sexta-feira, julho 17, 2015

Diplomacia


Quando ocorre uma guerra, costuma dizer-se que a diplomacia falhou. Quando "não ocorre" uma guerra, graças à ação da diplomacia, ninguém põe a crédito desta os mortos, os sofrimentos e os prejuízos que se pouparam. A diplomacia é a arte discreta de tentar fazer pontes, compromissos, de fazer "não acontecerem" as guerras ou outros conflitos de monta. Assim, é difícil ser elogiada pelo que (de mal) não aconteceu...

Porque uma ação diplomática foi titulada a um nível elevado, o caso do entendimento conseguido com o Irão, que envolveu a generalidade da comunidade internacional - mas, essencialmente, os EUA, a França, o Reino Unido, a Alemanha e a UE -, ela acabou por dar um inusitado relevo ao papel da negociação e da diplomacia. E, pelo menos nos tempos mais próximos, terá evitado ações militares que, em certos momentos, pareceram iminentes.

Recordando: o Irão tinha enveredado por um programa de enriquecimento de urânio que foi considerado prelúdio para a construção de uma bomba atómica. Teerão argumentava que o objetivo era civil; o mundo suspeitava que a finalidade era militar. A relutância iraniana em permitir uma fiscalização por parte da Agência Internacional de Energia Atómica adensou as suspeitas e acabou por levar à imposição de duras sanções económicas. O braço-de-ferro prosseguiu por muitos anos e, finalmente, o Irão cedeu e as sanções vão agora ser levantadas, persistindo ainda algumas limitações à importação de armas convencionais pelo país. Esta é uma vitória da persistência, do diálogo, da não-cedência ao tropismo jingoísta de alguns. É uma vitória do bom-senso.

Os Estados Unidos são um poder estranho. Na sua ciclotimia externa, hesitam entre um unilateralismo arrogante, frequentemente agressivo, e a busca de compromissos  abrangentes. Na matriz de todas as suas intervenções está a preeminência absoluta do seu interesse nacional (o que é natural), sempre identificado como sendo o indiscutível interesse da comunidade “do bem” (o que, frequentemente, é bastante duvidoso). Com o seu antigo poder colonial, Washington terá aprendido que “não tem amigos, tem interesses”. Com o tempo, tem vindo a entender que, às vezes, é do seu interesse ter amigos...

Esta operação diplomática de sucesso dos EUA no Médio Oriente não vai nunca redimir o imenso erro do Iraque, que todos estamos ainda hoje a pagar, a começar pelo próprio Iraque. Mas é, com toda a certeza, o produto das “lessons learned” nesse cenário, confirmando a velha máxima de que os Estados Unidos acabam sempre por encontrar a melhor solução, mas só depois de terem experimentado todas as outras...

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

quinta-feira, julho 16, 2015

Em 2015, como será?


Epicur


É um novo tempo de uma revista criada, há já muito anos, por Alfredo Saramago. Foi hoje lançada a nova "Epicur", dirigida por Mário Rui de Castro e Filipa Melo, que passa a sair cada quadrimestre, com uma edição especial no Natal.

O autor deste blogue contribui, em cada edição da nova Epicur, com uma crónica de apreciação de um restaurante. Nesta edição de Verão, o artigo dá conta das impressões de uma visita ao "Casas do Bragal", em Coimbra. Pode ler o texto aqui.

Com o óbvio "disclaimer" de quem faz parte do grupo de colaboradores, devo dizer que considero que a nova revista está excelente, com uma apresentação gráfica de imensa qualidade. E só posso desejar um grande sucesso a esta renovada fase de uma publicação que, de há muito, criou já um lugar de prestígio na imprensa portuguesa.

quarta-feira, julho 15, 2015

... para além da Grécia

Há mais mundo para além da Grécia, felizmente. E há boas notícias no cenário internacional sobre a difícil questão nuclear iraniana. 

Depois de uma longa negociação liderada pelos EUA, com apoio da França, Reino Unido e Alemanha (e a União Europeia), terá sido possível chegar a um acordo com o governo de Teerão, que vai permitir o levantamento das sanções que esmagam, desde há vários anos, a economia do país. Em troca, o Irão aceita uma monotorização muito rigorosa do seu processo de enriquecimento de urânio, mantendo-se ainda alguns condicionamentos importante em matéria do seu equipamento militar.

Quem sabe mesmo se, com este passo, Washington não poderá ter aberto caminho a uma relação de novo tipo com o Irão, em moldes que lhe permitam ter nele um parceiro para a luta contra o Estado Islâmico, que o EUA já devem ter entendido ser hoje a grande ameaça à estabilidade na região (e não só). À coragem e determinação de Obama correspondeu também uma evolução sensível da parte iraniana, que procura convencer o mundo de que os seus propósitos sempre foram e são pacíficos - o que nunca foi a convicção generalizada da comunidade internacional, como é bem sabido sabe. O enriquecimento de urânio para fins não militares é permitido, sob regras conhecidas e internacionalmente aceites.

Quem se opõe a este acordo, que consagra uma forte vitória da diplomacia sobre a linguagem bélica? Naturalmente, a Arábia Saudita, que vê no Irão shiita uma ameaça muito forte ao proselitismo sunita que lidera na região. Depois, com o apoio de setores americanos hostis ao presidente, Israel surge como um dos mais ferozes detratores deste entendimento, porque não acredita que o mecanismo de fiscalização posto no terreno venha a ser suficientemente eficaz para impedir o Irão de ter a arma nuclear. Naturalmente, Israel tem, nesta matéria, particular "autoridade": toda a gente sabe que possui a arma nuclear, não sendo talvez por acaso que se opõe a qualquer operação de fiscalização da Agência Internacional de Energia Atómica no seu território...

