quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O Porto e o poder


Acabo de ver na SIC Notícias um debate sobre as eleições autárquicas, dedicado ao Porto. Por uma vez, sem políticos e apenas com comentadores sem "agenda", o que tornou o debate mais interessante e neutral. É pena que as televisões não percebam que ganham muito mais em convidar jornalistas e politólogos, deixando-se de "tempos de antena" com catrefadas de deputados e aparelhistas partidários, que já se não podem ouvir.

Seguindo o tema do debate, e por preguiça estival, aqui deixo o que há dias disse numa intervenção pública, onde também falei do Porto e do seu poder à escala nacional:

"Curiosamente, sendo embora a segunda cidade do país, o Porto só com a democracia consegue obter uma expressão significativa a nível do poder central. Se olharmos para a história da ditadura – e mesmo da primeira República - verificaremos que a influência política do Porto, como cidade, junto do poder central, foi sempre muito escassa durante o século XX. E, curiosamente, é uma evidência que o Porto tinha, em particular nesse tempo, um forte tecido de instituições, formais e informais, desde logo na área empresarial, mas igualmente no domínio cultural e no terreno social.

Tudo indica que Salazar nunca gostou do Porto, talvez porque a cidade projetasse uma sofisticação, quiçá algo snobe e elitista, que se contrapunha ao ruralismo esclarecido que ele próprio representava e que Coimbra, com Lisboa, aqui também através da universidade, era suficiente na sua tarefa de cooptar o pessoal político. Graças à sua força económica – recordo que então se dizia: “o Porto trabalha, Lisboa diverte-se” -, o Porto como que se isolou um pouco no processo político à escala nacional, mantendo uma dinâmica própria, uma burguesia longe do cosmopolitismo do dinheiro “novo” de Lisboa, mais Clube Portuense e muito pouco Linha do Estoril. Porém, o Porto burguês não era maioritariamente anti-regime, muito longe disso. O peso da igreja e a proteção dos negócios encontraram sempre no Porto um terreno sólido de apoio ao salazarismo.

Mas o Porto da ditadura foi também aquele que deu o maior banho de multidão a Humberto Delgado, em 1958, como já tinha proporcionado o maior comício a Norton de Matos, nove anos antes, na Fonte da Moura. E é o Porto que gera um bispo que atazanou o ditador e, verdadeiramente, abriu caminho às vias católicas dissidentes à escala nacional. Esse é, alias, o mesmo Porto que produziu Sá Carneiro, esse inesperado incómodo que veio a revelar a fraude da abertura marcelista.

Foi o 25 de Abril que levou o Porto a perder esse seu isolamento. Com Sá Carneiro e as suas adjacências, o Porto entrou para a partilha do poder político central. E por lá tem ficado, no passado de forma bastante mais influente, nos tempos que correm apenas através de alguns “tokens”, destinados a garantir uma presença simbólica. Quando se forma um novo governo, à esquerda ou à direita, a pergunta deve surgir: “E do Porto, quem é que se põe?”. Eu sei que pode soar um tanto cruel estar a dizer isto, mas esta parece ser a realidade. Não obstante a inegável excelência de muito do pessoal político que os governos foram buscar ao Porto, nas últimas décadas, isso só marginalmente quis significar o peso real da cidade no jogo político nacional.

O Porto desenha um modelo curioso, sendo quase um “case-study”. A cidade do Porto assume um discurso reivindicativo, uma mostra de mal-estar permanente, uma queixa de quem se sente mal tratado. Até as distritais portuenses dos dois partidos do novo rotativismo sofrem desta obsessiva necessidade de terem uma idiossincrasia própria, um discurso façanhudo e de cara dura frente aos aparelhos de Lisboa. Com regularidade, como recentemente se viu, o Porto convoca os poderes económicos e os nomes sonantes para a retoma dos vários episódios dessa espécie de batalha virtual com Lisboa. Mas, com o tempo, mas sempre com o sobrolho cerrado, nas entrevistas e proclamações, o Porto lá vai conseguindo o seu novo aeroporto, as suas novas pontes, o seu metro, as vias que o seu jogo de cintura interna consegue arrancar.

Mas convém que fique muito claro: essa guerrilha política, nas formas curiosas, típicas e mediáticas que por vezes assume, não deixa de ter uma indiscutível legitimidade. Porque é verdade que, neste país, continua a haver uma macrocefalia muito evidente em torno e em favor de Lisboa. Só que o Porto, por muitas queixas que tenha, consegue, apesar de tudo, ter uma capacidade reivindicativa, e uma capacidade de imposição, muito maior do que todas as outras urbes de província."

