quarta-feira, novembro 11, 2015

Ao café


Tenho uma tertúlia semanal (peço desculpa por ter faltado ontem à sopa de lebre) onde cada um dos convivas pede o café de forma diferente: curto com chávena aquecida, longo em chávena fria, vice-versa em cada um dos modelos, passando por mim que, para eterna surpresa dos empregados, peço "um café normal".

Hoje, ao almoço, vi emergir uma cena idêntica. Até que uma senhora presente se saiu com esta: "para mim, com a asa para a esquerda, por favor". Todos nos rimos, mas fiquei a pensar: seria canhota ou teria sido por ser hoje?

A independência de Angola e os "retornados"


Hoje, quatro décadas exatas sobre a independência de Angola, deixem-me que volte a contar aqui uma cena ocorrida comigo, em S. Paulo, em 2005, na inauguração de uma exposição de pintura de José de Guimarães, na FIESP.

Eram os meus primeiros tempos no Brasil e muitas pessoas queriam conhecer o novo embaixador, recém-chegado. A certo passo do cocktail de abertura do evento, aproximou-se de mim uma senhora idosa que, com extrema simpatia, me disse, com um sotaque já muito brasileiro, mas onde se detetava a sua origem portuguesa: "Tenho sempre muito orgulho em conhecer os representantes da minha pátria! Por isso, queria saudá-lo, senhor embaixador, e desejar-lhe muitas felicidades para o seu trabalho".

Fiquei naturalmente sensibilizado com o gesto daquela simpática compatriota, que agradeci, tendo-lhe perguntado, com naturalidade, quando tinha vindo para o Brasil. Os bonitos olhos da octogenária entristeceram, antes de dizer: "Nem me fale nisso! Vim de Angola, em finais de 1974, deixando para trás tudo o que havia ganho numa vida de trabalho. Com o desgosto, o meu marido acabou por falecer pouco depois da chegada ao Brasil. Graças a amigos, consegui mudar a minha vida. Mas olhe! Nunca perdoarei àquela bandidagem que, no nosso país, fez o 25 de abril!"

Não tive a menor coragem para retorquir à senhora que, com o maior dos orgulhos, eu também fazia parte da "bandidagem" que fez o 25 de abril, que essa fora a data que dera a liberdade à pátria de que ela tanto gostava e que esse fora um dos dias mais felizes da minha vida. "Compreendi" a senhora? Claro que sim. Ponho-me no lugar dela e pergunto-me se apreciaria que lhe oferecessem cravos vermelhos... 

Nunca me passaria pela cabeça tentar explicar àquela senhora, tal como nunca o faço quando cruzo outros portugueses que viveram e sofreram esses tempos, que a tragédia da descolonização desordenada foi, como bem dizia Ernesto Melo Antunes, a outra face da tragédia que foi a colonização. E que, por muitas culpas que possam ser atribuídas aos responsáveis políticos que geriram o país logo após o 25 de abril, a responsabilidade maior competirá sempre àqueles que, tendo tido a oportunidade histórica de negociar atempadamente a independência das colónias, não o fizeram, pela cegueira da ditadura que defendiam e nos faziam sofrer - a nós, portugueses, e aos povos dessas mesmas colónias, convém também nunca esquecer.

O imenso respeito que tenho pelo drama que marcou a vida dos "retornados", que sempre afirmo publicamente, vai de par com aquele que não tenho pela classe política que o 25 de abril, em boa hora, derrubou.

terça-feira, novembro 10, 2015

O guindaste


Notei esse guindaste desde os primeiros tempos em que cheguei a Luanda, no ano de 1982. Muito alto, estava quase no topo da avenida que sai da Mutamba para o hospital Josina Machel, do lado direito. Eu olhava o guindaste sempre que por ali passava. Ao lado, havia um grande prédio por concluir, de que se viam as estruturas em cimento. Quase quatro anos depois, quando parti, o guindaste continuava ali, exatamente na mesma posição, com a obra no mesmo estado. Para mim, essa ficou, para sempre, como a imagem da Angola de então, parada no tempo, à espera de uma paz que só viria muitos anos depois.

Amanhã, 11 de novembro de 2015, passados 40 anos desde o dia em que Angola formalmente se tornou independente, lembrei-me desse guindaste, sei lá bem porquê.  

segunda-feira, novembro 09, 2015

O "vigésimo" premiado

As ilusões com que se procura "enganar o parceiro", nos dias que correm, são muito mais sofisticadas do que eram no passado. Aos incautos que, da província, vinham a Lisboa, acontecia, por vezes, serem ludibriados por espertalhões que lhes tentavam "vender gato por lebre".

Um dos truques mais conhecidos era o do "vigésimo premiado". Em que consistia? Alguém se aproximava de uma potencial vítima e dizia estar num embaraço: ia partir dentro de minutos num barco para África ou para o Brasil e não tivera tempo de ir trocar uma cautela de lotaria que comprara dias antes e que tinha nesse dia sido premiada. Em apoio do que afirmava, mostrava a lista da Santa Casa (provavelmente relativa a uma outra semana) que "provava" o "valor" desse talão - geralmente o chamado "vigésimo", correspondente a 1/20 de um bilhete completo. O que era então proposto ao incauto? Que ficasse com o "vigésimo", que logo que trocado lhe garantiria uma boa maquia, e que adiantasse ao apressado viajante "apenas" uma compensação financeira razoável - geralmente todo o dinheiro que o inocente trazia consigo. Este, convencido de que fazia um ótimo negócio, era desembolsado e ficava na mão com o "vigésimo", que, afinal, quando chegasse à casa de câmbios, verificaria que nada valia.

