Esta semana, em "A Arte da Guerra", António Freitas de Sousa e eu havíamos de falar de quê?
Ver aqui.
Ver aqui.
Kamala Harris admite candidatar-se de novo. Finalmente, Donald Trump recebe uma boa notícia!
Se Orbán perder as eleições, o único líder europeu com uma postura mais anti-ucraniana e "russian friendly" é o primeiro-ministro da Eslováquia Robert Fico. Se assim acontecer, no domingo dirá para si mesmo: "Fico só eu..."
UFP promove IV Congresso Internacional de Ciência Política e Relações Internacionais
20 de abril • Salão NobreCom o seu acólito Mark Rutte à ilharga — secretário-geral de uma NATO que deveria servir a segurança norte-atlântica coletiva e não os caprichos de Washington pelo mundo —, Donald Trump lançou um ultimato a uma Europa que ele sabe estar refém dos seus próprios medos em matéria de segurança.
Se houvesse um módico de dignidade deste lado do Atlântico — e há razões crescentes para duvidar que reste muito —, deveria ser dito, alto e bom som, a Trump que compete aos Estados Unidos desenvencilharem-se do atoleiro em que, a reboque de Israel, se deixaram cair no Golfo.
Foram as opções de Washington, e não as da Europa, que deflagraram as tensões que agora ameaçam alastrar. A Europa não pode ser convocada a pagar a conta de aventuras em que não foi sequer consultada. É obsceno ouvir os EUA dizerem que atuam na defesa dos interesses daqueles que desprezam e constantemente ofendem. Esses interesses estavam, por exemplo, bem representados no acordo nuclear assinado com o Irão, que Trump abandonou.
Reconhece-se, naturalmente, que há agora interesses muito concretos em jogo. O petróleo iraniano faz falta, as rotas energéticas importam, a estabilidade do Golfo tem um peso real nas economias europeias. Mas a lógica imediatista dos interesses não pode servir de passaporte para a irresponsabilidade estratégica. Os europeus não podem ir a reboque para uma zona onde, num instante, poderão ser apanhados num novo ciclo de guerra — um ciclo que Israel não esconde estar desejoso de recomeçar.
E é aqui que a indignação não pode ser contida por um qualquer cálculo de conveniência. Depois da infâmia das últimas horas no Líbano. Depois de Gaza — a destruição sistemática de uma população, documentada, filmada, contabilizada em dezenas de milhares de mortos. Depois da Cisjordânia, onde a colonização avança com a metodologia lenta e implacável de quem sabe que o mundo olha para outro lado. Perante tudo isto, ou a Europa é capaz de tomar uma atitude firme face a Israel — e que fique claro: muito do material militar israelita continua a ser fornecido por Estados europeus, tornando a Europa cúmplice objetiva dos crimes com ele praticados—, ou perde, definitivamente, o pouco que lhe resta da antiga autoridade moral em que assentou o seu projeto civilizacional. Não a autoridade que se proclama em declarações cimeira após cimeira, mas aquela que se constrói na coerência entre o que se diz e o que se faz, entre os valores que se invocam e o destino das armas que se vendem.
Antecipar-se-á a objeção pragmática: uma posição firme irritaria Trump. Poderia levá-lo a tentar dividir o continente, a jogar as capitais umas contra as outras, como foi feito com tanta eficácia no caso do Iraque, quando Rumsfeld separou a “velha” Europa da “nova”. Claro que sim. Esse risco existe e seria ingénuo negá-lo. Que pode Trump fazer mais? Mais "tarifas"? Tirar as suas tropas da Europa? Os americanos não estão na Europa pelos nossos "lindos olhos", estão cá, como nas Lajes, porque isso faz parte do seu projeto de segurança, para proteção dos seus interesses, que até agora coincidiam com os nossos.
A alternativa — o silêncio cúmplice, a submissão discreta, o alinhamento por antecipação — tem um nome que se julgava que a Europa tinha aprendido a detestar: apaziguamento. E o apaziguamento não pode ser um vício apenas em direção ao Leste, como a retórica dominante insiste em repetir. É igualmente degradante — e igualmente perigoso — quando praticado em direção a quem, de Washington ou de Telavive, exige da Europa que aceite, de cabeça baixa, que os seus valores são negociáveis e que os seus princípios são ornamentais.
É nestes momentos que a Europa tem obrigação de lembrar-se de que é uma entidade democrática, que tem opiniões públicas perante as quais os seus governos respondem, que afirma um projeto com uma base moral — a mesma que levou quase toda a gente a indignar-se quando ouviu Trump ameaçar que “uma civilização inteira” morreria se não fizesse o que ele queria.
Os cidadãos europeus merecem dirigentes que não confundam prudência com capitulação. Ver os seus governos alinhar como cordeiros atrás desse mesmo Trump seria não apenas uma traição aos valores que proclamam — seria uma abdicação que a história não costuma perdoar.
