segunda-feira, dezembro 28, 2015

A importância de uma letra


Foi em Nova Iorque, há já uns anos. Aqueles nossos amigos brasileiros haviam encontrado numa rua um casal conhecido. da mesma nacionalidade, que partia de regresso ao Brasil no dia seguinte, no termo de um período de férias. Os nossos amigos, também turistas, que ficavam um tempo mais na cidade, sugeriram então juntarem-se os quatro para jantar nessa noite, num belo restaurante, do lado de Brooklin, com uma vista deslumbrante sobre Manhattan - o "River Cafe", cenário de muitos filmes. Encontrar-se-iam lá, a uma certa hora, ficou combinado.

Chegados ao restaurante, os nossos amigos começaram a estranhar o atraso dos dois restantes convivas. Com o tempo a passar, e imprudentemente não tendo ficado com os mútuos números de telefone, decidiram jantar só os dois. Alguma confusão ou dificuldade de última hora deveria ter havido.

Regressados ao Brasil, quase esqueceram a cena, até porque viviam em cidades diferentes. Um dia, os homens de ambos os casais encontram-se e o meu amigo diz para o outro: "Então, lá em Nova Iorque, vocês nunca chegaram a aparecer...". O "faltoso" responde : "Essa agora!! Então vocês marcaram aquele estranho lugar e, afinal, acabaram por não ir!" E explicou que tinha chegado bem à hora, com a sua mulher elegantemente vestida para um local de luxo e que se havia confrontado com um sítio um pouco "bizarro", nada condizente com o cenário para um jantar requintado, como esperavam.

O meu amigo estava siderado! Mas afinal que diabo de local era esse, onde tinham ido parar? O outro explicou que tinha dado o nome do restaurante que ele lhe tinha indicado à pessoa que estava no balcão do seu hotel, pedindo para esta descobrir o endereço e chamar um taxi. Lá chegados, o ambiente pareceu-lhes desde logo muito pouco adequado, mas entraram e aguardaram. Como os meus amigos não chegavam, e porque aquilo era um espaço um pouco constrangedor, decidiram regressar ao hotel.

Consciente de que havia algo de errado, o meu amigo perguntou: "Mas onde é que o taxi vos levou?" Ao que o outro explicou que foi ao "Rivera Cafe"! Os infelizes tinham aportado a um sinistro "Rivera Cafe", em lugar de irem para o elegante "River Cafe". Era "apenas" a diferença entre a noite e o dia...

Há pouco, ao descobrir a página do "Rivera Cafe" no Facebook, dei-me conta um comentário inserido por alguém nessa página, que diz tudo: "worse place I ate in a long time"...

domingo, dezembro 27, 2015

Buraco Sagrado



Há dois dias, falou-se por aqui do Buraco Sagrado, uma das zonas mais "secretas" de Vila Real. Nem imaginam a quantidade de pessoas da cidade que ou nunca ouviram falar do nome ou ouviram mas não fazem a menor ideia de onde fica esse local, que a toponímia local não regista.

As coincidências fazem parte da vida. E ontem, ao final da tarde, estive na casa de uma pessoa que é proprietária de um quadro do pintor Trindade Chagas, datado de 1928. Olhei para ele e vi que reproduz precisamente uma zona do Buraco Sagrado. Ele aqui fica, bem como a informação de que o Buraco Sagrado é uma zona por detrás do antigo hospital e do liceu, sendo acessível por ambos os lados. 

Posso imaginar que esta informação não seja de grande utilidade para muitos leitores deste blogue, espalhados pelo mundo, mas quantas informações inúteis não coletamos nós ao longo da vida? Assim, se um dia vier a baila o nome de Buraco Sagrado, já sabe!

O telefone de outros tempos


por aqui contei um dia o telefonema que, no início anos 60 do século passado, fizémos ao administrador apostólico de Vila Real, monsenhor Libânio, imitando a voz do bispo da Diocese, dom António Valente da Fonseca, que se encontrava em trabalho em Roma. A conversa começou por versar sobre os problemas da Diocese para, a certa altura, abordar o estado de saúde de umas muito conhecidas prostitutas locais, o que colocou o monsenhor numa imensa aflição, pensando que o bispo se "tinha passado", levando-o a interromper a chamada.