O truque do "vigésimo premiado" já tem barbas mas, às vezes, ainda há quem caia nele. Mas também há quem perceba que o "vigésimo" afinal, não vale nada e não o aceite. Cada vez há menos inocentes, embora esses, às vezes, ainda continuem a jogar na lotaria. É que a miragem da "sorte grande" é sempre muito atrativa.

(em tempo: a subtileza é uma arte que eu não domino)

Da cartola


Com a aproximação de um possível novo governo, o trabalho das pitonisas, mais ou menos mediáticas, começa a "apertar". Ontem foi um comentador televisivo, a partir de amanhã serão os jornais. O modelo é simples: juntam-se alguns nomes de quem ciclicamente se fala, somam-se outros da lavra do opinador e, quando interessa, pintalga-se tudo com algum "gossip", às vezes para tentar promover, outras para procurar "queimar". 

À volta de um café, discutia isto hoje com um amigo. E ambos concluímos que, com tantos debates televisivos, tantos colóquios, conferências e ajuntamentos similares, o "baralho" possível de governantes já é, com certeza, do conhecimento de todo o país. Já "toda a gente" foi ao Prós e Contras, já todos debateram com todos as temáticas mais especiosas, desde os animados "programas da manhã" dos canais de sinal aberto até aos mais recônditos frente-a-frente em obscuros canais de cabo. Haverá, nalguma remota universidade, numa PME de sucesso ou num posto elevado da administração pública, alguma "novidade" que ainda seja possível tirar da cartola... tanto mais que os "coelhos" que nos últimos anos dela saíram entrarão, finalmente, num mais do que merecido pousio?

Noutros tempos, as coisas não eram assim. Conta-se que Salazar ouvia alguns escassos conselheiros próximos quando pretendia fazer alguma substituição no governo. Supico Pinto, Soares da Fonseca, Albino dos Reis ou Mário de Figueiredo avançavam sugestões de "jovens" (com aqueles cabelos empastados e puxados para trás, os jovens da ditadura pareciam sempre mais velhos, já repararam?) esperanças políticas. Salazar não os conhecia, interessava-lhe ter deles uma ideia que fosse para além de alguma produção escrita, mas não queria encontrá-los antes de decidir convidá-los. Por isso, diz-se que, num dia já nos anos 60, perante um novo nome que lhe foi sugerido, disse ao seu conselheiro: "faça-mo 'passar' na televisão"...

Agora, todos já passaram.

A morte do poeta

Deito-me quase sempre tarde. Estava a ler. Deviam ser quase duas da manhã, nessa noite de Jerusalém, quando o telefone tocou. Consigo datar facilmente o momento: 26 de junho de 1978. Na véspera, no hall do hotel, tínhamos estado a assistir à final do campeonato do mundo de futebol, entre a Argentina e a Holanda, Quase toda a sala, onde havia muitos americanos que, nos dias seguintes, eu veria trocar "Israel bonds" ao balcão, havia "puxado" pela Holanda, com as raízes judaicas a ajudar.

Uma chamada telefónica, àquela hora?! Tenho sempre maus pressentimentos e detesto surpresas.

Atendi: "Acordei-o?". A voz era do chefe de gabinete do ministro Luis Saias, ministro da Agricultura do governo PS-CDS. Queria que eu me deslocasse ao quarto do ministro, se não me desse muito incómodo. Ainda inquiri se era alguma emergência. Sossegou-me: era uma questão "política", sobre a qual o ministro queria consultar-me, com alguma urgência. Fiquei um pouco inquieto, já perceberão porquê.

Eu era então um jovem diplomata, entrado no MNE há menos de três anos. Tinha a meu cargo o "desk" do Médio Oriente e Magreb, na direção-geral dos Negócios Económicos. Semanas antes, o "chefe da repartição" (equivalente à atual direção de serviços) do setor político do ministério, Queirós de Barros, chamara-me ao seu gabinete: "Você foi indicado pelo seu diretor-geral para integrar uma delegação que vai deslocar-se a Israel na próxima semana. Venha comigo ao ministro." Ir ao ministro? Um jovem terceiro-secretário? Não era comum. Lá fui com Queirós de Barros ao "terceiro andar", para ser recebido por Vitor Sá Machado, então ministro dos Negócios Estrangeiros, um dos três membros do CDS nesse executivo, que um mês depois cessaria funções.

