quinta-feira, março 17, 2011

Badinter

Fui apresentado a Robert Badinter, há quase dois anos, aqui em Paris. Disse-lhe então do prazer que tinha em conhecê-lo pessoalmente, pelo profundo respeito que a sua figura de retidão ética me inspirava, desde há muito. E, devo confessar, não há muitas pessoas a quem eu me sentisse tentado a dizer o mesmo.

Robert Badinter foi, durante quatro anos, ministro da Justiça de François Mitterrand e proponente da medida legislativa que, em outubro de 1981, proibiu a pena de morte em França. Tinha na minha memória a campanha de vilificação de que então foi alvo, com acusações miseráveis, que o qualificaram como "o advogado dos assassinos".

Num tempo em que, um pouco por todo o lado, a política imediatista tende a esconder os princípios por detrás do populismo, vale a pena relembrar que Badinter soube conduzir a França para a linha da frente da defesa das liberdades - abolição dos tribunais militares, supressão do delito da homosexualidade, sujeição ao Tribunal europeu dos direitos do Homem, etc.

Badinter acaba de publicar uma memória desse tempo de honra para a vida pública francesa, sugestivamente intitulado "Les épines et les roses". Lê-se de um trago, como retrato que é de uma bem sucedida mas complexa experiência política. Nele, Badinter não deixa de notar que a democracia está longe de ser a reprodução mecanicista do sentimento popular: quase 2/3 dos franceses eram favoráveis à manutenção da pena de morte, no momento em que ela foi abolida. Liderar, politicamente, é também ter a coragem de tomar medidas impopulares, quando se entende que o bem público as justifica.

Ainda o Benfica

A eliminatória entre o Benfica e o Paris Saint-Germain, que daqui a pouco se decide, deve estar a criar um sentimento de divisão nos muitos portugueses e luso-descendentes que, em Paris, têm o clube francês no coração. E não vale a pena estar aqui a clamar pela veia patriótica, porque as emoções estão para além de qualquer racionalidade.

Curiosamente, devo dizer que nunca senti a minha vontade pender em favor de um clube estrangeiro, numa qualquer disputa com um clube português. Mas admito perfeitamente que outros tenham uma atitude diferente. Eu faço-o, naturalmente, não por grande empatia com qualquer das restantes equipas nacionais - só tenho uma simpatia, como a maioria de nós -, mas porque sempre achei que uma vitória portuguesa faz muito pelo ego dos nossos compatriotas no estrangeiro, os quais devem ter um grande prazer em entrar no emprego, no dia seguinte, com um sorriso ganhador. Esta será, com certeza, a compensação mínima pelas agruras que a vida lhes possa trazer. Só por isso, que é muito, sempre pensei que vale a pena estar do lado de todos os clubes portugueses que atuam cá fora, embora eles não dependam do meu apoio, para ganhar ou perder.

A historieta que vou contar passou-se em 1988. O Benfica disputava a final da antiga Taça dos Campeões Europeus, em Estugarda, na Alemanha, contra os holandeses do PSV Eindhoven. De Lisboa, tinham partido muitos aviões e eu estava - já nem sei bem porquê! - entre os convidados para ver o jogo, em que se contavam imensos sportinguistas, que iam abertamente apoiar o Benfica. O nosso grupo era divertidíssimo e lembro-me que Miguel Esteves Cardoso escreveu uma crónica imperdível sobre aquela experiência.

O partida foi difícil, com as chuteiras dos jogadores do Benfica a descalçarem-se, por inexplicadas razões. Ao final do tempo regulamentar, o resultado era um nulo. Foi-se para prolongamento e tudo se manteve igual. Restavam os penáltis. E é aí que a cena se passa.

José Vera Jardim, um sportinguista dos sete costados, que estava ao meu lado, voltou-se para outro grande sportinguista, o padre Vitor Melícias, e apelou:

- Ó padre Melícias. Contamos com umas oraçõezinhas suas para os penáltis!

Vitor Melícias quebrou a nervoseira geral, naquele momento algo tenso, com a sua pronta resposta, no tom de voz tão típico que é o seu:

- Orações?! Essa agora! Eu já aguentei isto a "pai-nossos" e "avé-marias" até ao final do prolongamento. Agora, para os penáltis, só o cardeal patriarca!

O cardeal não estava lá e o Benfica perdeu.