A questão nuclear iraniana foi, ao longo da última década, um tema central nas preocupações das instâncias internacionais. Recordo-me que, quando era embaixador em Paris, o tema estava constantemente sobre a mesa das conversas com os meus colegas da UE e do Quai d'Orsay. Nesses tempos, pelo cruzamento das informações recebidas dos diversos serviços de "intelligence", íamos estabelecendo um calendário de aproximação do Irão ao fabrico efetivo da bomba, tentando perceber então se Washington ia ou não dar "luz verde" a Tel-Aviv para um "preemptive strike". Esperemos que esse cenário esteja agora definitivamente afastado, porque, no estado em que está o Médio Oriente, seria álcool sobre o fogo!

Uma última nota sobre as sanções aplicadas ao Irão, com o apoio muito alargado da comunidade internacional - Russia e China incluídas, ou não fossem estes dois países detentores da arma nuclear e, por isso, muito pouco interessados em alargar a "concorrência" na matéria. Para notar que estas sanções funcionaram e foram realmente efetivas.

Há cerca de dois anos, numa deslocação a Istambul, tive uma conversa casual com um médico iraniano que viajava com a família. Fiz-lhe algumas perguntas sobre os equilíbrios internos do regime e, em particular, sobre o efeito das sanções. Recordo a tristeza com que me disse, mais ou menos isto: "No passado, nós vínhamos à Turquia e sentíamos que estávamos a visitar um país bem mais pobre do que o nosso. Desde há alguns anos, as coisas inverteram-se: os turcos vivem muito melhor do que os iranianos e é muito claro que, para além disso ser o resultado de algumas opções internas erradas, as sanções contribuíram muito para o empobrecimento brutal por que o meu país hoje passa. Mas há exceções: a classe política não é excessivamente afetada pelas sanções, continua a ter os seus privilégios e mordomias. Mas o povo, infelizmente, sofre muito com o condicionamento internacional em torno do Irão".

O modo como os iranianos saudaram ontem o acordo obtido em Viena leva-me a crer que o meu interlocutor iraniano deve também estar feliz. Até eu estou, porque não é todos os dias que a diplomacia tem um êxito claro. Além de que é excelente que haja boas notícias na vida internacional.

"Opinion drivers"


Fico sempre muito curioso com a seleção dos entrevistados que os jornalistas portugueses fazem quando se deslocam a certos países estrangeiros. A ninguém passa pela cabeça que, em Paris, Washington ou Londres, um episódico correspondente português pare no meio de uma rua para ouvir um cidadão sobre uma questão de política interna. Porém, em territórios mais "exóticos", como agora é a Grécia, já é vulgar assistir a essa estranha amostragem, através da qual o sentimento do país é medido por dois ou três cidadãos que se disponibilizam para dar a sua opinião. Penso sempre se, como português, me sentiria representado por uns fulanos entrevistados ao acaso no Rossio ou no Cais do Sodré... 

Há, contudo, um "grau zero" na recolha deste tipo de opiniões de "populares": são os taxistas. Quando vejo um jornalista citar a opinião de um taxista, mudo logo de canal ou mudo de página num jornal. Porquê? Porque me lembro logo dos nossos... 

terça-feira, julho 14, 2015

Vive la France!

Depois das bravatas iniciais, para alemão ver, as vozes governamentais portuguesas foram moderarando a sua hostilidade pública contra a Grécia, confiando em que os gregos se encarregariam, eles mesmos, de cavar a sua própria cova. No que quase acertaram... É hoje claro que o Portugal oficial era, de há muito, bastante favorável à saída da Grécia do euro. 

O governo português foi dizendo o contrário, claro, aliás como todos os que, pela Europa, partilhavam a mesma ideia. Até que aconteceu o referendo grego. Aí, com a cambalhota de Tsipras, a quem não se viam artes de fazer o contrário daquilo para que fora votado, alguns Estados acharam ter encontrado o pretexto ideal para pôr a Grécia "com dono". O argumento da "perda de confiança" caiu como sopa no mel no Eurogrupo e, daí, foi transportado politicamente para os "adultos" (como diz Christine Largarde). Parecia descoberto um motivo natural para a "eurolândia" se livrar da Grécia, para "purificar" o euro e regressar à "pax germânica". Berlim aí se encarregaria de proteger os seus "länder" ibéricos, tremidos nas eleições que se avizinham. 

Porém, enganaram-se numa coisa: a Grécia tudo faria para continuar no euro. Mesmo um "hara-kiri". Mesmo que isso implicasse cair no ridículo negocial e ter de aceitar condições muito mais duras do que as que, sob a indignação maioritária do país, tinha acabado de recusar com estrondo. Imagino que, para cabeças nórdicas, nada disso fizesse sentido. Até para nós, confessemos, não fazia muito... 

Mas a Grécia vive noutro mundo! E, para além das suas erráticas táticas, terá tido um sobressalto estratégico e percebeu que (1) uma certa Europa estava, de facto, fortemente predisposta a afastá-la do euro e (2) que isso corresponderia à sua irrecuperável periferização e agravamento de empobrecimento, para além de que (3) era dessa mesma Europa que, a bem ou a mal, poderia surgir o financiamento para a sua sustentação, depois da trágica experiência partilhada com as receitas do FMI. Porém, esta obstinação grega, aliás num registo algo masoquista, não teria servido de muito se não encontrasse eco em quem tem ainda, sabe-se lá por quanto tempo, a possibilidade de levantar a voz à Alemanha.