De uma outra vez, relatei neste blogue a aventura que foi convidar telefonicamente o responsável por um torneio de ping-pong (diz-se ténis de mesa agora, não é?) a repetir os resultados de todos e cada um dos jogos, convencendo-o de que, no dia seguinte, essa "reportagem" sairia em duas páginas do "Norte Desportivo". Ao alvoroço com que vencedores e derrotados, desejosos de ver o seu nome em letra de forma, esgotaram em segundos os exemplares chegados a Vila Real, seguiu-se uma fúria contra os desconhecidos "engraçadinhos" que tinham sido autores da "partida", felizmente não identificados.

A modorra de uma cidade de província, onde muito pouco havia para fazer, em especial em tempos de férias, levava à ousadia para este tipo de brincadeiras, protegidas, à época, pela garantida impossibilidade técnica de se detetar a origem das chamadas.

Ontem, numa volta pela cidade com amigos, recordámos mais três dessas "partidas" inocentes, em que interveio um número considerável de amigos, até porque o respetivo "efeito" só era conseguido pela repetição dos atos.

A primeira teve como vítima o proprietário de uma tasca no "circuito", o senhor Coelho. O Coelho era um homem de má catadura, proverbial mau feitio, sempre com um ar zangado atrás do balcão. A partir de certa altura, e durante várias semanas, o Coelho recebia chamadas que começavam de forma diferente mas acabavam sempre da mesma maneira, como por exemplo: "Está lá? É o senhor Coelho?" O homem respondia que sim e, do lado de cá da linha, nós avançávamos com a mesma frase: "Pum! Pum! Ó Coelho, matei-te!" Antes de desligarmos, o Coelho zurzia-nos com um arsenal muito criativo de asneiradas, de onde não saíam incólumes as nossas progenitoras. Foram largas dezenas de chamadas. Às vezes, já não era o próprio Coelho que atendia, mas nós tínhamos artes de obrigar a que ele próprio viesse ao telefone, invocando o nome forjado de um fornecedor ou coisa parecida. Um dia, alguns de nós corremos mesmo o risco de estar na tasca, a comer uma sanduíche, enquanto outro amigo executava a "operação". E não nos "desmanchámos"...

A segunda "intervenção", ao que apurámos, colocou uma família quase de cabeça perdida. Era uma simples chamada para um determinado número, apurado na lista da cidade. Invariavelmente, a nossa fala era a seguinte: "É de casa do senhor Zuzarte?" Respondiam sempre positivamente, quase sempre o próprio, ao que nós acrescentávamos: "O senhor Zuzarte não tem vergonha de ser o último nome da lista telefónica?" E acrescentávamos coisas como: "Deve ser muito triste, não é?" ou "Nunca pensou mudar de nome?" Da surpresa inicial, o Zuzarte começou a "passar-se dos carretos", respondendo com um chorrilho de imprecações furibundas. Às vezes, era a esposa do senhor Zuzarte que vinha à linha e nós adaptávamos a frases criativamente piedosas. Não vou revelar, contudo, a fraseologia adotada quando a família Zuzarte passou a encarregar a "criada" de atender as chamadas...

Conto agora a última das "partidas" - há outras que nunca "prescreverão", pelo que são irreproduzíveis... - que então fazíamos. Havia, na avenida Carvalho Araújo, uma importante loja de eletrodomésticos chamada "Casa Patinhas". Ora, à época, de um popular programa radiofónico diário dos "Parodiantes de Lisboa", faziam parte uns "sketches" muito populares, uma conversa entre um detetive, chamado "Patilhas", e o seu colaborador, o "Ventoínha". O senhor Patinhas passou a receber, aí uma vez por dia, durante meses, uma chamada telefónica muito simples: pedia-se-lhe para chamar ao telefone o "Ventoínha". De início, o senhor Patinhas foi dizendo que por ali não havia nenhum Ventoínha. Rapidamente percebeu a marosca e passou a ter reações furiosas. Mudámos então de tática: passou a ser "o próprio Ventoínha" a telefonar, dizendo querer falar com o Patinhas. O homem (o facto dele se não chamar Patinhas e não Patilhas era já despiciendo) dava berros que se chegavam a ouvir num banco da avenida que havia perto da porta da loja, onde nos íamos sentar para gozar a cena. Um dia chegámos a pedir a uma amiga para telefonar como se fosse mulher do Ventoínha, perguntando por ele. Arrancámos-lhe o telefone da mão antes do pobre Patinhas a mimosear com qualificativos que um "blogue de famílias" como este não pode, naturalmente, acolher.