O ministro recebeu-nos com grande afabilidade e explicou: "O primeiro-ministro Mário Soares decidiu enviar uma delegação a Israel, chefiada pelo ministro da Agricultura (sem trair qualquer deslealdade com o chefe do governo, o ministro deixava claro que essa decisão viera "de cima", provavelmente sem o seu parecer. Soares, por esses anos, no quadro da Internacional Socialista, dera vários sinais de aproximação a Israel). Você conhece, com certeza, a delicadeza da posição portuguesa face a Israel (Israel tinha uma representação consular em Lisboa, mas não havia mútua acreditação de embaixadores em Lisboa e Tel-Aviv). Temos excelentes relações com os países árabes, pelo que há que evitar que esta visita tenha impactos negativos no mundo árabe, que possam afetar as nossas crescentes relações económicas com vários desses países (eu sabia: não só tinha esse tema a meu cargo no MNE como, durante os dois anos anteriores, tinha estado envolvido em várias missões de natureza económica a alguns desses Estados). Por isso, esta viagem tem de ser essencialmente técnica e não pode correr mal no plano político! As mensagens que, nesse âmbito, sejam passadas pela nossa parte, não podem fugir "um milímetro" àquilo que tem vindo a ser a posição que Portugal tem assumido publicamente, em especial sobre o estatuto dos territórios ocupados e, em geral, sobre a questão israelo-palestina. Cabe-lhe a si "briefar" o ministro da Agricultura sobre isto. Já agora, quero lembrar-lhe uma coisa, se acaso não sabia: nunca um diplomata português esteve em Israel numa viagem oficial. Você será o primeiro! (Caí das núvens e, por um instante, fiquei "flattered" com o que parecia ser uma distinção). A escolha recaiu em si porque queremos que a nossa representação nesta delegação seja feita ao nível diplomático mais baixo possível (Ora bolas! Lá se foi todo o orgulho...)".

No regresso do breve encontro com o ministro, Queirós de Barros passou-me um "non-paper" (folha branca sem timbre) que sumariava as principais linhas da posição portuguesa no conflito entre Israel e os palestinos. E alertou-me, uma vez mais: "Não deixe que o ministro da Agricultura saia desta linha. Se alguma coisa correr mal, pode ser uma grande chatice!". Regressei ao meu serviço bastante preocupado. Então, dentro do governo, não fora possível dar orientações rigorosas ao ministro e era agora eu, um diplomata "ao nível diplomático mais baixo possível", que ia conseguir controlá-lo?!

Dias depois, na viagem aérea para Israel, via Roma, pedi ao ministro para me ouvir uns minutos. Repeti-lhe o que me havia sido dito para lhe dizer. Foi muito simpático mas, naturalmente, não me pareceu muito aberto a deixar-se "tutorizar" por completo por mim. A minha preocupação havia, aliás, aumentado, ao ter-me dado conta de quem era o contraparte israelita de Luis Saias: nada mais nada menos que Ariel Sharon, que então era ministro da Agricultura! "Apenas" o general mais político do Estado judeu, que viria a ser um polémico primeiro-ministro e cuja biografia me dispenso de relatar aqui.

Os primeiros encontros tidos em Israel, para meu descanso, assentaram em questões técnicas, que o ministro não parecia dominar por completo (não era essa a sua função) mas que o setor especializado do grupo mantinha a seu cargo de forma competente - recordo-me que iam da aquacultura até à extensão rural. Com Sharon tinha havido apenas uma "courtesy call" e estava prevista uma ida à sua quinta no deserto do Neguev. A minha derradeira preocupação era uma conferência de imprensa, no último dia, entre os dois ministros. Taticamente, tinha-me voluntariado para traduzir as palavras do nosso ministro, para tentar "controlar" o exercício.

Mas voltemos àquela noite, dias antes do fim da visita, em que o chefe de gabinete me acordou e me pediu para ir à "suite" de Luis Saias. Que diabo de problema "político" surgira?! Voltava a ficar preocupado. Chegado à "suite", o ministro esclareceu: havia recebido uma mensagem do seu homólogo, Ariel Sharon, informando-o que, no dia seguinte, seria recebido por Menahem Begin.

Fiquei siderado! Um encontro com Begin, uma figura com um passado mais do que controverso na política israelita (só o futuro lhe viria a reservar um outro lugar na História), daria uma maior projeção política a esta deslocação, que era tudo o que não desejávamos. O próprio Luis Saias tinha consciência disso. Assim, e não sendo possível escusar-se ao encontro, fui de opinião que o ministro se limitasse a sublinhar os aspetos técnicos da sua visita, talvez destacando o potencial de cooperação bilateral vislumbrado em vários setores. Se acaso a "política" tivesse de vir à baila, Saias deveria seguir a "cábula" que eu trazia de Lisboa, e que eu próprio já quase sabia de cor. Luis Saias era um político muito sensato e disse-me que já havia decidido isso mesmo.

Falámos uns minutos e, quando me preparava para sair da "suite", não sei se Luis Saias se o seu chefe de gabinete comentaram, uma vez mais, o inesperado deste encontro com "o chefe de Estado". Nessa altura, dei um "salto" interior. "Chefe de Estado"! Begin era "chefe do governo", era o primeiro-ministro!

O chefe de Estado de Israel é uma "rainha de Inglaterra", não tem o menor poder político, é eleito no parlamento e exerce uma função formal, que a constituição anula em termos substantivos. Esclareci os meus interlocutores que o nosso ministro iria ser recebido por Itzhak Navon, um estimável poeta (nunca dele li nada), uma figura mais do que apagada, que seguramente abordaria generalidades e encheria o encontro de platitudes. O que acabou por acontecer.

Porque lembro esta história? Porque li, há minutos, que Itzhak Navon morreu.

domingo, novembro 08, 2015

António Paulouro


Nos anos 60, quando vim estudar para Lisboa, na casa de família onde eu vivia assinava-se o "Jornal do Fundão".

Desde o primeiro momento, fiquei surpreendido com a rara qualidade de um jornal de província que conseguia aliar a atenção às questões da região, pelo que dispunha de forte implantação junto de pessoas oriundas da Cova da Beira, com temáticas nacionais frontais e ousadas, nas quais se destacava uma cobertura muito rica dos temas culturais, que eram objeto de um suplemento regular. Anos mais tarde, eu próprio cheguei a ser assinante do jornal.

