boca".

A minha esperança, chers Messieurs, é um dia ver tous ces diables "se mordre leur queues"!

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caro Francisco

Pois é. Uma vez mais,antes e depois do meu regresso a estas lides blogosféricas tenho de concordar e apoiar o Autor. E não me venham com o epíteto de manteigueiro. Nunca o fui, seria agora, a caminho dos 72 e das Bodas de Oiro que nisso me transformaria? Claro que não.

Quando vi esses cartazes afrontosos de quem neles se encontra, risonho e aparentemente feliz, recordei-me que o Ademar de Barros, para além de político desbragado, foi também médico, empresário e... aviador.

E quando um dia escrevi sobre ele, comparando-o ao "nosso", e soube dessas "qualificações e profissões" não pude deixar de pensar quantos ele tinha aviado...

A Helena Oneto (filha do meu grande Amigo Fernando) disse e eu repito: o "malandro" do Joaquim De Freitas esgotou o tema; por isso lhe dou os meus parabéns.E a esperança dela também é a minha.

________

PS - (sou, mas aqui é Post Scriptum) - Não posso deixar de lhe agradecer, meu caro Francisco, as palavras que me endereçou; palavras de Amigo.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Henrique: mesmo que você fosse "manteigueiro", coisa que nunca foi (e já não tem idade para isso), isso deixar-me-ia indiferente. Porquê? Por causa do meu colesterol...
A Helena Oneto é sobrinha e não filha de Fernando Oneto.
Bom verão na Travessa!

Anónimo disse...

Em sociedades com regras sempre houve lugar para exceções que as regras acabam por condenar... O Problema é quando se perde o sentido do que são regras e estas são exceção... Em Portugal parece termos chegado a este estado de coisas onde a exceção passou a ser regra...
Face a este descalabro, em que os tribunais são ineficientes, quando não estão contaminados, temos de reavivar a nossa memória dos Pelourinhos. Mas já nem haverá Pelourinhos que cheguem...
José Barros.

Joaquim De Freitas disse...

A Madame Helena Oneto : Chama-se a isso "brûler la politesse"! Mil desculpas , pois! Eu que aprecio muito os seus comentários perdi algo! Aproveito para lhe dizer que "tous ces diables" são como os lagartinhos que o meu gato apanha de vez em quando no jardim e que reaparecem sempre... mesmo "sans queue" ! Ou pior ainda, como os "louva a Deus" (mante religieuse) que mesmo sem cabeça, que a fêmea devorou depois do acto sexual, continuam a procriar expelindo milhares de espermatozoides na natureza! De facto, era preciso cortar-lhes tudo!

Joaquim De Freitas disse...

Ao Sr.Henrique Antunes Ferreira : "Malandro, escreveu o Senhor ! Honi soit qui mal y pense ! Com 50 anos de França, vi-me obrigado a revisitar o dicionário : " Malandro : malandrin, gredin, voyou, vaurien " !!! Ainda bem que terminou com parabéns, senão teríamos de escolher as armas ! Cumprimentos.

Joaquim De Freitas disse...

Ao anonimo P, das 23/05, 10/8/13, que escreveu:
" E como o exemplo deveria vir de cima, ou seja, no que atrás menciono relativamente ás ligações, nefastas e eticamente condenáveis (assim deveria ser, mas parece que não é), entre o público (Deputados)e o privado (grandes interesses privados), que esperar do povo eleitor?
- Um país cujo eleitorado não sente repulsa moral por um arguido e condenado é um país cuja Democracia tem ainda muito a aprender."

Aqui se encontra um grande problema! Para aqueles que detêm o poder, o verdadeiro poder, o econômico, a qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossível para o alcance das classes inferiores. Só assim podem conservar o poder . Da mesma maneira que na economia só a acumulação de capital justifica um investimento, conservar a mediocridade útil da massa é o objectivo a não descurar.

Carlos de Jesus disse...

Senhor embaixador, lendo-o daqui, do outro lado do rio onde corre o xarope do ácer, nem sempre me é fácil poder deduzir os factos que inspiram os seus comentários. Seria possível, sempre que tenha à mão, acrescentar nos seus postos, para benefício dos expatriados como eu, alguns links que nos apontem na boa direção?

Anónimo disse...

Precisamos de bons e autarcas credíveis e acabar com resquícios populistas herdados do salazarismo de identificar os políticos como "ladrões". Temos alguns bons autarcas felizmente. Mas quem prevarica e viola PDM's deveria saber de antemão que não compensa.

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro Anónimo das 21:05
Com esses casos vai direitinho ter à Lagarde...

Anónimo disse...

E os cartazes com o João Vieira Pinto, recentemente condenado por fraude fiscal?