Era assim nesse tempo, nessa Vila Real de então, para quem tinha 14 ou 15 anos e muito pouco para fazer nos tempos livres. Não devia ser muito diferente noutras cidades de província portuguesas.

sábado, dezembro 26, 2015

Fernando Henrique Cardoso


Tenho uma grande admiração por Fernando Henrique Cardoso. (Embora a alguns isso pareça incongruente e incompatível, tenho também forte admiração por Lula da Silva, mas isso são outras histórias). 

Desde o tempo em que fui embaixador no Brasil, FHC (é assim que o conhecem) foi sempre de uma extrema simpatia comigo. Tive gosto em ter sido ele e entregar-me o prémio "personalidade do ano" com que, em 2006, o mundo empresarial luso-brasileiro quis manifestar-me o seu apreço pelo apoio que a embaixada que chefiei lhe proporcionava. E guardo para memória futura uma longa conversa a dois, no restaurante Carlota, em São Paulo, onde falámos um pouco de tudo e muito de política brasileira. Temo-nos cruzado em Lisboa várias vezes, nos últimos anos.

Fernando Henrique Cardoso acaba de editar os seus "Diários da Presidência 1995-96", um volume de quase mil páginas com suculenta informação sobre a vida política interna do Brasil, que a mim me continua a interessar muito. O livro chegou-me há dois dias, oferta de um amigo brasileiro. Passei os olhos por ele e, de facto, é garantido que me vai acompanhar por algumas semanas. 

Não é de estranhar que as escassas referências a Portugal tenham chamado a minha atenção prioritária.

Há algumas notas pessoais muito simpáticas sobre Mário Soares, Jorge Sampaio e António Guterres ("ele pensa do jeito que eu penso"), bem como um apontamento breve de um encontro com Ricardo Salgado, que foi informar FHC, para grande surpresa deste, de que o grupo Espírito Santo pretendia investir no Brasil. Também idêntica intenção da Caixa Geral de Depósitos é assinalada. Sobre uma conversa com Durão Barroso, a referência é curiosa: "Falei bastante com DB, nada de mais extraordinário a não ser que foi muito grato e muito cansativo" (sic)!

(Um parêntesis para notar que o período coberto por este volume corresponde à chegada ao governo de António Guterres e à substituição de Mário Soares por Jorge Sampaio).

Sobre as relações luso-brasileiras, na ressaca da crise dos dentistas, diz FHC : "pela imprensa me parece que Portugal tem um certo ceticismo com relação ao Brasil, talvez até bem fundamentado. E não tem tanto entusiasmo quanto se pensa em relação às chamadas "relações especiais". A cúpula, o governo, todos os lados, mais a elite cultural, esses sim, mas não creio que isso tenha enraizamento maior na vida portuguesa propriamente dita, como não tem na vida brasileira". Interessante leitura.

O mais curioso destas referências a Portugal prende-se com a CPLP e a posição de José Aparecido de Oliveira, que havia sido embaixador brasileiro em Lisboa. Não estarei a revelar nenhum segredo se disser que, na percepção dos meios políticos portugueses (eu estava no governo nessa altura), ficou a sensação de que foi FHC quem se opôs a que José Aparecido de Oliveira fosse o primeiro secretário-executivo da organização. Ora o antigo presidente desmente essa versão nestes "Diários", e diz com clareza que a oposição foi do chefe da diplomacia brasileira: "O Luiz Filipe Lampreia não quer". Curiosamente, Lampreia não se refere a esta sua posição no livro "O Brasil e os ventos do mundo" (Rio, 2009), onde se limita a assinalar que a criação da CPLP se fez "por impulso do embaixador do Brasil em Lisboa, José Aparecido de Oliveira", encerrando com a brutal (mas muito verdadeira) constatação de que "no Brasil não existe nenhum entusiasmo com a instituição".