A garrafa

Ontem à tarde, vindo com os apoiantes do Benfica, para ver o jogo de hoje com o PSG, bateu-me à porta um velho amigo:

- Será que posso levar uma garrafa de vinho que, há cerca de meio ano, uma pessoa te deixou, na embaixada, para mim?

Nesse instante, lembrei-me, claramente, que alguém me entregou uma garrafa que era destinada àquele meu amigo. Isso aconteceu, creio, no início de um concerto musical e, se bem leio a minha rotina, devo ter passado a garrafa a alguém da casa, que a terá guardado.

O "inferno" que é a minha vida, por estes dias, não me dá hipóteses de ir à procura da garrafa, pelo menos a tempo desse meu amigo a levar para Lisboa. Mas, aqui entre nós (ele não lê blogues, creio), é bem provável que já a tenha bebido, numa qualquer refeição. E o mais "trágico" é que, se assim aconteceu, nem sequer me dei conta de se tratar de um néctar dos deuses, como esse meu amigo diz que era.

Também por essa razão, e para garantir que ele fica contente, só espero que o Benfica ganhe! 

Açores

Pedro Pauleta é uma das "caras" de Portugal em França, onde tem uma imagem de prestígio e grande simpatia na opinião pública. 

Esta manhã, como "embaixador" dos Açores, Pauleta esteve na Embaixada, numa iniciativa para a qual abri as nossas portas, com vista à apresentação de uma parceria entre a SATA e a Aigle Azur, que vai permitir uma ligação mais fácil e articulada entre os voos desta última companhia com destino a Portugal e a importante rede da companhia açoreana. Quase uma centena de jornalistas e promotores turísticos juntaram-se-nos nesta operação de divulgação.

Os Açores são uma região turística portuguesa que necessita de uma mais ampla promoção, pelo produto diferente que representa, num mundo que já procura algo mais para além do "sol e praia". Ao lado de outras regiões portuguesas, o turismo dos Açores está representado na Feira de Turismo, que tem lugar aqui em Paris, em que temos um interessante stand.

Em 2010, a França foi o país emissor de turistas para Portugal que apresentou números mais favoráveis, o que não pode ser desligado do trabalho intenso e qualificado de promoção que tem vindo a ser desenvolvido em França pelas nossas autoridades do setor.

quarta-feira, março 16, 2011

Cultura portuguesa

Em Paris, a cultura portuguesa mostra-se bem, por estes dias.

Anteontem, na Fundação Calouste Gulbenkian, Vasco Graça Moura animou uma interessante apresentação de textos de Mário Cláudio e de Anna Luísa Pignatelli (cuja obra eu desconhecia por completo e cuja qualidade me surpreendeu), na presença e em debate com os autores.

Ontem, estive na abertura de uma nova exposição do pintor madeirense Mateus Camacho (na imagem superior), na Galerie Octobre (24 rue René Boulanger, metro République), em exibição até 16 de abril.

Ao final da tarde, a memória de Joaquim Vital foi objeto de uma bela sessão na Maison de l'Amérique Latine, com testemunhos de amigos e escritores. Uma larga e solidária audiência, onde encontrei Júlio Pomar, homenageou o editor e escritor, que "La Quinzène Littéraire" também lembra assim no seu último número. À emoção de alguns sucedeu-se o humor literário de outros, como Salim Jay, que deixou a sala divertidamente intrigada com o teor do romance do egípcio Mohamed Leftah, "Le dernier combat de Captain Ni'mat", uma das últimas edições de Joaquim Vital.

Hoje à tarde, vou tentar estar na abertura da exposição de fotografia de Helena Almeida (imagem inferior), na Galerie Les Filles du Calvaire (17 rue des Filles-du-Calvaire, metro Oberkampf), em exibição até 7 de maio.
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Joaquim Vital e as colónias portuguesas

Foi uma mera coincidência.  Mas, às vezes, as coincidências têm o seu significado.

Ontem, foi o dia em que se registou a passagem de meio século sobre o feroz ataque da UPA (União dos Povos de Angola), que, no norte de Angola, vitimou centenas de colonos portugueses e de cidadão angolanos, naquela que foi a primeira grande manifestação de revolta contra a presença colonial portuguesa em Angola - depois dos acontecimentos da Baixa do Cassange e do "4 de Fevereiro", em Luanda, todos ocorridos no início desse ano histórico de 1961. A partir de então, nada iria ser igual nas colónias portuguesas, desde o Estado da Índia (que seria invadido pela então União Indiana, no final do ano), até à independência completa de Timor-Leste, apenas reconhecida pela ONU em 2002, passando pelo reconhecimento português das independências de Cabo Verde, Guiné-Bissau (que a comunidade internacional já consagrara em 1973), S. Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, ao longo de 1975.