Em tempo: Houve quem tivesse lido este post como "ofensivo" para com o Porto. Porque estou à vontade nesse domínio, aconselho os leitores mais desatentos a lerem aqui, aqui e principalmente aqui.
 

17 comentários:

Anónimo disse...

"(...) todas as outras urbes de província"

Aiiiiii...

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 00.26: "ui" porquê?

Catinga disse...

Não foi "ui", foi "aiiii" que o seu visitante escreveu e, provavelmente, fê-lo porque a frase se presta a considerar que o Porto faz parte das "urbes de província". A partir daí... :)

Anónimo disse...

Infelizmente, estou convencido, por experiência, que a descentralização do poder democrático cria centralismos, por ventura, mais aviltados!
Mas sempre fui pela regionalização por um melhor equilíbrio e distribuição dos fundos. Só isso! Quanto aos aviltamentos sempre é preferível tê-los por aqui do que estarem por lá… A regionalização soçobrou pelo sentimento inverso…
O Duriense!

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Catinga: a provincia, de onde eu venho, de que muito gosto e onde estou, é, para mim, tudo o que estiver fora de Lisboa. É uma qualificação geográfica, não mais.

Catinga disse...

Claro que é. Mas na província estão os provicianos e, agora, vá lá chamar isso a alguém :)

(ou, experimente dizer que o FCP é "um clube de província")

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Catinga: mas eu digo sempre isso! Como digo que o SL e Benfica (não confundir com Clube Futebol Benfica, uma prestigiosa agremiação na rua Oliverio Serpa) é uma estimável coletividade de bairro, tal como, por exemplo. o Clube Atletico de Campo de Ourique ou o Desportivo dos Olivais... É que, de Portugal, e depois do ocaso do Atletico Clube de Portugal, só resta o Sporting Clube de Portugal

Helena Oneto disse...

Entretanto, em Lisba, continua-se a brincar...

E eu que não gostava do Porto, gostei muito de ler este texto!

Anónimo disse...

E quem brinca em Lisboa são, sobretudo, políticos que não são de lá...

Anónimo disse...

Helena Oneto,
Não gostava do Porto? Realmente!
Esta malta de Lisboa (mesmo vivendo em Paris) é tramada!
Uma bela cidade, o Porto! É o que lhe digo. Vá lá um dia visitá-lo e fique por lá uns 2 a 3 dias.
Por dever de ofício, vou lá de quando em quando e sempre o Porto me surepeende. Sem querer ser provocador, acho que foi infeliz neste seu comentário, H.O.
a)Alfacinha, mas que gosta do Porto.

Helena Oneto disse...

Ao alfacinha anónimo,
Eu só comecei a gostar do Porto quando la voltei fez agora três anos.
Desde então, venho de la sempre encantada.

Tramados são os clichés...

Jose Martins disse...

