segunda-feira, agosto 16, 2010

Outro Queirós

Ainda no tema Queirós, tenho uma questão simples: por que razão não foi acautelada, no respetivo contrato, nenhuma forma de poder afastar o selecionador nacional de futebol, com base em razões de natureza técnica, ligadas aos resultados obtidos e, por essa via, à avaliação da sua eficácia no comando da seleção?

Mas sem truques. Ou alguém acredita que, se Queirós tivesse ganho o Mundial, teria este processo? 

Eça de Queiroz

Há 110 anos, morreu Eça de Queirós.  

Eça de Queirós foi diplomata. Se, como escritor, Eça foi um génio, como diplomata situou-se numa mediania que nem o esforço laudatório de alguns conseguiu disfarçar. Eça utilizou a sua carreira consular para escrever algumas das obras-primas da literatura portuguesa e, só por isso, valeu largamente a pena que o Ministério dos Negócios Estrangeiros lhe tenha pago o salário. O qual, no seu entender, não era suficiente, a crer no que escreve em "Uma Campanha Alegre":

Os diplomatas portugueses passam por agradar no estrangeiro pela sua palidez! Mas não se sabe que a sua palidez vem, não da beleza da raça peninsular, mas da fraqueza de legação mal alimentada. Onde um embaixador português mais se demora, não é diante das instituições estrangeiras com respeito, é diante das lojas de mercearia com inveja! E se eles não podem alcançar bons tratados para o País – é porque andam ocupados em arranjar mais rosbife para o estômago. Se não fossem os jantares da corte e as ceias dos bailes, a posição do diplomata português era insustentável. E ainda veremos os jornais estrangeiros, noticiarem: 

“Ontem, na Rua de… caiu inanimado de fome um indivíduo bem trajado. Conduzido para uma botica próxima o infeliz revelou toda a verdade – era o embaixador português. Deram-lhe logo bifes. O desgraçado sorria, com as lágrimas nos olhos.”

Que o país atenda a esta desgraçada situação! Que tenha um movimento generoso e franco! Dê aos seus embaixadores menos títulos e mais bifes! Embora lhes diminua as atribuições, aumente-lhes ao menos a hortaliça. Eles pedem ao seus país uma coisa bem simples: não é um palácio para viver, nem um landau para passear, nem fardas, nem comendas! É carne! Que o País no número do pessoal diplomático – diminua os adidos e aumente os bois.”

Portugal no mundo

Por uma referência cruzada na "net", encontrei, há dias, uma nota sobre uma cerimónia que, em 2006, teve lugar na localidade de Nova Mazagão, no Estado brasileiro do Amapá, junto à fronteira com a Guiana Francesa.

Num certo dia de Janeiro desse ano, recebi do governador do Estado um convite para estar presente numa solenidade, na qual iria ser feita uma homenagem aos fundadores de Nova Mazagão.

À época, eu tinha uma ideia muito vaga da história da localidade. Nova Mazagão foi criada, em 1775, para apoiar a fortaleza de S. José de Macapá, na defesa do norte do Pará. O nome advém do facto de ter sido fundada pelos antigos ocupantes da fortaleza de Mazagão (atual El Jadida), em Marrocos, a última que os portugueses haviam sido forçados a abandonar, já em 1769, dentre as várias que, desde os século XVI, haviam sido criadas na costa marroquina. É impressionante pensar, hoje, como Lisboa tomou a decisão de enviar, recém-chegado da costa africana, este contingente mais de 300 famílias, mistas de portugueses e familiares marroquinos, para o norte brasileiro. Porém, em termos práticos, pode concluir-se que terá sido a eficaz proteção dessa entrada do Amazonas que contribuiu para a preservação da soberania setentrional do que é atualmente o Brasil.

A data do evento era-me inconveniente: dia seguinte às eleições presidenciais em Portugal, o que me obrigava a sair de Brasília bastante tarde e chegar ao Amapá já bem dentro da madrugada, naqueles aviões noturnos que a insuperável imaginação brasileira crismou de "corujões". Porém, a amável pressão telefónica do governador Waldir Goes convenceu-me a ir. Cheguei a Macapá às três da manhã, acompanhado por um diplomata marroquino, e fomos brindados com uma ceia com convidados no hotel, tudo sem grandes pressas. No final, foi-nos dito que às sete (!!!) passariam a buscar-nos... Se dormi uma hora, depois do lauto repasto, foi já muito!