A alma do "Jornal do Fundão" era então António Paulouro, que o havia criado em 1946. Geralmente pouco atenta à imprensa de província, tida por submissa e convencional, a ditadura começou a olhar com mais cuidado este jornal irreverente, que acabaria por ser objeto de crescente e regular pressão da censura e chegou a estar suspenso. Inúmeras figuras da intelectualidade portuguesa e brasileira, tais como José Cardoso Pires, João Cabral de Melo Neto, Erico Veríssimo, António José Saraiva, Artur Portela, Eduardo Lourenço, Alexandre Pinheiro Torres, Mário Castrim e tantas outras, colaboraram com o "Jornal do Fundão" e dessa forma ajudaram a sustentar o prestígio grangeado pelo título. 

Tive o gosto de conhecer pessoalmente António Paulouro, no Fundão, num dia de setembro de 1969. Morreu em 2002. Teria completado 100 anos em 2015. Os seus amigos e admiradores juntaram-se ontem naquela cidade para uma bem merecida homenagem àquele que foi, além de uma grande figura do jornalismo e da cultura, um cidadão empenhado civicamente, um democrata a quem a luta contra a ditadura muito deve.

Deixo aqui, nesta breve memória, uma palavra de respeito e admiração extensiva ao seu sobrinho, Fernando Paulouro, que lhe sucedeu na direção do jornal. Mas também estendo um abraço de amizade a Abílio Laceiras, correspondente do "Jornal do Fundão" em Paris, um cidadão que aí cultiva a imagem desse importante órgão, que ganhou já um lugar na história da comunicação social portuguesa.

sábado, novembro 07, 2015

sexta-feira, novembro 06, 2015

Olhe que não?


Foi há 40 anos. .

O país estava dividido ao meio.

          (nessa altura, o risco de guerra civil existia realmente. Nos dias que correm, as trincheiras são de retórica).

O governo também era "provisório".

          (mas era de outro tipo: tinha até comunistas, imaginem!).

Os sindicatos também rodearam o palácio de S. Bento

          (agora, lamentavelmente, também vão rodear, embora, desta vez, pacificamente, valha-nos isso, apenas para poderem dizer, para dentro do parlamento, com voz grossa, "também estamos aqui").

Mário Soares e Álvaro Cunhal enfrentaram-se então, a 6 de novembro desse ano memorável de 1975, num debate televisivo, moderado por José Carlos Megre (que é feito de ti?) e Joaquim Letria que parou o país.

         (hoje, um debate entre António Costa e Jerónimo de Sousa, além de impensável, teria a agressividade de um jogo entre-solteiros-e-casados).

Dessa conversa histórica, ficou o jocoso, "Olhe que não, olhe que não!", com que Cunhal afastava, sorridente, as acusações de deriva ditatorial que Soares lhe fazia. Menos de três semanas depois, parte do país político-militar anularia o aventureirismo da outra parte. E assim se caminharia para a democracia ("burguesa", claro, como Cunhal não gostava mas que, como Churchill disse, é "a pior forma de de governo, com exceção de todas as outras"). A mesma democracia ("burguesa", não é?) que hoje permite que o PCP possa ser chamado a ser parte da solução (I cross my fingers), se bem que, há já muito, tivesse deixado de ser parte do problema.

Será que António Costa já perguntou abertamente a Jerónimo de Sousa se o PCP vai, um destes dias, romper o acordo? E será que este lhe respondeu: "Olhe que não, olhe que não!"?

(Para quem tiver vontade de ver o debate, ele aqui fica. Quem quiser ouvir apenas uma síntese que, quase no final tem a "boutade" histórica de Cunhal, aqui está ela)

Os silêncios de Lisboa



Há momentos, sob este fantástico dia de sol de Outono de Lisboa - conheço algumas cidades com dias assim, nenhuma com a suavidade única desta luz - lembrei-me, de repente, do silêncio que, noutros tempos, se usufruia ao atravessar alguns bairros populares da cidade, vai para meio século.
Era uma Lisboa muito triste, embrulhada numa pobreza de vida - um "mal-de-vivre", em homenagem ao José Fonseca e Costa - que parecia fazer parte do seu inexorável destino: muitas casas como esta, gente mal vestida e sem esperança, serviços públicos degradados, transportes incómodos, o tal "viver habitualmente" com que a ditadura suspendera o tempo dos portugueses, entre os medos (a política, a religião, a guerra, o desemprego/emigração) e a felicidade, então domingueira, do futebol, com as tascas à mistura.
Por esses tempos, se atravessássemos certas zonas da Ajuda ou de Marvila, se nos ocorresse andar pelo interior dos Anjos ou do Bairro Santos, recordo-me bem que se "ouvia" um silêncio único, sem aquele ruído de fundo de automóveis que hoje faz parte do cenário urbano. Quando muito, uma Zundap, uma Famel ou uma Pachancho - as Harley-Davidson do fascismo. 
Nostalgia, isto? Não, apenas a constatação de que a vida era diferente. Ah! E nós também, claro! A única coisa comum é esta maravilhosa e única Lisboa.

quinta-feira, novembro 05, 2015

O sorriso de Marcelo


Há poucas ambições de destino que possam rivalizar com a de Marcelo Rebelo de Sousa. É lendário o seu afirmado objetivo, quase desde a infância, de poder vir a ter um futuro institucional à escala nacional. Já nos tempos em que Marcelo Caetano, na sua “travessia do deserto”, juntava na “Choupana” os fiéis que iriam acompanhá-lo na substituição de Salazar, o irrequieto filho de Baltazar Rebelo de Sousa era admitido nas conversas, imagina-se que com a complacente tolerância dos circunstantes. Esta imersão total na política doméstica, que passou pelo mundo universitário católico e pelos alvores da Sedes, teria a sua glória na aventura irreverente do “Expresso” e na constituição do PPD, acabando numa pouco notável experiência governativa e numa frágil liderança do partido a que a sempre se mostrou ligado, onde o seu carisma afetivo é retribuído com fervor quase clubista.