Assim, seria graças à teimosia da França, aliás por razões que foram muito para além da mera "salvação" da Grécia, que Berlim foi impedida de levar a sua avante e criar condições para uma saída imediata do país da zona euro. Digo "imediata", porque é evidente que nada está ainda "perdido" para quantos acreditam que uma purga do euro é a solução ideal para o futuro. Isso aliás pode observar-se lendo a esperança raivosa que é alimentada por algumas "viúvas do Grexit" na nossa imprensa, no dia de hoje. 

Dia de hoje que é o "14 juillet", a data nacional francesa. Dia em que, também por isto, apetece dizer: "Vive la France!"

Retsina


Ontem, falei aqui de "retsina", um vinho branco grego.

Há quase quatro décadas, fui pela primeira vez a Atenas. Ia de Benghazi, na Líbia, onde tinha estado em trabalho. Recordo-me que era novembro, o tempo não esteve muito pelos ajustes e, no termo da minha breve escapada turística no fim de semana, a capital grega foi atingida por uma forte tempestade, com algumas vítimas na cidade. Mas a primeira noite ainda havia dado para um jantar na "Plaka", o "Bairro Alto" ateniense.

Para acompanhar a refeição, o empregado do restaurante, a quem eu solicitara meia garrafa de vinho branco, perguntou-me se eu queria experimentar "retsina". Quando a garrafa veio, depois de provar, queixei-me que o vinho não estava em condições. Ele levou a garrafa e trouxe outra. Voltei a provar e voltei a queixar-me. Nessa altura, o rapaz inquiriu se eu já antes tinha provado "retsina". Disse que não. Ao que ele me explicou que "aquele" era o sabor de "retsina"... Para quem não conhece, trata-se de um cheiro e paladar intenso, com similitude com resina. Há quem goste, claro!

Voltei à Grécia várias vezes. Cuidei sempre em evitar a "retsina". Numa dessas vezes, numa taberna de Corfu, Georgios Papandreou (um bom amigo e também um dos mais impopulares políticos gregos, nos tempos que hoje correm), a quem confessei a minha fobia, insistiu que eu experimentasse de novo a bebida. Creio que foi a acompanhar uma salada de queijo "feta". E, há que convir, não me soube tão mal como da primeira vez. Mas não o suficiente para tentar uma terceira... Há bons vinhos brancos na Grécia!

segunda-feira, julho 13, 2015

Na História!

Com modéstia, o nosso primeiro-ministro revelou há poucas horas ter sido ele quem gizou a fórmula que permitiu "fechar" o acordo com a Grécia! Há momentos em que um país se arreda da vulgaridade e deixa a sua marca nas tábuas da História universal! São instantes raros, daqueles que apontam caminhos ao mundo, que definem lideranças excecionais. Como disse Herman José no clássico "Bamos lá cambada!", "os portugueses já provaram muitas vezes saberem ser bons fregueses das grandes ocasiões". São instantes de génio, Bojadores, Tordesilhas, Aljubarrotas. Há horas, foi Bruxelas. A Europa estava num impasse, Merkel coçava os punhos do saia-e-casaco, Hollande já só sonhava em ter um capacete para a moto igual ao de Varoufakis, Tsipras fazia as contas a quantas colunas do Partenon teria de passar a patacos. Foi então que deste canto ibérico surgiu, serena, forte, decisiva, a sugestão redentora. Afinal, Portugal, tido por crítico reticente da atitude helénica, dava uma mediterrânica mão a Atenas. E, desta vez, não era Fernando Santos! Terá havido um silêncio respeitoso, contam-nos. Seguido de um aplauso entusiástico! Tusk, por uma vez, nem olhou para Berlim, à espera de instruções, Juncker, rápido, pressentiu o golpe de génio e pediu uma rodada comemorativa. Os copos tilintaram. A glória lusitana, a "trouvaille", o desenrascanço foi brindado. Seria um Porto, um vintage, uma reserva à altura? Quando o líquido chegou à boca sedenta dos líderes houve, contudo, esgares menos agradados. Afinal, era "retsina"!

O preço

Alguns haverá que, mesmo contra toda a evidência, irão nas próximas horas afirmar, com um ar aparentemente convicto, que o primeiro-ministro grego teve em Bruxelas uma "importante vitória". Esses mesmos recusar-se-ão, com toda a certeza, a reconhecer que a Grécia cedeu em toda a linha e acabou por aceitar um cenário de capitulação e verdadeira humilhação. Mas também tenho a certeza de que irão procurar descortinar, em dois ou três pontos deste compromisso, vestígios dessa "vitória" de Tsipras. Quem não quer ver, nunca verá.

Não quero ser sádico, mas acho impossível não lembrar os termos de referência na base dos quais o Syriza ganhou as eleições em janeiro: recusa, em absoluto, de um novo resgate e fim das medidas de austeridade. E quero também recordar, porque isso é importante perante observadores teimosos, que a diplomacia europeia do primeiro-ministro grego teve perante si, à mesa negocial, cenários de compromisso bem melhores, rejeitados com base numa estratégia que se revelou inconsequente e - digamos isto com todas as letras - altamente lesiva dos interesses da Grécia. A simpatia que a tragédia  do governo grego nos possa merecer não deve iludir-nos ao ponto de nos tornar cegos perante a realidade dos factos.