"A russa a caminho do Marão"


Ferreira Fernandes, no DN de hoje, retoma uma história aqui contada há dias. Ter o mais credenciado cronista português a ecoar brilhantemente o meu modesto escrito foi uma excelente prenda de Natal.

sexta-feira, dezembro 25, 2015

A greve de Natal


Quero deixar aqui uma nota de simpatia aos maquinistas e condutores da CP e do transportes coletivos do Porto, que decidiram uma justa greve (não conheço os motivos, mas deve ser justa) precisamente no dia de Natal, sabendo bem que essa data é a que menos prejudica os trabalhadores e a que mais afeta os utentes - os quais, como é sabido, são, em esmagadora maioria, os capitalistas e as classes possidentes do país. Avante! Haveis de ir longe...

O problema do Natal


O problema não é o que se come e bebe entre o Natal e o Ano Novo. O problema é o que come e bebe entre o Ano Novo e o Natal...

Mito urbano


Ouvi, durante anos, aqui em Vila Real.

"Descem à cidade velha, alguns pelo seminário, outros pelo asilo, bastantes pelo Calvário, cada vez mais pela rua Direita e, também, pela marginal. Até da Almodena e do Buraco Sagrado chegam uns poucos. Encontram-se todos à esquina da Gomes, ao final da manhã de 25 de dezembro. São os felizes proprietários das camisolas de losangos, que lhes "saíram" nas prendas da noite anterior. A romaria é imensa, se somarmos as décadas que leva."

Nunca vi. Será mesmo mentira?

Hoje...


Pelo Porto, pelo Natal


O Porto era uma etapa invariável dos meus Natais de infância. Funcionário público “exilado" em Vila Real, desde os anos 40, o meu pai rumava com a família para a sua Viana do Castelo, uns dias antes do Natal. Não tínhamos carro, íamos de comboio.

Primeiro, até à Régua, pela velha linha do Corgo, com bancos de "sumopau", as faúlhas da máquina a entrarem-nos pelos olhos. Depois, o Douro ia ali ao lado, mas nós, nessa época, quase não olhávamos para ele. Via o meu pai preocupado em conferir ao minuto os atrasos, a tentar perceber se "dava tempo" para chegar a Campanhã ou se tínhamos de mudar para a linha do Minho em Ermesinde. Era um rebuliço de bagagens e gentes, nesses períodos de inevitável enchente dos comboios.  

A ceia da Consoada era passada no casarão da minha avó paterna, no largo Vasco da Gama. Lembro-me claramente do cheiro do armário de onde se tirava anualmente o presépio, dos carneiros e músicos fanados pelo uso, do musgo que íamos buscar ao quintal, para colocar sobre um papel forte, manchado. Com os meus primos, jogava pinhões ao rapa. Era um tempo ainda sem televisão, com um gira-discos a alegrar, todos à conversa à volta da minha velha avó e nós, os mais novos, a traquinar pela imensa casa.

No dia 25, depois da "roupa velha", partíamos para o Porto. Levava já prendas, embora, para meu silencioso desconsolo, algumas fossem sempre pacotes de meias, compradas no Eugénio Pinheiro, na Picota. Ficou-me uma imagem do meu pai, no comboio, a ler "O Comércio do Porto" (não era o “Notícias”, desculpem lá!), com as páginas coloridas de motivos natalícios. E da minha mãe entretida com a então famosa "Eva" do Natal, a revista que sorteava uma moradia. Nunca nos "saiu", diga-se, porque toda a sorte que tivemos na vida deu sempre muito trabalho.

A chegada a S. Bento, com fumarada, apitos e uma barulheira que eu achava então o máximo do cosmopolitismo, e que depois lembrei em alguns filmes, era um momento ansiado. Aguardavam-nos outros familiares, com os quais avançávamos, já de carro, para Vila Real. E lá íamos nós pelo Marquês e por Costa Cabral adiante, por Ermesinde (outra vez!), rumo às temíveis curvas do Marão.