Ontem, também, teve lugar na Embaixada de Portugal em Paris um cerimónia durante a qual o Estado português atribuiu ao intelectual e editor Joaquim Vital a comenda da Ordem do Infante Dom Henrique. Em nome do Presidente da República, que aprovou esta distinção proposta pelo governo, sob minha sugestão, a viúva e os filhos de Joaqum Vital receberam esta distinção. que lhe era dirigida, a título póstumo, numa cerimónia privada. Foi uma condecoração dada a alguém que saíu de Portugal para não participar nessa mesma guerra colonial, como gesto ostensivo de recusa da política errada de um regime ditatorial que abafava o país.

Portugal viverá com esta dualidade eterna: com a dignidade da revolta de quantos o seu regime oprimia, bem como com a dignidade dos militares portugueses que, sob a nossa bandeira, procuraram contrariar essa vontade, sob ordens do regime de então. Esta dualidade pode parecer quase esquizofrénica, mas é a sina de um país que tem muita história e que tem sabido vivê-la no caldeirão das contradições que ela encerra. 

Ontem, ainda, a viúva de Joaquim Vital, nas simpáticas palavras com que respondeu às minhas, lembrou ser quase irónico que Joaquim Vital tivesse preparado, a meu pedido, um "curriculum vitae", para instruir a proposta de condecoração, precisamente poucos dias antes da sua súbita morte, em Maio de 2010, numa visita a Lisboa.

Líbia (2)

O líder líbio, Mouammar Kadhafi, tem vindo a repetir que não pode ser demitido de nenhum cargo, dado que não exerce nenhum poder executivo. Ontem, li que se comparou à raínha Isabel II, do Reino Unido, afirmando que esta também não é responsável pelas ações do seu governo.

Deve-me ter escapado, mas não me recordo, com precisão, da última conferência de imprensa da soberana britânica.

Líbia (1)

Há duas semanas, vinha a sair de uma farmácia, na avenida da Igreja, em Lisboa, quando ouvi um curto diálogo entre dois cidadãos que caminhavam pelo passeio, um dos quais se afastava, para entrar no estabelecimento:

- Depois, vais lá ter ao café?, perguntou o outro.

- Vou, vou. Só dou aqui um saltinho à farmácia, para saber se ainda têm o Kadhafi.

Quem não soubesse o nome da loja - Farmácia Líbia - não percebia a graça.

Todos somos japoneses

terça-feira, março 15, 2011

O guerreiro

Aquele ministro dos Negócios Estrangeiros, oriundo de um pequeno país europeu, levava-se muito a sério no exercício da Presidência rotativa que, naquele semestre, cabia ao seu país. O tempo era de crise política nos Balcãs, com o presidente Milosevic sob forte pressão internacional, em face das tensões que potenciava na Jugoslávia. Por virtude das quase ridículas contribuições que o Estado que representava poderia dar, em caso de eventuais ações militares em nome coletivo, o ministro tornava-se algo caricato, ao falar como se tivesse, atrás de si, umas forças armadas fortíssimas e, em especial, como se lhe fosse possível mobilizar  os parceiros à escala da sua retórica.

Os "cornetos" sonoros dos jornalistas, em frente a um político, são afrodisíacos verbais. À porta de um hotel de uma capital europeia, com as câmaras e as luzes da ribalta a daram-lhe a importância de que precisava, o ministro fez uma declaração forte, afirmativa, tentando mostrar que estava "in charge". No termo do "statement", avisou, tonitruante e solene, de dedo espetado, para um distante Milosevic: "Quero daqui dizer ao senhor Milosevic, com toda a firmeza, que a Europa tem um limite para a sua paciência e que, se necessário, lhe dará uma resposta à altura das suas provocações". No ar, ficou um indelével cheiro a pólvora oral.