Hoje, sabendo o que poderia ter perdido se não fosse ao Amapá, ficaria arrependido para toda a vida. Chegar a Nova Mazagão, ido de Macapá (distante escassas dezenas de quilómetros) numa piroga, acompanhado por um músico-cantor a entoar modinhas sobre os portugueses do século XVIII, sermos recebidos por toda a população do local chefiada pelo prefeito José Carlos "Marmitão" (nome que condiz, à justa, com a dimensão da amável figura), enquadrada por garbosos cavaleiros que reproduziam as lutas entre os cristãos e os muçulmanos, num evento que culminou com a inauguração de um memorial onde ficaram os restos mortais dos portugueses e das suas famílias marroquinas - tudo isso se transformou numa experiência inesquecível.

Resta notar, como curiosidade que, em Macapá, passa o Equador, o qual é a linha divisória do estádio de futebol, que se encontra assim nos 0º de longitude. Por isso, o seu nome oficial é "Zerão"...

Sobre o evento, pode consultar aqui, referência onde cheguei através daqui.

domingo, agosto 15, 2010

Era assim, ontem...

... o Douro, ao final da tarde (através de fotos de telemóvel). 

E pensar que há portugueses que ainda não visitaram esta região!

Gabriel Abrantes

Há semanas, falámos aqui do êxito em Paris de Gabriel Abrantes, um artista português com uma obra plurifacetada.

Ontem, chegou a notícia de lhe ter sido atribuído um Leopardo de Ouro, no festival de cinema de Locarno.

Boas notícias destas é o que nós precisamos.

sábado, agosto 14, 2010

Florestas (2)

No âmbito de um seminário sob o lema "Investir nas florestas portuguesas", realizado em Coimbra em 2005, moderei, a convite de Miguel Cadilhe, então presidente da Agência Portuguesa para o Investimento, um painel de especialistas internacionais sobre combate aos fogos florestais.

Foram largas horas de debate, com técnicos considerados entre os melhores do mundo, que deram origem a uma longa série de recomendações, muito bem fundamentadas - desde intervenções técnicas a propostas de alteração de legislação.

Seis anos passados, onde parará esse trabalho? Ou melhor: o que se aproveitou dele?

sexta-feira, agosto 13, 2010

Pedras Salgadas - Siza Vieira e a Unicer

Julgo que não necessita de quaisquer comentários a importante carta que o arquiteto Álvaro Siza Vieira faz publicar na última "Visão", sobre o projeto do hotel de Vidago, no quadro das suas relações com a Unicer. 

Comentando um anterior texto da revista, Siza Vieira refere que no texto publicado "não fica claro o que é e o que não é da minha autoria no projeto de Vidago", referindo ser abusivo dizer-se que o hotel "reabriu as suas portas após um restauro de quatro anos dirigido por Siza Vieira". O consagrado arquiteto informa ter comunicado à Câmara Municipal de Chaves a retirada da sua responsabilidade quanto a trabalhos executados.

O texto da "Visão", no quadro da promoção mediática que a Unicer tem feito das suas "obras" em Vidago e nas Pedras Salgadas, não refere o caso desta última estância balnear. 

Mas creio que seria importante que se soubesse que Siza Vieira retirou igualmente a sua responsabilidade quanto a obras executadas nas Pedras Salgadas. E - mais importante de tudo - Siza Vieira não tem atualmente em mãos nenhum projeto para um hotel nas Pedras Salgadas

Se a Unicer conseguir desmentir isto, que o faça.

Florestas (1)

Porque será que, acabado o verão, acabam de imediato as reuniões e reflexões sobre política florestal, ninguém mais fala da questão da limpeza das matas e tudo entra num total esquecimento até ao ano seguinte, até aos primeiros incêndios, altura em que tudo recomeça, da mesma forma, como no ano anterior?

Portugal tem mesmo de continuar a ser assim?