A elas nos abalançávamos depois de um "reforço" em Amarante, no Zé da Calçada, e da doçaria na Lai-Lai, ao lado. Passada a Pousada e o esperado Alto de Espinho, onde a curvaria amainava, as luzes de Vila Real, avistadas de Arrabães, prenunciavam já a outra noite de Natal que aí vinha, desta vez em casa dos meus avós maternos, com outros tios e outros primos. E com novas prendas, claro!

Tempos felizes!

quinta-feira, dezembro 24, 2015

Era assim...


A consoada da mulher só

Foi já há muitos anos. Era noite de Consoada, já muito sobre a hora do jantar. Eu ia de carro, atrasado, na recolha de uma doçaria que tinha de ir buscar "às Coelho", ali abaixo da Sé de Vila Real. Estava imenso frio e ventava forte, numa avenida Carvalho Araújo completamente deserta, sem vivalma. Ou melhor, havia uma pessoa. Uma mulher, ainda jovem, com cabelos ao vento, estava parada, com uma mala ao lado, no passeio junto ao qual habitualmente paravam os táxis, então chamados "carros de praça". Teria chegado na última carreira do Cabanelas, pensei. Visivelmente, aguardava que um carro surgisse, para a levar, talvez a um aldeia próxima. Era uma esperança vã: nenhum "chofér" abandonaria a comodidade da noite caseira para um "serviço" não combinado. Passei por ela e fui buscar os doces. No regresso, ela ainda ali continuava, especada. com um olhar que me pareceu algo ansioso, que se cruzou com o meu, à passagem. Fui para o meu jantar. Por todos estes anos, a imagem dessa mulher só acompanhou-me. Onde teria ela passado aquela sua Consoada?   

A Dois não janta!


Nem a derrota tática do Sporting, para evitar o infamante título de "campeão de Natal", ou a aliança Jerónimo de Sousa / Paulo Portas / PAN, contra o despesismo bancário de António Costa no caso Banif, foram capazes de calar o clamor que por aí vai, pelo facto da Mesa Dois do bar Procópio não se reunir este ano no seu jantar de fim de ano. É claro que o odioso cai sobre o (não) organizador perpétuo, o autor deste blogue. E até sairam poemas. 

O primeiro foi Luis Castro Mendes, no facebook 

A traição do jantar 

A Francisco Seixas da Costa, ele sabe porquê

Andas tu com frescura em Amarante
a deslumbrar eslavas plas estradas,

com esse geográfico desplante
que te ficou de lides já passadas, 

enquanto nós, os órfãos do Procópio,
abandonados pelas gerações

que nos alcançam só no telescópio
com que a História desfaz as emoções, 

sentimos falta desse jantar lauto
em que a peste grisalha prosperava

e ria com o riso de um Plauto
o que da piolheira nos maçava.

Vencidos pois da Vida e da idade
nem um jantar nos vem trazer saudade!


Mas logo António Dias complementou, também no facebook

Juntando a minha voz ao lamento do
Luis Castro Mendes
(sobre uma declaração do Francisco Seixas da Costa)

Toda a Europa se espanta!
Eis que a clara luz da "Dois" se esbate.
Gritam arautos, tocam sinos a rebate,
este ano, dizem, não se janta!

Tremem da cidade os fortes muros,
há medo, desespero e há gritos.
Do Procópio saem procissões de aflitos,
cinza nos cabelos, trajes escuros.

Vão até Francisco os desgraçados,
braços estendidos, a voz rouca,
Pobres peregrinos. Para o chão
vão caindo um a um, esfomeados.

Pois que lhe tiraram o pão da boca!
Está na moda acabar com a tradição.


Isto começa a ficar complicado...

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Boas Festas

A todos quantos se dão ao trabalho de seguir o que vai sendo publicado neste blogue, aqui deixo os votos muito sinceros de um Bom Natal e de um ano de 2016 melhor do que aquele que não ousariam esperar.

Europa - um feliz ano novo?