Visivelmente "aos ombros de si próprio", o político recuou as suas tropas diplomáticas para o "lobby" do hotel, sob um ressoar de comentários aprovadores de assessores, que lhe asseguravam que tinha "saído muito bem". E lá foi, deliciado, de peito feito, com um esgar de satisfação, para um merecido copo no bar, depois do "aviso" a Milosevic, que deve ter ficado a tremer, lá pelo palacete em Dedinje. Cada um tem o seu "Bei de Tunis" (ainda haverá Bei, por lá?), mas o ministro não devia conhecer o nosso Eça.

Foi por essa altura que um funcionário português, ocasionalmente presente na delegação ministerial, de forma um pouco impertinente mas escolhendo as palavras, ousou dizer àquele chefe da diplomacia (e sou testemunha privilegiada disso): "O senhor ministro vai perdoar-me, mas, ao falar como falou, com as tropas que o seu país tem, fez-me irremediavelmente lembrar uma frase, que ficou famosa, do capelão do regimento de infantaria da minha terra, no início da guerra colonial, em África, em 1961. Ao discursar ao primeiro contingente que partia para Angola, terminou desta forma lapidar: 'Rapazes! Preparêmo-nos para a guerra! Ide!...'"

Apeteceu-me lembrar hoje esta historieta, quando se assinalam os 50 anos do início da "guerra do ultramar", para uns, da "guerra em África", para outros, e da guerra colonial, para a História.

segunda-feira, março 14, 2011

O abraço de Strauss-Kahn

Há dias, falei aqui de Anne Sinclair, e do seu blogue. Trata-se da mulher do diretor-geral do Fundo Monetário Internacional e putativo candidato socialista às eleições presidenciais francesas de 2012, Dominique Strauss-Kahn.

Hoje vou contar uma pequena história, na qual ele acaba por ser uma involuntária personagem.

Em Junho de 1997, Strauss-Kahn assumiu as funções de ministro da Economia e Finanças do novo governo socialista francês. A liderança da França, que vivia os tempos da muito recente coabitação Chirac-Jospin, tentou rediscutir o então quase finalizado "pacto de estabilidade", o conjunto de regras para regular o acesso e garantir o comportamento dos países no seio da nova moeda única, o euro. A França conseguiu retocar o "pacto", que mudou de nome e passou a chamar-se "pacto de estabilidade e crescimento", vom o objetivo, simultaneamente, de lhe conferir um toque mais "social" e de garantir que a nova liderança francesa deixava a sua marca na decisão final sobre o assunto, nem que fosse por via semântica.

Mas a decisão tomou o seu tempo. O primeiro conselho de ministros das Finanças, o "Ecofin", posterior à subida ao poder dos socialistas franceses ficou, assim, rodeado de uma grande curiosidade, em torno do que nele iria dizer o novo ministro que Paris tinha na pasta, Strauss-Kahn.

Como é de regra nestas reuniões, as câmaras de televisão entram, por uns minutos, na sala, antes do início dos trabalhos, para filmarem os responsáveis políticos, conversando entre si ou já sentados nas respetivas delegações (um dia falarei aqui de alguns "truques" dessa coreografia). A certo passo da cobertura televisiva dessa reunião do Ecofin -  feita, entre outros, pela BBC, Sky e CNN -, as câmaras concentraram-se, com toda a naturalidade, no que era a grande novidade do dia, a entrada na sala de Dominique Strauss-Kahn.

O novo ministro, homem de porte pesado, surgiu, de passo firme, seguido de colaboradores, encaminhando-se para a zona onde se iria sentar a delegação francesa. A meio do percurso, porém, a sua cara espelhou um grande sorriso e viu-se a vedeta política do dia abrir os braços para um abraço de grande intimidade com uma outra figura, de compleição física bastante similar, de cara ornada por uma barba, com  quem trocou palavras de manifesta cordialidade, fruto seguro de amizade. Quem essa pessoa? Ninguém sabia o seu nome e o mistério era tanto maior quanto, à partida, estava excluída a hipótese de se tratar de um outro ministro das Finanças dos "quinze".

Ninguém sabia? Não! Nós, um grupo de portugueses que apreciávamos a cena, numa casa particular, em Bruxelas, sabíamos! Era o Henrique Antunes Ferreira, assessor de imprensa do nosso ministro das Finanças, António Sousa Franco.

Nesse e nos dias seguintes, as televisões universais, à falta de outras imagens sobre o novo homem-forte das Finanças francesas, repetiram à saciedade esse magnífico amplexo, que a todo o mundo pareceu selar o acolhimento europeu ao novo governante francês. E, nessas imagens, lá aparecia sempre o nosso Henrique, para eterna perplexidade do mundo da informação, mas para imenso gáudio dos seus amigos, uma legião heteróclita em cujo seio tenho o gosto de me contar.