Dito isto, que fique bem claro que acho absolutamente inaceitável, contrária ao espírito europeu, a chantagem a que o governo de Atenas foi submetida, num ultimato que revela deprezo pela dignidade de um povo e pela consideração mínima que um governo eleito deve merecer por parte dos seus "parceiros" - e tenho cada vez mais dúvidas que o conceito de "parceiros" possa continuar a ser usado nas presentes circunstâncias. Uma certa Europa morreu hoje rm Bruxelas e tenho muitas dúvidas que ainda possa vir a ser recuperada.

Três notas finais.

Desde logo, para a Alemanha, que se prestou a um papel que vai marcar muito, e de forma negativa, a sua imagem na Europa. Angela Merkel revelou incapacidade de liderança e um seguidismo pouco prestigiante perante as pulsões anti-gregas da sua própria opinião pública. Por detrás de Berlim, surgiram ainda alguns comparsas em registo semelhante, incapazes de fazer perceber aos seus países que há mais Europa para além deste caso grego.

Depois, a França e François Hollande. Tendo embora um caso nacional próprio a cuidar, o que nunca terá deixado de estar presente na sua atitude, mostraram que sabem ver a política para além da espuma dos cifrões. Um belo momento para o presidente francês e, também, para o seu experiente ministro das Finanças, Michel Sapin.

Finalmente, Passos Coelho. Saudemos, com sinceridade, o seu silêncio e contenção nos últimos dias. Este acabou por ser, "malgré lui", ser o mais glorioso tempo da sua "política europeia", nos últimos quatro anos.

domingo, julho 12, 2015

Raul

Ontem, alguém pediu que eu recordasse esta historieta. Ela aí vai.

Foi há bastante tempo, diria mesmo que há bem mais de duas décadas. Eu estava sentado na "mesa dois" do bar Procópio, creio que numa noite de fim de semana. A certa altura, entrou na porta o Raul Solnado. 

O Raul era um dos "titulares" históricos da vetusta tertúlia da mesa, pelo que tinha sempre nela o seu lugar cativo. A "mesa dois", ou a "Dois", para os iniciados, que tem cinco lugares "regulamentares", chega a conseguir acomodar, por um milagre multiplicador, com a ajuda de uns bancos suplementares, quase uma dúzia de convivas.

Da "Dois", saudei com um gesto o Raul, chamando-o para a mesa. O Raul permanecia ainda junto à porta, retido por alguém. De repente, ouvi-o atravessar a sala com uma pergunta que me era dirigida:

- Ó Francisco, chegou a falar com ela?

Olhei-o nos olhos e percebi onde ele queria chegar. Respondi que sim, mas acrescentei: "Mas ela disse que não dava o material antes de falar consigo. E que você tinha ficado de lhe telefonar!"

O Raul reagiu, indignado: "Eu?! Ela devia era ter falado com o tipo do Porto! Mas, não senhor! Sabe com quem ela falou? Com o homem dos laminados, imagine!"

"O dos laminados?!", reagi eu com surpresa. "O que esteve preso?" O Raul confirmou que era essa mesma pessoa. E acrescentou que a mulher do tipo do Porto - "aquele careca de Custóias, você lembra-se!" - tinha sido vista num hotel da Figueira "imagine lá você com quem!: com o tipo das tintas, o homem de Sintra". "Não me diga!", reagi eu, caído das nuvens com a surpreendente revelação. "Digo! Mas não conte nada a ninguém! Prometa-me!"

Com a história a começar a tomar contornos já um tanto pícaros, o bar tinha silenciado um pouco, embora ninguém estivesse a perceber patavina da conversa, a começar pelos meus colegas de mesa.

Quando finalmente se sentou, já servido pelo Juvenal, o Raul e eu fomos intimados a revelar que história era aquela, quem eram as figuras daquela trama complicada, que só nós os dois conseguíamos seguir. 

Foi então que caímos ambos em fortes gargalhadas. Era tudo inventado! Aquele diálogo de "malucos" fora sendo "enchido" por nós os dois, cada um criando uma nova "deixa" para o outro, a partir da primeira pergunta do Raul. 

Umas semanas depois, tentámos reeditar o episódio, com uma "sequela", mas a graça original já tinha desaparecido.

Prometi ontem, a uma testemunha presencial da cena, reproduzi-la aqui. 

sábado, julho 11, 2015

Tulipas, moinhos & cheques

O primeiro-ministro holandês deu mostras, há dois dias, de grande relutância em aceitar um acordo sobre a questão grega. Os Países Baixos, em matéria de dinheiros, não brincam em serviço e, manifestamente, corre-lhes nas veias um sangue de cifrões. Sei o que é discutir questões financeiras com os colegas holandeses, aliás gente sempre muito bem preparada, altamente qualificada e que sabe como levar a água ao seu moinho - água e moinhos, como é sabido, não faltam na Holanda...

Algures no primeiro semestre de 1996, durante a presidência italiana da União Europeia, os quatro responsáveis governamentais pelos Assuntos Europeus que, simultaneamente, eram os negociadores-chefes dos seus países no trabalho de negociação do Tratado de Amesterdão, foram convidados pelo ministro francês Michel Barnier para um jantar no esplendoroso Palazzo Farnese, onde está instalada a embaixada francesa em Roma. Era na véspera de uma reunião da Conferência intergovernamental para a discussão do novo tratado.

