sexta-feira, 22 de julho de 2011

Noruega

Há mais de três décadas, fui viver para a Noruega, por alguns anos. Era um dos países mais pacíficos do mundo. Recordo-me de ver o primeiro-ministro percorrer a pé a rua Karl Johan (na imagem), no caminho para a estação de caminho de ferro, que todos os dias o levava e trazia para o trabalho. Muitas vezes, cruzei-me com ministros que se deslocavam de bicicleta. Vivia-se então em Oslo um sentimento de segurança quase plena.

O rei da época, Olav V, costumava deslocar-se de elétrico, como qualquer vulgar cidadão. Um dia, testemunhei uma cena deliciosa. O soberano, já nos seus 80 e tal anos, conduzia placidamente um carro pelas ruas da capital, apenas com uma pessoa a seu lado. A certo passo, parou junto a uma passadeira, para deixar passar uma senhora. A meio da travessia, a senhora reconheceu o rei e fez-lhe uma grande vénia. O rei retribuiu o gesto e, por uns instantes, ambos repetiram as inclinações de cabeça, numa coreografia de mútuo respeito, recheada de sorrisos.

Era assim a vida na Noruega, nesse final dos anos 70, do século passado.

A Noruega é, de há muito, um país dedicado à paz. Talvez não por acaso, o respetivo prémio Nobel, contrariamente a todos os outros, é decidido e atribuído em Oslo. Ao longo de muitos anos, os governos noruegueses, de várias orientações, empenharam-se, em diversas ocasiões e cenários geopolíticos, em operações de paz decididas pelas Nações Unidas, sendo também protagonistas, de há muito, de importantes processos de ajuda ao desenvolvimento. Foi em Oslo, e com os noruegueses, que a causa palestiniana deu passos que só não foram decisivos porque Arafat, como alguns diziam, "nunca perdia uma oportunidade para perder uma oportunidade". A diplomacia norueguesa é conhecida como uma diplomacia de bem.

Ontem, uma bomba explodiu, causando muitas vítimas, junto à sede do governo norueguês. (Mais tarde, veio a saber-se que um outro ato celerado provocou largas dezenas de mortos). Ainda não se sabem bem as causas desta barbaridade. Mas tudo muda, até a pacífica Noruega.

Deixo aqui um abraço solidário a todos os meus amigos noruegueses, cidadãos de um país com o qual Portugal tem, desde sempre, excelentes relações, reforçadas pelo generoso apoio dado pela Noruega ao processo de desenvolvimento português, no pós-25 de abril.

31 comentários:

Anónimo disse...

Preocupante, muito preocupante!

Isabel BP

Mônica disse...

Sabe que vou enviar este seu blog para meu tio ler?
Ele vai gostar de conhecer esta história
sábado, 23 de julho de 2011
com carinho Monica

ERA UMA VEZ disse...

Há muito que se sonha cá por casa em visitar a Noruega por tudo o que aqui referiu.

E cada viagem começa quando a sonhamos.
Muito triste o que aconteceu.

A pergunta da perplexidade é PORQUÊ???

Estrela N. disse...

Absolutamente devastador.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Isabel BP

E juntamente com os tiros assassinos que mataram mais de dez jovens num encontro do Partido Trabalhista é muito mais do que preocupante!!!!

Fábio Paulos disse...

o Mundo não é o que era, isto é uma prova, temos de nos adptar 'a nova realidade. Não estamos seguros em lado nenhum.

Jose Martins disse...

O mundo de loucos onde nascemos!

José Sousa e Silva disse...

Mais um excelente Post !
Parabéns Senhor Embaixador !
Quanto ao "terrorismo" é algo que nos preocupa a todos e, provavelmente, estamos - europeus - a lidar mal com o dito cujo porquanto, embora seja importante averiguar as causas, terrorismo não se combate com tanta tolerância.

catinga disse...

Impressionante, o que aconteceu. Mas... estes países "perfeitos" nunca são exatamente como os pintam.

Por força do interesse em perceber o fenómeno do "Norwegian Black Metal" acabei por ler algumas coisas sobre o país (bem como ver alguns filmes) e eis que descubro tensões sociais, conservadorismo religioso, criminalidade organizada, tráfico de armas, fundamentalismo político, etc.

E, depois, lembro-me das palavras de Varg Vikernes (condenado por assassínio e fogo posto): "Este país trata bem de mais os criminosos. Aqui na cadeia tenho tudo. É um luxo.".

Para quem quiser olhar para a Noruega dos anos 90: http://en.wikipedia.org/wiki/Lords_of_Chaos_(book)

L M D disse...