O Henrique Antunes Ferreira foi jornalista e é escritor, está reformado das lides políticas mas bem ativo na vida da blogosfera, onde alimenta a irreverente A minha Travessa do Ferreira. Um dia, ele esclareceu-me das razões da sua intimidade com Strauss-Kahn, mas, confesso, já as esqueci. Será que aqui ou na sua Travessa ele poderia recordá-no-las? É que se o percurso de Strauss-Kahn for aquilo que algumas sondagens persistentemente prevêem, o embaixador de Portugal ainda pode, lá para o ano, ter de dar boleia ao Henrique para o Faubourg Saint-Honoré...

Outro lado

Recebi hoje um colega europeu, recém-chegado a Paris. Trocámos impressões sobre o estado da Europa e, naturalmente, veio à baila da conversa a situação político-económica de Portugal, tendo-me ele perguntado sobre o modo como haviam corrido as manifestações do passado sábado, anunciadas na imprensa internacional.

Devo dizer que não foi sem orgulho que lhe descrevi o ambiente de grande civismo que marcou, sem exceção, todos esses eventos, o que é tanto mais de sublinhar quanto eles tiveram uma excecional dimensão e decorreram sob uma agenda coletiva de fortes preocupações.

Acabou por ser o meu colega, e não eu, a comparar esse ambiente com os confrontos públicos, alguns de grande violência, a que se assistiu em quase todos os países afectados por pacotes de medidas de austeridade.

Este é outro lado de Portugal.

Lampedusa

Nas últimas semanas, o debate político interno francês tem estado centrado nos sinais dados por algumas sondagens que colocam Marine Le Pen, líder do "Front National", um grupo político ultra-conservador, como o candidato com maior apoio potencial, na perspetiva das eleições presidenciais de 2012. 

Vale a pena recordar que, em 2002, o pai da atual lider, Jean Marie Le Pen, teve a segunda maior votação na 1ª volta das eleições presidenciais, atrás de Jacques Chirac, deixando para trás o candidato socialista. A França não esqueceu ainda esse "terramoto" político, pelo que ele não deixa de estar presente na memória coletiva, no caminho para 2012.

O "Front National" tem uma agenda política centrada nas questões de segurança, imigração e discussão das temáticas da interculturalidade em França, mas igualmente numa rejeição do euro e na defesa de fortes medidas protecionistas. A nova líder do partido apresenta, contudo, uma imagem menos radical que o seu pai, o que, segundo alguns observadores, estará na origem da sua maior popularidade e do aparente crescimento na aceitação pública do seu partido, a qual será testada nas eleições cantonais dentro de uma semana.

Hoje, Marine Le Pen desloca-se à ilha italiana de Lampedusa, local de desembarque prioritário das vagas de migrantes africanos, onde abordará essa mesma temática.

Confesso que, ao ouvir falar de Lampedusa e ao observar a evolução recente da imagem do "Front National", não pude deixar de me lembrar da clássica frase posta na boca de Falconeri, no romance "O Leopardo", de Giuseppe Tomasi de Lampedusa: "Se queremos que as coisas permaneçam como estão, as coisas têm de mudar" ("Se tutto deve rimanere com'è, è necessario che tutto cambi").

domingo, março 13, 2011

Opções

De há uns anos para cá, à medida que me dei conta da real complexidade de algumas questões, fui deixando de ter uma opinião firme, "de café", sobre certas temáticas que dividem o país.

Por exemplo, não faço a mais leve ideia se Lisboa precisa ou não de um novo aeroporto e, em caso positivo, se ele deve ir para a Ota ou para Alcochete. Também não tenho opinião sobre a necessidade de uma nova ponte sobre o Tejo, como também a não tenho sobre o TGV, dado que já vi argumentos definitivamente convincentes sobre teses diametralmente opostas, quer em relação à iniciativa em si, quer quanto aos cenários de construção possíveis. E eu sei lá se, em matéria de policiamento, deve haver super-esquadras ou unidades de proximidade! E será que os centros de saúde devem fechar à noite ou não?

Alguns conhecidos, ao verem-me "fugir" deste debates polarizados, devem achar que estou a fazer um "número" e que, lá no fundo, o que eu quero é reservar a minha opinião, na busca de me manter consensual e não polémico. Enganam-se redondamente e só provam que não me conhecem bem.