O país, contudo, fixou bastante mais o “outro” Marcelo: o professor que “dava notas” aos políticos, na rádio e na televisão, figura que foi evoluindo para um bizarro papel de “tudólogo”, alguém que fala e tem opinião sobre tudo, sem deixar, contudo, de sugerir-se em permanência como alternativa para mais altos voos. Um dia, em Paris, ouvi Eduardo Lourenço qualificá-lo de forma magistral: “O Marcelo é como uma pessoa que está numa varanda a ver passar o país, comentando todos e cada um. Às vezes, nesse “voyeurisme”, acontece-lhe fazer apreciações sobre o próprio Marcelo que passa...”

Neste jogo de sombras em que está transformada a corrida presidencial, Marcelo foi tendo a sorte dos teimosos. Guterres, a sua grande sombra geracional, desistiu cedo. Santana deu a si próprio um golpe de Misericórdia. Rui Rio, por uma tempestade perfeita de azares e alguma culpa própria, saiu de cena. Mal-amado por uma direção do PSD que representa um partido diferente daquele que ajudou a criar, com um brilho intelectual que acaba por atenuar o défice de credibilidade que a sobre-exposição e a prolixidade obsessiva lhe colou à pele, Marcelo (o facto de o país o tratar pelo nome próprio reflete a intimidade que criou com os portugueses) tem hoje perante si dois candidatos à esquerda que, podendo acabar por não ser fáceis, não são obstáculos absolutamente intransponíveis às suas ambições.

Mas é face a uma direita em estado político de estupor, conformada com o facto de ver-se obrigada a aceitá-lo como o seu candidato, que Marcelo se dá hoje ao luxo de encetar uma operação tática de distanciação, em especial deixando cair farpas regulares ao seu possível antecessor. Ao mesmo tempo, vai seduzindo o centro e divertindo alguma esquerda, que não consegue deixar de achar graça à sua inexorável heterodoxia. O que Marcelo deve sorrir! Porém, resta saber se será o último a rir.

As chaves do Cairo


Este retalho de memória vem na sequência da nota que aqui ontem publiquei sobre a morte de Itzhak Rabin, passado em novembro de 1995. Para tal, recupero parte de um texto antigo que aqui escrevi há três anos. Num registo menos pesado.

Nas últimas horas, muito se tem falado do deserto do Sinai, cenário triste do atentado ou acidente que vitimou os viajantes do voo que ligava Sharm el-Sheikh a São Petersburgo. (Uma amiga enviou-me ontem um email, informando ter partido do mesmo aeroporto, uma hora antes...). Desde há alguns anos, o Sinai converteu-se numa zona de alto risco. Atravessá-lo passou a ser uma aventura insensata e, ao que a imprensa reporta, já quase impossível para viaturas civis. Mas não era assim nesse tempo.

Como ontem relatei, e após o assassinato de Rabin, a delegação portuguesa, chefiada por Mário Soares e que eu acompanhava em representação do governo, havia interrompido subitamente a visita a Gaza, que se sucedia a uma estada em Israel. Nessa manhã de 5 de novembro de 1995, saíramos da Faixa de Gaza para o Egito, pela "pesada" fronteira de Rafah, onde Israel mantinha então um controlo, politicamente muito sensível para os palestinianos.

Um avião posto à disposição pelo governo egípcio iria buscar-nos à cidade de Al Arish, umas dezenas de quilómetros adiante, onde era suposto almoçarmos, num hotel de praia sobre o Mediterrânico. Mário Soares, insistiu em tomar um banho e alguns o acompanhámos. Ainda hoje guardo umas belas fotos da autoria de Rui Ochoa, com Mário Soares, Alfredo Duarte Costa e eu, vestidos com uns longos calções emprestados.

À época, era nosso embaixador no Cairo, Eduardo Nunes de Carvalho, uma figura muito simpática da nossa "carreira", onde era conhecido pelos amigos pelo "nickname" de "Iá".Era uma pessoa por quem tinha uma grande estima e consideração e que, infelizmente, nos deixou há já algum tempo. Hhomem de sorriso permanente, de uma agudeza fina de espírito, muito culto e educado, foi uma das boas "cabeças" que serviu a nossa diplomacia. Tinha, porém, como todo o ministério sempre soube, uma relação algo desligada com as coisas e, em especial, com o tempo, com distrações e atrasos que se tornaram lendários na tradição oral do MNE.

