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segunda-feira, agosto 09, 2010

Sueco

Os tempos eram outros, claro. No passado, a aprendizagem de línguas um pouco mais bizarras não era considerada, no Ministério dos Negócios Estrangeiros, um particular fator de valorização. Pelo contrário, pode mesmo dizer-se que aqueles que se dedicavam a esse estudo eram, em muitos casos, olhados como figuras excêntricas, à busca de uma notoriedade não muito apreciada.

Um velho embaixador contou-me que, no início dos anos 60, ao tempo em que servia, como seu primeiro posto, num consulado nos EUA, decidiu aprender sueco, aparentemente estimulado a tal por um conhecimento feminino dessa origem. Andou meses no difícil estudo da língua, já conseguia articular algumas frases básicas e, um dia, perante o surgimento de uma vaga em Estocolmo, escreveu uma carta ao secretário-geral do Ministério (que é o chefe da carreira, com uma palavra decisiva sobre as colocações) e pediu transferência para a Suécia. Na comunicação referiu, naturalmente, que já falava razoavelmente sueco, que podia ser útil ter naquela Embaixada um diplomata com algum domínio da língua, etc. Em termos de "equilíbrio" entre postos, a mudança, à luz dos critérios da época, não era descabida.

Passaram-se algumas semanas, até que recebeu nota do seu novo destino: Malawi. Sendo embora, nesse tempo, uma capital politicamente bastante importante para Portugal, Blantyre estava longe das perspetivas de carreira do jovem diplomata. A desilusão fê-lo ter um desabafo com o seu superior, o embaixador em Washington. Embora a decisão fosse já irreversível, este prometeu-lhe procurar saber, do secretário-geral, das razões que teriam motivado o não acolhimento do seu estimável sonho nórdico.

Um dia, numa visita à capital americana, o embaixador esclareceu-o: "Você sabe, o seu pedido de transferência para Estocolmo chegou a ser ponderado. Mas havia um problema: você fala sueco. Foi o embaixador que lá está que não quis que fosse. Ele não diz uma palavra em sueco e comentou com o secretário-geral que o facto de ir ter um secretário de Embaixada com o domínio da língua local ia ser um embaraço para ele, criando-lhe alguma "menorização" nos círculos diplomáticos...".

O tema das línguas foi sempre um insondável "mistério" dos Negócios Estrangeiros. Uma das graças correntes na carreira, noutros tempos, é que havia sempre uma boa justificação para colocar alguém em Londres: ou porque sabia muito bem inglês ou porque não sabia, razão pela qual uma estada na capital britânica seria positiva para a aprendizagem da língua. Nos dias de hoje, as coisas mudaram? Claro que sim!

Britannia

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