Infelizmente, assistimos a mais um acto vil e cobarde, por parte de gente para quem a liberdade, em toda a sua plenitude é um alvo a abater, seja porque meios for

Ana Paula Fitas disse...

Carissimo amigo,
... como não poderia deixar de ser, fiz link deste post que muito lhe agradeço.
Um abraço.

patricio branco disse...

a lógica do terrorismo não é a dos que não usam o terrorismo ou o combatem.
para os terroristas não interessa que o alvo seja num país exemplarmente pacifico ou p ex que haja crianças no local do ataque,etc.
chocante, triste, o que aconteceu.
mas a noruega saberá reagir fortalecendo-se

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

À hora em que acrescento esta informação (12:15, TMG), confirma-se o pior: no mínimo terão morrido 91 pessoas e talvez mais. A ilha de Utoeya foi um lugar de massacre!

Sou contra a pena de morte, mas...

Elio Tavares disse...

Senhoras e Senhoras apenas digo, como é lindo ler tais comentários emanados de tanta sabedoria.

Sem comentários.......

Estrela N. disse...

"Sou contra a pena de morte, mas..."

Tema 'fracturante', não é?
Já li essa hesitação contraditória algures ontem.
Em que ficamos?
É uma questão de princípio, estruturada, definida e inabalável ou depende do número de vítimas?
Da escolha do método e da espectacularidade da sua execução?
Do país atingido?
Da idade das vítimas ou da definição da sua culpa nalgum outro crime?
Como se decide ser a favor ou contra a retirada de uma vida?
O impacto? A consequência?
...
Pergunto, apenas.
Porque também me dilacera a questão.
Tantas vezes (tantas!) me apetece a justiça, até, pelas próprias mãos!
Quantos horrores, quantas mortes, justificam essa decisão?

Anónimo disse...

Contra a pena de morte, sempre. Assassinar um assassino é dar-lhe razão, é dizer-lhe, a ele e ao mundo, que, afinal, assassinar é possível, é até obrigatório se decidido por Tribunal. É a reabilitação do assassinato, por parte do Estado.
FG

catinga disse...

FG... Curiosamente, quando se entra em guerra já ninguém tem pruridos em aceitar o assassínio...

Balelas!

Fada do bosque disse...

Muito estranho mesmo... O terrorista seria Anders Behrin Breivik, norueguês, 32 anos. Uma figura inquietante por causa da aparente "normalidade", um fundamentalista cristão.
Ao que parece, o "simpático" Anders detesta os Muçulmanos; deve ser por isso que faz explodir os Cristãos.
Um extremista de Direita? Parece, mas não um neo-nazista.
Segundo os investigadores, Anders não agiu sozinho.
Uma história na qual haverá ainda muito para escrever.
Mas não façamos disto um estado de medo generalizado, porque aí, digo mesmo que a História se repete...

E sim, há castigos muito piores que a pena de morte, saída muito fácil para quem comete actos atrozes... era de um castigo desses que estes assassinos precisavam, tipo lobotomia... ou pior, o resto da vida em sofrimento, seria pouco e por isso enviar o homem para uma prisão daquelas que nem se consegue imaginar o que lá se passa mas que servisse de cobaia a experiências que alguns cientistas pós II guerra gostavam de fazer...

Estrela N. disse...

Que pena? Prisão perpétua. Num estabelecimento civilizado, com todas as condições humanamente requeridas, eventualmente em solitária, devido ao risco de que por lá alguém tenha entendimento distinto daquele das leis e dos homens ditos de bem.
Livros ao dispor. Quiçá televisão, vídeos...
Sossego absoluto para desenvolver mentalmente as suas teses extremistas e congratular-se com os seus feitos catastróficos.
Médico ao dispor em qualquer aflição.
Alimentação nutricionalmente programada e higienicamente preparada.
Um ser que aniquila consciente das consequências, que planeia, desenvolve e executa semelhante plano diabólico, merece uma espécie de spa espartano?
Por outro lado, mantê-lo em condições eventualmente declaradas como 'sub-humanas' seria recorrer à tortura, essa outra figura inventada pelo homem para subjugar o seu semelhante (e outras criaturas que com ele partilham o planeta).
Até essa angústia conseguiu causar-nos, esse demente!

Fada do bosque disse...

Ora aqui está uma visão que deve ser tomada em conta, A Regra do Medo, pena eu não ter conseguido "isolar" este post... A Origem do Mal.

Fada do bosque disse...

A Noruega é um dos poucos países que não só reconheceu o Estado Palestiniano como boicotou empresas israelitas e retirará da Líbia...
http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2011/06/10/noruega-diminui-frota-aerea-na-libia-diz-que-nao-vai-participar-de-proxima-acao-da-otan-924657456.asp

O Exército Secreto da NATO, um documentário do Canal História. A memória ajuda a compreender a História.