(Uma curiosidade: a França paga à Itália o equivalente a um franco antigo pelo aluguer do palácio romano Farnese e, em compensação, o Estado italiano "despende" o equivalente a uma lira, pela utilização, como embaixada em Paris, do deslumbrante Hôtel de la Rochefoucauld-Doudeauville, com a mais bela escadaria de mármore que alguma vez vi. Já ouvi franceses a dizerem que foi um "mau negócio", porque a lira se desvalorizou muito face ao franco...)

Além do anfitrião, o ministro francês para os Assuntos europeus, estiveram no jantar os secretários de Estado dos Assuntos europeus da Suécia e dos Países Baixos, respetivamente Gunnar Lund e Michiel Patijn, e eu próprio. Todos havíamos estado presentes nas reuniões do "grupo de reflexão" que, durante 1995, fez sugestões para a revisão do Tratado de Maastricht, o que havia criado entre nós uma certa cumplicidade pessoal.

O jantar, além de algum "small talk", era de trabalho, pelo que cada um suscitou as prioridades do seu país para a discussão que então se iniciava. Para o que aqui nos interessa, gostava de dizer que, entre vários outros pontos, insisti bastante na necessidade de uma Carta da Cidadania Europeia, a ser apensa ao tratado, a fim de destacar o valor acrescentado que, para cada cidadão, a pertença à União representava, a somar à sua própria cidadania nacional. O meu colega holandês foi aquele que me pareceu o menos entusiasmado com a ideia.

Acabado o jantar, eu e ele regressámos ao hotel onde, casualmente, ambos nos alojávamos, perto da Piazza Navone - o Raphael, coberto de exótica vegetação. Tomámos uma cerveja e eu, insistente, tentei convencê-lo da bondade da minha ideia sobre a Carta de Cidadania. Michiel Patijn, numa frase curta, sintetizou então as "prioridades" do seu país para o novo tratado: "Francisco, para nós, a Europa significa dinheiro!" Não podia ser mais esclarecedor.

Agora, ao ouvir o chefe do governo holandês, veio-me à memória a frase.

sexta-feira, julho 10, 2015

As questões do Brasil

Para um observador exterior, a crise política profunda que atravessa o Brasil tem alguns aspetos incompreensíveis.

Por muitos meses, vimos o povo na rua clamando por melhores serviços públicos, contra certas mordomias, contra a corrupção e o desvio de verbas de empresas públicas, pelo fim das comissões cobradas em determinados contratos, etc. Essa luta deu passos em frente, com uma atuação firme do poder judiciário, que está a "limpar a casa" e a provocar um terramoto em alguns conluios históricos entre a política e os meios económicos.

Porém, numa análise mais fina, os últimos dias mostram que uma tensão entre a presidente e o congresso de deputados tem agora como origem próxima duas questões essenciais: a não facilitação, por parte de alguns ministérios, em matéria de abertura de cargos para as clientelas partidárias e as dificuldades encontradas por alguns deputados para financiarem as suas "emendas" legislativas, isto é, o seu quinhão de utilização do orçamento para favorecerem as suas clientelas políticas próprias.

Nem por um segundo o sentimento público brasileiro surge a interrogar-se sobre a legitimidade destas duas práticas, as quais, em si, constituem fontes de discricionariedade e arbítrio: no primeiro caso, de escandaloso aparelhamento partidário da máquina pública e, no segundo, de alimentação da rede do verdadeiro "polvo" que é o financiamento do "envelope" de iniciativas dos deputados, para garantirem os seus votos futuros.

Ninguém - mas ninguém! - surge na imprensa brasileira ou no discurso político a denunciar estas duas práticas. Porquê? Porque elas fazem parte da matriz "patrimonialista" do regime, beneficiam o conjunto de partidos da "base governista" (embora com desequilíbrios entre si, que estão na origem dos atuais confrontos políticos interinstitucionais) e são, até ver, um "fact of life".

Quando acordará o Brasil para o absurdo democrático destas práticas? Tenho pena não ter podido estar ontem na conferência que o antigo presidente Fernando Henrique Cardoso proferiu na Gulbenkian. Gostava de ter podido fazer-lhe esta pergunta.

"Tenho de falar à Leah!"


“Tenho de falar à Leah!”. A frase de Maria Barroso ecoou de forma estranha, naquela sala da “guest house” que a Autoridade Palestiniana colocara à disposição do casal presidencial português, na noite de 4 de outubro de 1995. Quer Mário Soares quer eu próprio fomos surpreendidos pelo insólito daquele propósito. A quarta pessoa presente estava, desde há minutos, sem expressão, como que em estado de choque. Era Yasser Arafat.
“Ó Maria de Jesus! Como é quer tu vais ligar agora à Leah?!”. Leah Rabin era a mulher de Yitzhak Rabin. Mais precisamente, a viúva. O primeiro-ministro israelita, em cuja residência, em Jerusalém, não muitas horas antes, tínhamos almoçado, acabara de ser assassinado a tiro num comício em Tel-Aviv.
Mário Soares estava na sua última visita oficial ao estrangeiro, como presidente da República, no termo do seu segundo mandato. Eu era, desde há cerca de uma semana, secretário de Estado do novo governo português e substituía, na viagem, o ministro dos Negócios estrangeiros, Jaime Gama. Depois de três dias em Israel, visitávamos oficialmente Gaza. A amizade antiga de Soares com Rabin e Arafat, que ungia a esperança de um acordo de paz que, à época, pareceu possível, era o cenário de fundo daquela dupla visita, muito prestigiante para um país “honest broker” no processo, como Portugal era então visto.
“O que é que o governo aconselha que se faça? Suspendemos a visita?”. A pergunta de Mário Soares era-me dirigida. Eu era “o governo”! Não havia telemóveis com rede, estávamos desesperadamente a tentar contactar, via satélite, António Guterres, o primeiro-ministro, através de um telefone militar. Gaza não tinha aeroporto. O Falcon oficial ficara em Jerusalém, em Israel, país fechado e em estado de sítio, depois do assassinato do seu primeiro-ministro. Aqui entre nós, eu sabia lá o que se deveria fazer! O bom-senso aconselhava, naturalmente, a que a visita fosse cancelada. Mas era muito difícil sair dali.
“Como é que eu poderei falar com a Leah?”. Era outra vez a voz de Maria Barroso, que, nos últimos dias, tinha reforçado a sua relação pessoal com a mulher do primeiro-ministro israelita, que se fazia ouvir. “Ó Maria de Jesus! Isso vê-se depois!”, respondeu, já sem paciência, Soares.
Maria de Jesus Barroso Soares não conseguiria, nessa noite, o seu propósito de falar com Leah Rabin, como o seu coração recomendava. Fá-lo-ia, num abraço emocionado, dois dias depois, no funeral. Nunca esqueci a sua atitude, em que a sinceridade da emoção se tentou, sem êxito, sobrepor à nossa preocupada razão.