O PORTO DO MEU TEMPO
Era o Porto das zorras barulhentas que de S.Pedro da Cova transportavam carvão para alimentar a central térmica de Massarelos. A fonte de energia para locomover os amarelos que garbosamente subiam a 31 de Janeiro, os Clérigos, Sá da Bandeira em procura dos arrabaldes do Porto..
Na Estação de S. Bento havia carrejões ladinos de capuzes de serapilheira, almofadados, carregando arrobas e mais arrobas, no costelado, para as mercearias do Bonjardim,Flores e Sá da Bandeira.
Chegava todos os dias a S.Bento gente da Régua, Amarante e sei lá de mais de onde. Trazia com ela cestos de vime colorido. Dentro deles, um presentito do seu lavrado para oferecer a algum amigo ou pessoa de família.
Juntas de bois jungidos à canga,pintada de várias cores e com arte entalhados desenhos rurais, subiam a S.João puxando ronceiros carros de rodas fabricadas de madeira de freixo,carregando as mercerias,bacalhau e caixas de sabão dos armazéns da Ribeira para as bandas de Ramalde,Areosa e para o concelho de Gaia.
As tascas de Cimo de Vila,dos Congregados,Caldeireiros e da Cordoaria sempre foram centros de cultura. Ali discutia-se de tudo um pouco. Era o último jogo da bola do Porto, as habilidades futebolisticas do falecido Artur de Sousa, o Pinga, mais tarde as defesas do guarda redes Barrigana, do brasileiro Jabaru e do treinador,também brasileiro Yustrich. (Este andava de noite à procura dos jogadores, pelas tascas da Alferes Malheiro e quando os topava já meio pingados do verdinho,meu verdinho, sem cerimónias acertava-lhe dois tabefes na cara).
Um Porto despolitizado!
Não conhecia politícos bons ou maus!
Quando o General Sem Medo (Humberto Delgado) foi ao Porto houve chanfalhada de criar bicho da Polícia a torto e a direito, fazendo as delícias da miudagem, a correr em direcção às vielas para se livrarem do cassetete do "sô polícia".
O Porto da minha infância era um burgo girissímo!
Havia verdura,lagos,cisnes nos jardins da Cordoaria, do Marquês, de São Lázaro, da Arca de Àgua e do Palácio de Cristal. Criadas de servir,conhecidas por sopeiras, de faces coradas e aventais broncos, esmeradamente passados a ferro, passeavam aos pares pelas alamedas desses retiros espitituais do Domingo. Magalas dos quarteis arrastavam a asa a essas beldades, ainda puras, decorando as palavras que depois na investida da promessa de amor eterno, conforme a coragem lhes iam dizendo.
Amor a granel? Ah, esse era para os lados da Rua Escura, dos Pelames, da Bainharia, no Bem me Queres, junto ao barracão, na altura, da Estação da Trindade.
Nunca entendi porque o Porto foi sempre tão bairrista... nem os vizinhos poupava. Dizia-se que " valia mais uma rua do Porto do que ca-Gaia-toda".
Gaia que se mirava da margem ribeirinha, que envelhecia nos armazéns na margem do Rio Douro o generoso Vinho do Porto que constantemente os barcos rabelos o traziam pelo Douro abaixo.
O velho Duque, barqueiro estacionado na Ribeira, no outro lado do rio,de quando em quando era solicitado para piedosamente retirar das profundezas do Douro o corpo, sem vida, do incauto que se aventurou nadar mais além da margem.
Da Vila de Gaia, centenas de operários, ainda o dia não tinha aclarado, desciam vertiginosamente montados em bicicletas a Avenida da República para trabalharem nas obras da cidade.
Na minha mente ainda se conserva a imagem típica do Machado "aldrabão" a vender a Pomada Santa de Giboia na Cancela Velha, um pouco acima do velho Jornal de Notícias. A Banha de réptil curava todas as mazelas e aliviava as dores.
Bem, não nasci no Porto,sou serrano de origem e do sopé da Serra da Estrêla.
O Porto da Minha Infância, foi amor à primeira vista e marcou para sempre a minha existência.

Anónimo disse...

Para apreciar o Porto é preciso alguma maturidade do gosto. Uns têm-na em novos, outros só a ganham em velhos.

Isabel Seixas disse...

Eu adoro o Porto Incondicionalmente...

O Porto é sempre como Chaves ou Bornes ou Pedras ou Vila Real, ou por aí, o meu "Porto Seguro"...Um amor eterno.

Gostei tanto do Post, dos comentários, do Porto do Meu Tempo do Sr. José Martins, agora gostava de saber onde anda a Menina Margarida que não veio dizer presente no seu contexto...

Anónimo disse...

Compadre!
Adorei esta sua descrição do Porto, terra onde nasci e vivi uns anos.
Tal como Isabel Seixas, este seu comentário é memorável! Há muito que não lia uma coisa assim, escrito com alma e sentimento. Lá está, assim descrito, um Porto que existiu, que deixou saudades a muitos e que já desapareceu.
Vou arquiva-lo e guarda-lo, meu caro!
Forte abraço,
Seu Compadre

Anónimo disse...

Curioso quando se referem ao Porto como "província" quando esta é uma cidade bem mais cosmopolita e "mente aberta" do que, por exemplo, Lisboa. As gentes do Porto podem seguir uma tradição mas não param no tempo nem de deslumbram por coisas que pouco valem e são próprias da media cor de rosa.

Anónimo disse...

Senti-me estranhamente "novo" ao ler os maravilhosos textos do post e do Sr. José Martins.
Mas, como poderia ser dito por JHS: "quem não conheceu o PIOLHO, numa certa época, não conheceu uma "boa parte" do Porto"!