Carlos Paredes é um dos muito escassos génios que Portugal produziu. Uma noite de 1975, em casa de Carlos Eurico da Costa, poeta e administrador da empresa de publicidade Ciesa-NCK, Paredes foi apresentar sugestões para a banda sonora de um "spot" televisivo e radiofónico, destinado a mobilizar as pessoas a votarem nas "primeiras eleições livres". A encomenda era do STAPE (Secretariado Técnico para o Assuntos Político-Eleitorais), representado então pelo comandante Luís Costa Correia (que se deve lembrar bem desta cena).
O músico e compositor chegou, com um ar muito modesto, um andar desengonçado, quase a pedir desculpa por ali estar. Eu estava fascinado por poder conhecer pessoalmente o autor dos "Verdes Anos" e, recordo-me, sentei-me, reverencialmente, em frente do guitarrista, quando este ensaiou algumas hipóteses de fundo musical para o anúncio. Dedilhou quatro ou cinco temas e, nas pausas entre cada um, dizia algo assim: "Não sei o que acham. Esta parece-me fraquita..." ou "Só me saiu isto..." ou "Se calhar, isto precisa de ser melhor trabalhado!". A mim, cada uma parecia melhor que a anterior!
Deslumbrado, creio que hesitei até ao fim em dar qualquer opinião sobre as peças, tal a sua qualidade. O Costa Correia e o Eurico da Costa pareceram-me partilhar "l'embarras du choix", mas lá acabaram por eleger o tema que, durante semanas, fez parte do nosso quotidiano televisivo e radiofónico.
Só voltei encontrar Carlos Paredes quando, em 1993, acompanhado por Luísa Amaro, fez, em Londres, a convite de Mário Soares, um memorável concerto para a rainha Isabel II, no Guildhall. No final, a rainha fez questão de o conhecer pessoalmente e - recordo - quis ver a sua mão. Ao felicitá-lo, emocionado pelo espetáculo, Paredes inquiriu-me: "O amigo acha que eu estive bem? É que não estava nos meus dias..."
Só voltei encontrar Carlos Paredes quando, em 1993, acompanhado por Luísa Amaro, fez, em Londres, a convite de Mário Soares, um memorável concerto para a rainha Isabel II, no Guildhall. No final, a rainha fez questão de o conhecer pessoalmente e - recordo - quis ver a sua mão. Ao felicitá-lo, emocionado pelo espetáculo, Paredes inquiriu-me: "O amigo acha que eu estive bem? É que não estava nos meus dias..."
Duvido que alguém possa ser verdadeiramente português se não gostar da música de Carlos Paredes. E, se tiver 10 minutos, ouça isto.