Com toda a sinceridade, devo dizer que ganhei este estado de progressivo "agnosticismo", sobre um número cada vez maior de temáticas "fraturantes", quando passei pelo governo do país e aí percebi que as grandes questões, sobre as quais todos somos chamados diariamente a ter uma opinião "impressionista", têm, na realidade, uma elevada complexidade, muito superior àquela que o simples tratamento mediático permite acompanhar. Foi isso, e nada mais, que me foi conduzindo a uma cada vez maior humildade opinativa. Mas que fique bem claro que não pretendo que esta minha atitude seja a correta. Cada um que pense por si.

Porém, devo dizer que muito me surpreendo que haja alguns "génios" que, nas colunas ou nos écrans, falam de tudo com ar de cátedra, do trânsito ao futebol, do défice à literatura, do ambiente à fiscalidade. Feliz pátria que tais filhos tem! E crédulo país que ainda os ouve.

Vem isto hoje a propósito do Japão, do maremoto e, por via dele, da energia nuclear. A chamada opção nuclear é já um tema vetusto em Portugal. Há anos que se discute se devemos, ou não, construir centrais nucleares. O debate já teve dimensões de radicalidade político-ecológica que o tornaram quase tabu, para, depois de isso, e por "luas" de opinião, voltar a reaparecer, com maior serenidade. Já ouvi a voz ponderada de um técnico competentíssimo, como Nuno Ribeiro da Silva, explicar que a relação custo/benefício dessa opção, para um país como o nosso, é profundamente errada. Há semanas, jantei em Paris com o empresário de sucesso Patrick Monteiro de Barros, que, com números e argumentos fortes, garante exatamente o contrário. 

Em que ficamos? Melhor, onde fico eu? Em nenhuma parte, devo confessar. Se a tragédia conjuntural do Japão me leva a aumentar as dúvidas sobre a opção nuclear em Portugal, país de onde não estão afastados riscos muito sérios em matéria sísmica, bem como a total ausência de respostas credíveis para o futuro dos dejetos, a verdade é que nós já temos uma forte ameaça nuclear, com as centrais espanholas aqui ao lado, com as eventuais radiações num desastre a não respeitarem fronteiras. E se o petróleo for por aí acima em matéria de custos? E se as energias renováveis se confirmarem limitadas na sua produção? E se o custo de exploração delas (eólica, fotovoltáica, maremotriz) se provar economicamente irracional? Se os riscos já existem aqui ao lado, e não podem ser evitados, porque não optar por ter essa energia? Mas, por outro lado, não há um limite claro na contribuição possível da produção nuclear para o nosso consumo total, que, aliás, tem custos de investimento muito elevados? E como superar o debate que iria levantar-se sobre a localização das centrais, ao lado do qual o caso da co-incineração iria parecer uma brincadeira de crianças? É que, num país com a nossa dimensão, o chamado efeito NIMBY ("not in my backyard") tem um peso ainda mais importante.

Mas, afinal, sou ou não a favor do nuclear em Portugal? Sei lá! Uma vez mais, não tenho opção.

Não deixa de ser angustiante, mas ao mesmo tempo dá-me um grande sossego, pensar que, cada vez mais, só falo daquilo de que julgo saber alguma coisa. O resto, deixo para os sábios figurantes do "Prós e Contras".

sábado, março 12, 2011

Telefonema


Foi nos anos 70. Estava sozinho na minha sala de trabalho, no MNE. Os restantes colegas haviam já saído para o almoço.

O telefone tocou. A voz masculina era de alguém jovem. O tom era algo agreste, sem vontade de expressar um mínimo de cortesia. O pedido feito era relativamente simples de satisfazer: fornecer o número de telefone de casa de um determinado embaixador português, no estrangeiro.

Estranhei o facto de a pessoa ter ligado exatamente para o serviço onde eu estava colocado, embora nós nos ocupássemos das relações económicas com a área regional onde a embaixada se situava. Porém, as telefonistas ou o serviço de pessoal do MNE seriam as entidades mais indicadas para dar aquela informação. Referi isso ao meu interlocutor, até porque não estava a apreciar a forma pouco delicada como ele se me dirigia, mas igualmente porque os números de telefone das residências dos embaixadores não eram públicos, pelo que a regra era não serem indicados, salvo em circunstâncias justificadas.

