sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Em português


Já se percebeu: o caso da Guiné Equatorial não mais vai perder o seu lugar cativo na atenção mediática sobre a CPLP. De agora em diante, por mil coisas da maior utilidade que a organização venha a conseguir fazer, nada distrairá os nossos plumitivos da coreografia do senhor Obiang, sobre quem o cumprimentou ou não, e, claro, sobre a existência oficial da pena de morte naquele país africano. Questão sobre a qual, aliás, o MNE Santos Silva disse o que havia que ser dito.

Sem com isso pretender absolver o sinistro regime político que vigora naquele país -  esse sim, um imenso e escandaloso problema – talvez um destes dias valesse a pena esses jornalistas se debruçarem sobre as largas dezenas de Estados em que essa prática se mantém, entre os quais figuram alguns com os quais mantemos simpáticas relações: Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul, China, etc. Não me consta, aliás, que a subsistência da pena de morte nesses países figure nas agendas das nossas conversas bilaterais com eles.

Para além desse «fait-divers», a recente Cimeira da CPLP trouxe algo de novo? 

Raramente me permito um grande otimismo no tocante àquela organização, mas devo dizer que, em geral, gostei do modo como o Brasil «agarrou» a sua presidência rotativa. Várias vezes tenho expressado a ideia de que o futuro da CPLP dependerá sempre muito do modo como o seu país membro mais relevante à escala global souber usar a organização em benefício da sua própria estratégia. No passado, o Brasil não parecia ter interesse em explorar as potencialidades deste grupo político-linguístico. Mas talvez agora, num momento em que o país caiu «na real» (como por lá se diz), em que o seu glamour como emergente empalideceu um pouco, em que a sua excelente diplomacia procura fazer esquecer tempos de conflitualidade interna fragilizante, em que a sua economia passa por um tempo de lenta recuperação – talvez agora a CPLP lhe possa servir para alguma coisa. E nisso fico contente pela memória de José Aparecido de Oliveira.

Se houve facto interessante e inédito nesta «cúpula» ou «cimeira», como as diferentes versões da nossa língua impõem, foi a presença muito oportuna de um convidado que se chama António Guterres. Com ele em Brasília, talvez o país anfitrião do encontro tivesse constatado que, afinal, o «primo pobre» europeu pode ainda produzir alguns fatores de relevo na cena internacional, que não estão distantes dos interesses do próprio Brasil, como António Costa também teve o ensejo de sublinhar no tocante a um possível acordo UE-Mercosul. 

Em português, há muitas coisas que podem ser feitas em conjunto. Desde que haja vontade política, lealdade e uma linha de ação mínima em que todos nos encontremos. Mesmo tendo à ilharga o senhor Obiang, o qual, repescando O’Neill, acaba por ser um pouco o «remorso de todos nós».

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

3 comentários:

Anónimo disse...

Relativiza a pena de morte quando escreve "Sem com isso pretender absolver o sinistro regime político que vigora naquele país - esse sim, um imenso e escandaloso problema".


É triste.

Anónimo disse...

O anonimo das 14h07 preferiria que Portugal abandonasse a CPLP como protesto? qual é a sua sugestão? Portugal ja deu mostras de nao gostar muito da actual (e quasiterna...) liderança da Guiné Equatorial.

Sera que o Portugal abandonando a CPLP tornaria o senhor Obiang menos assassino? E nesse caso abandona-se a NATO? Cortamos relacoes com a China?

Sera que Portugal fica a ganhar com esse tipo de pensamentos irredutiveis?

Anónimo disse...

O anónimo das 14h07 sou eu. Mas, curiosamente, não disse, sugeri, insinuei absolutamente nada do que o meu homónimo das 15:58 afirma. Não sei pois que lhe responda, tirando que seria útil, talvez, regressar à escola, para poder compreender o que lê e assim poder dialogar com os outros. É aliás deprimente a quantidade de vezes que as caixas de comentários de blogues e jornais se enchem deste tipo de leituras.