Nessa manhã, para receber o presidente à chegada ao território egípcio, o "Iá" tinha vindo ter conosco, de carro, do Cairo a Al Arish, depois de uma jornada de várias horas, através do Sinai. E chegou a tempo do almoço, depois do nosso banho. Soares insistiu que ele nos acompanhasse na nossa viagem de avião para a capital egípcia. O seu carro, com o seu motorista, iniciou então o regresso pelo mesmo caminho, atravessando o deserto do Sinai e o canal do Suez, devendo chegar ao Cairo lá pela noite. 

Nós chegámos às primeiras horas da tarde. Mário Soares, a Dra.Maria Barroso e o ajudante de campo foram para uma "guest house", posta à sua disposição pelo presidente egípcio. Percebi que o presidente se separava contrariado da sua delegação, "exilado" num palácio que lhe limitava os movimentos e a companhia. O resto dos portugueses, que incluía deputados, jornalistas e algumas figuras da vida pública portuguesa, foi instalada num hotel. Eu não perdi tempo: com a assessora de imprensa do presidente, Estrela Serrano, aproveitei para ir ver as pirâmides e a esfinge. A memória de p"O mistério da Grande Pirâmide", de Edgar P. Jacobs, perseguia-me. Era a primeira vez que ia ao Cairo e, tendo uma horas livres, decidi aproveitá-las bem.

Regressámos ao hotel ao final da tarde. Notei que o embaixador, um excelente conversador, ainda pairava por lá, no lóbi, a fazer companhia aos membros da delegação. A certa altura, Mário Soares telefonou a perguntar o que íamos fazer, onde íamos jantar. Disse-lhe que não tínhamos planos para sair do hotel e que aí jantaríamos. Soares de imediato se entusiasmou: "vou ter aí convosco!" Pediu-me então para passar o telefone ao embaixador Nunes de Carvalho. A este, Soares fui percebendo que Soares dizia ter tido a ideia de, antes do jantar, o grupo português conhecer a residência oficial do embaixador, situada umas escassas centenas de metros do hotel, também na ilha de Zamalek, o bairro onde estávamos.

Notei que o embaixador começou a titubear na conversa, resistindo à ideia, dizendo que já não havia muito tempo, explicando que tinha a sua mulher fora do Cairo, para além de outros pretextos de ocasião, que me pareceram pouco convincentes. Ora a sua casa era a residência oficial do Estado e nada mais natural seria que acolher, ainda que para uma simples bebida antes do jantar, o chefe do Estado e os seus convidados. A minha estranheza era tanto maior quanto Nunes de Carvalho era um "homem do mundo", que gostava de receber e recebia muito bem, como eu próprio tivera oportunidade de testemunhar noutras embaixadas onde com ele me cruzara.

A conversa entre o embaixador e o presidente, com o último a fazer aquilo que eu presumia ser uma contínua pressão para a aceitação pelo embaixador da ideia que tivera, foi-se prolongando, com Nunes de Carvalho, entre risadas nervosas e frases incompletas, tentando dissuadir Mário Soares. Até que, finalmente, o ouvi retorquir: "Ó senhor presidente! É que eu tenho um problema, que nos impede, em absoluto, de ir lá a casa". Fiquei curioso e apurei o ouvido. Depois de mais uma gargalhada, sempre muito mais de nervos do que de graça, gaguejando um pouco de embaraço, o embaixador esclareceu o presidente: "É que eu - desculpe ter de dizer-lhe! - deixei as chaves de casa no meu carro, que está a atravessar o deserto do Sinai, e que só chega daqui a umas horas. Vou mesmo pernoitar no hotel..."

A verdade é que o embaixador, não sonhando com a hipótese da sua residência ter de ser "mobilizada" na ocasião, e na ausência da sua família, havia dispensado todo o pessoal. Sendo já tarde e, para mais, estando sem motorista, num tempo em que pouca gente tinha telemóvel, seria impossível andar à procura, pelo dédalo do Cairo, das segundas chaves da casa.

E lá jantámos nós, com o nosso embaixador como convidado, no antigo Gezirah Palace, hoje um Marriott, cujo corpo central havia sido construído para a inauguração do canal do Suez, em 1869, um evento que, à época, foi testemunhado localmente por um viajante português que muita graça achava aos episódios da diplomacia que serviu - José Maria Eça de Queiroz. Voltei a ficar nesse hotel por duas vezesm depois dessa visita. E sempre recordo esta história.

quarta-feira, novembro 04, 2015

Itzhak Rabin


Em 4 de novembro de 1995, Itzhak Rabin, primeiro-ministro de Israel, foi assassinado por um extremista judeu, durante um comício eleitoral em Tel-Aviv. Na véspera, eu acompanhara Mário Soares a um almoço informal que Rabin lhe oferecera, na sua residência, em Jerusalem. Soares estava de visita a Israel e a Gaza, naquela que seria a sua última viagem oficial ao estrangeiro como presidente da República. Eu acompanhava-o, em substitução do MNE Jaime Gama, juntamente com a minha chefe de gabinete, Ana Gomes.

O chefe do governo israelita era um amigo antigo de Mário Soares. Como vice-presidente da Internacional Socialista, Soares lutara pela aproximação de vários governos europeus a Israel, um país que acabara de assinar acordos de paz com Yasser Arafat, sob a égide da Noruega e dos Estados Unidos. No tocante às relações bilaterais, havia sido Soares, em 1977, como primeiro-ministro, quem decidiu estabelecer relações diplomáticas a nível de embaixada entre Portugal e Israel, quebrando assim uma distância entre os dois países que vinha dos tempos da ditadura.