Foi Harold Macmillan, o antigo primeiro-ministro britânico, quem, um dia, ao ser perguntado sobre o que mais temia em política, deu uma resposta que ficou célebre; “events, dear boy, events!” A regra básica para quem se aventura pelos caminhos da vida pública é estar preparado para ter de fazer frente aos acontecimentos, ao inesperado, àquilo que pode colocar em causa todas as previsões e calendários.

A União Europeia não escapa a esta sina. De um dia para o outro, surgem à sua frente novas situações a que urge responder, que desqualificam as prioridades da véspera. Foi assim com a crise financeira, a instabilidade da dívida soberana, a pré-rutura da Grécia, a tragédia dos imigrantes do Sul, a tensão com a Rússia. É assim hoje com os refugiados, com os atentados terroristas, com as exigências britânicas para a revisão da matriz da integração.

A UE vive sob duas pressões contraditórias. A única forma de dar coerência ao seu corpo de políticas é operar em um cada vez maior número de áreas, algumas das quais – como a moeda, a política orçamental ou as relações externas – tocam já aquilo que fazia parte do cerne tradicional da soberania dos Estados. Porém, isto ocorre quando a diversidade dos Estados membros é maior, quando as agendas nacionais de preocupações são muito diferentes, às vezes contraditórias, e em que a bondade das soluções de natureza europeia começa a ser questionada, com as pulsões para “devolução” de poderes, de regresso à esfera nacional, a terem cada vez mais adeptos.

A disponibilidade de muitos Estados para mais partilha de soberania é hoje diminuta, porque as suas opiniões públicas só aceitariam “mais Europa” se estivessem (e não estão) satisfeitas com a Europa que têm, mas também pelo facto de terem por certo que a influência na gestão dessa partilha depende da força, também desigual, que cada um tem em Bruxelas. O tempo em que a importância dos desafios exigiria mais unidade na expressão da vontade comum é precisamente aquele em que as divergências são mais acentuadas.

Há outra realidade muito esquecida. Os dirigentes nacionais raramente dispõem de um mandato para comprometerem a vontade dos seus países para além do imediatismo das crises. Aceitam os tratados, mas são relutantes a novas obrigações ou, para as aceitarem, necessitam que o “estado de crise” ou “de necessidade” se instale previamente nas suas opiniões públicas. As medidas tomadas na sequência da crise financeira de 2008 foram disso um bom exemplo: todos concordam que, se acaso tivesse surgido mais cedo, o pacote resolutivo poderia ter ficado bem mais “barato”. Mas poucos reconhecem que esse calendário de intervenção sucessiva acabou por ser o único compaginável com a maturação da consciência, nos respetivos países, da gravidade das questões.

É neste pano de fundo – o de uma Europa que não pode dispensar a observância das idiossincrasias dos modelos democráticos dos Estado, com ciclos políticos não coincidentes – que o ano europeu de 2016 se vai projetar. Todos pressentimos que a agenda europeia é pesada, ficando a faltar os “events” de que falava Macmillan…

Desde logo, transita para o ano a delicada questão dos refugiados. O tema testou as margens da tolerância europeia, revelou entendimentos muito diferentes sobre os padrões de solidariedade e, para o bem e para o mal, trouxe ao de cima divergências profundas sobre o modo como os vários Estados encaram as suas responsabilidades. Uma linha divisória entre uma Europa de centro e leste europeu, com os reflexos humanitários embotados por uma frieza que poucos adivinhavam, e uma Europa occidental, mais aberta ao esforço solidário, mais generosa e disponível para soluções coletivas, ficou patente nas tensas reuniões de Bruxelas.


E se a questão dos refugiados, que vinha já a somar-se à tragédia da imigração clandestina oriunda do Norte de África – ou já esquecemos os milhares de mortos nas costas italianas, que tanto nos horrorizaram há menos de um ano? – criou interrogações sobre o funcionamento do acordo de Schengen, os atos terroristas de Paris, não obstante a sua autoria ter mais de interna do que de externa, abriram caminho a mais dúvidas sobre as regras que regem a livre circulação europeia. Em 2016, esta questão estará em cima da mesa, lado a lado com o tema ultra-sensível da “europeização” do controlo das fronteiras externas. Gostaria de estar errado, mas temo que possa estar a abrir-se, por aí, uma “caixa de Pandora” com um efeito dominó sobre outras áreas da vida da União.

