terça-feira, 18 de setembro de 2012

Don Santiago

Saiu hoje de cena, aos 97 anos, Santiago Carrillo. Tal como no poema de Lorca, a sua morte deu-se "eran las cinco en sombra de la tarde!". Carrillo foi, com Dolores Ibárruri, um dos mais marcantes dirigentes comunistas espanhóis. Seria também um dos obreiros da transição e, nessa qualidade, alguém a quem a Espanha democrática deve bastante.

Diabolizado pela velha direita espanhola, pela suas alegadas responsabilidades na chamada "matanza de Paracuellos", durante a Guerra civil, Carrillo acabou por transformar-se numa das estrelas do "eurocomunismo", essa deriva de moderação ideológica e de afastamento face a Moscovo, que se espalhou por alguns partidos comunistas europeus, a que o PCP ficou orgulhosa e naturalmente imune. Aliás, as relações entre Santiago Carrillo e Álvaro Cunhal nunca foram as melhores e vale a pena ler, nas memórias do primeiro, entre outros episódios curiosos, o relato de um encontro noturno entre ambos, na serra de Sintra, ao tempo das ditaduras ibéricas.

As ligações de Carrillo com Portugal não se ficaram por essa relação. Depois da Guerra civil, nos anos 40, Carrillo viveu por uns meses no Estoril, sob disfarce de um industrial uruguaio de conservas. E as suas relações sociais da época levaram-no a visitar fábricas na zona de Setúbal, com a ajuda do então ministro português da Marinha, com quem teve um encontro e que era, nem mais nem menos, o futuro presidente Américo Tomaz. Sempre achei magnífica a ironia deste episódio.

Na frustrada tentativa de golpe militar de extrema direita, em 23 de fevereiro de 1981, a vida de Carrillo esteve por um fio. Quando Tejero entrou nas Cortes e intimou "todo el mundo al suelo!", nem "todo el mundo" se curvou à ordem: o chefe do governo, Adolfo Suárez, e o seu ministro da Defesa, Gutierrez Mellado, recusaram obedecer, como as conhecidas imagens mostram. Mas essas imagens não revelam que, ao lado das centenas de cabeças que cumpriram a ordem de Tejero e se refugiaram por detrás das bancadas, houve só um outro homem que não se baixou: Santiago Carrillo. Um gesto, talvez para a História.

De Carrillo ficou-me também uma cena que ele relata do primeiro encontro que teve com o rei Juan Carlos, depois da legalização do PCE. Ao aproximar-se do soberano, ouviu este, ao saudá-lo, tratá-lo por "Don Santiago". Nesse instante, Carrillo entendeu que acabava de aceder à família política da nova Espanha democrática.  

10 comentários:

ARD disse...

“Se olvida constantemente de que la destrucción del Estado es también la destrucción de la democracia”.

Santiago Carrillo

Carlos Fonseca disse...

Salvo erro, a data do golpe de Tejero é 23 de Fevereiro e não 18. Aliás, os espanhóis costumam referir-se ao acontecimento como o golpe de 23 F.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Carlos Fonseca: obrigado pela nota. Culpas da pressa... Eu até escrevi isto: http://duas-ou-tres.blogspot.fr/2011/02/23-de-fevereiro.html

Anónimo disse...

Visto à distância parece-nos que os politicos antes "duravam" mais tempo: Carrilho, Cunhal... 
Mudaram-se os tempos, mudam-se as vontades?
José Barros

 

Helena Sacadura Cabral disse...

Tive o gosto de o mandar entrevistar para o primeiro número de uma das duas revistas de política que, um dia, decidi fazer...

Anónimo disse...

Senhor Embaixador, Luiz Goes também nos deixou. A minha Mãe adorava-o e dizia ser uma voz única e um excepcional intérprete.
A verdade é que esta partida me deixou cheia de saudades de ouvir histórias vividas.

Maria Helena

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

http://www.diariodeleon.es/noticias/espana/juan-carlos-i-carrillo-fue-fundamental-para-transicion-y-muy-querido-_726438.html

E o Rei de Espanha foi a casa de Santiago apresentar os seus pêsames à familia.

Esta é a grande diferença entre Monarquia e Republica.

Não estou a imaginar Cavaco Silva, Jorge Sampaio, Mario Soares a irem a casa do Jerónimo de Sousa quando ele um dia morrer.

Um Rei é de todos.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro José Tomaz Mello Breyner: um belo gesto, sem dúvida. Mas não me parece que as Repúblicas sejam menos educadas.

Anónimo disse...

Gostei desta tirada dos cumprimentos quando devem ser imperativos momentos para quem nos representa no Estado. Oxalá leiam "Embaixador's post".

patricio branco disse...

retirou-se a tempo do partido, aliás as coisas não lhe correram muito bem na democracia, o pce teve pobres resultados nas eleições. a tentativa de criar um segundo partido comunista tambem não resultou. viveu até quase aos 100 anos e dizia que a longevidade a devia à tomada de 1 aspirina por dia desde há deecadas. talvez, mas devia ter uma constituição de ferro pois foi um grande fumador.
personagem simpático e contador de anedotas foi com berlingher um dos principais e mais influentes eurocomunistas. mas o pci era um partido fortissimo, enquanto que o pce não (eleitoralmente). aliás carrillo expulsara anos antes os estalinistas do partido.
curioso ter vivido em portugal, perto donde vivia o conde de barcelona. quem sabe se se encontraram para falar do franquismo alguma vez.
mas a vida de carrillo foi tudo menos tragica e a sua semelhança com o poema será a hora do falecimento.
e acabaram-se os lideres historicos do comunismo europeu, penso que não há mais nenhum, se exceptuarmos giorgio napolitano o presidente da italia, mas o pci desapareceu há muitos anos.