- Sou filho do embaixador. Ou você me quer dar o número do telefone ou não quer!

Voltei a não apreciar o tom mas, porque conhecia o pai, um homem amável e muito cordial, fui procurar o número. Ditei-o, o filho do embaixador repetiu-o e desligou o telefone, sem agradecer. Imagino que terei ficado furioso, mas logo esqueci o assunto.

No dia seguinte, à conversa com colegas, um deles disse-me:

- Já sabes do filho do embaixador "fulano"? Suicidou-se, ontem.

- A que horas? - perguntei, para legítimo espanto de todos, intrigados com a minha especiosa curiosidade.

- Parece que foi a meio da tarde.

Desde esse dia, procuro recordar a voz desse rapaz, que vivia sozinho em Portugal. Devo ter sido das últimas pessoas com quem ele falou. Terá chegado a contactar o pai? Nunca tive coragem de lhe perguntar e agora é tarde, porque também ele já desapareceu há muito, aliás de uma forma com o seu quê de trágico.

A condição diplomática introduz, às vezes, fortes tensões nas famílias, fruto de separações a que obriga, dos isolamentos que provoca e dos desequilíbrios que potencia. A instável vida dos diplomatas está longe de ser o mar de rosas que alguns, de fora, mitificam.

Juventude preocupada

Um grupo de cerca de trinta jovens portugueses levou hoje a cabo uma manifestação, em frente à nossa Embaixada em Paris.

Fui falar com os manifestantes, por forma a saber, de viva voz, o que tinham para nos transmitir. As principais ideias que me foram expressas centraram-se, como era de esperar, na precariedade laboral que se vive em Portugal, em contraste com a situação que encontram em França, bem como a recusa em ter de aceitar que a emigração possa ser a única forma de resolver os problemas da sua vida, para além de outras questões que se prendem com os desequilíbrios existentes na sociedade portuguesa contemporânea.

Foram momentos de diálogo sereno e construtivo, em que, do meu lado, colhi um conjunto de legítimas preocupações, que vou transmitir em maior detalhe a quem pode avaliar soluções capazes de lhes dar uma resposta.

Diplomacia democrática

É nestes tempos em que o nome de Portugal e da situação político-económica portuguesa anda nas bocas do mundo que será talvez oportuno recordar as obrigações de uma diplomacia democrática.

Tenho para mim que uma das menos edificantes e mais indignas atitudes que um diplomata pode assumir, perante interlocutores estrangeiros, é enveredar pela crítica às autoridades do país que representa. Mas, devo dizer, torna-se igualmente triste ouvi-los criticar, em público, as forças da oposição que, com toda a legitimidade democrática, são adversários dos poderes instituídos.

Ambas as atitudes relevam, pura e simplesmente, de uma grave falta de sentido profissional. O interlocutor estrangeiro respeita o diplomata que, independentemente das suas ideias pessoais, sabe assumir uma atitude equilibrada na análise da situação política interna existente no seu país, que é capaz de expor, com rigor, equilíbrio e equanimidade, os sucessos ou insucessos do Estado que lhe cabe representar, que defende com empenhamento os interesses deste mas não camufla conflitualidades ou dificuldades existentes no seu mundo político interno, que não edulcora, ao absurdo, o que de negativo possa existir na sociedade que lhe cabe representar.

Já me confrontei, no meu percurso profissional, com colegas estrangeiros de todo o tipo. Convivi com os cegos militantes, para quem os respetivos dirigentes são o máximo existente à face da terra, os quais, no seu parecer sectário, são obrigados a sofrer os custos de uma oposição cuja ação quase ilegitimam, apenas porque esta não cai no seu goto pessoal. Conheci os mal-dizentes crónicos, que remoem em público, dia-após-dia, críticas ou ironias, quando as autoridades eleitas não são da sua cor política, acusando-as de todos os malefícios pátrios, suspirando por uma reviravolta que ponha os do "outro lado" no poder. Num registo mais corporativo, dei às vezes de caras com aqueles que acham que a política externa do seu país é apenas um lamentável desastre, que estão condenados a representar "malgré eux", atitude muitas vezes mobilizada por ódios acumulados ou por queixas profissionais.