Olhando para o modo como o mundo reagiu nos últimos dias perante o drama do Golfo, parece claro que a opção por enfrentar Trump, sem a menor hostilidade mas com uma serena firmeza, seria uma atitude que arrastaria consigo largos setores da opinião pública europeia. Eu diria mesmo: por uma vez, desde há muito, a Europa tornar-se-ia popular aos olhos dos seus cidadãos. Houvesse coragem para isso.
Como era expectável, Israel vinga-se no Líbano daquilo que não obteve no Irão. Estejamos atentos a Gaza e à Cisjordânia.
Perguntei ao Perplexity quem ganhou e quem perdeu nesta fase da guerra EUA-Irão. Eis a resposta:
Perguntei ao DeepSeek, a IA chinesa, quem ganhou e quem perdeu nesta fase da guerra no Irão. Eis a resposta:
"O cessar-fogo de duas semanas entre EUA e Irã, anunciado a 7 de abril de 2026, gerou um paradoxo: ambos os lados reivindicam vitória, mas uma análise fria dos termos e consequências revela que o Irão é o vencedor mais claro, embora a um preço altíssimo. Os EUA, enquanto potência, sofreram um duro golpe estratégico. As análises de vários especialistas ajudam a decifrar este resultado:
Agora, no Golfo, estejamos atentos aos incidentes de "falsa bandeira", isto é, aos ataques levados a cabo de forma a dar a ideia de que foram feitos por outros.
O mediador paquistanês deixou expresso por escrito que o cessar-fogo se aplica também ao Líbano. O primeiro-ministro israelita deixou claro que o cessar-fogo não se aplica ao Líbano. A arte da diplomacia é isto: conseguir parar uma guerra mesmo com argumentos de "faz-de-conta".
Até ao início desta guerra, o Irão nunca tinha criado a menor dificuldade ao trânsito marítimo pelo estreito de Ormuz. Agora, parece aceite que o Irão venha a colocar uma espécie de "scuts" na passagem dos barcos, partilhando ou não os lucros. Isto não significa nada?
Tenho a profunda convicção de que, quaisquer que sejam os termos de um eventual acordo entre o Irão e o EUA, Israel acabará, cedo ou tarde, por criar novos pretextos para voltar a bombardear o Irão.
Não é estranho que, neste tempo tão trágico para a paz no mundo, a voz de gente como Obama, os Clinton, Al Gore, Biden ou Harris não se faça ouvir, denunciando este presidente que tanto os insulta, que está a envergonhar a imagem da América? Ou será que eles acham que não está?
Pode não ser a unanimidade que ele queria, mas Trump caminha a passos largos para ser unanimemente considerado de uma forma que me dispenso de explicitar, porque este é um espaço que não admite palavrões.
... e depois, no final do dia, se vier a anunciar ao mundo que afinal decidiu que não vai "obliterar" o Irão, Trump achar-se-á uma vez mais digno do prémio Nobel da paz. E, cá como lá, haverá uns cromos a bater-lhe palmas.
É triste constatar que no dia em que a potência científica que são os EUA devia estar a comemorar a fantástico feito que é a sua missão espacial à volta da lua, o seu presidente prefira titular um discurso agressivo de ódio e intolerância, desprovido de uma réstia de humanidade.
Nos EUA, o poder está de tal modo imbricado com o complexo militar-industrial que nenhum presidente consegue escapar à imperiosa necessidade de ter de alimentar guerras, próprias ou alheias, de preferência sendo outros a morrer pelo negócio. Mas isto é um segredo de polichinelo.
Seguro faz bem em marcar estes seus primeiros tempos de mandato com a ideia de ser uma espécie de provedor dos interesses de quem foi afetado pelas intempéries e que vê o tema afastar-se das prioridades do debate político.
A guerra contra o Irão, claramente impulsionada por Israel e pelo lóbi que, nos Estados Unidos, cobre qualquer aventura do Estado israelita — por mais ilegal ou desestabilizadora que seja —, assenta em alegações de ameaça iminente que nenhum serviço de informações credível confirmou até ao momento.
Anunciam-se agora ações militares devastadoras sobre o território iraniano, as quais, a acreditar na bravata jingoísta de Trump, podem ultrapassar as limitações que as Convenções de Genebra há muito colocam às próprias guerras, numa plataforma mínima de humanidade que o horror aceitava.
Em poucas semanas, as consequências do conflito para as economias mundiais já se revelam desastrosas: uma espiral recessiva começa a desenhar-se, mesmo que um improvável acordo negocial consiga travar ou conter o conflito a curto prazo.
No plano diplomático, a hostilidade e agressividade de Trump para com os aliados tradicionais dos EUA provocaram uma erosão profunda de confiança. Mesmo que algum dia seja parcialmente revertida, essa fratura levará anos a sarar. O desrespeito sistemático pelo direito internacional, as ações que mal disfarçam objetivos de pilhagem de recursos e a afirmação obscena de que os interesses nacionais americanos se sobrepõem a quaisquer direitos legítimos de outros Estados geraram um caos na ordem internacional sem precedentes recentes. Ver a principal potência mundial abandonar qualquer regulação global mínima oferece aos Estados que, no passado, apenas relutantemente a aceitavam um pretexto perfeito para se libertarem de compromissos e princípios que, ainda há pouco, muitos deles subscreviam e eram obrigados a aceitar como essenciais a um mundo minimamente cooperativo e civilizado.