quinta-feira, julho 09, 2015

Jornalismo adversativo

Uma sondagem hoje divulgada, (re)coloca o PS à frente da coligação.

No "meu tempo" as sondagens mediam as distâncias entre os partidos e, confesso, acho que seria útil os portugueses conhecerem a distância atual entre os dois grandes protagonistas partidários - o PS e o PSD. É que ou muito me engano ou estaríamos perante números verdadeiramente históricos. Mas disto parece que ninguém quer saber...

É também muito curioso observar o modo diferente como foram tratadas a sondagem da passada semana e a atual.

No dia de hoje, não há nenhuma notícia - repito, nenhuma! - que não "amorteça" o resultado favorável do PS com uma relativização enfraquecedora - "mas" sem maioria absoluta...

Curiosamente, na passada semana, quando a coligação liderou a sondagem da Católica, ninguém se lembrou do mesmo argumento limitativo. E, neste caso, ele seria ainda mais decisivo. É que não há nenhum cenário político em que a coligação possa governar sem ter maioria absoluta.

(Bom, haver há! Se o PCP e o Bloco lhes derem a mão, como sucedeu em 2011...)

Memorabilia diplomatica (XXXIX) - Asilo político

Nas aulas que dou de "Diplomacia e Negociação internacional", a questão do Asilo Político merece um tratamento especial, destacando o diferenciado tratamento da questão um pouco por tido o mundo. Evoquei então uma pequena história.

Há alguns uns anos, num final de manhã, o ministro-conselheiro entrou no meu gabinete, em Brasília, com um ar esbaforido: "Temos aqui na Embaixada um homem a pedir asilo político!". Era 6ª feira, dia em que a Embaixada fechava um pouco mais cedo. Muitos funcionários já tinham mesmo saído.

Uma asilado político é uma "dor-de-cabeça" tradicional na diplomacia. Cada caso é um caso e a doutrina que se desenvolve sobre o assunto situa-se sempre numa margem de grande ambiguidade.

De que se tratava? Um cidadão brasileiro, oriundo de uma localidade a algumas centenas de quilómetros de Brasília, surgira na secção consular da Embaixada, transportando uma grande mala que alguma incúria deixara entrar sem questionar, e afirmara que estava a ser perseguido politicamente pelas autoridades brasileiras, que estava na iminência de ser detido e que, por essa razão, vinha pedir asilo político. Um problema adicional era a mala: segundo disse, ela tinha uma bomba que faria explodir, no caso da sua reivindicação não ser aceite.

Nestas ocasiões, nunca sabemos, à partida, se estamos perante um simples "bluff" ou uma coisa mais séria, obrigando o sentido de responsabilidade a começarmos por considerar a segunda opção. Pedi a um funcionário experiente para ser o único interlocutor do homem e mandei reduzir ao mínimo o pessoal, mantendo-se um total "black-out" para fora da Embaixada sobre o incidente. O homem, desde o primeiro momento, deu sinais de algum desequilíbrio psicológico - factor com que era importante contar mas que não ajudava a nos sossegar. Ao que disse, embora sempre de forma muito confusa, seria amigo de uma personagem política de segunda linha, envolvida num recente escândalo, sentindo-se perseguido e sob ameaça iminente.

Foi-lhe explicado, com muita calma, que o Brasil era um país livre, uma sólida democracia, onde "quem não deve não teme" e onde cada cidadão tem hoje todos os meios possíveis - da comunicação social à Justiça - para assegurar a preservação e defesa dos seus direitos, em especial políticos. No Brasil, há muito que não há presos políticos, pelo que um ambiente de perseguição sem fundamento não era plausível. E que, por essa e por outras razões ligadas à inexistência de um enquadramento jurídico bilateral na matéria, não era possível conceder-lhe asilo.

O homem manteve-se renitente e obstinado, por algumas horas. A certo ponto das conversas que mantinha com o seu interlocutor, mencionou o nome de um deputado brasileiro local, de quem seria conhecido. Telefonei de imediato ao político que me esclareceu que estávamos perante uma pessoa muito desequilibrada, embora pacífica e totalmente inofensiva, de uma profunda religiosidade. Pedi-lhe para falar com o nosso homem, para o acalmar, o que simpaticamente fez.