Em tempo: quem se preocupa, leia Ferreira Fernandes.

quinta-feira, agosto 12, 2010

O comício

Numa conversa recente com Délio Machado, uma figura importante da luta pela democracia durante o "Estado Novo", em Vila Real, lembrámos a campanha eleitoral para a Assembleia Nacional, em 1969. Foi um tempo complexo, o último teste (falhado) da (falsa) abertura política do "caetanismo". Com essa personalidade notável que foi o médico e escritor Otílio de Figueiredo, líder oposicionista local, e com Délio Machado, fiz parte do trio de responsáveis que fez entrega formal ao governador civil, Torquato de Magalhães, da lista de candidatos da Comissão Democrática Eleitoral (CDE). Lembro-me de Otílio de Figueiredo dizer, à saída: "Isto foi o mais fácil. Agora é que 'vão ser elas!'".

E foram. As dificuldades criadas pelo regime à atividade da oposição sucederam-se, ao longo das semanas seguintes, com intimidações e obstáculos, desde pressões sobre as tipografias e proprietários de espaços para potenciais reuniões públicas até à não disponibilização das listas dos eleitores. Tivemos uma elevada despesa para mandar fotografar (é verdade, não havia fotocópias!) esses cadernos eleitorais, porque (para quem não saiba) os boletins de voto eram impressos sob responsabilidade de cada lista e tinham de ser entregues, individualmente, no endereço de cada eleitor. Nada que se parecesse com as "cruzinhas" atuais, no boletim recebido na assembleia de voto.

Verdade seja que não facilitávamos nada. Em plena campanha, fizemos um requerimento em "meia-folha-de-papel-selado", alegando ilegalidades formais na propaganda da União Nacional, o que levou a que o "partido único" tivesse de pagar uma humilhante coima. E ainda me surpreende a coragem que tivemos, dois ou três comparsas, ao sentarmo-nos na terceira fila do comício da União Nacional, ovacionando ruidosamente quando palavras como "liberdade", "democracia" ou "paz" surgiam no meio de um qualquer discurso dos candidatos da "situação", silenciando-nos ostensivamente durante todo o resto das intervenções. Claro, fomos insultados, várias vezes...

Imagine-se agora o que significava organizar um comício da Oposição Democrática, nessas condições. Conseguiu-se alugar o Cine-Teatro Avenida, de Vila Real, para a "sessão de esclarecimento" de encerramento da nossa campanha. Papeladas e mais papeladas, diligências durante as quais éramos tratados com uma sobranceria oficial só atenuada pelo facto de algumas das pessoas nos conhecerem de há muito, bem como às nossas famílias. Isso não evitava provocações, bocas acusatórias ("comunas!", "anarquistas!") e irritantes chamadas à polícia e ao Governo Civil, por tudo e por nada. Mas, se bem me lembro, vivíamos isso como uma bela "festa".

O nosso objetivo era ter a sala cheia e mobilizada, pelo que contávamos com o reforço dos oposicionistas vindos de todo o distrito. A sessão convocara também muitos "bufos", servidores do regime que iam "ver quem estava", para poderem avisar o seu "patronato". Como reforço, umas caras novas andavam pela terra, com ar-de-quem-não-quer-a-coisa, isto é, com ar de pides.

A noite começou com uma imensa "gaffe" política. Alguém tinha instruído o Manuel "Pataquinhas", assalariado para algumas tarefas logísticas, para "pôr discos" com marchas mobilizadoras, do tipo "John Philip Sousa". A certo momento, começou a ouvir-se o "Angola é nossa!", talvez o mais emblemático expoente da propaganda musical do colonialismo. Foi preciso um de nós saltar para o palco, atrás de cuja cortina estava o gira-discos, quase despedaçando o aparelho, com fúria, aos berros ao "Pataquinhas". Lá se compôs tudo, com ordens rigorosas sobre as músicas que poderiam ser tocadas.

E o comício começou, com os nossos candidatos em palco. Depois de tocado o hino, todos sentimos, contudo, que o ambiente não "arrancava". Havia uma nítida falta de entusiasmo, apenas umas escassas palmas a sublinharem as frases mais sonantes dos oradores. Alguma coisa não estava a ir bem. Não percebíamos a razão.

Foi então que, num segundo, se entendeu o que estava a falhar: as luzes da sala, que iluminavam o público, que deviam desaparecer após o hino, permaneciam acesas. Alguém "voou" para os bastidores, a sala enegreceu-se e a "coragem" do auditório explodiu. A partir daí foi um fartote de "Viva a liberdade", "Abaixo o fascismo", "Abaixo o Caetano", "Abaixo a Ditadura" e coisas similares. Até que enfim! E a noite acabou em glória!

