Foi uma reação coletiva de choque. A delegação oficial, que se havia deslocado a uma reunião internacional a Oslo, chefiada por um membro do governo português e na qual eu ia integrado, ficou tomada por uma emoção forte, face à informação que o embaixador português na Noruega lhe transmitiu: o Chiado estava a arder, na manhã daquele dia 25 de agosto de 1988.
Nesse tempo, não havia telemóveis, a única televisão portuguesa não era captável fora do país, nenhum de nós tinha, como era óbvio, um aparelho de rádio de ondas curtas. Os pormenores disponíveis eram, assim, muito escassos. Falava-se da possibilidade do incêndio poder atingir o largo do Carmo e mesmo a Bénard e a Brasileira, levando o Grémio e a Bertrand. Telefonou-se para Lisboa, mas as informações continuavam muito imprecisas e incertas. A ideia de que o Chiado - todo o Chiado! - corria o risco de desaparecer fez-me uma imensa impressão, transmitiu-me uma rara sensação de perda irrecuperável.
Não sou lisboeta. A minha memória do Chiado é quase toda adulta, da cidade para onde fui viver em 1968. De criança e do Chiado, lembro-me apenas da excitação de andar nas escadas rolantes do Grandela, nos anos 50. Para um miúdo ido de Vila Real, onde o único elevador da cidade (do edifício da Gomes) nunca até então funcionara, aquelas ruidosas engrenagens eram o "máximo" da modernidade. Depois, as cenas do "Pai Tirano" fizeram o resto. Claro que viria a fixar a memória queiroziana da montra da Férin, onde o Artur Corvelo ia ver se os "Esmaltes e jóias" se vendiam. E visitara com regularidade a Valentim de Carvalho. Fora também cliente do José Alexandre, mas (ironias do destino...) não tenho ideia de alguma vez ter entrado no Jerónimo Martins e, muito provavelmente, no Martins e Costa. A Ferrari também não fazia parte dos meus percursos, nos anos em que trabalhei pelo Calhariz e em que o Chiado entrava no meu quotidiano. E, de certeza segura, nunca fui cliente da Perfumaria da Moda nem na Casa Batalha, que haviam de ser vítimas irrecuperáveis da tragédia.
Tenho a imagem muito nítida da rara angústia que me atravessou nessas horas, ao pressentir, na desaparição do Chiado, a amputação de uma parte do meu próprio património pessoal de memória. Hoje, em perspetiva, acho mesmo um tanto exagerada a reação emocional que então me atravessou. Quem é de Vila Real compreenderá melhor se eu disser que foi como se me tivessem dito que toda a rua Direita estivesse a arder.
Regressado a Lisboa, no dia seguinte, fui, de imediato, ver os estragos. Depois, com o tempo, tudo se tornou mais natural. Por anos, como toda a gente, convivi e desesperei com as obras. E, à medida que elas se concluíam, fui-me habituando ao "novo" Chiado, embora o resultado final esteja muito longe de ser do meu agrado. Mas isso é uma outra história. O que agora me interessa deixar expresso é que o incêndio do Chiado, em 25 de agosto 1988, há precisamente 25 anos, continua, até hoje e para sempre, a ser uma das mais traumáticas experiências de toda a minha vida.
