terça-feira, 1 de abril de 2014

A escolha de Valls

Há um novo tempo na política francesa. A nomeação de Manuel Valls, o enérgico ministro do Interior, que vinha a seduzir alguns setores da direita pela frontalidade do seu discurso securitário, traz para a linha dianteira da ação governativa um "outro" Partido Socialista. Alguns lembrarão, nos próximos dias, que Valls chegou a propôr a mudança do nome do partido, por considerar que o rótulo "socialista" podia ser inconveniente...

Desde logo, fica confirmada, com esta designação, a recente mudança de direção levada a cabo por François Hollande, ao escolher o empresariado como o seu parceiro para o relançamento da economia francesa. Valls tem um pendor liberal (embora estas coisas, em França, devam ser contextualizadas) e sentir-se-á seguramente confortável com esta linha de ação. Assim, na economia, não deve esperar-se muito de novo.

Mas se esta escolha pode "cair bem" num eleitorado mais conservador, ela também poderá vir a ter efeitos divisivos no seio do PSF, cuja ala esquerda já tinha reagido com desagrado ao pacote de medidas anunciado, tido como demasiado "social-democrata" e que, de certo modo, confronta a memória socialista tradicional. Por isso, vai ser interessante perceber que "compensações" estarão preparadas para a esquerda do partido, de que a composição do novo governo será a resposta. Havia a sensação de que Valls tinha feito com algumas figuras deste setor uma aliança tática para a aproximação de uma nova geração ao poder. Veremos como este passo sobrevive. A questão do "nacionalismo económico", que inclui a temática europeia, vai estar, com certeza, em alguma evidência. Valls pode encontrar por aqui um terreno para uma certa ligação à esquerda, tanto mais que o seu entusiasmo pelo tema europeu nunca foi excessivo. Curiosamente, isto está longe de ser contraditório com a prioridade a dar ao mundo das empresas, dada a matriz protecionista do país.

Resta saber qual o futuro papel de Hollande. Com a saída de Ayrault e a nomeação de um primeiro-ministro "a pedido" do país, o presidente perde muito do pouco espaço de manobra que já tinha. Valls vai ser um primeiro-ministro enérgico e visível, o que quase sempre se tem mostrado menos compatível com o presidencialismo da V República. Se tiver sucesso, será ele, com toda a certeza, a tentar a ascensão ao Eliseu em 2017, em nome dos socialistas. Se falhar, depois de experimentada esta que era a cartada mais à direita que os socialistas tinham na mão, o caminho para o regresso ao poder dos conservadores franceses fica definitivamente aberto.

9 comentários:

patricio branco disse...

será que a catalunha espera que ele grite imitando de gaulle vive la catalogne libre?
bem, um bom exemplo de integração migratória, parabens à frança que o equiparou (que os equipara) aos nacionais e a valls que percebeu que essa é a forma de actuar no país estrangeiro que escoheu para viver

Defreitas disse...

A outra leitura, também pode ser "bientôt" a dissolução da Assembleia Nacional, se Valls não conseguir convencer os ecologistas, e não só, a ficarem na maioria. O que fez Chirac há uns anos atrás. Os ecologistas e outros da ala esquerda "exigem" uma mudança radical de linha governativa. Valls não está precisamente na linha socialista . Entre as exigências de Bruxelas, a pressão das partidos aliados e o povo da esquerda , a via é estreita.

De qualquer maneira, o que quer que ele faça e qualquer que seja o resultado bom ou mau da sua acção futura, a partir de amanhã ele será o alvo da caça ao homem mais violenta da politica francesa da parte da direita, que já vê nele um perigoso concorrente para Sarkozy, Fillon, Jupé e comparsas do UMP em 2017! Porque Valls pode morder no eleitorado da direita e não tem "casserolles"agarradas às pernas, como outros. O caminho, para os conservadores, não estará assim tão fácil como o Senhor Embaixador parece crer.

Alcipe disse...

Há uma ideia que faz o seu caminho em França, à esquerda e à direita: a saída do euro!

Anónimo disse...

O seu post: "a escolha de Valls" lembrou-me "onde está o Wally". Qualquer semelhança, é pura coincidência...

Anónimo disse...

Há uma coisa, pelo menos esta, que o Hollande não faz como o Sarkozy: o Sarkozy só "gastou" um Primeiro Ministro durante todo o seu mandato. É que os ex-primeiros-Ministros ficam caros à República e o Hollande, ainda que só a pensar economia, podia-nos bem economizar este... A não ser que seja uma forma original sua de dizer à direita: Ah, vocês querem uma politica ainda mais à direita? Também temos cá disso no Partido. Aí vai um Valls...
É verdade que agora, para calar os protestos no seio do Partido, só a ameaça do "nuclear" é que pode acalmar os ânimos. E a ameaça do nuclear é dissolver a Assembleia da República.
José Barros.

Anónimo disse...

"sorteio de carros do fisco (Expresso)
São 207.321.890 os cupões que vão estar a concurso no primeiro sorteio de carros do fisco. Estes cupões dizem respeito às faturas do mês de janeiro, que foram comunicadas pelos comerciantes até 25 de fevereiro."

Esta "lotaria" fruto do estatismo-rosa-liberal-que impera em Portugal, devia também ser apicada em França resultado do melting pot eleitoral.

Tudo isto é triste, faz-me lembrar Afonso Costa !

Alexandre



Anónimo disse...

Alcipe, o que dizes é "poisson d'avril" ou é coisa séria?

Defreitas disse...

Senhor José Barros: Pelo menos, Hollande e Ayrault tiveram a coragem que Sarkozy e Fillon não tiveram em 2008 aquando do mesmo resultado que levou 200 municipalidades da direita para a esquerda: Fillon não apresentou a sua demissão, embora tivesse dito ao chegar a Matignon, que era o Primeiro-ministro dum pais na falência.

Anónimo disse...

Bem lembrado Patrício Branco.
Não precisará de gritar, talvez. Se calhar, basta calar-se e deixar a caravana da democracia passar.