sábado, 4 de junho de 2011

Ver eleições

Os meus amigos franceses surpreendem-se sempre quando lhe conto que, uma vez, antes de 25 de abril de 1974, "meti" duas semanas de férias, no meu emprego, para ir a Paris... ver eleições! É que, naquela altura, os atos eleitorais em Portugal eram uma verdadeira farsa e, para muitas pessoas da minha geração, a França funcionava como uma espécie de democracia "adotiva". Para alguns, acabaria por ser mesmo um destino de vida.

"Ver" eleições em Paris significava poder assistir aos comícios na Mutualité, estar presente em debates organizados pelas forças partidárias, contemplar o panorama da polémica que se refletia nas televisões e nos jornais, recolher imensa papelada que nos alertava para a liberdade que se vivia naquele mundo, com os placards exteriores a mostrarem caras e símbolos em disputa democrática. Era uma sensação estranha mas entusiasmante, para um jovem português de então.

Agora, vim a Portugal, não para "ver" eleições, mas para participar nelas, para votar. Há quem ache isso inútil, quem entenda que "são todos iguais", que "assim não vamos lá". Alguns opinam que a classe política portuguesa não merece confiança, que os eleitos acabam por nunca fazer aquilo a que se comprometem, que votar ou não votar não muda nada na nossa vida. Agora, há também quem considere que o compromisso assumido pelo país com as instituições financiadoras internacionais limita de tal modo a margem de manobra de quem quer que seja eleito que, no fundo, "vai dar tudo ao mesmo".

Não é verdade. Os partidos não são todos iguais, têm histórias e princípios diferentes. Os políticos que os titulam têm perfis diversos e há muitos espaços de afirmação legislativa e de atuação político-administrativa que apenas dependem do exercício da vontade política, que não estão vinculados ou dependentes do acordo com a "troika".

A questão é muito simples: se nos afastarmos do processo político, se deixaremos aos outros a decisão de escolherem por nós, perdemos parte da legitimidade para poder avaliar e responsabilizar aquele que vierem a ser eleitos... pelos outros!

Hoje, com toda a serenidade e em consciência, vá votar!

10 comentários:

Anónimo disse...

"Com toda a serenidade e em consciência"
In FSC

Fique descansado.
Isabel Seixas

Fada do bosque disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Helena Sacadura Cabral disse...

"Os partidos não são todos iguais, têm história e princípios diferentes. Os políticos que os titulam têm perfis diversos e há muitos espaços de afirmação legislativa e de atuação político-administrativa que apenas dependem da vontade política, que não estão vinculados ou dependentes do acordo com a "troika".
A questão é muito simples: se nos afastarmos do processo político, se deixaremos aos outros a decisão de escolherem por nós, perdemos parte da legitimidade para poder avaliar e responsabilizar aquele que virão a ser eleitos... pelos outros!
Hoje, com toda a serenidade e em consciência, vá votar!"
Senhor Embaixador depois de muitos meses a escrever sobre o que se passava em Portugal vou, em toda a serenidade,exercer o dever e o direito de votar!

Fada do bosque disse...

Excluí o outro comentário por ser muito pessoal. Mas deixo aqui a razão porque vou votar com serenidade e em consciência, com as palavras do sr. Embaixador:
"Os partidos não são todos iguais, têm história e princípios diferentes. Os políticos que os titulam têm perfis diversos e há muitos espaços de afirmação legislativa e de atuação político-administrativa que apenas dependem da vontade política, que não estão vinculados ou dependentes do acordo com a "troika"."

Anónimo disse...

“Vim a Portugal para votar”, diz aqui o autor do Blogue. Sendo Embaixador, a sua embaixada teve de ficar entregue ao que se designa em linguagem diplomática de “substituto legal”. Seria caso para se dizer que o voto de Sexa sai caro. Não sai, visto os Embaixadores viajarem em executiva e de graça na TAP, se a companhia aérea nacional voar para essa capital. Assim é possível ir votar sem custos. Já os outros diplomatas que ficaram a assegurar a retaguarda, ou estão recenseados na Secção Consular da Embaixada (e não têm de estar!) e então podem votar ali, ou não lhes é possível votar. A lei eleitoral, que foi feita com os pés, não prevê, expressamente estas situações. Até possibilita aos presos (!), mas não aos diplomatas. A não ser que solicitem tal direito, o de votar, ao Secretário-Geral (SG) do MNE (!). Que autoriza, caso a caso, ou seja, a quem o solicita apenas. Assim, o Embaixador, que não possa ir a Portugal votar, de executiva e de graça na TAP, terá de o solicitar ao SG do MNE, que o autoriza por escrito e que lhe dá por sua vez capacidade para autorizar os restantes diplomatas que dependem dele, os da sua embaixada e nos Consulados a exercer o tal direito de votar. Termina o Embaixador e autor deste Blogue dizendo, “vá votar”. Pois, se puder. A maioria não pode. Nem o MNE, nem o MAI previram que se pudesse, sem estar recenseado nas embaixadas e consulados. O tal voto por correspondência não é, pelos vistos, para os diplomatas. Incrível, mas é assim. E é abusivo exigir-se que o diplomata esteja inscrito nos seus locais de trabalho no Exterior (em funções no Quadro Externo). Tal não é exigível a outros nacionais emigrantes, nem, pelos vistos aos presos. Por conseguinte, é fácil dizer vá votar, podendo-o fazer, nas condições de “deslocação” que aqui se explicam.
Bom voto!
“Rilvas”

Anónimo disse...

Vou sair para votar!

Um bom domingo,

Isabel BP

Anónimo disse...

A velha revelha - que vai votar, claro, nem que vá de rastos - junta a sua velha e rouca voz ( é dos copos) ao 'vá votar!' do post. Envio finais de rimalhices suas que vão nesse sentido (eufeminizei-lhes os palavrões):
...
se julgas parvalhão que nada já me importa
não perdi a razão 'stou velha mas não morta.
...
meu rimalhar talvez não sirva já pra nada
que eu morro velha rês mas não morro calada.
...
acaba porra quando esta fatal demência
começa porra quando o tal total combate
por quanto portugal quer hoje e sempre quis?
"É a hora!" de viver e conviver vivência
agora e sempre a nossa co'os outros em debate
pla pátria porra todos juntos ao combate
"É a hora!" porra Pessoa não diz
ps portugal é foi será feliz.
...
ps capaz porém pra votar
não fico em paz se em casa ficar.
...
ps enquanto não morro
voto amanhã por socorro.

Francisco Seixas da Costa disse...

Engana-se, Rilvas. Como parece ser da "casa", talvez possa confirmar, lendo os telegramas, que vim em gozo de férias, isto é, retirei dias às minhas férias para poder votar. E se os seus amigos da TAP não estiverem em greve, também pode saber junto deles que a viagem não foi gratuita, mas sim paga do meu bolso. E esta, hein?

Anónimo disse...

Orgulho-me de Si...
um abraço
Isabel

Helena Sacadura Cabral disse...

É por respostas destas, Sexa, que me orgulho de ser sua admiradora. Quem sabe, um dia, não seremos amigos?!
Ambos votámos. Ambos o fizemos em consciência. Também eu me tive que deslocar a Lisboa, para votar. E também o fiz do meu bolso...