Porém, o comício só não havia sido um sucesso completo pelo facto de um dos nossos candidatos, revelando abertamente uma orientação política própria, que já vinha a ser clara há uns tempos, ter afirmado, a certa altura, que o "o ultramar é português" (teria sido ele a encomendar o "Angola é nossa!"? Quatro décadas depois, ele garante-me que não...). Alguns dentre nós ficámos furibundos com essa declaração. Como a oposição, em Vila Real, era de natureza unitária e comportava uma multiplicidade de tendências, havíamos tentado iludir as profundas divergências, que entre nós existiam, face à questão colonial. Mas, neste caso, a procurada ambiguidade fora quebrada. A reunião da direção de campanha, que teve lugar após o comício, não consensualizou uma rejeição formal da tomada de posição do candidato (o que, aliás, teria sido um imenso erro). Num gesto de radicalismo pateta, recusei-me a integrar uma delegação dos oposicionistas vila-realenses que deveriam, no dia seguinte, ir a uma reunião da Oposição Democrática à escala nacional. Coisas de quem tinha então 21 anos!

Agora, neste Agosto quente em Vila Real, deu-me para recordar este episódio.

Bombeiros

Na minha terra, em Vila Real, existem duas corporações de bombeiros voluntários. Sei que, nestes dias trágicos, têm andado numa roda-viva, com o fogo a rondar a cidade, como ontem à noite aconteceu. É uma luta contínua, infernal, de risco e coragem. Por um destino que parece que saíu em sorte aos portugueses, essa luta repete-se a cada ano, variando apenas na sua intensidade.

Nos meus tempos de juventude, a cidade "dividia-se" entre os seus bombeiros e eles competiam fortemente entre si (dizem-me que hoje essa rivalidade continua). À época, era-se "adepto" dos "de baixo" ou dos "de cima" (eu era dos "de cima"), por afinidades de vizinhança ou de simpatia. Recordo-me dos sinos tocarem a rebate, em frias madrugadas de inverno, com o número de badaladas a indicar a zona dos incêndios. E de ver passar, em passo rápido, em direção ao seu quartel, os homens que iam combatê-los.

Desde então, ficou-me uma grande admiração por aquela gente simples, orgulhosa nesse seu admirável clubismo solidário. Os nossos bombeiros, "de baixo" ou "de cima", em Vila Real, são hoje um belo símbolo da cidade. E, na primeira semana de cada ano, competem entre si para comemorar, com sirenes e bombos, as datas próximas dos seus dois aniversários, no exercício da sua eterna rivalidade.

quarta-feira, agosto 11, 2010

Humberto Delgado (2)

Há dias, falei aqui de Humberto Delgado. Tinha comigo, desde há mais de um ano, o livro "Humberto Delgado - biografia do general sem medo", de Frederico Delgado Rosa. Não o tinha lido, à espera de tempo para um trabalho de mais de 1300 páginas. O autor é neto do general e, por regra, mantenho sempre uma grande desconfiança no rigor deste tipo de obras, quando há relações familiares entre biógrafo e biografado. 

Numa conversa recente, Artur Santos Silva recomendou-me que lesse o livro. Não perdi o meu tempo, mas igualmente confirmei algumas das minhas preocupações.

O livro é, de longe!, a mais bem informada obra existente sobre Humberto Delgado - e julgo ter lido  muito de quanto se escreveu sobre o general. A recolha informativa é excelente, servida, aliás, por uma muito boa escrita. Apesar da sua extensão, o livro lê-se como um romance.