Dia após dia, a atitude de Trump leva a temer que a sua megalomania sem freio o empurre para formas de subversão institucional dentro dos próprios Estados Unidos — uma fuga em frente destinada a preservar o exercício futuro do poder, independentemente do resultado das eleições intercalares de novembro, ou mesmo em substituição dele. Estarei a exagerar? Espero sinceramente que sim.
Trump tem quase todo o poder do mundo – incluindo poder condicionar as nossas vidas. Há, porém, um poder que lhe escapa em absoluto, mesmo que ele nem disso suspeite: o de nos impedir de nos rirmos das suas figuras ridículas e de sentirmos pena pelo estado a que levou a América.
Bela definição do futebol nos dias de hoje, dada por Rafa Cabeleira no "El País": "Si le quitas los cánticos racistas, los xenófobos, los insultos al árbitro o al presidente del Gobierno, el lanzamiento de objetos, los saludos fascistas, las batallas campales entre grupos ultras, el machismo y la homofobia, te queda un espectáculo ciertamente impecable, para todos los públicos".
Anunciado com espavento e nada tendo aportado de concreto, o discurso de Trump à nação, gizado para apaziguar a inquietação dos mercados, resultou no que o NYT sintetiza: "The price of oil was down when Trump started speaking and had gone up by the time he finished."
São eles os homens e as mulheres que, no futuro, irão constituir o topo das nossas estruturas militares.
Inseri-los numa reflexão sobre o futuro das instituições mundiais – da União Europeia à ONU, da NATO à OSCE e outras – foi um desafio muito interessante e que espero lhes possa ter sido de utilidade.
Olha-se para a conversa que por aí volta a correr em torno do velho "novo aeroporto" e fica a clara sensação de que se pretende perder ainda mais alguns anos. Depois de Santa Engrácia, esta vai ser uma das anedotas nacionais para a História.
Em 2003, ao ficar surpreendentemente em terceiro lugar - depois de Jacques Chirac e Jean-Marie Le Pen - na primeira volta das eleições presidenciais, Jospin veio a testemunhar, a uma distância humilhante, uma votação "norte-coreana" em Chirac - o qual, medidas as diferenças, acabou por ser uma espécie de Seguro "avant la lettre". Nessa noite, como logo anunciou, Jospin colocou um ponto final na sua vida política.
Lionel Jospin era das figuras mais respeitadas no seio dos socialistas franceses - e não só. Diplomata na sua origem profissional, tivera no passado uma ligação aos movimentos trotskistas que prolongou, já como militante do PS francês, por um período de tempo politicamente imprudente. Alguns levaram isso à conta de uma deliberada atitude de "entrismo" - a tática trotskista de se manter como "sleeper" dentro de outras organizações. As explicações que posteriormente veio a dar sobre o assunto não convenceram toda a gente.
Jospin era um homem frio, rigoroso, na ideologia um socialista a sério - e isto é um elogio. Estive com ele em algumas reuniões, acompanhando António Guterres, quando ele era primeiro-ministro da "coabitação" em que Chirac estava no Eliseu, depois da inesperada vitória socialista de 1997, resultante da desastrada dissolução da Assembleia que Dominique de Villepin, então SG do Eliseu, inspirou.
Fiquei ao seu lado num almoço em Matignon, de que recordo sobretudo os excelentes vinhos, já que a nossa conversa foi breve - através da mesa, ele falava com António Guterres e tinha à sua direita Jaime Gama. Não sei como, veio à baila o MES, o Movimento de Esquerda Socialista, a que eu tinha estado ligado e sobre o qual ele tinha alguma curiosidade. A certa altura, Jospin disse-me: "Como saberá, fui trotskista. O MES também tinha trotskistas?" Com o tempo, vim a concluir que a minha resposta foi, sem querer, algo premonitória: "Pode dizer-se que o MES teve, como longínqua referência francesa, o PSU, de Michel Rocard. Mas não me recordo que tivesse trotskistas. Em Portugal, os trotskistas tiveram um caminho próprio. Mas com os trotskistas nunca se sabe, não é? Podem ter "entrado" no MES..."
Recordo ainda as longas noites do encerramento do Tratado de Nice, com Chirac no comando das operações e Lionel Jospin e o MNE Hubert Védrine num papel mais recuado, com muito escassa intervenção nas complicadas negociações, madrugada fora. Chirac e Jospin foram ali a encarnação viva do "gaullo-mitterrandisme", essa doutrina teorizada por Hubert Védrine.
Na rádio portuguesa, houve vozes extraordinárias. Não faço a minha lista porque cada um tem a sua. Mas em todas elas surge sempre o mesmo no...