terça-feira, 13 de março de 2012

Comentários políticos

Com a campanha eleitoral francesa a passar por novos e interessantes cambiantes, torna-se cada vez mais importante assistir a análises televisivas elaboradas por especialistas independentes, conhecedores dos temas, e não necessariamente vinculados a qualquer partido político. Jornalistas, politólogos, académicos ou técnicos sectoriais dão-nos a sua leitura dos factos, num contraditório enriquecedor e esclarecedor.

No nosso país, salvo exceções, prevalece uma realidade que, a meu ver, passa quase desapercebida: somos dos raros países em que a comunicação social está permanentemente ocupada por figuras do mundo dos eleitos da política, que diariamente nos debitam, com maior ou menor criatividade, as expectáveis posições das formações partidárias de que dependem.

Em todos os países democráticos em que vivi - como a Noruega, o Reino Unido, os Estados Unidos, a Áustria, o Brasil ou a França - nunca vi nenhum colunista de jornal ou comentador regular de televisão que exercesse, simultaneamente, um cargo parlamentar ou de eleito público. Essas figuras podem ser convidados esporádicos de um programa, mas nunca são debatedores regulares nesses espaços.

Aliás, volto também a lembrar que não recordo, dentre as democracias cujo funcionamento conheço, nenhuma onde os jornais televisivos, a propósito de qualquer tema, sejam obrigados a auscultar a opinião de todos - mas todos - os partidos políticos com assento parlamentar.

Percebo que, após o 25 de abril, tenha sido necessário conferir espaços de prestígio às formações partidárias, que a ditadura havia diabolizado. Mas a verdade é que, com o decorrer dos tempos, parece que caímos no outro extremo e vemos a sociedade mediática refém de regulares "tempos de antena" partidários, que se pretendem fazer passar por formas indispensáveis de expressão democrática.

Para quantos defendem o modelo em vigor em Portugal, de uma coisa podem estar seguros: somos uma espécie rara.

13 comentários:

patricio branco disse...

metade dos programas de debate politico não são de facto comentários, são uma permanente campanha ou debate eleitoral pois os 2, 3 ou 4 participantes são membros dos partidos representados no parlamento. E não conseguem ser independentes no que dizem.

Anónimo disse...

É sempre a velha questão da forma e do conteudo.
Todas as projeções alimentam a contextura formal e esquecem o aprofundamento da essência.
Fenomenológico ou ontológico.
Discutir ideias comportamentos ou pessoas, eis a questão.
Infelizmente discutem-se pessoas.
Respeitosos cumprimentos.

Anónimo disse...

a culpa é do Acordo Ortográfico...

Anónimo disse...

O Senhor Embaixador, eu sempre fui mais fenomenologico do que ontológico e isto só por intuição pessoal, sem nunca ter lido Husserl nem Heidegger, assim como sou do Sporting por fezada.

a) Feliciano da Mata

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Já escrevi sobre esta patologia nacional que arredonda o fim do mês de alguns pobres políticos. Como agora os comentadores que ocupam cargos públicos não vão poder ser remunerados, talvez escapemos de os ouvir...

Helena Sacadura Cabral disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mônica disse...

Senhor embaixador
uma hora Portugal vai ocupar das coisas que são mais urgentes e assim a nação triunfará.
com amizade Monica

Anónimo disse...

Acabados os: "carros de rua"; "bandeiras", "pendões" e as manchas imensas de cartazes... A propaganda levada às televisões portuguesas pelos deputados, sociólogos e politólogos - proporcionalmente sentados nas mesas redondas/quadradas, como os assentos que têm na AR - empurra-nos para o "Odisseia" ou o "História", onde no meio da vida animal, ou nas "estórias" da História, ainda fugimos por momentos desta loucura da "crise" e dos seus "culpados". Lembram-se do Processo do Kafka ou da Nave dos Loucos? No meio de toda aquela seriedade sinto pena de ver alguns amigos naquele frenesim mensal como bem viu a Drª Helena Sacadura Cabral!

Portugalredecouvertes disse...

Sr. Embaixador,
também ouvi dizer que as TV's pagam muito bem por cada minuto de opinião e/ou debate,
pelo que não será de admirar que apareçam muitos candidatos.

Angela

Anónimo disse...

Pois!!! Podemos assim perceber as diferenças entre uma Reública Democrática e uma democracia, mas.... não sei.

Helena Sacadura Cabral disse...

Os políticos devem ganhar bem. se não iam discursar para os comícios...

EGR disse...

Senhor Embaixador:o post de hoje é,para mim,muito esclarecedor, pois fiquei a saber através da vasta experiencia que V.Exa possui,e de que nos dá conta,do moodo como noutros países decorre o comentário politico.
De facto,é patente o contraste com o que sucede no nosso espaço informativo(?)autentico circuito fechado,sempre com os mesmos protagonistas,e com mesmo discurso.

Anónimo disse...

A propósito: ontem Hollande respondia a questões colocadas num canal da TV francesa. Nada passou na TV portuguesa. Nada a dizer, se há dias não tivessem proficuamente passado o candidato Sarkozy... em campanha. Ainda vão membros dos partidos representados no Parlamento... mas quando podem só "passam" os que melhor agradam a quem estiver a "mandar". A Magna Carta foi para um João, que ficou a saber que "sozinho" não mandaria mais no reino... Temos de ter paciência, porque nunca tivemos escola que ensinasse a cartilha básica do sistema democrático. Deveriam lembrar-se de que a TV ainda não foi privatizada...