Mas há um "mas": o texto é manifestamente "biased", às vezes a roçar o hagiográfico, tomando sistematicamente por más as posições de todos quantos - no regime ou na oposição - se opuseram frontalmente a Delgado, às suas ideias e às suas propostas, assumido estas como quase indiscutíveis. O modo cruel como são tratadas algumas das personalidades portuguesas da oposição ao salazarismo, no exílio no Brasil ou na Argélia, diabolizando-as e crismando-as de uma forma que se aproxima da abordagem feita em obras desprezáveis, desvalorizam desnecessariamente este trabalho, o qual, nem por isso, deixa de ser de grande mérito e de constituir um apoio historiográfico da maior valia. Cuja leitura, recomendo, claro.

terça-feira, agosto 10, 2010

Paredes

Carlos Paredes é um dos muito escassos génios que Portugal produziu. Uma noite de 1975, em casa de Carlos Eurico da Costa, poeta e administrador da empresa de publicidade Ciesa-NCK, Paredes foi apresentar sugestões para a banda sonora de um "spot" televisivo e radiofónico, destinado a mobilizar as pessoas a votarem nas "primeiras eleições livres". A encomenda era do STAPE (Secretariado Técnico para o Assuntos Político-Eleitorais), representado então pelo comandante Luís Costa Correia (que se deve lembrar bem desta cena). 

O músico e compositor chegou, com um ar muito modesto, um  andar desengonçado, quase a pedir desculpa por ali estar. Eu estava fascinado por poder conhecer pessoalmente o autor dos "Verdes Anos" e, recordo-me, sentei-me, reverencialmente, em frente do guitarrista, quando este ensaiou algumas hipóteses de fundo musical para o anúncio. Dedilhou quatro ou cinco temas e, nas pausas entre cada um, dizia algo assim: "Não sei o que acham. Esta parece-me fraquita..." ou "Só me saiu isto..." ou "Se calhar, isto precisa de ser melhor trabalhado!". A mim, cada uma parecia melhor que a anterior!

Deslumbrado, creio que hesitei até ao fim em dar qualquer opinião sobre as peças, tal a sua qualidade. O Costa Correia e o Eurico da Costa pareceram-me partilhar "l'embarras du choix", mas lá acabaram por eleger o tema que, durante semanas, fez parte do nosso quotidiano televisivo e radiofónico.

Só voltei encontrar Carlos Paredes quando, em 1993, acompanhado por Luísa Amaro, fez, em Londres, a convite de Mário Soares, um memorável concerto para a rainha Isabel II, no Guildhall. No final, a rainha fez questão de o conhecer pessoalmente e - recordo - quis ver a sua mão. Ao felicitá-lo, emocionado pelo espetáculo, Paredes inquiriu-me: "O amigo acha que eu estive bem? É que não estava nos meus dias..."

Duvido que alguém possa ser verdadeiramente português se não gostar da música de Carlos Paredes. E, se tiver 10 minutos, ouça isto.

A escola do "mas"

Hoje, o New York Times, elogia largamente a política energética de Portugal.

Ora aqui está um momento interessantíssimo para podermos aferir o comportamento, nas próximas horas, do nosso estimado "jornalismo adversativo".

Embora em parte a "banhos", não acredito que essa escola de escrita reticente deixe de assinalar, a par da notícia, tudo o que de negativo puder descortinar para a atenuar: "porém, há que contar que..." ou "não obstante, o jornal não deixa de...", etc.

Era o que faltava alguém andar a dizer bem da atual situação portuguesa - e logo "lá fora"!

segunda-feira, agosto 09, 2010

Sueco

Os tempos eram outros, claro. No passado, a aprendizagem de línguas um pouco mais bizarras não era considerada, no Ministério dos Negócios Estrangeiros, um particular fator de valorização. Pelo contrário, pode mesmo dizer-se que aqueles que se dedicavam a esse estudo eram, em muitos casos, olhados como figuras excêntricas, à busca de uma notoriedade não muito apreciada.

Um velho embaixador contou-me que, no início dos anos 60, ao tempo em que servia, como seu primeiro posto, num consulado nos EUA, decidiu aprender sueco, aparentemente estimulado a tal por um conhecimento feminino dessa origem. Andou meses no difícil estudo da língua, já conseguia articular algumas frases básicas e, um dia, perante o surgimento de uma vaga em Estocolmo, escreveu uma carta ao secretário-geral do Ministério (que é o chefe da carreira, com uma palavra decisiva sobre as colocações) e pediu transferência para a Suécia. Na comunicação referiu, naturalmente, que já falava razoavelmente sueco, que podia ser útil ter naquela Embaixada um diplomata com algum domínio da língua, etc. Em termos de "equilíbrio" entre postos, a mudança, à luz dos critérios da época, não era descabida.