É neste contexto que se insere parte da agenda reivindicativa britânica com que a Europa está confrontada. A liderança conservadora do Reino Unido há muito que faz da diabolização de Bruxelas uma arma reivindicativa, nunca tendo optado por uma pedagogia face à sua opinião pública sobre a vastidão das vantagens que retira da União. Londres não esteve no “protocolo social”, isentou-se de Schengen, não aderiu ao euro e não prescinde de receber o seu “rebate” financeiro anual. Não obstante todas estas “exceções”, o Reino Unido é um dos principais beneficiários do Mercado interno, usufruindo a City Londrina de vantagens que lhe advêm da sua rentável singularidade.

David Cameron prometeu aos britânicos um referendo sobre a permanência da União. Para o ganhar, precisa que a UE faça concessões. Dramatizou a parada e colocou na mesa uma espécie de chantagem. Desse pacote faz parte a retirada de direitos sociais aos imigrantes intracomunitários, uma inaceitável ideia a que importa resistir.

Que mais nos trará 2016? A Grécia voltará a um novo ciclo de crise? A Parceria Transatlântica terá pernas para andar? A tensão ucraniana reacender-se-á? Como evoluirá a “nova” relação com a Turquia? A tendência secessionista da Catalunha, numa Espanha em crise pós-eleitoral, acentuar-se-á? A liderança alemã será contestada por uma alternativa anti-austeritária? E a banca europeia, como reagirá às novas exigências? Mais importante do que tudo: Draghi conseguirá continuar a sustentar o euro?  

(Artigo escrito a convite da "Visão")       

terça-feira, dezembro 22, 2015

A Claude e a Natércia


Madame Claude, que agora morreu aos 92 anos, oficiou uma das mais famosas "casa de meninas" de Paris, com a entrada que a imagem mostra, na rua de Marignan, entre a Montaigne e os Campos Elísios. Por lá passaram nomes ilustres, que isto das necessidades toca a todos.

Para alguns das novas gerações, o conceito é, no mínimo, bizarro e até pode surgir como "disgusting". Imagino também que o feminismo reaja sem contemplações a este tipo de evocações, onde sempre detetará alguma inevitável nostalgia. O politicamente correto esforça-se por colocar estes modelos no passado, embora todos saibam como as coisas se passam hoje e, com toda a certeza, se continuarão a passar no futuro. E, já que têm que se passar, ao menos que se passem com classe. É que, tal como a diplomacia, há profissões que não deixam de estar na moda. 

Para quem por cá viveu esses outros tempos, em que os costumes impunham outro tipo de regras, as "casas de tias" faziam parte da paisagem, quer urbana quer rural. Mais ou menos luxuosos, esses antros simpáticos de vício foram uma pré-primária do sexo para muita gente. Quantos lisboetas frequentaram o 100 da rua do Mundo ou o 5 da rua da Barroca? E que portuenses conheceram o 515 da rua da Alegria ou o 59 da rua Mártires da Liberdade? Algumas das nossas "madames" tinham nomes consagrados, o seu estatuto raramente era posto em causa, porque "se davam ao respeito", ora bem! E, por essa altura, a ninguém passava pela cabeça falar de "casas de alterne".

Mas afinal quem era a Natércia referida no título? Era uma senhora da rua dos Ferreiros, em Vila Real, para cuja casa, na minha infância, e da minha varanda das traseiras, eu via convergir pelotões de soldados do RI13, num movimento que os meus pais se atrapalhavam com sorrisos para justificar e que eu sempre teimava em tentar entender. 

Um dia, a ambulância dos bombeiros (era a "maca nova", dos bombeiros "de baixo", cor de areia, lembro-me bem) sirenou, rua abaixo, até à porta da Natércia. Alguém disse: "foi um soldado que morreu lá, de congestão". Porque a congestão era um conceito que eu associava ao banho depois da refeição, lá fui eu perguntar ao meu pai se o quintal das traseiras da casa da tal Natércia ia até ao rio Corgo e se o rapaz teria morrido de congestão ao tomar banho. Terá sido a única vez que vi o meu pai dar uma gargalhada ao falar de uma morte. Andei uns tempos mais até perceber tudo. Ah! Mas à Natércia nunca fui, juro!... 