Entretanto, a questão da religiosidade do homem fez-nos alguma luz! O interlocutor do putativo "asilado", percebendo já o respectivo cansaço, perguntou-lhe, a certo passo, se, em face da sua fé, não quereria aconselhar-se com um sacerdote. O nosso homem hesitou um pouco, mas, ao fim de algumas persuasivas insistências, acabou por dizer que aceitava essa hipótese.

E é aí que as "artes" diplomáticas vêm ao de cima. Num edifício situado a pouco mais de cem metros da Embaixada fica a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Foi-lhe explicado que, mais do que um simples sacerdote, poderia até falar com um bispo! Este "upgrading" religioso pareceu agradar-lhe. Sugerimos ao homem que fosse até lá, que reflectisse com a ajuda dos "bispos" (não fazíamos a mínima ideia se estava por lá algum bispo...) e que, depois, "voltasse para nos dizer alguma coisa". Surpreendentemente, aceitou. Enviei um carro da Embaixada, com o seu interlocutor a acompanhar, levá-lo à porta da CNBB. Pelo caminho, confessou que a mala não tinha nenhuma bomba, que continha apenas roupa...

Não sei pormenores do que aconteceu na conversa do nosso "refugiado" na CNBB, entidade que avisámos telefonicamente do que ia acontecer e que, pelo sim pelo não, não deveriam deixar entrar a mala que o homem transportava. Vim a saber que acabou por regressar nessa tarde a casa, sem mais problemas.

Foi um susto, embora pequeno, um tipo de incidentes que faz parte da vida diplomática.

(Reedição)

quarta-feira, julho 08, 2015

Prazeres

Há dias, num jantar de amigos, veio à baila a eterna questão: por que diabo o cemitério de Campo de Ourique se chama "dos Prazeres"? Ninguém fazia a mais pequena ideia e, para "desempatar", lembrei-me de ligar a alguém que, no que toca à cidade de Lisboa, sabe sempre tudo: o José Sarmento de Matos. O Zé, num segundo, explicou-nos que o cemitério sobranceiro ao vale de Alcântara tem esse nome porque aí havia uma quinta no meio da qual se erguia uma ermida a Nossa Senhora dos Prazeres. 

O cemitério dos Prazeres está ligado à minha memória de infância. Na minha família lisboeta, após a morte de um primo muito jovem, os pais, que lhe haviam erguido um jazigo nos Prazeres, tinham-se mudado propositadamente para uma casa quase em frente ao cemitério, de onde diariamente - e não estou a exagerar - iam visitar o lugar onde estava o depositado o filho. Estão hoje por lá todos.

Poucos meses depois de ter vindo viver para Lisboa, voltei ao Prazeres. Era uma romagem por ocasião do funeral de António Sérgio. Estavamos no início de 1969, um ano que ia ser muito importante na vida política em Portugal, em que a "abertura" que a chegada ao poder de Marcelo Caetano tinha prenunciado revelaria toda a sua falsidade. 

O funeral de António Sérgio, um intelectual e pedagogo humanista, cuja presença no eixo da oposição não comunista fora marcante por muitas décadas (Sérgio foi ministro na I República e tinha sido uma figura central da "Seara Nova"), redundou num ato público de expressão política democrática. Para mim, seria uma espécie de "batismo de fogo" da agitação política lisboeta. Recordo algumas correrias pela rua Saraiva de Carvalho, com a polícia à perna, e de uma imensa bandeira nacional nas mãos de uma figura esguia de homem, que voltaria a encontrar em outras cerimónias republicanas subsequentes.

Eu não conhecia então a cara de muita gente nas hostes da oposição, figuras a que a imprensa dava escasso destaque, "estimulada" pela censura. Nesse dia 25 de janeiro de 1969, notava-se que no centro da manifestação - que, de momentos de silêncio tenso, passou subitamente a palavras de ordem anti-regime, com o hino nacional à mistura, a anteceder o brutal ataque da polícia - havia um núcleo de pessoas que me parecia dominar a cena. Os amigos que comigo iam ajudaram-me a nele identificar algumas figuras. Creio que foi aí que vi, pela primeira vez, Mário Soares, regressado escassos meses antes da sua deportação em S. Tomé. Ao seu lado, ficou-me a imagem de uma mulher ainda jovem, de cabeça bem erguida, com ar determinado, num corpo pequeno: era Maria Barroso. 

46 anos depois, vamos acompanhar Maria Barroso aos Prazeres. Graças a ela, a Mário Soares e a muitos outros que lutaram pela democracia de que usufruímos, fá-lo-emos hoje em plena liberdade. Já não haverá por lá polícia que nos impeça de saudar a memória dos mortos que queremos honrar. Também por isso, os portugueses não a esquecerão.    

terça-feira, julho 07, 2015

Maria Barroso


Há mais de um ano, escrevi por aqui isto:

"Uma senhora por quem tenho, de há muito, um grande respeito: Maria de Jesus Barroso. É uma das figuras públicas portuguesas que, ao longo de todos estes anos, nunca me desiludiu. Combatente contra a ditadura, mulher coragem em tempos pessoais e políticos muito difíceis, mostrou-se sempre, ao lado de Mário Soares, com uma dignidade de que o país se deve orgulhar, consagrando-se como uma personalidade com uma dimensão cultural e cívica que é muito rara entre nós. Escrevo isto com o à-vontade de quem está longe de ser um seu íntimo ou mesmo próximo. Mas não posso esconder a admiração que sinto pela sua coerência e a sua verticalidade."