Assisti a muitas conversas com todo este tipo de gente e - garanto! -  sempre pude observar a pena que a sua atitude provoca nos interlocutores, em especial em colegas de países onde a diplomacia democrática se pratica e se vive, com naturalidade e sentido de Estado. Onde esses colegas procuram exibir, de forma  mais ou menos espalhafatosa, o que pretendem ser uma hiperfranqueza crítica - face a instituições, forças políticas ou figuras do quadro democrático do seu país -, os estrangeiros que os ouvem apenas nisso vêm deslealdade e ausência de um espírito profissional. Às vezes sorriem, mas, por detrás desse sorriso, está sempre um esgar de desprezo.

A diplomacia democrática é o estado supremo do profissionalismo em matéria de representação externa. Vale a pena recordar isto, nos dias que correm.

"Latitudes"

Chama-se "Latitudes - cahiers lusophones" uma revista editada em França, que vai quase em 40 números editados, com um notável trabalho na difusão das culturas que se expressam em língua portuguesa.

Iniciativas como estas, desinteressadas e empenhadas, terão sempre da minha parte todo o apoio que for possível garantir, não obstante os tempos financeiros difíceis que atravessamos. Ontem, com dois dos seus responsáveis, estive a gizar algumas iniciativas que permitam à Embaixada apoiar o seu trabalho futuro.

sexta-feira, março 11, 2011

O assalto

Os adidos de embaixada, categoria que os ingressados na carreira diplomática têm durante os primeiros dois anos de serviço, frequentam, por alguns meses, um curso profissional, em que são docentes diplomatas mais velhos, em serviço ou fora dele, promovido pelo Instituto Diplomático do nosso ministério.

Aqui há uns anos, os novos adidos assistiam a uma palestra de um velho embaixador, homem bem falante, bom contador das coisas da vida, que ilustrava as suas décadas de trabalho com o relato de episódios que entendia exemplares e dignos de nota. Os adidos ouviam com atenção e apreço o seu discurso ameno, seduzidos pela coreografia verbal com que o velho diplomata envolvia as suas experiências pelo mundo, tidas como dignas de registo, para adubar a inexperiência dos auditores. Era um mundo de pequenas aventuras, com cenários muito diversos daqueles que a sua vida lhes proporcionara. Embora os tempos fossem naturalmente outros, não deixava de ser interessante ter acesso àquelas histórias, cujo somatório acaba por tecer a nossa cultura corporativa comum.

Naquele dia, o diplomata relatava um episódio passado na residência que, em tempos idos, ocupara numa capital africana, quando aí era encarregado de negócios, nos anos 60. Explicava ele que se tratava de edifício isolado, com escassa segurança, na periferia da capital, rodeado de um amplo jardim,. Os riscos não eram muito elevados, porque a criminalidade local era então escassa, mas, apesar disso, já por mais de uma vez, houvera indícios de que a casa fora rondada por potenciais assaltantes.

Uma madrugada - contava ele - ouviu, distintamente, ruídos provindos do outro lado da casa, onde habitava sozinho. Pôs-se à escuta e percebeu uma sussurada conversa, no exterior do prédio, entre pessoas que, claramente, estavam já a tentar forçar uma porta ou uma janela. 

A situação revelava-se complexa. Os empregados viviam noutro edifício, mais distante, e, claramente, não tinham ouvido chegar os assaltantes. Embora houvesse quem, em tempos, lhe tivesse recomendado que comprasse uma arma, o bom-senso do diplomata levara-o a não ir por esse perigoso caminho. Naquele instante, porém, perguntava-se sobre que opção tomar.

O relato tinha foros quase fílmicos. Os adidos olhavam, atentos, para o velho embaixador, que, para ilustrar a história, vagueava pela sala, frente a eles, de gesto largo e fácies grave. A certo passo, estacou e inquiriu: "Alguém tem uma ideia do que eu fiz, na ocasião?". Fez-se um silêncio, apenas entrecortado por uns declinantes murmúrios, com opções de ação tão pouco ousadas ou imaginativas que não chegaram a ser formuladas em voz alta.

É, nesse instante, que, com um sorriso, o embaixador revelou a sua "defesa":

- Caros colegas, é muito fácil. Fui à casa de banho!

A sala estacou de espanto. À casa de banho?! Para quê?

- Meus amigos. É elementar! Puxei a autoclismo. Em África, no silêncio profundo da selva, o fragor de um autoclismo a descarregar tem a força explosiva do tiro de um canhão!

A sala escangalhou-se em gargalhadas e a história passou a fazer parte dos anais divertidos da nossa casa.

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