Nesse dia 4 de novembro, depois de Soares se ter ido despedido do presidente Weizmann, partimos de Jerusalém em direção a Gaza, em carrinhas blindadas, fortemente guardados por seguranças israelitas, Atravessada a fronteira, Yasser Arafat aguardava Mário Soares. Arafat era outra figura que tinha uma excelente relação pessoal com Soares, forjada quando, anos antes, este correra fortes riscos para o visitar, ao tempo em que estava cercado, numa zona ameaçada de Beirute. Arafat nunca esqueceu isso.

A tarde desse dia, em Gaza, decorreu num ritmo intenso, com vários encontros e visitas. Arafat ofereceu um jantar oficial a Soares, findo o qual conduziu o chefe de Estado português à "guest house" onde este se hospedava. Estávamos os três a conversar numa sala quando, de repente, entrou um militar e disse algo ao ouvido de Arafat. Pela reação de espanto do líder palestino, que se escusou e saiu, percebemos que seria algo importante. Escassos minutos passados, Arafat regressou. Tinha ido atender uma chamada do MNE israelita, Shimon Perez, que lhe havia comunicado que o primeiro-ministro Rabin tinha sido objeto de um atentado e estava ferido. Um par de minutos mais tarde, nova chamada confirmava que Rabin tinha morrido. Muito perturbado, Arafat despediu-se de nós e saiu.

Mário Soares e eu tentámos então avaliar o que devíamos fazer e procurámos contactar em Lisboa o primeiro-ministro António Guterres. Mas os telemóveis não funcionavam e só um tempo mais tarde, através de um telefone-satélite militar, viria a ser possível falar com Guterres. Recordo-me que, quando Soares me ouviu a tentar sossegar o primeiro-ministro, dizendo que estávamos bem e em segurança, retorquiu, do outro lado da sala, entre o irónico e preocupado: "Em segurança?! Este é, neste momento, o lugar mais inseguro da terra!". Naquela altura, não sabíamos quem era o assassino e a probabilidade de ser um expremista árabe era a mais provável. Soares falou finalmente com Guterres e ficou combinado que suspenderíamos a visita oficial, logo no dia seguinte.

Assim aconteceu. Nessa manhã, despedimo-nos de Arafat e atravessámos a fronteira para o Egito. Mubarak mandara uma avião buscar-nos numa cidade próxima e fomos dormir ao Cairo. No dia seguinte, Soares e eu regressámos a Jerusalém, onde representámos Portugal no funeral de Rabin. Sob uma segurança impressionante, a cerimónia iria juntar uma rara multidão de chefes de Estado e de governo de várias partes do mundo.

Um dia, talvez arranje tempo para contar, em pormenor, as histórias e peripécias dessa memorável viagem.

Rabin morreu faz hoje precisamente 20 anos. Lembro-o nesta noite fria, aqui em Varsóvia, uma cidade onde se escreveram muitas páginas trágicas da história do povo judeu.

terça-feira, novembro 03, 2015

Um comentário ainda a tempo

Durante o último ano, ouvimos repetidamente o poder de turno repetir, de forma insistente, que temos (presumo que era um plural majestático) de "agradecer" aos portugueses pelo extraordinário esforço que fizeram ao longo dos últimos anos.

Sempre me irritou esse conceito, que parece reproduzir, mas de uma forma "patronizing", o gesto de reconhecimento que, regularmente, os empresários fazem junto dos seus colaboradores mais aplicados e produtivos. 

Ora os cidadãos não são "empregados" dos governantes. Estes não têm nada que lhes "agradecer"! O que coligação tem de fazer, e ainda não fez, é pedir desculpa aos portugueses pela dose cruel de austeridade que lhes impôs, muito para além daquilo que o "memorandum of understanding" obrigava, apenas para satisfazer a sua agenda ideológica radical. Deviam lamentar que, não obstante os cortes nos salários, nas pensões, o caos e desinvestimento em muitos serviços público, os números record de emigração económica provocada e todo o restante calvário de medidas impostas, a dívida, que devia ter regredido, afinal subiu brutalmente e a destruição de emprego atingiu números impressionantes. Ficar-lhes-ia muito bem fazer um "mea culpa" no momento em que se preparam para deixar o poder. Mas, conhecendo-os, não tenho a menor esperança. Ou, como se dizia antigamente lá por minha casa, "não estamos com gente disso".

Aos bonés?

No intervalo do trabalho num país onde, depois de recentes eleições, não há um único deputado de esquerda no parlamento (imagino que em Portugal alguns desejassem este "dream scenario"), leio na nossa imprensa que o governo está a "ler" o programa do PS, com vista a poder integrar algumas ideias na proposta que vai submeter à Assembleia da República. 

Se a ideia, em si mesma, "nesta fase do campeonato", é um tanto bizarra, mais estranho, em termos de comunicação, foi o propositado "leak" feito pelo pelo governo. 

Será que pensam que isso será "bem visto" por alguém? Virá na linha da tardia operação de sedução (de quem?) que constituiu a criação do Ministério da Cultura & ofícios (não muito) correlativos? 

Sem qualquer ironia, começa a parecer sensato concordar com a Marques Mendes quando afirmou que o partido PSD/CDS anda "aos bonés".

