quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Augusto de Ataíde (1941-2014)

A título pessoal, só conheci de modo muito superficial Augusto de Ataíde, cuja morte acaba de ser anunciada. 

Augusto de Ataíde fez parte de uma geração de políticos que Marcelo Caetano fez emergir na sua breve passagem pelo poder, a maioria dos quais saídos do viveiro universitário em que o sucessor de Salazar se movia melhor e em que foi cultivando a sua gente. Trabalhou no governo de Caetano nas áreas da Juventude e Educação e, a exemplo de outras personalidades dessa geração política, aportou por alguns anos ao Brasil, na sequência do temor às sequelas do 25 de abril. No seu pacífico regresso ao país da democracia, reintegrou-se na vida universitária e, tal como outras figuras académicas conservadoras, normalmente juristas, com raízes sociais na aristocracia ou com laços com a alta burguesia, foi cooptado por importantes grupos privados para integrar a teia dos seus lugares de representação institucional. A política em liberdade não parece tê-lo seduzido.

Um dia, há já alguns anos, caiu-me nas mãos uma biografia de Augusto de Ataíde. Não era um texto político, relevava do memorialismo pessoal e familiar, com a curiosidade de se centrar muito na sociedade açoreana, um microcosmos a que sempre atribuí uma graça especial. Sem ser uma obra excecional foi, contudo, para mim, uma curiosa revelação, não apenas por me ajudar a compreender melhor o ambiente de um certo Portugal do Estado Novo de província mas, muito em particular, por expor, com uma candura que só pode merecer o nosso respeito, uma séria crise na sua família, que muito terá marcado a existência do autor. Não tinha a menor ideia pessoal sobre Augusto de Ataíde, desde a sua saída da cena política. Com a leitura de "O Percurso Solitário", nome do seu livro, dei-me conta de estar perante um homem de bem, sendo embora alguém que sempre esteve num quadrante que nunca foi o meu. Mas, no que me toca, tenho sempre pena ver desaparecer pessoas de bem, venham elas de onde vierem.

6 comentários:

Anónimo disse...

"Na sequência do temor às sequelas do 25 de Abril" poderá ser uma frase adequada a muitos casos de pessoas que deixaram Portugal naquela ocasião. Mas não o é de todo em muitos outros, como o de Augusto de Ataíde: não se tratou de nenhuma espécie de temor mas de necessidade, pelo facto de terem perdido emprego, público ou privado, terem sido destituídos de cargos universitários ou outros ou terem vistos os seus negócios intervencionados ou inviabilizados, ficando sem possibilidade de continuar aqui a garantir o seu sustento e das suas famílias. Não é um posicionamento político,não é uma recusa a prestar serviços ao seu país, não é a fuga a possíveis represálias, é pura e simplesmente uma questão de sobrevivência.

patricio branco disse...

curioso, andaria pelos 30 quando colaborou com marcelo, ao contrario de salazar, a idade media dos governantes marcelistas era menor, rui patricio foi mne com menos de 40, joão salgueiro creio que com uns 30
nunca tinha ouvido falar de ataide, açoreano.

Defreitas disse...

O problema é que numa sociedade injusta, como aquela na qual evoluiu na época o autor do livro, existiam milhares de pessoas perdidas nessa selva onde os homens ditos de bem impunham a sua classe.

Muitas pessoas, ao contrário do autor, não tinham nem meios de fortuna, nem guia nem compasso para os guiar na vida. Curiosamente foram estes que, por vezes, empurrados pelas dificuldades, encontraram à custa de grandes esforços, o bom caminho para dar um sentido à vida. E entre eles eles haviam muitos homens de bem.

Os "outros", encontraram na "situação" o lugar que ansiavam e do qual aproveitaram o melhor que puderam, e o autor parece ter sido um deles, que a longa carreira nos domínios do Direito, da Universidade e da Banca, e a presença em vários conselhos de administração parece confirmar.

Aceitar a presença num governo ditatorial, quando centenas de compatriotas sofrem nas prisões, e o povo vive na miséria, ajudando a prolongar a existência dum sistema degradante para os Portugueses, não me parece digno dum homem de bem. Prefiro conservar este adjectivo para aqueles homens de bem que se sacrificaram e lutaram pelo bem comum.

Mesmo se os sonhos da vida aparecem um dia decepcionantes para aqueles que estando integrados num sistema, pela nascença ou pela fortuna, vêm a sofrer dos sobressaltos da historia, nada pode superar o valor daqueles que combateram o sistema ao preço da própria vida.

manuel disse...

Estes emigrantes de mala de cartão sempre me impressionaram.Sem saberem ler nem escrever,partiram à aventura,confiados na sorte.Era uma questão de sobrevivência!

Anónimo disse...

Augusto Athayde, ainda na Reserva Naval, foi meu Assistente no ISCEF.
Guardo dele a imagem de um homem muito educado, acessível, talvez inexperiente, mas muito esforçado.

Surpreendido por o ter visto no Governo, notei que foi determinante na democratização da prática desportiva, nomeadamente com o desvio de verbas do totobola para a criação de pavilhões desportivos polivalentes um pouco por todo o país. Ainda sem financiamento comunitário europeu.

Casualmente, reencontrei-o pela última vez há cerca de vinte anos: banqueiro discreto foi de uma amabilidade sem limites.

Curvo-me em respeito ao homem de bem que hoje nos deixou.

antónio m fernandes

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Conheci-o bem, era um Grande Senhor. Que Deus o tenha na Sua Santa Guarda