A dra. Maria de Jesus Barroso morreu hoje. Não acrescento nada ao que escrevi, para além da expressão do meu profundo pesar a toda a sua família.

Acabou a conversa

Olhando em perspetiva, há que convir que o resultado do referendo grego constitui o mais importante desafio com que a União Europeia se confronta, nas suas décadas de existência. O alargamento a Leste, outro desses grandes desafios, resolveu-se formalmente, não obstante o choque de diversidade que induziu. Este desafio tem, porém, uma natureza muito diferente.
 
Foi importante que a votação grega fosse inequívoca. Um resultado equilibrado daria a sensação de que a vontade nacional estava dividida. As coisas ficaram muito claras: a Grécia recusa receitas de austeridade e quer soluções que rompam com os modelos tradicionais. À mesa de Bruxelas estará um parceiro que, mais do que no passado, irá dizer, alto-e-bom-som, que não aceita, não apenas aquilo que pelos outros lhe é proposto que faça, se quiser continuar a ser financiado, mas, essencialmente, que não se revê na filosofia subjacente ao funcionamento do “eurogrupo”. E, legitimada agora por um expressivo voto popular, a Grécia quer mudar as regras do jogo, propondo abrir outros tabuleiros paralelos, como o da reestruturação da dívida.
 
A Grécia tem um novo problema. Como ontem aqui escrevi, o governo grego tem o dever de defender, sem desiludir quem agora o reforçou, um novo e mais imperativo mandato de recusa da austeridade. Nos últimos cinco meses, andou num vai-e-vem de propostas. O referendo deu-lhe agora a possibilidade de transferir para os parceiros europeus o ónus da resolução do problema. Como? Aceitando estes as soluções que a Grécia apresenta, as quais, tendo até uma relativa sensatez, se confrontam com a dificuldade de fugirem por completo à lógica dos restantes parceiros. Podem dizer que estou a simplificar o problema. Não estou, é só isto.
Mas os parceiros europeus da Grécia também têm um novo problema. No passado, tiveram consigo o fator tempo: embora crescentemente irritados, foram deixando prolongar a tramitação negocial, na errónea esperança de que a chegada das “deadlines” temporais para a liquidação dos empréstimos pudesse vergar a vontade grega. Enganaram-se.
Ao impor a votação de domingo, o governo da Grécia conseguiu a dramatização que pretendia. Se as torneiras do financiamento se fecharem, se a miséria se tornar evidente no dia-a-dia, Atenas dirá, agora mais do que nunca, que tal se deve à obstinada intransigência dos credores. E isso não demorará semanas a acontecer, será dentro de dias.
Vamos agora ser testemunhas de um inédito braço-de-ferro, num cenário mais emocional do que nunca. Se, com esta sua atitude, por um golpe de mágica, a Grécia conseguir vir a alterar as políticas financeiras da Europa, “chapeau”! E todos ganharemos, claro, desde logo, Portugal. Se assim não acontecer, se um compromisso de qualquer natureza não vier a estabelecer-se, se a catástrofe financeira for o destino trágico desta aventura, poderemos estar a assistir ao princípio do fim do projeto europeu.
(Artigo que hoje publico no "Diário Económico") 

segunda-feira, julho 06, 2015

A propósito da Grécia

A única guerra justa é a guerra à intolerância. Temos o direito e o dever de lutar, em todos os momentos, contra a intolerância. Mesmo a dos nossos amigos.

Pobre Europa!

Pirro, um general grego, disse a frase célebre: “mais uma vitória como esta e estou perdido”. Tsipras, o vencedor da noite de ontem, ficará na história grega como o homem que recuperou a dignidade da Grécia e vergou os parceiros ou como o condutor do país contra um muro que, nem por ser eventualmente imoral e cínico, deixará de ser destruidor. Logo veremos.

O governo grego decidiu este referendo pela manifesta impossibilidade de fazer aceitar internamente um novo pacote de ajustamento estrutural, num país em que nem um cego deixou de ver que a anterior receita similar falhou rotundamente. É de uma hipocrisia de contabilistas de segunda ordem mostrar o superávite pontual das contas gregas, no trimestre anterior, como um “feito” tributário da bondade da terapia liberal que parece ser hoje o DNA indiscutido no eurogrupo. Com a brutal quebra do produto e a tragédia social que se vive na Grécia, torna-se quase insultuoso ouvir esse argumentário por alguns economistas de trazer por casa (e pelas nossas televisões). 

Com este resultado, Tsipras legitimou amplamente a intransigência que teve nos últimos meses. Porém, por muito que isso desagrade a alguns, o primeiro-ministro grego perdeu ontem qualquer margem de manobra, atou as mãos a si próprio, tornou muito mais imperativo o mandato com que irá agora deslocar-se a Bruxelas. Pressente-se bem a sua linha: mostrar aos parceiros que, pelo teste democrático, aquela era e é a verdadeira vontade da Grécia. E que não haverá outra.

Veremos agora como esses parceiros e as instituições que os representam, quiçá a digerirem ainda a ineficácia da inaceitável chantagem que procuraram fazer sobre o eleitorado grego, se irão comportar. Como acolherão o sorriso vingado de Varoufakis? Estarão dispostos a abrir a caixa de Pandora da reestruturação da dívida? Pandora era grega, mas a história só existiu na mitologia.

Pobre Europa!

(Artigo que hoje publico no "Diário Económico")

Justiças

O juíz que vai presidir ao coletivo que julga José Sócrates não tem, neste momento, sequer quatro anos como magistrado. Comparem com o grau ...