PS

Já disse e redisse o que penso sobre a solução de governo que a liderança do PS decidiu fazer com os setores à sua esquerda. Mas há qualquer coisa de estranho neste afã que leva alguns críticos da solução defendida por António Costa a reunirem-se ainda antes da presumível queda do governo da coligação. Não é crível que dessa reunião possa sair um documento programático que venha a condicionar o teor do acordo tripartido que estará em vias de preparação. E também me parece impensável, conhecendo-o, que a iniciativa de Francisco Assis possa visar a mobilização de votos dentro do grupo parlamentar contra essa proposta, num apelo ao desrespeito pelo compromisso de voto assumido para casos como estes. Não seria mais avisado esperar para ver o teor do possível acordo com o PCP e o Bloco? É que será pela comparação serena entre o programa que o PS levou a votos e esse mesmo acordo que qualquer juízo substantivo de valor pode ser feito. Sendo assim, só posso perguntar, citando um clássico que dirá alguma coisa a muitos dos presentes na reunião: qual é a pressa?

segunda-feira, novembro 02, 2015

Varsóvia


A Polónia é o "gigante" do último alargamento da União Europeia, o maior e mais importante dos países a que a queda do muro, na Berlim do "amigo alemão", deu um novo destino. Um destino para o qual, há que reconhecer, foi ator relevante, de Walesa a Karol Wojtyla. Mas um destino que estará sempre refém de uma geografia muito dura e do peso traumático de uma história.   

A nova democracia polaca é pujante mas tensa, vivendo agora dias complexos. A própria ideia da Europa, que aqui encontrei tão apelativa há 20 anos, surge hoje embrulhada em interrogações, de que fazem parte variados temores. Os meus amigos polacos esforçam-se sempre por explicar-me o que se passa, o que daqui pode resultar e as suas muitas dúvidas.

Hoje, vou ouvi-los. E, desta vez, em matéria de incertezas, também tenho para a troca... 

A manhã


domingo, novembro 01, 2015

José Fonseca e Costa

Morreu hoje José Fonseca e Costa, uma das grandes personalidades da história do cinema português. Ninguém diria que tinha 82 anos!

Era um homem elegante, inteligente, com graça e com mundo, alguém com quem dava gosto conversar. Não voltaremos a tê-lo pelas noites do Procópio e pelos jantares anuais da sua Mesa Dois, aos quais, por diversas vezes, o consegui levar, como ainda aconteceu no ano passado.

Um último abraço, caro amigo.

Os russos e o Sul


Há mais de uma década, quando vivia em Viena, fui convidado a participar numa conferência em Sharm el-Sheikh, no extremo sul da península do Sinai, no Egito. A cidade não tem a menor graça, é um mar de hotéis, uns melhores do que outros, aproveitando todos as águas macias e transparentes do Índico, cheias de corais (e, às vezes, com alguns tubarões). Nós passávamos os dias encafuados em salas fechadas, em graves discussões sobre segurança, com um sol lá fora a apelar ao "baldanço". Mas eu era "keynote speaker" e tinha de levar a sério o convite. Só ao final da tarde é que me aventurava a dar um mergulho.

Passar uma noite no deserto, sob as estrelas e com um ritual de absoluto silêncio, bem como visitar o curioso mosteiro de Santa Catarina, na base do Monte Sinai, eram, no entanto, trajetos turísticos obrigatórios para quem ia a Sharm el-Sheikh, incluídos no nosso programa. Recordo para sempre uma curiosa conversa com um padre espanhol do mosteiro, que me falou longamente da sua experiência egípcia, na solidão daquele deserto. Dizem-me que a segurança impede hoje essas viagens, a exemplo do que também sucede do nordeste do Sinai, onde já se não faz o interessante percurso, atravessando o Suez, entre o Cairo e Al Arish uma magnífica praia, com hotéis um pouco "délabrés", não muito longe da fronteira de Rafah, no acesso à faixa de Gaza.

Numa das noites em Sharm el-Sheikh, deu-me para fazer um longo percurso exploratório pelo extenso hotel onde decorria a conferência e estava hospedado, desenhado em forma de crescente. A certo passo desse passeio, deparei-me com um bar. Dele emanava boa música, gente com um ar de turistas, divertidos e ruidosos, com algumas mulheres muito bonitas. Dirigi-me ao balcão a pedi uma bebida. Notei que alguns dos circunstantes, eles e elas, me olhavam com alguma curiosidade. A barwoman que me serviu, que notei que era tudo menos egípcia, perguntou em inglês a minha nacionalidade. Satisfeita a curiosidade, explicou-me que aquele era "um bar para russos". Ela também o era e, de facto, à volta, tudo estava escrito em cirílico e, quase de certeza, a única pessoa não-russa que por ali parava era eu. Acabei de beber o meu whisky e zarpei para o "meu" lado do hotel. 

Por esses dias, eu havia-me esquecido que Sharm el-Sheikh, desde o fim da União Soviética, era um local muito popular de férias para os russos com algum dinheiro (os que têm mais dinheiro vão para destinos mais glamorosos). Há por ali vários hotéis praticamente "só para russos" e aquele em que eu estava tinha uma das suas alas que lhes era totalmente destinada. Eu é que me perdera por lá, por engano.

Ontem, ao ver a notícia do avião cheio de turistas russos que descolou de Sharm el-Sheikh em direção a S. Petersburgo, e se despenhou pouco depois perto do Monte Sinai, recordei aquele whisky que bebi no bar eslavo do Sul.

Mota

O grupo Mota-Engil comemora este ano os seus 80 anos.  Na sua história de sucesso empresarial, à figura pioneira de Manuel António da Mota v...