Passaram-se algumas semanas, até que recebeu nota do seu novo destino: Malawi. Sendo embora, nesse tempo, uma capital politicamente bastante importante para Portugal, Blantyre estava longe das perspetivas de carreira do jovem diplomata. A desilusão fê-lo ter um desabafo com o seu superior, o embaixador em Washington. Embora a decisão fosse já irreversível, este prometeu-lhe procurar saber, do secretário-geral, das razões que teriam motivado o não acolhimento do seu estimável sonho nórdico.

Um dia, numa visita à capital americana, o embaixador esclareceu-o: "Você sabe, o seu pedido de transferência para Estocolmo chegou a ser ponderado. Mas havia um problema: você fala sueco. Foi o embaixador que lá está que não quis que fosse. Ele não diz uma palavra em sueco e comentou com o secretário-geral que o facto de ir ter um secretário de Embaixada com o domínio da língua local ia ser um embaraço para ele, criando-lhe alguma "menorização" nos círculos diplomáticos...".

O tema das línguas foi sempre um insondável "mistério" dos Negócios Estrangeiros. Uma das graças correntes na carreira, noutros tempos, é que havia sempre uma boa justificação para colocar alguém em Londres: ou porque sabia muito bem inglês ou porque não sabia, razão pela qual uma estada na capital britânica seria positiva para a aprendizagem da língua. Nos dias de hoje, as coisas mudaram? Claro que sim!

domingo, agosto 08, 2010

Humberto Delgado (1)

Encontrei, há dias, um exemplar do manifesto da candidatura presidencial do general Humberto Delgado, em 1958, entre as folhas de um livro antigo do meu pai.

A fotografia que encima este post figura na primeira página dessa "Proclamação". Essa era também a imagem que, à época, aparecia nos cartazes colados em algumas as paredes de Vila Real. Eu tinha 10 anos, mas recordo, como se hoje fosse, o momento em que o meu pai - "republicano" dos sete costados, o que então queria dizer "democrata" - me levou a ver Delgado depor uma coroa de flores no monumento a Carvalho Araújo, na avenida com o mesmo nome, em Vila Real. Era 22 de Maio de 1958. À época, eu estava longe de perceber bem a importância desse tempo, mas era-me sensível o ambiente de tensão que então se vivia.

A candidatura de Delgado terá sido, porventura, a maior ameaça de contestação interna que o Estado Novo sofreu em todo o seu percurso. Oriundo do regime, para cujo sucesso contribuiu com entusiasmo, e que serviu com dedicação durante muitos anos, o general teve uma passagem de alguns anos pelos Estados Unidos que terá estimulado a sua propensão contestatária e o fez aderir a um ideário liberal. Crescente crítico de Salazar, essa sua atitude não passou desapercebida à hierarquia militar, que não deu alento à carreira profissional que ambicionava, acabando por assim espoletar a sua dissidência. Uma ala moderada da oposição ao salazarismo, conhecedora dessa sua evolução, teve então a iniciativa de lhe propor ser candidato "independente" à Presidência da República, vindo a conseguir arrastar em seu favor outras correntes mais radicais, em especial o PCP, que originalmente qualificava Delgado como o "general Coca-Cola".

Delgado veio a protagonizar uma campanha cujo entusiasmo popular não encontra paralelo na história política portuguesa, como a imagem seguinte, da receção que lhe foi feita no Porto, melhor documenta.
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A personalização do combate a Salazar, que encarnou de forma enérgica e destemida, trouxe-lhe uma imensa e inesperada popularidade, em quase todo o país. Ao afirmar, com frontalidade, que demitiria o ditador, se acaso viesse a ser eleito, Delgado rompeu com o endeusamento histórico que protegia Salazar e abriu um tempo novo na vida política portuguesa.

O candidato do regime era o inenarrável contra-almirante Américo Tomás, um obscuro ex-ministro que Salazar selecionara para evitar a recandidatura do general Craveiro Lopes, o qual dera sinais de algumas reticências à liderança política do homem de Santa Comba.

O período eleitoral foi muito duro, com Delgado e os seus adeptos a serem objeto de forte coação e intimidação, com perseguições, prisões e mortes, na sequência de muito violentos atos de repressão. O comportamento do candidato esteve sempre à altura da coragem que se lhe creditava e que lhe veio a dar o cognome histórico de "general sem medo".