Joe Cocker (1945-2014)


Pronto, lá se foi o Joe Cocker!

Que sorte que ele tem! É que o lembraremos para sempre pelo "Cry me a river", pelo "You are so beautiful", pelo "Unchain my heart" ou pelo "With a little help from my friends".

Em tempo: a mania de alguns de colocar na net notícias requentadas levou-me a "matar" Joe Cocker muito tempo depois da sua morte. Felizmente, "with a little help from my friends", o assunto ficou esclarecido. É a vida, ou melhor, neste caso, é a morte.

O partido

Ele aí está, sempre a olhar o futuro com os olhos deixados no passado. Na primeira curva, que se chama Banif mas que podia ter outro nome, "o partido" puxa o tapete e vota contra. Tinha outra solução para o caso? Tinha: provavelmente seria nacionalizar, colocar tudo no domínio público, como a "criatividade" do BE pede também para o Novo Banco. Seria pedir demasiado, a quem vive num museu de si mesmo, que se conformasse com a realidade. Regressa a história do escorpião. Nunca esperei coisa diferente, como por aqui disse.

Horácio Roque


Morreu há mais de cinco anos. Agora, desapareceu o Banif, um banco que foi obra sua e a que dedicou uma grande parte da sua existência.

Horácio Roque foi um "self-made man" que lutou muito pela vida, que lhe não foi sempre fácil, mas nela prosperou, criou riqueza e deu emprego e futuro a muita gente.

Tendo-o conhecido e, em certa fase, acompanhado o seu esforço e dedicação pelo Banif, quero, nesta ocasião, expressar uma palavra de respeito pela sua memória.

segunda-feira, dezembro 21, 2015

Casemos a culpa!

O caso Banif, com as gravosas consequências que acabou por ter para o erário público, tem de levar a uma explicitação muito concreta das responsabilidades - das instituições e das pessoas envolvidas. No plano técnico, político e quiçá judicial. Importa que a comissão parlamentar, que o PS teve a iniciativa de propor, seja utilizada para um "name and shame" muito claro.  

Não desconheço que o tratamento público das questões que envolvem instituições financeiras tem uma delicadeza muito particular, porque qualquer palavra fora do tempo pode ter consequências de alarme injustificado nos mercados, pode induzir quebras de confiança, com efeitos reputacionais e financeiros indesejáveis. Para isso, para a avaliação atempada dos problemas, é que se contava com uma supervisão eficaz. Ora o Banco de Portugal voltou, uma vez mais, a falhar e, também uma vez mais, são os contribuintes quem acaba por pagar a fatura. O Banco de Portugal não atuou por instruções do governo ou por opção, por incompetência?

Depois do BPN, do BPP, do BES e agora do Banif, os portugueses têm direito a saber que novas surpresas os esperam, ao virar da esquina. Podemos ter a certeza de que os nossos impostos não vão ser chamados a pagar problemas de mais nenhuma instituição bancária? Há garantias sobre o estado do Montepio? Não há a mínima dúvida sobre o estado da Caixa Geral de Depósitos? E podemos estar seguros de que com o BPI e o BCP não vamos ter problemas?

Gostei da atitude do governo perante a questão. Soube assumir o problema com frontalidade e o primeiro-ministro e o ministro das Finanças não se refugiaram atrás do governador do Banco de Portugal, como se passou com o caso BES. António Costa e a sua equipa tiveram ainda o sentido de Estado de partilhar com todos os partidos com representação parlamentar a dimensão do caso, cabendo-lhe agora explicar que a solução encontrada, por muito gravosa que possa ter sido, era a única possível. Mas isto não exclui a necessidade de ter de ficar muito claro por que razão as coisas chegaram a este ponto. E, repito, aproveitar para conhecer o estado real do mercado bancário em Portugal. 

A culpa não pode morrer, outra vez, solteira.

Para fechar o assunto

Roberto Martinez saiu de selecionador. Nada mais natural, perante a derrota — ou, mais rigorosamente, a não-vitória — num Mundial que ele pr...