Anónimo disse...

Caros FG e catinga
A minha velha, que é feroz e igualmente amante da pinga e militante contra a pena de morte, sentiu-se ofendida com isso das 'balelas' e desatou aos palavrões, que só ela. Acalmou-se depois e fez duas quadralhices sem eles:

classificar de balelas
opiniões contra a sua
faz-se adentro das janelas
não se diz no meio da rua

quem será este catinga
que terá ele no bucho
quem pensa que xinga ou vinga  
pra aqui se dar a tal  luxo?

Anónimo disse...

Caro catinga
Eu, como muita muita gente que conheço e/ou leio, tenho todos os pruridos em aceitar qualquer assassínio. E sou, por isso, por que se acabe de vez com as situações em que assassinar é possível ou até obrigatório, como acontece nas guerras e/ou em países em que a pena de morte ainda existe. Considero ambas anacrónicas, a guerra e a pena capital, e indignas do ser racional que somos. Há já, felizmente, melhores soluções para resolver conflitos no seio da sociedade. Não se trata de balelas, não, nem de utopias, mas sim de opinião legítima e fundamentada e de cada vez mais gente.
FG

Anónimo disse...

Caro Henrique Antunes Ferreira,

Claro que se trata de uma enorme tragédia, apenas escrevi que era "preocupante" porque a Noruega é um dos países mais calmos do mundo.... e, por vezes, perante a perplexidade dos factos faltam as palavras.

Isabel BP

catinga disse...

FG, se junta à condenação da pena de morte a condenação da guerra, continuo a não concordar consigo mas, pelo menos, reconheço-lhe coerência (o que não é necessariamente uma qualidade). Tomarei a liberdade de também achar que é contra o aborto e a eutanásia.

Persiste, no entanto, a dúvida sobre como resolver certas situações sem recorrer ao uso da força. Aos matraquilhos, talvez?

Anónimo disse...

A velha rimalhadeira irritou-se de verdade, como não a via há muito, e acho que foi demasiado ofensiva e inconveniente na quadralhice que lhe saiu, entre palavrões de carroceiro, e que Sua Excelência o autor do bloque não publicará se concordar com aquela minha opinião. Só Lhe peço desculpe uma velha senhora 'à beira morte' , cheia de raivas ao mundo devido a carências, digamos, afectivas, e que sabe bem - e usa e abusa e gosta - dos efeitos da bebida:

quem será mesmo o catinga
seringa armado em julgador
ginga assim devido à pinga
ou é só matraquilhador?

catinga disse...

Da velha fica a obra
Feita mona a rimar
Quem do juizo já não cobra
Vai rimando a obrar

Anónimo disse...

Caro catinga
E não é que acertou em cheio? Tenho, de facto, todos os 'defeitos' coerentes (que não são qualidades para si, necessariamente) da contemporaneidade lúcida: sou contra a guerra, contra a morte imposta seja a quem for (a crianças, a suas mães, a doentes que a não queiram), contra qualquer discriminação baseada em raça, religião, sexo, etc. (sim, sou obviamente a favor - imagine - do direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo), enfim, contra todos os anacronismos que herdámos. Aprendemos, ao longo dos séculos, que há mais formas de dirimir conflitos do que matar ou jogar aos matraquilhos.
FG

Anónimo disse...

Caro catinga
Por favor e por todos os santos, não me mate a velha senhora, que ainda não parou de rir com essa obra-prima de quadra. Sufoca, tosse, engasga-se. E só percebo, ente escarros e gargalhadas, uns 'catinga-que-pinga catinga-que-linga catinga-que-ginga catinga-rezinga catinga-se-vinga catinga-catinga catinga-bimba' , seguidos de 'obra-não-cobra rimar-a-obrar a-mona-é-quase' , e volta a 'catinga-catinga, catinga-olhà-pinga…' que não há meio de parar. Não sei que lhe fazer.

catinga disse...

Cara velha (ou que "nick" queira usar): gosta assim tanto da minha perna? Procure um candeeiro, que raio! Sempre lhe dá mais luz.

Anónimo disse...

Impotência

É mais fácil aceitar as catástrofes "naturais", a consciência de Deus não é tão visivel, embora nãolhe consiga declinar a responsabilidade...

Fácil de mais nomear um demónio e relativizar qualquer tipo de justiça humana que não saciará jamais a dor de não haver ressuscitação de inocentes crédulos e sem culpa formal...

Tinha que ser ele a abrir as sepulturas todas, para pelo menos o corpo lhe doer como doi a alma dos pais

Só sei que nada SEI...
Isabel Seixas