Sabe-se hoje que, dentro do regime, se passaram então horas de grande angústia e que essa tensão contribuiu para agravar confrontações entre personalidades do governo, que não deixaram de marcar os anos seguintes. No plano institucional, o susto foi ao ponto do regime decidir mudar a Constituição e acabar, pouco tempo depois, com a eleição por sufrágio direto, passando a escolha do Presidente da República a ser feita por um "colégio eleitoral" de fiéis da "situação".

Com os cadernos eleitorais desatualizados, com uma generalizada fraude no escrutínio, Humberto Delgado viria, mesmo assim, a obter cerca de 1/4 dos sufrágios expressos - isto durante um regime que, em anteriores e posteriores eleições legislativas, nunca permitira à oposição eleger um único deputado.

Delgado seria depois afastado das Forças Armadas. Foi forçado a exilar-se no Brasil e, depois, na Argélia. Viria a ser assassinado, em Fevereiro de 1965, por uma brigada da PIDE, em Espanha, perto de Olivença.

Tony Judt (1948-2010)

Ler "Postwar - a history of Europe since 1945" (livro que está traduzido em português) é a garantia de se ficar a entender muito do que são os equilíbrios permanentes em que assentam as sociedades europeias. O seu autor, Tony Judt, o historiador britânico que agora desapareceu, era um pensador extremamente original da questão europeia, tendo ainda produzido excelentes trabalhos sobre a intelectualidade francesa - escrevendo sobre ela com uma distância crítica muito difícil de encontrar.

Em 1997, a convite de João Carlos Espada, acompanhei Tony Judt num painel de discussão sobre a Europa, na Fundação de Serralves (as nossas intervenções estão publicadas em "O Desafio Europeu - passado, presente e futuro", Principia, Cascais, 1998). 

Anos mais tarde, em Nova Iorque, num serão em casa de um amigo alemão, ouvi Judt dissertar, de forma brilhante, sobre alguns novos problemas políticos que o alargamento da União Europeia, que estava para acontecer, iria colocar. Nunca mais o voltei a encontrar, embora me tivesse então desafiado para assistir a uns debates na sua New York University. Apenas o fui lendo, irregularmente, no "New York Review of Books", em lúcidos textos sobre temáticas internacionais, dos quais transparecia uma desilusão crescente com certas posições da esquerda "ideológica", de par com uma denúncia aberta das políticas da administração Bush.

sábado, agosto 07, 2010

A truta

Os dias tinham sido cansativos. A Embaixada de Portugal naquele periférico país era muito pequena e a pressão de trabalho, preparatório e de acompanhamento da "comissão mista", tinha sido intensa. A visita tinha compreendido mais do que uma cidade, o que constitui sempre um pesadelo logístico. O embaixador e o seu único colaborador ansiavam já pelo regresso a Lisboa da imensa delegação, que se faria após o almoço (quando via partir visitas oficiais, o embaixador tinha por hábito comentar, aliviado: "mais uma lebre corrida!").

Vale a pena dizer que, no início dessa década de 80, as comitivas portuguesas ao exterior eram quase sempre grandes, brindadas com um  luzido painel de representantes de vários ministérios (os "ministérios sectoriais", no nosso calão diplomático), a fazer de "corte" ao membro do governo que as chefiava. Por essa razão, a mesa da residência do embaixador estava completa, nesse almoço de despedida.

O ministro - que, no futuro, estava destinado a ter uma interessante carreira política - era do género pouco falador, entre o tímido e o distante. Muito "business-oriented", não era de graçola fácil ou de contar historietas para a assistência. Quando, em momentos raros, lhe saía algo mais "solto" e com mínima pinta de graça, convocava logo atentos sorrisos ou gargalhadas da sua "corte", publicamente feliz por poder partilhar essa inesperada intimidade.

Por essa limitação do convidado de honra, o nosso embaixador, com a técnica de alimentação social das conversas que os anos na "carreira" ensinam, lá procurava "encher" o ambiente, elegendo como interlocutora principal a mulher do ministro, que percebera ser uma figura mais expansiva e opinativa. Tudo, porém, sempre num registo bastante formal.

A certo ponto da refeição, foram servidas uma belas trutas. Mais como comentário de circunstância do que como manifestação de curiosidade, a mulher do ministro inquiriu: "Costuma ter por cá trutas, senhor embaixador?". É então que ao diplomata, talvez com a prudência e a contenção fragilizadas pelo imenso cansaço que o invadia, lhe saiu esta inopinada graça: "Não tenho estado mal servido de trutas. Logo que aqui cheguei, apareceu-me o dr. Mário Soares. Pouco tempo depois, esteve aqui a engª Lurdes Pintasilgo e, logo a seguir, o professor Freitas do Amaral. Agora, esteve cá o sr. ministro. Como vê, minha senhora, de trutas estou bem aviado".

(Vale a pena assinalar, para quem o não saiba, que, numa certa geração - que era a do embaixador -, o termo "truta" era utilizado coloquialmente como sinónimo de "pessoa importante".)

A mesa gelou, com os cantos dos olhos dos presentes a tentarem analisar a reação do ministro. Houve cinco trágicos segundos de interminável silêncio, até que o mais velho membro da delegação, um homem já com algum mundo, soltou uma forte gargalhada, que teve o condão de provocar um "ressurant" esgar no ministro, um largo sorriso da respetiva mulher e rumores de risada nos restantes presentes. Do gelo, passámos ao alívio e, logo de seguida, às trutas.

sexta-feira, agosto 06, 2010

Três vezes

Foi há uns tempos. Íamos numa viagem longa e lembrei-me de um restaurante de que ouvira falar, numa localidade que ficava quase no caminho. Telefonei a reservar. Pela reação do meu interlocutor, percebi que, pelo menos nesse dia, devia ter poucos clientes.

O restaurante era numa moradia isolada, com as várias dependências da casa transformadas em salas de refeição, dotadas de certa privacidade. Hesitando entre duas áreas, que estavam desertas de clientes, sentámo-nos onde nos apeteceu, nos muitos lugares disponíveis. 

Contudo, ninguém aparecia. Minutos passados, levantei-me e fui pelo corredor. Encontrei uma pessoa que me pareceu ser o dono. Desculpou-se com a falta de pessoal, após um feriado. Pelo barulho, deduzi, contudo, que havia outros clientes, "lá dentro", em área mais próxima da cozinha.

Decorrido algum tempo, tivemos finalmente os menus. Lá conseguimos pedir os pratos, com todo o resto (pão, couvert, lista de vinhos) a chegar com imensa dificuldade. Mas acabámos por ser servidos. Comeu-se "assim-assim". Depois, foi uma longa espera. Ninguém vinha atender a mesa. 

Para grandes males... Decidi telefonar, pelo telemóvel, para o próprio restaurante. Respondeu-me a voz do cavalheiro de sempre. "Sabe, somos os clientes da sala de entrada. Pode vir atender-nos?" O homem ficou siderado e logo se despachou pelo corredor, chegando com um sorriso embaraçado, menus na mão. Disse-lhe então que já não queríamos nem sobremesa nem café. Apenas a conta. Paguei e acrescentei: "Vim três vezes a este restaurante: a primeira, a única e a última". E assim foi.

Blogue

"A sua cara não me é estranha". A da senhora de bata branca que me dizia isto, hoje, num Centro de Saúde, não me trazia nada à memória. Dois segundos não eram passados,  voltou a olhar-me no meu informalíssimo traje de verão, com duas "canadianas" de apoio, acrescentando: " 'Duas ou Três Coisas' não é?"

Caramba! Como este mundo é pequeno!

quinta-feira, agosto 05, 2010

Privacidade

Num país em que as caras dos detidos preventivamente podem ser livremente expostas na comunicação social, assumidos como criminosos perante a opinião pública, mesmo que depois venham a ser absolvidos;

Num país em que escutas telefónicas privadas são publicadas impunemente na imprensa, não obstante estarem sujeitas a segredo de justiça;

Num país em que os "paparazzi" fotografam sem limitações, do exterior, cenas em residências particulares de figuras públicas, sem autorização.

Nesse país, a Comissão Nacional de Proteção de Dados decide proibir que a Google Street Views filme as ruas das cidades, como se o conceito de privacidade fosse pior cuidado em outras metrópoles (onde se assume que esses direitos não estão a ser respeitados) como Nova Iorque, Londres, Berlim ou Paris.

Esperança

Afinal, há esperança para o mundo: apanhei esta manhã um táxi em que a música de fundo era da RTP Antena 2.